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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

18
Ago19

Vender qualidade, comprar banalidade


Pedro Azevedo

1) Mínimo de 35 milhões de euros investidos em 11 jogadores, desde Janeiro de 2019, dos quais só um é titular.

 

2)  Alguém explique por que é que, estando a cotação Transfermarket do Vietto em 6 milhões de euros aquando da sua transferência, comprámos metade do seu passe por 7,5 milhões de euros. Igualmente, qual a razão pela qual, estando a cotação de Dost nos 17 milhões de euros (Transfermarket), este foi vendido por 8/9 milhões de euros (as fontes variam). É que a ideia que fica é que compramos acima do valor de mercado e vendemos abaixo do mesmo valor (e por uma diferença percentual muito significativa). É isto um atestado de competência negocial? 

 

3) Adoptando a ‘contabilidade criativa’ que passámos a considerar para as transferências, gostaria de perguntar, entre preço de compra e salários até ao final do contrato, qual o custo efectivo de Vietto. Assim, se o vendermos no entretanto, já ficarei a saber quanto "rendeu"...

 

4) Tal como uma acção ou uma obrigação, o activo-jogador (direito economico) tem um rendimento durante o período em que está na nossa posse. Só que não é um dividendo (caso das acções), ou um cupão (obrigações), mas sim o seu desempenho desportivo. Isto não deve ser ignorado, mas sim ponderado face ao custo de mantê-lo ou ao custo de oportunidade (contratação de outro jogador).

 

5) O Eintracht vendeu Loca Jovic (Real Madrid) por 60 milhões de euros e Sébastien Haller (West Ham) por 40 milhões de euros. Compra agora Bas Dost, segundo melhor marcador europeu (Bota de Prata, só atrás de Messi) em 16/17, por um valor alegadamente inferior a 10 milhões de euros. 

17
Ago19

Na na na na na não!?


Pedro Azevedo

"When the music`s over"...

 

Já vinha pré-anunciado no meu Post anterior e é agora uma realidade: Bas Dost vai sair do Sporting. Inclusivé, no meu esboço de plantel para esta época havia admitido vendê-lo desde que por um valor superior a €20 milhões. 

 

Não é que não goste de um jogador que connosco marcou 93 golos em 127 partidas, olho é para as contas da SAD, para a redundância de contratações sem qualquer sentido e percebo que não há milagres. Com um défice estrutural anual de cerca de 60 milhões de euros, ir ao mercado comprar 11 jogadores desde Janeiro - já nem falo do Lico, Ronaldo e Wang, ou Tang, ou lá o que é... - só pode ser uma brincadeira, na medida em que não só nos constringe ainda mais a tesouraria como aumenta o peso das amortizações nos Resultados, valor que se encontrava nos €8 milhões em Junho de 2014 e que agora, 5 anos depois, deverá andar já acima dos €30 milhões (28 milhões de euros em 30 de Junho de 2018). Tenho vindo a tentar alertar os Sportinguistas sobre as consequências desta política desportiva que se assemelha (em compras em quantidade) à praticada na temporada de 2016/17, mas talvez agora este acontecimento-choque alerte para o real estado das nossas contas e para a necessidade emperiosa de se apostar na Formação, sob pena de, não o fazendo, termos de vender a SAD para não fechar as portas. O mais curioso é que, apostando na Formação, poderíamos ter os tais jogadores que fazem a diferença. A continuar neste caminho, teremos uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma.

 

Está em marcha aquilo que eu previa: gradualmente vamos assistir à venda dos nossos melhores jogadores a fim de tapar o buraco financeiro agravado pelas compras. Aqueles serão substituídos por jogadores de classe média/baixa com os quais o nosso desempenho desportivo se irá sucessivamente deteriorar. É evidente que tudo teria sido diferente se tivessemos apostado na Formação - melhor ou pior, não me parece inferior aos que chegaram desde Janeiro - e procurado no mercado 1 ou 2 jogadores que pudessem fazer a diferença, conseguindo-se assim compatibilizar na folha de pagamentos os jogadores mais caros do plantel, nomeadamente Dost que tinha um vencimento muito elevado (ainda assim de cerca de 1/7 do valor gasto em transferências este ano). Não foi o caso e agora, depois dos 35 milhões de euros investidos (fora as comissões ainda não reveladas do Mercado de Verão) em 11 jogadores, dos quais apenas 1 é titular (Doumbia), corremos o risco de ainda ter de vender mais alguém, com um dos 3 melhores jogadores da equipa (Acuña) à cabeça. E isto se Bruno não vier ainda a sair. 

 

Não sei qual o valor de venda de Dost e repugnam-me estas "coincidências" de nas vésperas destes acontecimentos serem postas a circular notícias sobre custos adicionais com empresários, etc. Gostaria, sim, que quem estivesse à frente do meu clube o pusesse sempre em primeiro lugar. Em termos genéricos, penso que não precisamos da Comunicação para defender pessoas, mas sim o clube. Só espero que essas notícias não sirvam para nos fazer compreender que Dost tinha de ser dado, para que assim se pudessem pagar salários... 

 

Quero confiar, pelo menos, que a venda do holandês permita que se compre o avançado móvel e letal na área de que necessitamos. Estranho é não ver Gelson Dala na convocatória (cheia de defesas e médios) para o Braga, ele que tem essas características e só precisa de um treinador que lhe dê confiança. Afinal, porque razão se travou o empréstimo do angolano ao Antuérpia de Boloni? Para não o ter num jogo importante para nós, quando só Luíz Phellype está disponível? E Pedro Mendes, para que serve? Enfim, a celebérrima aposta na Formação que está a caminho. Por um caminho de cabras, é certo.

 

Termino, desejando a Bas Dost as maiores felicidades. Gostaria de lhe deixar um singelo tributo, pois sempre me emocionou a sua alegria no campo, o seu companheirismo (procurando logo os colegas após os golos) e o seu profissionalismo. Ele parecia genuinamente feliz de estar connosco! Bas Dost sempre foi um senhor, assim continuando mesmo após o drama de Alcochete, em que ele foi o nosso atleta mais violentado. Regressou cheio de ganas, mas após a lesão não voltou ao mesmo nível. Mais do que vítima de um sistema que não o favorecia - marcou muitos golos nos primeiros tempos de Keizer - , nos últimos tempos parecia não tão transbordante de alegria. Talvez já estivesse a sentir os empurrões. E não me refiro àqueles que ocorrem na grande área... 

 

Obrigado Bas Dost! (E que continues a "dostar" por aí.)

 

P.S. Seria interessante alguém analisar o rácio de golos por remate de Bas Dost e compará-lo com o de outros "artistas do golo". Dost nunca teve muita bola na área, mas quando a bola lhe chegava era quase sempre letal.

bas dost 1.jpg

17
Ago19

A razão do Sporting


Pedro Azevedo

Cada Sportinguista deve começar a pensar que mais importante do que ter razão é a razão assistir ao clube. Vou dar um exemplo: uma política de aposta na Formação é a única capaz de garantir a sustentabilidade do clube, isso deve ser entendido como um axioma. Como tal, e de uma vez por todas, é preciso dizer que quem estiver contra isto, está contra o Sporting e o seu futuro. Não basta dizer que a Formação não tem qualidade, há que perceber se quem chega tem mais qualidade do que os jogadores da nossa Formação. Auguste Comte, pai da corrente do Humanismo, dizia que tudo na vida é relativo, sendo esse o único valor absoluto das coisas. Ora, não podemos, ano após ano, desbaratar recursos que andámos a desenvolver para depois se contratar igual ou pior. Porque é que somos tão taxativos na qualificação negativa da nossa Formação e tão evasivos na avaliação de quem vem de fora? É essencialmente devido a isso que chegámos a este ponto de sufoco financeiro e de míngua de títulos. O que deveremos fazer, isso sim, é ir ao mercado apenas para buscar aquela qualidade-extra que nos faltar. E isso tem de ser feito de uma forma absolutamente criteriosa e em pequena escala e não nos actuais termos, em que vamos comprando mais de uma dezena de jogadores por época. O Ajax não deixa de promover miúdos aos séniores e hoje em dia não tem Cruijff, Van Basten ou Bergkamp. (Aliás, apesar de terem tido grandes gerações, os holandeses nunca foram campeões europeus de juniores e a última vez que foram finalistas foi em 1970, sinal de que os seus jogadores vão amadurecendo com o tempo e as oportunidades dadas nas equipas principais dos clubes.) Por isso lançou De Ligt, o qual curiosamente hoje em dia é colega no centro da defesa de Demiral, um jovem turco (literalmente) que em Alvalade nunca encontrou ninguém que apostasse nele. No entanto, a Juventus não hesitou em adquiri-lo, um ano apenas após ter abandonado o Sporting. Outros há que andaram a perder tempo connosco, chamados de volta muitas vezes para encobrir o fracasso da política de contratações. Aliás, foi por essa razão que Palhinha, Podence e Geraldes (os dois últimos acabados de ganhar a Taça da Liga pelo Moreirense) foram chamados a Alvalade no decorrer da temporada de 16/17. Geraldes que ainda voltou em Janeiro de 2019 para novamente não ter uma oportunidade, mesmo que Keizer fosse dizendo que trabalhava bem e que apenas não jogava porque o lugar era de Bruno Fernandes. Curiosamente, pouco depois, havendo indefinição à volta da permanência de Bruno, já não houve hesitações em colocar Geraldes no AEK da Grécia, certamente porque Diaby (Keizer em entrevista admitiu poder jogar a "10") e Vietto davam mais garantias. A continuarmos assim, acabaremos por ter de vender apressadamente a qualidade (os Acuña, Coates, Dost, mesmo o Mathieu para pagar salários) que conseguimos adquirir ao mercado (admitindo que Bruno não sai), ficando com uma equipa enfraquecida e cheia de jogadores de classe média-baixa que as nossas saudades dos "descobrimentos" nos trouxeram. 

