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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

30
Ago19

O estado da Nação


Pedro Azevedo

O Sporting deste milénio, sendo dos três grandes o único que tem Portugal no seu nome, é curiosamente o menos português dos clubes portugueses. Na verdade, quando a generalidade dos portugueses cultiva o mito sebastiânico e espera que o regresso d`El Rei num dia de nevoeiro os salve de uma vida onde sobra pouco tempo (e dinheiro) para viver a... vida, nós, os Sportinguistas, não somos saudosistas e até gostamos de utilizar a expressão "o cemitério está cheio de insubstituíveis" enquanto contemplamos um céu sem nuvens no horizonte. É um "wishful thinking", o Prozac - deve estar referenciado pelo nosso Scouting - que cada leão toma enquanto lhe levam os anéis (e também o cenário do céu sem nuvens emprestado por um estúdio da Venda do Pinheiro, de Oeiras ou de Queluz). De facto, no Sporting quase tudo é substituível. A começar pelos jogadores. Pouco interessa que não ganhemos um campeonato em ano ímpar desde 1953, há portanto 66 anos. Para nós, os Sportinguistas da era pós-moderna, o Necas, o Malhoa, o Zé da Europa e o Albano foram/são perfeitamente substituíveis. Só que não, como o comprova termos perdido o campeonato em 33 anos ímpares consecutivos. Ainda assim, poder-se-ia ter dado o caso de termos ganho o campeonato em todos os anos pares desde 53. Só que (de novo) não. As nossas vitórias nesses anos não chegam a 1/3, o que significa que ganhámos menos de metade do que Benfica e Porto juntos. E já nem falo de Peyroteo, homem honrado, de outros tempos, que, por ter feito uma festa de despedida que lhe permitiu arrecadar uns cobres para salvar um negócio em mau momento, sentiu que estaria a enganar os Sportinguistas se voltasse aos relvados, pese embora as suas (imensas) capacidades futebolisticas ainda estivessem intactas. Para sua sorte, mas não para sorte da sua carteira, nunca jogou nestes tempos modernos em Alvalade, não se tendo assim de sujeitar a ser considerado um tosco que só atrapalhava o "processo" ofensivo e logo aí ter como destino ser recambiado para alívio salarial da entidade patronal, coisa obviamente de conotação kafkiana para quem apresentaria a modesta contribuição de 1,6 golos por jogo.

 

É curioso, pois quando era pequenino o Sporting era aquele que aos Domingos ia a jogo, em que os ídolos eram os jogadores, a origem do sortilégio da nossa paixão. Hoje, no pós-modernismo leonino, eles são todos substituíveis para os sócios e/ou adeptos. Mesmo que se chamem Bruno Fernandes, Marcos Acuña, Jeremy Mathieu ou Bas Dost, ou qualquer um equivalente ao abono de família do atarantado senhor Keizer - "Tragam-me um ponta de lança. Móvel, de área? Tanto faz" - no fim do mês. Dizem que é a natureza do "negócio", uma forma altamente "edificante" de meritocracia em que aqueles que elevam mais alto a nossa camisola são tratados da mesma forma (quando não pior, e já nem falo do dia de horror vivido em Alcochete) que aqueles que não cumprem os mínimos daquilo que deveria ser a exigência pedida a um futebolista do Sporting. Por exemplo, se Vasco da Gama estivesse ao serviço das nossas cores, a sua descoberta do caminho marítimo para a Índia não valeria mais para nós que o deslindar do melhor caminho para a Brandoa pelo Moovit, ou até que os atalhos que o Ilori e o Borja escolhem para pôr em perigo o meu pobre coração sofredor. É o que fica implícito depois de tanto leilão, ou saldos, ou liquidação total, ou lá o que é. Posto isto, nós, sócios e adeptos, queremos que os jogadores nos respeitem, o que também faz sentido. Para nós, Sportinguistas, única e exclusivamente, bem entendido...

 

Aparentemente, os únicos não-substituíveis no clube são os presidentes. Por eles não se cala a indignação, sobram querelas, batalhas, guerras até. Deles certamente dependerá a emoção de todos os fins de semana. E quando não a emoção, a razão, a nossa sustentabilidade, as contas sempre impecáveis que apresentamos no final de cada época desportiva, ano após ano, razão pela qual todos os futebolistas devem ser substituíveis. Para que possamos apresentar sempre lucros? Não. Para que possamos fazer plantéis cada vez mais fortes? Também não. Por qualquer outra razão estratégica, aliás explicada tim-tim por tim-tim aos sócios? Não, não e não. Para fazer sócios e adeptos felizes, o que deveria ser a única motivação de quem dirige? Nãox4. Mas que interesse tem dissecar tão pueris questões, não é verdade?

 

Últimamente, o nosso futebol também é subsbtituível. Aliás, a minha relação com o nosso fio de jogo é semelhante à que tenho com Deus: creio e sinto que existe, embora não o veja. Bem, houve profetas que pregaram a palavra d`Ele (e um deles foi especialmente relevante) como agora há um Bruno - o Atlas que carrega o nosso céu azul nos seus ombros - que tem o seu nome em quase todas as escrituras dos jogos. Ainda assim há uma diferença. É que em Deus eu tenho fé e nesse Sporting sem os melhores jogadores não tenho fé nenhuma. Confesso que ainda julguei ser possível nos primeiros tempos de Keizer, mas tal como um dos seus (iniciais) princípios perdi-a em cinco segundos. Mas graças a Deus que já era católico antes de ser Sportinguista. Caso contrário, seria tentado a pensar que Deus não existe, partilhar do silogismo de que vale tudo e assim assistir impávido ao declínio, resssentimento, incapacidade de avançar, paralisia, ausência de finalidade ou de resposta ao "porquê" das coisas - o niilismo Sportinguista pós-João Rocha (com breves interrupções que deram esperança e acabaram por gerar grandes desilusões). Antes que me lancem um Auto da Fé Sportinguista, algo com que consócios e adeptos se gostam de entreter nos tempos livres enquanto expiam o sentimento judaico-cristão da culpa, convém lembrar que o último ritual de punição pública na Península Ibérica contra hereges que repudiavam a igreja católica data de 1826. Ainda assim, como nem nisso somos bem portugueses, ou mesmo iberos, e apesar de saber que nós somos um clube civilizado, de gente do bem ("de bem", não sei "bem" o que pensar), diferente até, que como tal terá espírito e certamente se saberá rir de si própria, dizia eu antes que me atirem com um daqueles epítetos que vêm entre aspas e estão tão em voga neste milénio Sportinguista depois de infelizmente terem sido fomentados por um antigo presidente, cumpre-me informar que não tendo fé ainda tenho paixão. Muita! Imensa! E genuína! Mas não ao ponto de estar preocupado. Se o (actual) insubstituível não está, porque carga d`água deveria eu estar? Só está preocupado quem tem uma ilusão e eu não tenho ilusão nenhuma, só paixão. Essa paixão leva-me a ter um ideal de clube, da sua identidade, da sua Cultura corporativa, princípios e sustentabilidade, que ninguém irá substituír porque reside na minha mente, morrerá comigo e não é alienável como a celebérrima aposta na Formação é para alguns (ateus da sustentabilidade, por certo). Bom, a esta hora muitos estarão a pensar que também eu sou substituível. Eu e mais uns quantos sócios do Sporting. O que num dia, que até já esteve mais longe, será indiferente, na medida em que por este andar só contarão os accionistas. Da SAD, obviamente. Maioritários, obviamente (de novo). Afinal, o dinheiro compra quase tudo. Bem, a luxúria talvez, mas não compra o amor. Se bem que este, por estes dias, também já deva ser substituível. No pós-modernismo, onde o equilíbrio é uma coisa que só imaginamos no trapézio do circo, o que interessa é o cliente, essa figura da mitologia leonina que um dia chega a Alvalade e compra todas as gamebox do futebol mais as das modalidades, sorve cem tonéis de duzentos litros de cerveja com alcool, enfarda uma tonelada de cachorros quentes e de enfiada ainda varre todas as camisolas do Bas Dost, perdão do Bruno Fernandes, perdão do Acuña, perdão... Do Tiago Ilori ou do presidente Varandas?... Bolas!!! Não me deem cabo do(s) plano(s). Deixem-me trabalhar. Vá, soletrem lá: A, B, C...   

 

P.S.1: Não troco a próxima geração pela próxima exibição. 

P.S.2: A paixão pelo clube, na sua génese comum a todas as gerações de Sportinguistas, confunde-se com a paixão por jogadores míticos que ajudaram a fazer a história do Sporting Clube de Portugal. É bom não o esquecer.

P.S.3: O Grande Prémio do Mónaco de BF8 não tem transmissão televisiva?