Também não basta bater no peito e dizermo-nos Sportinguistas e depois andarmos a brincar aos "sportingados", "brunistas", "letais", "leais", "croquetes", etc. Onde está a razão do Sporting nisso tudo? Essa multiplicidade de conceitos gera dispersão e é na verdade um atentado à Cultura do clube e à sua identidade, criando confusão nas mentes das pessoas e não apelando à união. Para além de que é puramente ruído. Tudo isto parte de um princípio totalmente errado: não são os homens que têm de ser combatidos, mas sim os seus actos ou as suas ideias (se for caso disso). A discussão e crítica "ad-hominem" é pobre e completamente descentrada do essencial que é o clube. Disse-o na passado quando as críticas a Bruno Carvalho ultrapassaram a linha da sua gestão e digo-o agora em relação a Frederico Varandas. No dia em que permitirmos, porque conjunturalmente nos possa agradar, que a discussão à volta do clube seja tomada por radicais, então estaremos mais perto do fim. E creio, infelizmente, que esse fim estará mais próximo. Com muita dor e pesar o digo. E não me venham falar em "too big to fail" e em preconceitos desse género, que disso eu e os portugueses (e não só) já temos a nossa dose.

 

Não se pode alterar o passado, mas pode-se agir no sentido de haver um futuro. Nos dois casos enunciados, a sobreposição das razões individuais de cada um às do clube só tem contribuído para a alienação da nossa sustentabilidade e Cultura corporativa. É por demais evidente que se isto continuar o clube irá definhar até à morte. Morte, sim, pelo menos do clube como sempre o conhecemos, pois poderá sempre advir a possibilidade de um investidor comprar a SAD, naquilo que, a acontecer, terá de ser visto como o maior atestado de incompetência a todos nós, sócios do Sporting Clube de Portugal.  

15
Ago19

O caminho


Pedro Azevedo

Tenho 3 filhos: um rapaz e duas meninas, mais concretamente. Uma das meninas é demasiado pequenina para ter visto o Sporting vencer. Os dois mais velhos eram também demasiado pequeninos na época para hoje terem qualquer recordação de um Sporting campeão. Quero, por isso, fazer a festa do título com eles. E depois repeti-la, uma e outra vez. Em casa, no Marquês, no estádio, em qualquer lado onde houver Sportinguistas à nossa volta que possamos abraçar. Mas, se não ganharmos durante mais uns anos, pelo menos que estejamos seguros da perenidade do clube e que continuemos a confiar no caminho seguido.

 

Se um presidente existe, chame-se ele João Rocha, Amado de Freitas, Jorge Gonçalves, Sousa Cintra, Santana Lopes, José Roquette, Dias da Cunha, Soares Franco, José Bettencourt, Godinho Lopes, Bruno Carvalho ou Frederico Varandas, é para fazer os sócios felizes. Não vejo o exercício do mandato presidencial de uma outra forma. Houve um tempo na minha vida em que me bastava ser do Sporting para ser feliz, sem precisar propriamente de qualquer outro motivo, algo que o poeta Carlos Drummond de Andrade dizia ser a mais autêntica forma de felicidade. Acontece que a minha ideia de Sporting é um todo. Por isso, se tenho um clube partido e não se faz o suficiente para o consertar, esse todo é menor. E isso não me pode deixar feliz. Ainda mais do que consertar, há que concertar uma estratégia que a todos envolva e galvanize. O clube deve viver para os Sportinguistas, não é concebível que sobreviva apesar dos Sportinguistas. Nessa situação, embora a base continue a ser de Sportinguistas, o expoente será menor, pelo que o Sporting enquanto potência valerá menos. Ora, eu serei sempre menos feliz como parte de um grupinho do que enquanto integrante de um Sporting uno e indivisível. Quer isso dizer que desejo um clube acrítico? Obviamente que não. Tenho bem resolvido na minha cabeça que não é a critica que divide, mas sim a incerteza quanto à resolução dos problemas. Na realidade, o ser humano sabe conviver com o bom e com o mau. Em ambas as circunstâncias, adapta-se. O que o ser humano não sabe é viver com a incerteza. Tal gera ansiedade, angústia, depressão. E cria ruído. Nesse sentido, o maior problema do Sporting actual não é a maior ou menor confiança no caminho seguido, é a falta de percepção de que caminho é esse, tão diferente parece ele ser na prática daquilo que foi previamente anunciado. 

14
Ago19

Dr House (with a porch) e o Ajax Limpa Tudo


Pedro Azevedo

Um elabora o diagnóstico, o outro executa. Exterminadores implacáveis da Formação, especialmente da que já não é teenager, não há germes, perdão genes (com ADN desenvolvido em Alcochete), que não sejam neutralizados no acesso à equipa principal. Espera-se que tudo não termine numa espécie de anatomia da grei leonina.  

14
Ago19

O amor é... por José Duarte(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José Duarte, a.k.a. "Leão de Alvalade". Novo nestas lides, ia lendo esporadicamente o "A Norte de Alvalade", o blogue do qual o José Duarte é autor, quando um dia me deparei com um texto genial, de um humor temperado das proporções certas de inteligência, fina ironia e prazeiroso sarcasmo, que aqui recordo, recomendando-o vivamente a quem não teve oportunidade de lêr. Como quem me acompanha se vai apercebendo, a ironia é uma ferramenta essencial ao meu bem-estar: na sua companhia poupei-me a levar demasiadamente a sério a minha existência, evitando aquele deslumbramento tão enganador que nos faz descolar da nossa humanidade e perder as referências; com ela, em tempos de cólera no meu clube, não deixando de criticar aquilo que não me parece bem, tenho feito o que me é possível para passar uma mensagem que não aumente a temperatura e adicione ruído numa era em que os sócios do Sporting se veem permanentemente obrigados a viver encostados a uma coluna a bombar de uma discoteca. Ora, este supracitado texto do José foi para mim um sortilégio, ou seja, um bocadinho de magia, como um dia ouvi definir num pequeno café na Boulevard St Michel, ali no Quartier Latin. A partir daí tornei-me leitor assíduo do blogue, pese embora nem sempre o José siga a sua orientação editorial nesse sentido que tanto me agrada. A inteligência numa pessoa foi sempre algo que me fascinou, a humildade também. Neste breve contacto que mantivémos a propósito do meu pedido para colaborar nesta série, o José mostrou-me uma faceta humilde que só se encontra nos verdadeiramente grandes. É por isso com redobrado prazer que sem mais demora aqui vos deixo o texto que o José Duarte, "um leão a Norte, onde se é leão por convicção", escreveu por amor ao Sporting:

 

"Ser especial é ser de um clube especial.

 

Sou daquelas pessoas que tanto confia quase cegamente como se transforma num ensimesmado patológico, quando alguma coisa parece não bater certo. Foi o caso deste convite do Pedro Azevedo em escrever um artigo para o seu blogue. Comecei por me perguntar "porque raio alguém que escreve tão bem sobre o Sporting" quer umas linhas minhas, eu que escrevo cada vez mais esparsamente, cada vez mais de forma superficial e de escrita cheia de lugares comuns? 

A dúvida foi crescendo ao ler o texto do Rui Monteiro, cuja escrita deliciosamente mordaz admiro. Ao dar de caras, quase de seguida com o do Pedro Correia, a quem fiquei a dever um artigo que não fui capaz de concluir, ainda mais hesitante fiquei. Mas a vaidade, que a tantos perde, preparou-se para fazer mais uma vítima e aqui estou eu.

A verdade é que eu nem sequer sou um bom exemplo de Sportinguista. Não o sou de berço nem de tenra idade, porque o futebol ou o desporto em geral não eram tema de conversa em casa, apesar do meu pai ser sportinguista. Se tivesse que ser de algum clube por influência familiar certamente que seria benfiquista, uma alegria que não consegui dar à minha querida Tia Ly. Fervorosa adepta do nosso rival, ouvia os relatos religiosamente e até cuidou de me oferecer um equipamento completo, que ainda assim não foi suficiente para me evangelizar para a sua causa.

Não sei precisar quando despertou em mim o interesse pelo Sporting. Mas sei exactamente o momento em que percebi que era uma paixão que iria ficar para toda a vida. Falo mais precisamente do dia 22 de Agosto de de 1981 quando, de férias em Lisboa, e valendo-me da desculpa de um passeio, entro sozinho na superior sul do velhinho Alvalade e assisto à inauguração do campeonato nacional 1981/82. 

Aqueles nomes que eu só conhecia de ouvir falar, de ver fotografias nos jornais ou de aparecer na televisão estavam ali à minha frente em carne e osso. O bigode do Meszaros, a elegância que fazia do difícil fácil do Eurico, os bailados felinos do Jordão (marcou 2 golos, selando assim para sempre a condição de ídolo intemporal) ou a geometria aplicada de Oliveira, tudo parecia ali ao alcance. O Sporting tinha um treinador novo, cuja memória fez questão de arquivar de camisa branca e charuto, e que se fazia acompanhar de um preparador físico "diferente" de nome Roger Spry. Factos que tomara conhecimento previamente no jornal "A Bola" cujos fascículos desse verão versando a contratação do mago Oliveira me tinham arruinado e eu havia devorado com avidez.

Ainda hoje não consigo explicar a razão da empatia imediata que então me envolveu na grandiosidade daquele cenário vibrante. Era como se eu sempre tivesse estado ali e era seguramente ali que eu ia pertencer para o que restasse dos meus dias. Havia como que uma magia no ar, tudo me parecia grandioso, belo, magnífico. Quando no final do dia tentei adormecer as emoções, já depois de tranquilizar os meus tios assustados pela surpresa pouco habitual da ausência prolongada, tive uma tarefa morosa. 

Nem o facto de o resultado ter sido tão decepcionante  como a frouxidão da exibição diminuiu o efeito do encantamento. Sofremos para alcançar o empate, o Belenenses fez-nos a vida negra mesmo terminando com um guarda-redes improvisado na baliza. Não o sabia então que na minha estreia em Alvalade seria imediatamente vacinado contra todo o qualquer desgosto ou infortúnio. A glória do nosso lema haveria de se cumprir no final de época, engalanada numa apetitosa dobradinha.

Como todos os amores esta relação teve altos e baixos. Os embaraços e tristezas, porém, têm uma dimensão microscópica quando ombreiam com o orgulho que sinto em ser e dizer que sou Sportinguista. O encantamento do primeiro encontro em Alvalade era apenas a semente do que se haveria de transformar numa paixão perene alimentada pelo sentimento de pertença a uma instituição especial. Mais do que diferente, como muitas vezes é designado, é especial.

Fundado por aristocratas ainda no regime monárquico, tornou-se num clube de dimensão nacional e popular de forma transversal a toda a sociedade portuguesa, quando o mais natural é que se tivesse ficado na exclusividade de um grupo restrito. Percursor, pioneiro e ecléctico, colecionador de medalhas e recordes olímpicos e mundiais, formador de melhores do mundo e campeões europeus, cumpriu o sonho de ser tão grande como os maiores da Europa.

Um desígnio que sempre que é cumprido tem de ser outras tantas vezes recomeçado. Esse permanentemente sobressalto é a armadilha perfeita para o coração cujo sentimento de pertença ao clube dos  Stromp, de Jorge Vieira, Azevedo, do Zé da Europa, Peyroteo, dos 5 Violinos, do Damas, do Agostinho, do Livramento, Moniz Pereira, Carlos Lopes tantos outros me faz sentir especial. Ser do Sporting foi uma escolha especial."

 

(*) José Duarte, autor de "A Norte de Alvalade"

 

P.S. Mais autores da blogosfera passarão por aqui, mas no entretanto abro este espaço aos leitores que se queiram candidatar a escrever sobre o seu amor ao Sporting. Bastará para tal enviarem um texto com o título "O amor é..." para a caixa de comentários de um qualquer dos meus Posts. 

13
Ago19

A teoria do todo


Pedro Azevedo

Já é habitual, quando as coisas não correm bem numa equipa de futebol, o treinador ser logo posto em causa. A meu ver, na conjuntura actual do Sporting, o técnico, apesar de muito longe de estar isento de erros ou limitações próprias, não é o problema principal, pelo que a sua imediata substituição não me parece que resolva de forma definitiva os problemas existentes. Também não vou enumerar exaustivamente neste Post os erros evidentes de gestão desportiva por parte da Direcção do clube (escolha de um treinador alegadamente da escola Ajax, mas que não partilha de muitos princípios da referida escola), algo aliás comum a outras direcções no passado. O que motiva este Post é uma reflexão não conjuntural, mas sim estrutural, sobre as causas do nosso permanente insucesso, recorrendo para tal a uma análise de cima a baixo sobre a organização do futebol do Sporting.

 

Quando olho para o tipo de futebol que Keizer pretende apresentar, saltam à vista alguns estereótipos: alas de pé trocado para fomentar o jogo interior, uma posição "6" encarada mais como tipo limpa pára-brisas (daí talvez o Ajax, limpa-vidros evidentemente...) do que como início de construção do jogo. Aqui residem os primeiros equívocos da montagem do actual plantel e também se torna evidente a entropia entre Formação e equipa principal. Vou tentar explicar de seguida: se eu quero que os meus alas venham para dentro, então necessito de laterais ofensivos que subam nas costas dos alas e vão à linha cruzar para Dost. Ora, se em relação a Thierry (ainda tímido e a dar os primeiros passos a este nível) e Rosier (lesionado) ainda é cedo para se tirarem conclusões definitivas, no caso de Borja é por demais evidente que não possui as características ideais para o que é requerido. Não estando dentro da Estrutura e não conhecendo qual a importância da opinião de Keizer nas nossas idas ao mercado, não me é possível determinar se a contratação do colombiano foi um erro de Scouting, ou se tal deve ser assacado ao treinador, o que me parece evidente é que Borja não é o jogador adequado para o sistema posto em prática pelo treinador holandês. A não ser que a ideia de utilização ofensiva dos laterais seja só dissuasora e destinada apenas a criar uma ilusão no adversário para depois o "matar" pelo centro... Já no que diz respeito à posição "6", fica exposta a falta de coordenação entre o futebol sénior e juvenil. Só assim se compreende que em Alcochete tenhamos durante anos desenvolvido para essa posição um médio com características de construção do jogo ofensivo (Daniel Bragança) para depois, na equipa principal, querermos um tipo de jogador diferente, mais corpulento e dissuasor do que criativo. 

 

Há demasiados erros conceptuais no projecto do futebol do Sporting. Creio, por isso, que mais do que um novo treinador o que necessitamos é de um Director Técnico. O Sporting precisa de alguém que seja um pensador de todo o futebol do clube e que possa actuar com total autonomia, numa abordagem "top-down", definindo o tipo de jogo que se pretende praticar a nível sénior - se a Direcção, como entendo que o deve fazer até em função de poder chamar mais gente aos estádios, definir como prioridade uma ideia de "futebol positivo", então o Director Técnico deve procurar modelizar um sistema de jogo compatível com tal - , sugerindo à Direcção treinadores que se possam adequar a esse desiderato, coordenando o futebol juvenil, de forma a que as rotinas implementadas se assemelhem tanto quanto ao possível à realidade dos seniores, trabalhando com os treinadores da Formação no sentido de serem desenvolvidas determinadas características em futebolistas jovens que mais tarde possam constituír uma mais-valia no plantel principal. A meu ver, esse Director Técnico deveria também ser responsável pelo complemento da formação de jovens treinadores a trabalhar na Academia, facilitando assim o seu crescimento na Estrutura até, alguns deles, poderem assumir-se como timoneiros da equipa principal do clube (vidé o exemplo de Bruno Lage no Benfica), ganhando assim o projecto por haver técnicos bem identificados com o processo. 

 

O investimento na Formação tem de ter um propósito para além da futura poupança de custos no futebol profissional. Como tal, desde tenra idade os nossos jovens devem estar identificados com o processo de treino dos seniores. Assim ganhar-se-ão jogadores plenamente identificados com as metodologias e rotinas do plantel principal, uma vantagem comparativa face a quem vem de fora. Adicionalmente, a existência de um Director Técnico com plenos poderes permitirá ir monitorizando o crescimento individual de cada miúdo e estabelecer estimativas do potencial de cada um, elementos fundamentais na ligação à gestão de activos. É que não só de craques vive a Academia e é preciso rendibilizar todos os anos o investimento produzido, pelo que a venda de alguns jovens não considerados prioritários também ajudará a produzir algumas receitas. (Há anos que defendo o pré-diagnóstico e escalonamento dos nossos jovens em 4 categorias - excelente, muito bom, bom e razoável - , de forma a ser possível tomar decisões sobre o seu futuro.)

 

Da forma como entendo o modelo, de cada vez que o treinador principal necessitar de um jogador com determinadas características, o Director Técnico deve primeiro procurar se elas existem na Academia, ou se é possível desenvolvê-las em tempo útil. Caso tal não seja possível, então, sim, dever-se-á recorrer ao mercado. (Se tivermos um miúdo nos escalões jovens que precisa de mais 1 ano para amadurecer, mais vale ir buscar um veterano tipo Mathieu que me faça uma temporada do que investir bastante dinheiro na compra de um jovem promissor que depois vai tapar o lugar ao produto da nossa Academia.) Como profundo conhecedor que será das necessidades da equipa principal, o Director Técnico deverá sempre ter a última palavra, ficando numa posição hierarquicamente superior ao chefe do Scouting, de forma a que sejam limitados ao máximo os erros de "casting". Bom, também defendo que as transferências devem ser acompanhadas por um Comité de Compliance, mas isso é conversa para um outro dia. 

 

P.S.1:  Alguns Directores-Técnicos possíveis que já trabalharam em Portugal: Lazlo Boloni, Luis Castro, Jesualdo Ferreira. Nota: a estes, ou quaisquer outros (verdadeira escola Ajax ou Barcelona agradam-me) ser-lhes-ia previamente informado que em nenhuma circunstância assumiriam a função de treinador.

P.S. 2: Para quem associa a meu ver excessivamente a qualidade ou abundância dos relvados da Academia com o rendimento, e para alguns que zombaram do facto de em tempos, quando apresentei uma estratégia global para o Sporting, ter falado (a propósito do capítulo "Sustentabilidade da Política Desportiva") na necessidade de (também) recriar as condições do futebol de rua em Alcochete, aqui fica para reflexão: https://maisfutebol.iol.pt/historia/internacional/o-ajax-esta-a-mandar-os-miudos-para-a-rua-literalmente

13
Ago19

O amor é... por Pedro Correia(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o Pedro Correia. Antes de mais, cumpre-me a obrigação de informar que se estou presente na blogosfera devo-o ao Pedro (se não gostarem de me lêr, já sabem para onde enviar a factura), algo de que nunca me esqueço. Foi ele, sem me conhecer, que um dia me desafiou para alinhar no plantel do "És a nossa FÉ" e assim poder ter o privilégio de escrever sobre a minha primeira importante escolha na vida, o Sporting, um amor que não tem fim.

O Pedro tem sido obreiro de vários casos de popularidade: para além do supracitado blogue, de que foi fundador e onde permanece há já largos anos como o co-autor mais influente e profuso, ele é também co-autor do "Delito de Opinião". Cerebral, directo, contundente, provocador por vezes, o Pedro tem um raro instinto para tudo o que possa ser notícia, característica que aliada a uma opinião que procura sempre fundamentar, a uma técnica narrativa irrepreensível e à sagacidade empregue na esgrima de argumentos com os seus leitores o tornam uma figura incontornável da blogosfera. Hoje vão lê-lo porventura num registo um pouco diferente, que isto de falar de amor a um clube obriga-nos a passar a nossa vida em revista. Ilustrando-o, PC enriquece o seu belo texto dando-nos conta de viagens por um mundo onde o Sporting foi sempre uma companhia constante e marcante, sinal inequívoco da implantação de um gigante por vezes sem consciência da sua real relevância social. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Pedro nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Amar o Sporting é cultivar alguns dos valores que mais prezo. Ser fiel às origens, às tradições, à devoção clubística – antónimo de clubite. Praticar a lealdade em campo e fora dele, rejeitando golpes baixos. Gostar muito de vencer, sim – mas sem batota. Recusar ódios tribais a pretexto da glória desportiva. Nunca confundir um adversário com um inimigo, sabendo de antemão que o futebol (só para invocar o desporto que entre nós mobiliza mais paixões) é a coisa mais importante das coisas menos importantes, como Jorge Valdano nos ensinou. 

Amo o Sporting pela marca inconfundível do seu ecletismo. Os meus primeiros heróis leoninos, ainda em criança, eram Leões de corpo inteiro sem jogarem futebol. Foi o Joaquim Agostinho a brilhar nos Alpes e a vencer etapas na Volta à França depois de ter sido o maior campeão de ciclismo de todos os tempos em Portugal. Foi o António Livramento, artista exímio com um stick nas mãos, campeão europeu de verde e branco, além de campeão mundial a nível de selecções. Foi o Carlos Lopes, recordista absoluto do corta-mato europeu, brioso herói da estrada, medalha de prata nos 10 mil metros em Montreal, primeiro português a subir ao pódio olímpico, de ouro ao peito, naquela inesquecível maratona de 1984 em Los Angeles.