P.S.4: Jorge Fonseca sagrou-se hoje campeão do mundo de judo (-100Kg). Atleta do Sporting, é o primeiro campeão do mundo de judo de nacionalidade portuguesa. Mais um campeão que o Sporting oferece ao desporto português e ao país. Há todo um Sporting eclético e gerador de contentamento para lá da Sporting SAD...

27
Ago19

Menino do Rio


Pedro Azevedo

Ali junto ao Estuário do Tejo, a nossa equipa de sub-23 tem a sua casa. Nesse sentido, em Alcochete os nossos jogadores são uns meninos do rio. No entanto, de entre eles, destaca-se o verdadeiro Menino do Rio. Nascido no Rio de Janeiro, Matheus Nunes, hoje aniversariante (21 anos), brindou-nos com nova exibição de champanhe e caviar, marcando 1 golo, assistindo para outro (3º) e produzindo duas jogadas de génio (44, passe de ruptura à distância, e 50 minutos, aceleração com bola e passe de ruptura) dignas do craque que ele (já) é.

 

P.S.1: Senhor Keizer, ponha os olhos neste menino, se faz favor. Como é possível nem ter feito a pré-época com a equipa principal? Matheus já merece uns minutos na melhor equipa do Sporting. Continuar a afunilar em cima só trará desmotivação e afectará a nossa sustentabilidade. Não estraguemos outra geração de futebolistas. 

 

P.S.2: 4ª Jornada da Liga Revelação (SportingTV): Sporting - Marítimo 3-1 (Golos Sporting: Matheus Nunes, Tomás Silva e Joelson). Destaques também para Bruno Tavares (o 2º melhor), Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Rodrigo Fernandes (temos "6"!!), Joelson, Tomás e para a estreia de Valentin Rosier (jogou a primeira parte) e passe de letra de Pedro Mendes (2º golo).

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27
Ago19

O valor de Bruno


Pedro Azevedo

49 golos, 40 assistências, participação importante noutros 35, eis os números ofensivos (compilados por "Castigo Máximo") de Bruno Fernandes no Sporting. Resumindo, num total de 227 (108+113+6) golos marcados pela equipa, o nosso capitão esteve em 124, ou seja, em 54,6% dos lances decisivos. Analisando por outro prisma, tendo participado em 113 jogos pelo Sporting, a sua acção redundou em 1,1 golos/jogo. É este o valor, em termos atacantes, do "número 8" para nós, um caso único no mundo na sua posição. Ele que também é solidário com a equipa e defende, recupera bolas, o que ainda aumenta mais o seu valor. Haverá preço que pague isto? (Valorizemos o que é bom e nosso.)

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26
Ago19

Identidade de clube e marketing de jogadores


Pedro Azevedo

O Sporting saiu a perder de todas as formas na novela Dost. À magra compensação obtida na venda do holandês aos alemães do Eintracht Frankfurt deve somar-se a incompreensão por parte de quem dirige de que a protecção do clube é sempre a protecção dos seus activos e da imagem pública destes. Ficou também bem patente, nas discussões entre os adeptos, outro grande problema do clube: de cima a baixo, não existe uma cultura que promova a meritocracia, coexistindo a falta de reconhecimento com quem serviu bem a instituição com a falta de exigência com quem não cumpre os mínimos. Só nesse sentido se pode entender que o clube, no seu Twitter oficial, tenha publicado uma mensagem onde se pode ler: "o Sporting sabe distinguir o jogador Bas Dost do que o rodeia. Obrigado por tudo, Bas". Sabendo que no subconsciente popular se encontra a frase "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és", o Sporting permite-se, em veículo de difusão da sua Comunicação, saudar pela última vez o seu antigo jogador  - marcador de 93 golos em 3 épocas, é bom não esquecer - com reservas, assim a modos daquilo que os auditores por vezes colocam em Relatórios e Contas, algo que não fez por exemplo aquando das saídas de Barcos, Spalvis ou Castaignos (todos juntos representando zero golos marcados pelo Sporting), os quais mereceram palavras elogiosas de circunstância. Assim sendo, resta a este sócio dizer sem rodeios perante aquilo que o rodeia que também sabe distinguir o enorme Sporting Clube de Portugal da Comunicação do clube e, mais, ainda sabe distinguir o Sporting do senhor Rui Pedro Braz e outros que tais, e como tal, mesmo não se revendo neste triste episódio, continuará fiél ao clube do seu coração, o qual promete continuar a acompanhar com devoção.   