Amar o Sporting é abraçar o universalismo que fez este nosso centenário clube transbordar os limites físicos do País e galgar fronteiras. Conheci fervorosos sportinguistas nas mais diversas paragens do planeta. Nos confins de Timor, no bulício de Macau, na placidez de Goa – lá estão, com a nossa marca inconfundível, sedes leoninas que funcionam como agregador social naqueles países e territórios, assumindo em simultâneo uma ligação perene a este recanto mais ocidental da Europa. 

Amar o Sporting é cultivar a tenacidade de quem nos soube ensinar, de legado em legado, que nunca se vira a cara à luta. João Azevedo a jogar lesionado entre os postes, só com um braço disponível, enfrentando o Benfica num dos clássicos cuja memória perdurou através das gerações. Fernando Mendes, um dos esteios do onze que conquistou a Taça das Taças em 1964, alvo de uma lesão no ano seguinte que o afastou para a prática do futebol, mas capaz de conduzir a equipa, já como treinador, ao título de 1980. Francis Obikwelu, nigeriano naturalizado português e brioso atleta leonino que saltou da construção civil onde modestamente ganhava a vida para o ouro nas pistas europeias em 2002, 2006 e 2011. 

Campeões com talento, campeões com garra, campeões inquebrantáveis – mas também campeões humildes, conscientes de que nenhum homem é uma ilha e um desportista, por mais aplausos momentâneos que suscite, é apenas uma parcela de um vasto arquipélago já existente quando surgiu e destinado a perdurar muito para além dele. Na Academia de Alcochete, no Estádio José Alvalade, no Pavilhão João Rocha, somos conscientes disto: ninguém ganha sozinho. Antes de Cristiano Ronaldo havia um Aurélio Pereira, antes de Livramento havia um Torcato Ferreira, antes de Carlos Lopes havia um Mário Moniz Pereira.

O desporto com a genuína marca leonina não cava trincheiras: estende pontes, transmitindo a pedagogia da tolerância e cultivando a convivência entre mulheres e homens de diferentes culturas, ideologias, crenças e gerações. 

É também por isto que amo o Sporting: fez-me sempre descobrir mais pontes que trincheiras. O que assume relevância não apenas no desporto: é igualmente uma singular lição de vida."

 

(*) Pedro Correia, fundador e co-autor de "És a nossa FÉ", co-autor de "Delito de Opinião"

12
Ago19

A Keizer o que é de Keizer, a Varandas o que é de Varandas


Pedro Azevedo

Quem definiu a política de contratações? Quem já gastou cerca de 36 milhões de euros (sem contar com as comissões do Mercado de Verão) desde Janeiro? Onze contratações depois, por que é que a categoria dos jogadores não melhorou? Quem decretou que a Formação não tinha qualidade? Quem emprestou ou vendeu quase todos os jovens promissores entre os 18 e os 24 anos? Quem escolheu Keizer? Quem viu no treinador holandês um fiél seguidor dos princípios da escola do Ajax? O que se passa com Battaglia? O que se passa com Dost? O Sporting não é a Christie`s ou a Sotheby`s, então qual a razão porque parecemos uns leiloeiros no mercado internacional? O que quis Keizer dizer com "perguntem ao Director" (sobre Matheus Pereira)? Quem foi responsável pela vinda do "sonho" de uma noite de Verão (Vietto), tragicomédia de inspiração shakespeariana que o treinador já deu a entender não encaixar no seu sistema? 

 

Posto isto, é certo que Keizer aposta pouco nos jovens, é muito rígido nas substituições, tem uma comunicação básica e fraca, um plano de jogo que consiste em meter a bola em Bruno Fernandes, et caetera e tal. Mas a verdade é que o seu início foi auspicioso. Isso até ter começado a aculturizar-se à realidade portuguesa e, quiçá, à tão famosa Estrutura leonina. 

 

Olhando para as mais recentes declarações de Keizer, a que se podem adicionar diversos "soundbites" do presidente Varandas, eu só posso esperar que estes dois protagonistas reflictam no caminho a seguir e ponham as razões do Sporting acima das suas próprias razões. O tempo, inexorável, não pára. É preciso reagir, compreender que o que se nos afigura fácil muitas vezes encerra segredos e mistérios dificilmente decifráveis que exigem especial sensibilidade, e dar a volta por cima. É isto possível? (Ou vamos continuar a brincar "às casinhas"?)

12
Ago19

O amor é... por Joana Marques(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido uma senhora, ou melhor (para que não fiquem dúvidas sobre a sua idade e jovialidade), uma menina, mulher, menina mulher, casada, mãe de 2 filhas e com outra a caminho, a Joana Marques. Há alguns meses atrás, mão amiga trouxe ao meu conhecimento a Joana. No seu blogue escrevera algo sobre o Sporting que eu deveria lêr, dizia o meu amigo. Li. E aquilo tocou-me. Tocou-me pelo estilo de escrita de cunho muito próprio e intimista, pela forma como os seus textos ganhavam vida com a sintaxe por via de uma invulgar e ousada disposição das frases (a indicar uma personalidade muito vincada), mas também (principalmente) pela forma como conseguira traduzir a sua paixão pelo nosso clube. Foi a primeira vez que li o "Feita de Sporting", que mais tarde vi traduzido pelo nosso marketing em "Feito de Sporting", que adicionava as conquistas aos sentimentos. Reli o texto e não esqueci. Não conhecendo a Joana, guardei em ficheiro na minha cabeça para memória futura. E a oportunidade de contacto surgiu com esta série "O amor é...".  Assim, sem mais delongas, esperando ter-lhe feito justiça (há sempre algum pudor e dá sempre um bocadinho de medo apresentar quem acabamos de "conhecer"), aqui fica o texto que a Joana nos escreveu por amor ao Sporting:

 

"Tenho 3 filhas.

Quando penso naquilo que quero para elas peço: saúde, felicidade..

…e que sejam do Sporting.

É por isso que nas noites de mais inspiração, em vez de lhes ler “a Branca de Neve e os 7 anões” lhes conto episódios vividos por mim. Com o Sporting.

Com a Alice e a Mariana ao meu colo e a Luísa dentro da minha barriga, começo devagarinho….

 

Era uma vez….

…há muito, muito tempo.

  1. No Alentejo.

Tinha 6 anos e passava as férias grandes em casa dos meus avós.

Eu, o meu irmão e uma carrada de primos rapazes.

Era levada da breca e tirava a paciência a tudo e a todos.

Era a mais nova.

Hiperactiva. Mimada.

Precisava de atenção e entretenimento constante.

Passávamos os dias a correr atrás do sol e regressávamos a casa ao anoitecer. Lanchávamos a fruta das árvores, bebíamos a água dos fontanários públicos e fazíamos amigos improváveis.

Não havia telemóveis. Toda a gente confiava em nós. Brincávamos como queríamos e onde queríamos.

Os meus pais e os meus tios visitavam-nos ao fim-de-semana. Ao sábado à noite passava um bom par de horas dentro da banheira. No dia seguinte a minha mãe levava-me à missa e não podia ir com aquelas pernas todas encardidas.

 

Os meus pais e os meus tios iam-se embora ao Domingo depois de almoço.

 

 

Um desses domingos. Saíram mais cedo.

Para grande alívio do meu avô.

O campeonato ia começar. O Sporting ia jogar.

Quando o Sporting jogava o mundo parava.

O meu avô, exigia silêncio e atenção.

Sentava-se no sofá da sala com a minha avó ao lado.

Nós sentávamo-nos “à chinês” ao redor do sofá.

Calados que nem ratos. À espera de novidades.

Mas…

….a minha fama era qualquer coisa!

O meu avô confiava no silêncio de todos excepto no meu. Vá se lá saber porquê… ;)

Enquanto sintonizava o rádio chamava-me!

- Joana!

Ficava direitinha e caladinha! Em sentido…

Também eu queria participar do momento.

O meu irmão dizia-me baixinho ao ouvido:

- Se te sentires aborrecida vai por aí tocar às campainhas!

Não fui!

O jogo começou.

Fiquei ali a alimentar o meu Sportinguismo.

O meu avô tinha o rádio ao ouvido.

Nervoso.

Pediu à minha avó ajuda divina.

A minha avó levantou-se e tirou a tampa de uma terrina que tinha em cima da mesa.

Tirou um terço e começou a rezar.

O meu irmão disse-me baixinho ao ouvido...

- A avó está a rezar a Deus para o Sporting ganhar!

 

O Sporting ganhou o jogo!

 O meu avô levantou-se.

Nós fomos atrás dele.

Entrou na adega. 

Saiu de lá com 4 foguetes. 

Lançou-os.

Para que toda a gente soubesse que o Sporting tinha ganho.

 

No fim de semana seguinte  os meus pais voltaram para nos ver e eu tinha uma coisa muito importante para lhes contar.

Mal saíram do carro! Gritei...

- Deus é do Sporting! Deus é do Sporting!

A minha mãe quase enfartou.

O meu pai riu desalmadamente.

Eu, acrescentei:

- O Sporting jogou, a avó rezou a Deus e o Sporting ganhou!!

Feliz da vida, acreditei que o Sporting ia ganhar para sempre.

Deus era do Sporting! Deus era do Sporting!

 

 

O Sporting foi desde o meu primeiro dia de vida o prolongamento da minha família, Alvalade o prolongamento da minha casa.

Actualmente, não sou crente mas tenho uma fé inabalável no meu Sporting.

Tudo pode falhar...

...menos o meu Sportinguismo!

Continuo a acreditar que o Sporting vai ganhar os jogos todos!

Nos ombros, tenho a responsabilidade de transmitir toda esta fé e esta memória às minhas filhas, para que daqui a 20 anos, sejam elas as convidadas a escrever um texto sobre o grande amor das nossas vidas!

 

Obrigada, Pedro!

Tão bom estar por aqui. 💚"

 

(*) Joana Marques, autora de "Kiosk da Joana"

11
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Planos D e E


Pedro Azevedo

Na pré-época, Frederico Varandas havia anunciado ter um Plano A, B ou C, consoante Bruno Fernandes ficasse ou não. Por contágio, Keizer e os jogadores também começaram a percorrer o abecedário. Assim, desde que a bola começou a rolar, a equipa já mostrou ter um Plano D, de derrota, e um Plano E, de empate. O Plano V, de vitória, é que nem vê-lo, esperando-se que não demore tanto a concretizar-se quanto a distância no alfabeto entre as letras "E" e "V".   

 

Neste defeso, o Sporting foi ao mercado adquirir cinco jogadores. Hoje só um alinhou de início (Eduardo) e apenas porque Doumbia estava impedido por castigo, visto que Matheus Nunes ou Daniel Bragança não contam para Keizer. (A propósito: para quem já se esqueceu ou tem saudades, o Gudelj estava lá naquele jogo em que o Benfica marcou 4 em Alvalade.) O sonho de uma noite de Verão do presidente Varandas (Vietto), contratação que se teme fazer parte de uma comédia shakespeariana, também foi a jogo, ainda que só na parte final. 

 

Uma equipa grande tem de ter laterais ofensivos. Hoje, o Sporting não os teve: Thierry ainda arrancou um ou outro centro bem medido, Borja nem isso, sempre a fugir da grande área adversária como o diabo da cruz. Por vezes, mesmo com o caminho todo desbravado, hesita e regressa à base, um movimento tão incompreensível quanto teria sido o de Bartolomeu Dias se após passar o Cabo das Tormentas tivesse voltado para trás, negando assim a Boa Esperança.

 

Uma equipa com os pergaminhos do Sporting também tem de ter uma boa defesa. Na Madeira, Thierry esteve ao nível de um Ilori, o que não o recomenda propriamente, pese a boa vontade deste autor. Mas também quando se tem um treinador que o intranquiliza a 24 horas de um jogo ao dizer que o maior problema com o Benfica foi o lado direito... Coates não apareceu na fotografia do golo insular e ligou o complicómetro no quarto de hora final. Em postura atacante, obteve um golo que valeu um ponto. Mathieu, apesar da infinita classe, deu uma fífia que podia ter sido fatal e Borja, bem Borja, foi como se nem estivesse lá, permitindo todo o tipo de cruzamentos na sua área de jurisdição. 

 

Quem quer ganhar campeonatos também tem de ter pontas-de-lança que entendam o jogo da equipa, saibam ligar jogo e sejam letais na área. Nada disso parece caracterizar o Felipe das Consoantes, um avançado que se deixou antecipar na área umas quatro vezes em lances que podiam ter mudado a história do jogo. Quanto a Bas Dost, mostrou viver o mesmo sem-vontade com que recentemente recusou sair de Alvalade a caminho da China ou de outro desses paraísos de reforma do futebol mundial. O holandês dá todos os sinais de não se estar a sentir confortável. O que se estará a passar com Dost? 

 

Perante todos os factos elencados, a que se pode acrescentar um Raphinha novamente a decidir pessimamente, a equipa acaba por estar muito dependente de Bruno Fernandes (sempre ele), Wendel e Acuña, o que simplesmente se vem revelando insuficiente. O mais dramático disto tudo é que já se percebeu com um grau de certeza razoável que a abordagem ao mercado não resultou bem, continuando a escassear jogadores que façam a diferença. E quando se vê que a solução de desespero é Diaby, então é caso para dizer que o desespero está instalado. 

 

Keizer, tal como Abraracourcix, parece estar sempre à espera que Bruno Fernandes impeça que o céu lhe caia em cima da cabeça, o grande receio da sua existência enquanto chefe do plantel dos leões (onde está aquele treinador ousado que pôs a equipa a jogar de pé para pé e que privilegiava as suas ideias e não adaptações a adversários e ao futebol português?). "Por Toutatis", o médio é actualmente uma mistura entre Atlas - um titã condenado a sustentar o céu nos seus ombros - e Asterix, um cruzamento entre a mitologia grega e a aventura epopeica de Uderzo que homenageia o lendário Vercingetórix. Ele é o celebérrimo "plano de jogo" de Keizer, a sua poção mágica. O problema é que isso acaba por o desgastar em demasia, física e emocionalmente, havendo jogos em que, mesmo sem estar mal, fica aquém do seu potencial. E quando não temos o melhor Bruno Fernandes...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel

maritimo sporting 1-1.jpg

11
Ago19

Os jogos da minha vida (V)


Pedro Azevedo

14.12.1986  Sporting - Benfica 7-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas; Gabriel, Venâncio, Virgílio e Fernando Mendes (Duílio, aos 79 min.); Oceano, Litos (Silvinho, aos 79 min.), Zinho e Mário Jorge; Raph Meade e Manuel Fernandes.  

 

O Sporting vs Benfica de 86 é o único jogo desta série que não presenciei ao vivo, facto do qual jamais me perdoarei. Por sortilégio, o que perdi "in loco" em emoção ganhei em explicação racional do que se passou em campo. É verdade, enquanto estudava para uma Frequência de Economia calendarizada para o dia seguinte, o jogo proporcionar-me-ia a aplicação prática das teorias do liberalismo, simbolizadas na expressão "laissez faire, laissez passer" com que a defesa encarnada pretendeu ilustrar os conhecimentos teóricos que eu ia adquirindo nos livros e cadernos de apoio.  

 

À cautela, deixara a aparelhagem sintonizada numa estação radiofónica que cobria o derby. Eu, no meu quarto, à secretária, a aparelhagem na Sala de Estar com o som baixinho. Cerca de 20 metros nos separavam, distância fulminantemente superada logo ao quarto de hora quando Mário Jorge inaugurou o marcador. Seguiu-se uma hora relativamente tranquila, sem grande volatilidade nos decibéis que vinham de outra divisão da casa, que me permitiu concentrar na matéria em atraso. Chegou então a catarse de uma meia hora final feita de constantes piscinas naquele corredor que separava a zona dos quartos das áreas comuns. Desse transe e até à rendição final distaram poucos minutos. A emoção acabaria por vencer a razão, o Sporting nocautearia de uma só penada Adam Smith, Locke, Burke, Bentham, Malthus e Marx. O som da aparelhagem já não estava baixinho e o vizinho de baixo, benfiquista convicto, fazia questão de o notar a toque de cabo de vassoura, anunciando sarilhos. Sarilhos, origem do nosso Manél, imparável nessa tarde. O jogo acabara e era hora de celebrar. Sózinho em casa, olhei para o meu Dual, gira-discos com uma base em madeira onde afinfara três pancadinhas de sorte antes do jogo começar. Em cima do tampo em vidro da geringonça havia um LP e um Single. Por uma vez o recém-importado "Love will tear us apart" dos Joy Division de Ian Curtis ficaria para trás, vergado pelo peso de Mr James Brown, o "Padrinho do soul". I feel good!... 

10
Ago19

Venham mais cinco!


Pedro Azevedo

Keizer afirmou hoje em conferência de imprensa que (contra o Benfica) a equipa sentiu especialmente dificuldades no lado direito, rematando que esse foi o principal problema. Poder-se-ia pensar que a estreia (em competições nacionais) de Thierry Correia, único jogador da nossa Formação presente nesse jogo e um dos melhores em campo para a maioria dos analistas, pudesse ter merecido uma palavra pública de incentivo do holandês. Ao invés, este optou por expôr o nosso jovem perante a opinião pública, envolvendo-o (e a Raphinha) directamente na debacle, mais uma vez dando força a uma narrativa que parece invadir toda a Estrutura e que descredibiliza os produtos provenientes de Alcochete. 

 

Na mesma entrevista, o treinador leonino disse coisas estranhas e incompreensíveis, tais como "a pressão de decidir(?) durante o jogo não foi suficiente", ou "é difícil dizer se somos candidatos ao título porque viemos de um jogo difícil, com um resultado difícil". Já sabíamos que o verbo não era propriamente a melhor qualidade do técnico holandês, que ainda não fala português e "arranha" um dialecto vagamente semelhante ao anglo-saxónico, o que vale é que o senhor, ao melhor estilo da escola do Ajax, não hesita em apostar nos miúdos. Ou não? 

 

Mas tudo está bem quando acaba bem: perante a actual conjuntura económico/financeira do clube, o importante é termos um treinador absolutamente alinhado com a sua Direcção. Venham mais 5 ("reforços"), como diria o Zeca Afonso.  

10
Ago19

113 anos de história, 13 glórias - o meu voto


Pedro Azevedo

O Sporting está a eleger, no seu sítio oficial (https://www.sporting.pt/gloriassporting), durante o mês de Agosto, 9 figuras do seu ecletismo que irão ser imortalizadas em espaço próprio no Pavilhão João Rocha. Os eleitos juntar-se-ão a outras 4 glórias - António Stromp, Mário Moniz Pereira, Reis Pinto e Salazar Carreira - previamente escolhidas pelo Conselho Directivo, perfazendo assim o número de 13 personalidades homenageadas. Os sócios que quiserem votar terão de escolher 5 atletas entre os 20 nomeados na categoria de desportos colectivos e outros 4 atletas entre os 20 nomeados na categoria de desportos individuais.

Eis o meu voto, entretanto já registado (por ordem de disposição no "site"): António Livramento, Bessone Basto, Carlos Silva, Chana, Manuel Brito, Alfredo Trindade, Carlos Lopes, Fernando Mamede e Joaquim Agostinho. 

Todos os momentos de exortação da Cultura Sporting e sua identidade merecem o meu aplauso, pelo que peço a todos os Leitores de Castigo Máximo que sejam sócios do Sporting Clube de Portugal para aderirem a esta iniciativa, votando. Participem! 

09
Ago19

O embargo


Pedro Azevedo

O embargo é uma prática comum no comércio internacional que pode ser ditado por querelas políticas entre países, ou simplesmente por questões de proteccionismo económico. Sempre fértil em absorver os elevadíssimos padrões morais e éticos da sociedade moderna, o futebol parece tê-lo adoptado recentemente.

 

Sejamos francos, parece haver uma estratégia de controlo dominante do poder por parte de um clube nacional. Essa estratégia implicará o condicionamento dos rivais. Aparentemente, e pelo que se vai percebendo no que às transferências diz respeito (recomendo a leitura de um tal Pippo Russo), determinadas ligações entre agentes e presidentes/directores desportivos internacionais, alegadas mas nunca provadas participações económicas de empresários em clubes e falta de regulação geral do sistema ajudam tal propósito. Só nesse cenário pode ser compreensível que um Félix saia por 120 milhões de euros e que por um Bruno, melhor jogador da nossa Liga em 2 anos consecutivos, não se pague nem €70 milhões. 

 

Perante este cenário, mandaria o bom senso que o Sporting desenvolvesse o seu produto sem estar dependente do mercado. E que o promovesse com garantia de qualidade, apoiado para tal em inúmeros exemplos da sua gloriosa história. Acontece porém que o senhor presidente do clube de Alvalade, seguro dos seus dotes de anatomista, produziu o diagnóstico de que o "paciente" não se encontra bem, não sendo possível determinar de momento, dada a profusão de notícias de baixas na Formação, se investido de médico-legista não terá já mesmo decretado o óbito. Fiél àquele ensinamento da Clarice Lispector, de que "não se deve preocupar em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento" (pelo menos até à hora da morte), foi mesmo alimentar o tal mercado que nega valor aos nossos activos, tendo numa voltinha de Verão comprado um T5 na Reboleira equipado com uma Sala de Enfermaria com duas camas (para Rosier e Camacho), empreendimento para o qual se receia que nem haja colchões suficientes. 

 

Ao mesmo tempo que se vão empilhando stocks de compras no mercado (que mais tarde doaremos a alguma instituição), a Formação continua em filas-de-espera. Um modelo genial de Investigação Operacional, em que não há limite às importações, mas, em oposição, o sinal de trânsito de Alcochete para Alvalade encontra-se quase sempre (ai Thierry, até quando...) vermelho, coisa que aliás já vem de trás. Ora, vermelho é a côr do rival, pelo que esta "Gertrudes" que promove o controlo "inteligente" do nosso tráfego já me está a incomodar. Proponho então que se mude o nome para "Dolores", em homenagem à mãe do nosso Cristiano Ronaldo, rapaz que aparentemente não se deu mal com a luz verde que recebeu para Alvalade, de onde saiu para uma carreira digna de estórias de encantar. Como esta, ficcionada pois com certeza, aliás é. Não para nós, bem entendido.

09
Ago19

O amor é... por José da Xã(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José da Xã. Conheci o José no meu primeiro jantar do blogue “És a nossa FÉ” e logo me impressionou pela sua autenticidade, camaradagem e profunda devoção ao Sporting. Para além disso, o José é um homem bom, genuíno, de princípios,  intuitivo, sábio até, que cultiva a amizade e tem um coração enorme. Os seus Posts são o produto disso mesmo, cheios de puros sentimentos leoninos que nos contagiam, reconciliam com o nosso amor ao clube e, bem absorvidos, nos fazem querer ser melhores Homens. Assim como ele é. Aqui fica o texto que o José nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Nasci no seio de uma família de sportinguistas, a começar pelo meu pai, que foi sócio durante algum tempo e pelo meu tio, irmão da minha mãe, que ainda hoje é sócio (creio mesmo que fará parte dos “Cinquentenários”), mas que devido à provecta idade deixou de ir a Alvalade.

Entretanto há umas breves semanas veio-me à memória uma recordação da minha infância que reza assim: certo dia estava eu na aldeia, provavelmente de férias, quando um primo, que se preparava para partir para África ao abrigo do SMO, chamou-me para me mostrar as suas recordações!

Era uma daquelas malas de viagem tão em voga nos anos 60, meia de papelão grosso, meia de madeira, com quadrados de estampagem. Ao abrir a tampa vi que naquele pequeníssimo mundo estava uma história fantástica. O meu primo guardara muitos recortes de jornais que falavam do Sporting, cromos de atletas leoninos muito usados e outras referências sportinguistas.

Foi aquele ínfimo espaço que me fez despertar para uma outra realidade, para algo que hoje reconheço ser mais profundo. Foi nesse momento histórico da minha vida que me tornei verdadeiramente sportinguista.

Após esta minha breve viagem a um passado longínquo mas saudoso, regresso à crua actualidade para afirmar sem rodeios que o Sporting é hoje uma profundíssima paixão.

Recordo agora um outro exemplo de fervor clubístico. Certa tarde após um dia de trabalho e à volta de uma mesa numa tasca na Rua do Cruxifixo e por detrás de umas imperiais alguém perguntou a um sportinguista:

- Entre a tua mulher e o Sporting quem escolherias primeiro?

Resposta rápida:

- O Sporting…

- Porquê?

- Porque conheci primeiro…

Não chegando a este exagero diria que o meu amor pelo Sporting é… totalmente incondicional! E irrevogável!

De outra forma há muito que teria deixado de ser sócio, que não compraria o meu lugar em Alvalade ou que não entraria no Pavilhão João Rocha.

Mas este amor não tem explicação lógica. De todo.

Não se percebe, não se entende, não se controla… só se sente. São as unhas roídas nos minutos finais de um jogo, o frio glaciar naquela grande penalidade, a alma repleta de alegria na vitória, o murro no estômago na derrota.

Nisto a razão não manda, não se impõe.

É o coração leonino que se sobrepõe, é o orgulho, a honra, a alegria de se ser do Sporting Clube de Portugal.

Sentimentos únicos que repito ninguém saberá explicar. Nem eu próprio.

É assim o meu amor ao Sporting!" 

 

(*) José da Xã, autor de "LadosAB", co-autor de "És a nossa FÉ"

 

P.S. "O amor é..." voltará na segunda-feira.

08
Ago19

Política desportiva


Pedro Azevedo

As recentes dispensas de Gelson Dala e de Matheus Pereira, associadas aos rumores que apontam para a necessidade de recrutamento no mercado de um ala e de um ponta de lança, criam perplexidade. Desde logo, porque cedo se tornou evidente que o Sporting precisava de um ala com características mais desequilibradores e de um avançado com outra mobilidade, técnica e ligação de jogo. Que poderiam muito bem ser os agora libertos Matheus e Dala. Não o sendo para quem dirige, não se compreende que a nossa prioridade no mercado tenha sido a contratação de um lesionado Rosier por 8 milhões de euros (€5 milhões + Mama Baldé, temendo-se o que teria sido o valor pago por este lateral direito caso o jogador estivesse logo apto para competir). Também não é entendível que em duas janelas de transferências se tenham contratado Plata e Camacho e nos continuemos a queixar de falta de qualidade nas alas (dinheiro mal gasto em tempo de recursos escassos?). Já para não falar do risco inerente à contratação de Vietto (os 50% mais caros da história do clube), um jogador com salário elevadíssimo para a nossa conjuntura, ou do sentido que possa fazer deixar sair o ainda jovem Domingos Duarte e ir buscar o veterano Neto. 

 

O tempo por vezes tudo faz esquecer e há quem possa ver vontade apenas de criticar. Nesse sentido, recupero aqui o Post que fiz neste blogue, com o título "Ensaio sobre o Plantel de 2019/20", no dia 29 de Maio deste ano, numa altura em que só as contratações de Neto e Vietto eram uma inevitabilidade. Descubra o Leitor as diferenças (nota: a cotação de alguns dos jogadores sugeridos foi recentemente actualizada em alta pelo Transfermarket; dado que Keizer parece não ver as qualidades que eu observo em Matheus Nunes, então Daniel Bragança seria a opção lógica para o substituir no plantel proposto):

 

"Ficando a aguardar as sugestões dos nossos Leitores, aqui fica o meu esboço de plantel para a temporada de 2019/20:

 

Guarda-redes - Renan é, provavelmente, um dos jogadores mais subvalorizados do campeonato português. Muito tempo tapado no São Paulo pelo ídolo Rogério Ceni, naturalmente o seu estatuto quando chegou à Europa não era impressionante. Vi-o, na época anterior, no famoso "jogo do vento", em que o Estoril bateu o Sporting, e gostei dos seus reflexos. Contratado por Sousa Cintra a título de empréstimo, mereceu amplamente a confiança nele depositada, tendo sido providencial na conquista das duas taças. Muito elástico entre os postes, viu sobre ele pairar o anátema de que geralmente tocava na bola antes desta entrar. Sempre vi nisso uma qualidade e não um defeito, na medida em que nunca dava uma bola perdida, inclusivé aquelas em que ficaria melhor na fotografia se não se mexesse. Deu vários pontos ao Sporting este ano com defesas incríveis em momentos decisivos do jogo. Assim de repente, recordo-me do jogo em casa contra o Portimonense, o de Chaves, entre outros. Deverá melhorar o seu jogo de pés e a antecipação de certos lances, nomeadamente cobrindo melhor o espaço deixado nas costas por uma defesa subida. Para mim, é um valor seguro. 

Salin não comprometeu quando chamado, com destaque para o jogo na Luz, e parece fazer um bom balneário. Deve melhorar a sua acção nos cruzamentos por alto. Max também é bastante elástico e deverá começar a ter minutos nas taças, alternando com Salin. A primeira regra da economia é a de que os recursos são escassos, pelo que para mudar teria de ser para fazer a diferença. Como tal, aplicaria o dinheiro no reforço de outras posições.

A minha opção: Renan, Salin, Max (promovido dos sub23)

 

Lateral Direito - Bruno Gaspar é curto para as ambições do Sporting e deve ser colocado no mercado (venda ou empréstimo com os ordenados pagos) e Ristovski é um touro a quem não se pode pedir números de primeira bailarina. Ainda assim, o macedónio é um daqueles carregadores de piano que misturados na dose certa com jogadores virtuosos e jovens da Formação podem produzir um bom cocktail, vidé a época de Allison, onde Barão, Marinho e Nogueira tiveram um papel determinante no sucesso. Assim sendo, promoveria definitivamente Thierry Correia e investiria noutras posições, a não ser que surgisse uma proposta muito boa pelo macedónio. Num sistema de 3 centrais, Mama Baldé (ou Raphinha) poderia até fazer toda a ala na maioria dos jogos em Alvalade.

A minha opção: Ristovski e Thierry Correia (promovido dos sub23)

 

Centrais - Mathieu é imprescindível. Coates tem dias, mas é jogador acima da média. Neto já foi confirmado. Faria regressar Domingos Duarte, que foi eleito para a melhor dupla de centrais da La Liga2, e manteria Borja, de forma a ter um canhoto como alternativa a Mathieu, se tivesse a certeza de que Keizer não apostaria nele como lateral esquerdo. Cinco centrais parece-me adequado para o sistema de 3 centrais que creio irmos ver mais vezes na próxima temporada. Ivanildo, central pela esquerda, ainda não me convenceu totalmente. Faz-me lembrar Ilori (vendê-lo-ia), com as suas frequentes distrações fatais, embora seja mais novo e ainda vá a tempo de corrigir esse aspecto.

A minha opção: Domingos Duarte (regresso de empréstimo), Coates, Neto, Mathieu, Borja

 

Lateral Esquerdo - Se a ideia de Keizer é Borja poder jogar como lateral, a minha recomendação seria que o vendessem já, aproveitando a valorização inerente às suas convocatórias para a selecção da Colômbia. Borja é um jogador hesitante, que estranhamente vai recolhendo comentários favoráveis de adeptos leoninos convencidos de que existe elevado potencial num jogador de 26 anos que ainda tem dificuldade em perceber os terrenos que pisa. A mim, faz lembrar um indíviduo que vai à caça e, a meio do caminho, se lembra de que deixou a arma em casa e volta para trás. Acuña é um dos três melhores jogadores do actual Sporting, conjuntamente com Bruno e Mathieu. A sua influência melhora bastante num sistema de 3 centrais, onde encontra maior liberdade para aplicar aqueles seus centros com curva que tão bons resultados vêm produzindo. Creio que a sua posição ideal é mesmo essa, pois assim vê o jogo de frente. Por não ser muito inventivo a nível de finta, como ala não é determinante, obrigando-o muitas vezes a jogar de costas para o adversário e a rodar para causar perigo. Nessa posição revela, no entanto, uma qualidade interessante: a sua leitura do jogo interior. Para o acompanhar, procuraria um lateral com outras características, mais rápido, com maior explosão e que jogasse mais por fora. Como não temos fornada imediata nas camadas jovens, procuraria um jogador jovem para desenvolver. Caso Acuña saia (não quero de todo), contrataria Angeliño (PSV Eindhoven).

A minha opção: Marcos Acuña e Gian-Luca Itter (alemão, Wolfsburgo, 20 anos, 2M€ Transfermarket) 

 

Médio Defensivo - Gudelj e Petrovic têm ordenados incomportáveis. Para além disso, não caminham para novos, pelo que entendo que não se justifica o custo, pese embora a excelente atitude demonstrada por Petrovic na Taça da Liga, ou o esforço de Gudelj. Comprámos em Janeiro dois jogadores que precisamos de desenvolver (Doumbia e Matheus Nunes) e Battaglia está de regresso. 

A minha opção: Doumbia, Matheus Nunes (promovido dos sub23), Battaglia

 

Médio "box-to-box" - Wendel cresceu muito na última temporada, Miguel Luís deu boas indicações até sair da equipa e Battaglia ou Matheus Nunes (até mesmo Doumbia) podem fazer a posição. Daria uma última oportunidade a Ryan Gauld, porque vejo nele um jogador capaz de dar geometria e dinâmica (fazendo a bola correr) ao jogo.

A minha opção: Wendel, Miguel Luís, Ryan Gauld

 

Médio de ataque - Fica Bruno é o sentimento na cabeça da esmagadora maioria dos adeptos. Alguns, poucos, vêm numa potencial venda uma oportunidade de sanear as finanças. Bruno tem 3 valências (pelo menos) a considerar: é o criativo da equipa, pode facilmente jogar a "8" e é o capitão por todos respeitado, conseguindo congregar à sua volta todo o plantel. A sua inteligência não é apenas demonstrada no campo, também fora dele dá cartas, parecendo sempre saber o que dizer e quando fazê-lo, não se coibindo de distribuir os louros por todos os colegas. Não o venderia e compraria Vlap, um jogador que transformaria facilmente o 4-3-3 num 4-4-2. Se Bruno sair, ficaria com Geraldes (por mim, ficaria sempre, mas Keizer não o utiliza, pelo que...). O ucraniano Malinovskyi, de quem se tem falado, é um jogador diferente do holandês aqui referido. Enquanto um procura mais as combinações para finalizar vindo de trás (Vlap), o outro é mais um organizador de jogo e tem no remate de meia distância (bola parada incluída) a sua principal virtude. Mas Ruslan Malivovskyi, actualmente no Genk, que marcou 16 golos e fez 16 assistências no campeão belga, já tem 26 anos, o que para um médio já reduz um pouco o seu valor de mercado numa futura venda (guarda-redes, centrais e pontas de lança mantêm mais o valor).

A minha opção: Bruno Fernandes (Francisco Geraldes) e Michel Vlap (holandês, Heerenveen, 21 anos, 17G e 6A em 18/19, 4M€ Transfermarket) 

 

Ala Direita - Raphinha ficou um pouco aquém das expectativas iniciais, nomeadamente mostrando dificuldades no 1x1. Mas é um jogador muito rápido, que cruza bem, tem golo e se mostra comprometido com a equipa. Mudá-lo-ia de flanco e daria uma oportunidade a Mama Baldé (pé direito). Faria regressar Matheus Pereira (pé esquerdo) para completar o leque de alas e manteria Jovane.

A minha opção: Mama Baldé (regresso de empréstimo), Matheus Pereira (regresso de empréstimo), Jovane   

 

Ala Esquerda - Raphinha continuaria, Diaby seria vendido. Contrataria mais alguém que adicionasse inequivocamente qualidade à equipa. A minha escolha seria Younes, um ala que joga preferencialmente com o pé direito, mas que se posiciona sobre a esquerda partindo em diagonais. Nas movimentações faz lembrar Nolito, mas possui mais recursos técnicos.

A minha opção: Raphinha e Amin Younes (alemão, 25 anos, ex-Ajax, Nápoles, 5M€ Transfermarket)

 

Ponta de Lança - O Sporting precisa de fazer algum dinheiro e admitiria vender Bas Dost caso surgisse alguma proposta à volta de 20M€. Manteria Luíz Phellype, teria Vietto e Gelson Dala como opções contrastantes (mais móveis, velozes e técnicos) e contrataria um outro ponta de lança que combinasse ambas as características.

A minha opção: Luíz Phellype, Gelson Dala, Vietto, Mbwana Samatta (tanzaniano, Genk, 26 anos, 9M€ Transfermarket) 

 

Vendas: Ilori, Misic, Diaby, Bas Dost, Bruno Gaspar, Jefferson, André Pinto, Mattheus Oliveira, Jonathan, Lumor, Iuri Medeiros, Borja (se surgir uma boa oferta), entre outros, com a expectativa de fazer um mínimo de 40M€ (+poupança de 8M€ em ordenados anuais) 

Dispensas: Petrovic e Gudelj (poupança conjunta de 5M€/ano)

Empréstimos: Ivanildo (fica, se Borja sair), Palhinha (tem +1 ano de contrato com o Braga), Alan Ruiz (ninguém nos vai dar nem perto do que pagámos por ele), Daniel Bragança.

 

Nº de jogadores da Formação: 8

Nº de jogadores até aos 23 anos: 14 (metade do plantel)

 

Conclusão: total de vendas de 40M€ e poupança anual em salários de 13M€, a que há que adicionar o global do negócio Gelson (15M€, admitindo que não há comissões), teriam um impacto positivo nos Resultados de 68M€, 53M€ dos quais já no exercício de 2019/20. As compras aqui sugeridas, no valor de 20M€, mais os ordenados desses jogadores (vamos admitir que seriam de 6M€), teriam um impacto negativo no mesmo período de cerca de 10M€ (as compras entram como amortização anual do valor e, para o efeito, admite-se contratos de 5 anos), o que daria um resultado Liquido nestas operações de 43M€.

 

P.S. Dos jogadores do actual plantel, em termos significativos há apenas que considerar a subida de ordenado de Bruno Fernandes (admitindo que fica). O meu pressuposto principal é que há 3 jogadores insubstituíveis, pelo seu patamar de qualidade: Bruno, Mathieu e Acuña. Se Younes chegasse, então teríamos um quarto jogador garantido a esse nível, havendo ainda a esperança que Raphinha, Wendel ou Matheus Pereira (jogadores ainda bastante jovens) venham a elevar as suas exibições para um nível de excelência. O plantel teria 28 jogadores.

 

Tem a palavra o Leitor...

 

Disclaimer: não tenho, obviamente, qualquer interesse económico nos jogadores referenciados, com quem aliás nunca falei e não conheço pessoalmente."

08
Ago19

O amor é... por Rui Monteiro(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais, incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting.

 

Hoje apresento o Rui Monteiro. Bom, na verdade o Rui dispensa apresentações, o seu estilo irónico é inconfundível. Ler os seus textos é um renovado prazer. Neles coabitam erudição, inteligência, independência, humor e um sentido de responsabilidade ilustrativo da integridade do autor. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Rui escreveu por amor ao nosso clube:

 

"[O Pedro Azevedo fez a maldade de me pedir um pequeno texto a propósito do Sporting e de uma iniciativa em torno do tema genérico "o amor é...". Os homens não choram, foi assim que o meu pai me ensinou, como tantos outros pais na minha geração. Cada um constrói a carapaça que pode e faz das tripas coração para assim viver a sua vida. Pratico com gosto a ironia, a roçar o cinismo. Não consigo encontrar boa razão para escrever este texto, mas se o Pedro Azevedo mo pede é porque a encontrará seguramente. Tentemos por essa razão.]  

Decorei uma parte da lírica camoniana. Ficou-me de infância e da adolescência e nunca me saiu da cabeça. É como a letra numa qualquer língua estrangeira de uma música que nos parece fazer sentido sem que percebamos exatamente porquê. Ouvimos e vão-se (re)construindo imagens e memórias. “O amor é”, pois é! Que é, é, mas não sabemos o quê. É fogo que arde sem se ver ou uma outra forma de dizer que se define pela sua simples existência. Também é presente do indicativo. Reconhecemo-lo e, quando o reconhecemos, logo passou. O amor é e basta.

Não sei porque sou do Sporting. Admito que por influência do Zé, um miúdo pouco mais velho que morava em minha casa, pois os pais trabalhavam na Guiné. É possível também que seja por oposição ao meu pai, que era portista, ou por assim conseguir lugar nos dérbis que todos os dias jogávamos na escola, em Viseu. As minhas primeiras memórias sportinguistas remontam a 1974, ao jogo da segunda mão da meia-final da Taça das Taças, contra o Magdeburgo, que perdemos por dois a um e assim não passámos à final, e ao da final da Taça de Portugal, contra o Benfica, que ganhámos por dois a um. São memórias que vão de 24 de abril a 9 de junho. O país mudou entretanto e passou-se do antes ao depois do adeus, enquanto fazia dez anos e era aprovado na prova oral do exame da quarta classe, realizando-a um dia antes do previsto e sem vestir os calções que a minha mãe se tinha esmerado a confecionar para esse cerimonial de papagueado conhecimento.

Lisboa era longe, muito longe. O Estádio de Alvalade e o Sporting eram duas entidades distantes. O sportinguismo era uma paixão ficcionada. Alimentava-se de resultados, relatos, cromos e cadernetas e, uma ou outra vez, de jogos na televisão. Fui a Lisboa pela primeira vez para me inscrever no Instituto Superior de Agronomia, onde estudei. Nos primeiros anos, morei em Algés, em Belém e na Ajuda; nos últimos, na Estrada do Desvio, no Lumiar. Apanhava o 36 da Carris para o Campo Pequeno, onde o 56 me levava à Praça do Calvário, percorrendo o resto do caminho a pé até à Tapada da Ajuda. Passava todos os dias pelo Estádio de Alvalade. Vi o pavilhão e passei a ver metade, quando foi parcialmente demolido no início das obras de prolongamento do Metro de Lisboa para o Campo Grande. Via também o pelado, onde muito raramente a equipa principal treinava. Um dia, por impulso, saí do 36 para ver os jogadores treinar. Lembro-me do Duílio como se estivesse há minha frente. Quem vê um bigode como o dele nunca mais o esquece. Ou porque morava longe ou porque não tinha dinheiro, vi jogar o Sporting intermitentemente. Estive à porta do Estádio de Alvalade para comprar bilhete para o jogo contra o Benfica que ganhámos por sete a um. Hesitei e acabei por não comprar: tinha dinheiro ou para viver na semana seguinte ou para ver o jogo. Arrependo-me, hoje mais do que nesse domingo!

[Ainda não cheguei a meio da minha vida e o texto está razoavelmente chato e comprido. Abreviemos pois.] Em 2017, a minha filha, Ana, foi estudar no segundo semestre para a Universidade de San Andrés, em Buenos Aires. Viajou com antecedência para passar uma temporada no Rio de Janeiro. Quando acabou os exames, continuou as viagens que tinha iniciado durante o semestre na América do Sul e, depois do Chile e do Uruguai, andou também pela Colômbia e pelo Perú. Regressou a meio de Agosto e foi para o Festival de Paredes de Coura, enquanto iniciávamos um período de férias, em Troia. Havia meses que não chalaçávamos como deve ser (expressão a que damos um sentido muito próprio, muito nosso). Combinámos ir buscá-la e ao meu sobrinho João, um fanático portista, a Lisboa para passarem o resto das férias connosco, aproveitando a oportunidade para ir ao Estádio de Alvalade ver o Sporting contra o Estoril, o primeiro jogo da época em casa. A Ana não aprecia futebol e é do Sporting porque tem de ser de alguma coisa, mas era uma excelente oportunidade para revivermos a final da Supertaça de 2002, jogada no Estádio do Bonfim, quando ela e o João eram muito pequenos. 

Ao princípio, era uma festa: “O Mundo Sabe Que”; o Acuña a cruzar para o Gelson Martins empurrar a bola ao segundo poste para o primeiro golo; o Bruno Fernandes a fazer a bola sobrevoar a barreira e a marcar o segundo golo. Depois, bem, depois o jogo encanzinou-se, como era o costume do embaralhado tático que o Jorge Jesus nos servia, e pouco a pouco o difícil tornou-se impossível e o fácil em difícil. O Estoril começou a parecer o Real Madrid e, a meio da segunda parte, reduziu para dois a um. Dentro de campo e no estádio houve mosquitos por cordas. No último minuto, na última jogada, o Estoril marcou o segundo golo. O João petrificou e o olhar da Ana revelava uma profunda tristeza; não por ela, não pelo Sporting, mas por mim. A triste ternura daquele olhar encerrava a razão de ser, o sentido, de uma vida, da minha vida. 

O amor autodefine-se, autorreferencia-se. Não é branco nem preto, não é carne nem peixe, não é homem nem mulher. Não é substantivo. Necessita de objeto mas para a sua simples projeção em nós. É e logo se esvanece, persistindo as suas memórias. O Sporting não é o nosso amor, é as nossas memórias (partilhadas) e, para além de nós, mais ninguém é dono delas, seja este ou aquele dirigente, jogador, treinador ou grupo de adeptos e sócios. Nós somos as nossas memórias e, por isso, o Sporting somos nós, todos e cada um.  

[A história tem um final feliz. O vídeo-árbitro assinalou fora-de-jogo e anulou o golo do Estoril. Fomos jantar ao Mercado do Cais do Sodré. Em seguida, demos uma volta por aqui e por ali até nos depararmos com o Jamaica e o Tokyo, meus lugares de culto e de iniciação. Falei-lhes pela enésima vez dos clássicos, como The Doors, The Rolling Stones ou Lou Reed e Velvet Underground, e dos contemporâneos que se transformaram em clássicos para as gerações seguintes, como Dexys Midnight Runners, U2, REM ou The Smiths. Regressámos, tarde, a Troia. O João e a Ana adormeceram, tranquilos. Coloquei o CD Dark Was The Night para ouvir So Far Around The Bend, dos The Nationals, e a voz melancólica de Matt Berninger cantando: “Nobody knows where you are living/Nobody knows where you are/You're so far around the bend/You're so far around the bend/There is no leaving New York/There is no leaving New York”. Não sei o sentido que esta letra tem para quem a escreveu. Para mim, lembra-me inúmeras viagens com a Ana e uma mensagem dela: “Pai, estou num bar a ouvir So Far Around The Bend!”]" 

 

(*) Rui Monteiro, autor de "A insustentável leveza de Liedson"

07
Ago19

Comprar tempo


Pedro Azevedo

Um gestor compra essencialmente tempo. Num momento inicial, surge o esboço de uma ideia. Uma espécie de esquisso que se vai desenvolvendo até se transformar no corpo de uma estratégia. De seguida, há que tratar da sua implementação. Este período que medeia entre a criação do conceito e sua passagem a produção exige ao gestor persuasão. Ele deve ser capaz de transmitir aos que o rodeiam o que vai fazer e como. Mais importante ainda, ele deve saber explicar a razão pela qual um determinado caminho deve ser seguido. Como já disse anteriormente, o porquê das coisas é o que gera um elo emocional com as pessoas. 

 

Frederico Varandas não herdeu uma situação fácil. Mas está a torná-la bem mais difícil ao não ser capaz de esclarecer a sócios e adeptos a razão por que estamos a seguir numa determinada direcção. É que não basta dizer que a Formação não é boa: um caminho de cabras às vezes é a única forma de se chegar a um determinado destino, e saber-se que o caminho é acidentado não me garante imediatamente uma alternativa melhor. Assim, para além da dificuldade em transmitir as suas razões, produto de uma Comunicação absolutamente desastrada, o actual presidente enfrenta também legítimas dúvidas sobre aquilo que se vai perspectivando nas entrelinhas ser a sua estratégia. 

 

A precisar de comprar tempo, a necessitar de ganhar paz, dir-se-ia que o presidente leonino, líder de uma enorme instituição em recobro de um recente traumatismo, não investiu (como deveria) o suficiente na esgrima dos seus argumentos, situação que cria perplexidade pois tende a sugerir que pretende receber um cheque em branco. É isso aliás que se infere quando pede às pessoas que não fiquem preocupadas, na medida em que ele também não o está, como se isso fosse garantia de alguma coisa. (Mais do que as palavras, os actos é que podem tranquilizar as pessoas.) 

 

Quem olha para as contas do Sporting com olhos de ver, interpreta a estratégia desportiva que está a ser perseguida e entende as assimetrias que estão a ser criadas no futebol português tem toda a razão para estar preocupado. De facto, só um lunático não o estaria e eu não creio que Frederico Varandas viva no mundo da lua. Será por isso necessário Varandas começar a descer à Terra (terra?) e entender que as convicções só fazem sentido até à realidade chocar com elas de frente. Nesses momentos, há que controlar os danos, engolir o orgulho e mudar de vida, que é como quem diz mudar de rumo. 

 

 

06
Ago19

Dala dala dala dala dala dala dou, papagaio voa


Pedro Azevedo

"Preso por um fio que se desenrola
velho papagaio de papel e cola
Quando lança ao ar parece que tem mola
sempre a pedir para subir

Voa papagaio esquece a minha idade
puxa pelo fio da minha vontade
Faz por encontrar os rumos da verdade
que eu farei por te seguir

 

Dala dala dala dala dala dala dou, papagaio voa

Dala dala dala dala dala dala dou, papagaio voa

Dala dala dala dala dala dala dou, papagaio voa" - adaptação livre de Da li dou, dos Gemini

 

 

Gelson Dala foi emprestado ao Antuérpia, de Lazlo Boloni, por uma temporada. Segundo a imprensa, existe no contrato com os belgas uma cláusula de opção de compra de montante não revelado. 

 

Não entendo este tipo de decisões. A forma como se menospreza um jogador proveniente da áfrica portuguesa e se dá todas as oportunidades a um Diaby (que Keizer em entrevista anteviu poder substituir Bruno Fernandes) originário do áfrica francesa demonstra um certo provincianismo. A idade, salário, capacidade técnica, ligação de jogo e relação com o golo são tudo aspectos que favoreceriam a permanência de Gelson Dala em detrimento da do maliano. Acontece ter sido o angolano cedido (e entretanto chegou o "sonho" Vietto). Mais uma decisão, à semelhança do ocorrido com Demiral, que se pode tornar irreversível. Para além disso, os dados disponíveis da transferência uma vez mais apontam para falta de transparência, na medida em que teremos de esperar por um Report do Mercado de Verão (haverá?) ou pelo Relatório e Contas (continuará a ser trimestral ou adoptaremos o requisito semestral definido pela CMVM?) para saber mais. (No pior dos cenários só lá para Fevereiro de 2020 teremos informação detalhada sobre esta operação.)

 

O meu maior receio é que estejamos a tornar inviável o futuro. A alienação de vários jogadores provenientes da nossa Formação (Dala completou-a connosco), associada à compra recorrente de atletas (11 desde Janeiro deste ano), impedirá o regresso da rúbrica "amortizações" a um valor sustentável e dificultará os necessários cortes no Custo com Pessoal. (A massa salarial que pesa reside em jogadores que não estamos a conseguir colocar.) O défice operacional (e de tesouraria) continuará a produzir erosão, como tal seremos forçados a ir vendendo, um a um, os nossos principais jogadores. Não havendo sempre disponível um Bruno Fernandes para cobrir o "gap", com elevada probabilidade mais receitas futuras da NOS serão antecipadas. Um dia, o mandato desta Direcção chegará ao fim. Nesse momento haverá eleições. Qual será a herança que então se receberá? Que opções terá uma futura Direcção para além de uma indesejada (por mim) venda da SAD? Matéria para reflexão...

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