 

Se os jogadores de futebol são o maior activo da SAD - o maior activo do clube são os seus sócios - não se compreende como a Sporting SAD, uma vez mais (não é de hoje), termina uma relação com um jogador desta forma. Não que eventualmente não tivesse as suas razões, mas é bom não esquecer que foi a SAD, através de um comunicado, que tornou público e evidente para todos haver um problema com o seu jogador (em vez de tentar resolver o assunto no silêncio dos gabinetes), imediatamente contribuindo para desvalorizá-lo perante o mercado, com tudo o que antecipadamente saberia que isso iria trazer em termos de danos desportivos, financeiros e reputacionais. Deste modo, enquanto o vizinho ao lado tratou de homenagear Jonas e Luisão, o nosso clube viu sair Bas Dost pela porta pequena, sem sequer os adeptos terem tido oportunidade de dele se despedirem. Falando a nossa Comunicação em "quem o rodeia", como se não houvesse consciência que de entre quem a rodeia a si (ao clube), saíram uns inadaptados sociais (chamemos-lhes assim) que agrediram barbaramente o jogador aquando do inacreditável episódio de Alcochete, situação que o jogador fez por esquecer entre outras coisas porque soube separar os agressores dos adeptos comuns que lhe acenavam na rua. Pode até haver quem ache isto bem, mas este tipo de coisas é ilustrativo da falta de identidade e de Cultura Corporativa de um clube como o Sporting, mesmo que para o efeito tenha sido o seu braço instrumental (a SAD) a perpetrar tais actos. E demonstra, inequivocamente, uma ausência de política de promoção de jogadores, a qual depois tem as suas consequências no valor pago pelo mercado. Assim sendo, resta esperarmos quem será o próximo alvo. Por aquilo que fui lendo hoje no blogue não me admiraria que fosse Acuña. Aparentemente, e sem nunca eu me ter disso apercebido, parece não ter a qualidade suficiente, ser um híbrido e um risco. O que é estranho é estas apreciações depreciativas sobre alguns dos nossos melhores jogadores estarem últimamente muito na moda nas redes sociais. Não era a isso que eu me referia quando falei em Renascimento, mas está bem... 

26
Ago19

Ser Sporting!


Pedro Azevedo

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Daria Bilodid, a mais jovem bicampeã mundial de sempre (-48Kg) de Judo, é do Sporting! Como, aliás, faz sempre questão de demonstrar. Esforço, dedicação, devoção e glória, assim é o Sporting. De notar ainda o compromisso sempre patenteado pela atleta para com o clube, não se poupando a retratar-se com o símbolo do leão rampante nas mais diversas ocasiões, algo digno de realce numa jovem (ucraniana) de apenas 18 anos. "Tão grande como os maiores da Europa"?  Não. Tão grande como os maiores do mundo! (Ou, neste caso, como as maiores...)

25
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - O lusco-fusco


Pedro Azevedo

Jogo ao fim da tarde, imediatamente aproveitado pelo Sporting para entrar no negócio do lusco-fusco, uma ideia que ainda não estava devidamente rentabilizada. Assim, foi com 5/7 minutos de grande diversão e muito intensos que o Sporting se viu rapidamente a ganhar por dois golos, fazendo de Keizer um visionário e de Portimão a capital mundial do lusco-fusco. (Há que puxar a brasa à sua sardinha.)

 

Passado este período, o Portimonense imediatamente reduziu, num lance onde houve precipitação de Mathieu. Mas ninguém terá advertido os leões de que o lusco-fusco já tinha terminado e estes logo ganharam um penálti. Sucede que árbitro e VAR anularam a grande penalidade a nosso favor devido a uma falta (de betão?) ocorrida aquando da construção do estádio dos algarvios, o que como é óbvio aconteceu(?) noutra fase. Um apagão às regras de intervenção do VAR!

 

Num clube onde sempre coexistiram falta de reconhecimento com quem é bom e falta de exigência com quem não cumpre os mínimos, é preciso dizer que Luciano Vietto foi hoje o melhor jogador em campo. Mas também é importante perceber que Vietto pôde brilhar porque durante toda a primeira parte Acuña segurou as pontas, muitas vezes levando de enfiada com ala e lateral. Com Vietto sem preocupações defensivas, a combinar muito bem com Bruno Fernandes e sempre a flectir para dentro, o Sporting esboçou uma espécie de Táctica do Quadrado. Uma versão futebolística inspirada em D. Nuno Álvares Pereira, ou não fosse Marcel Keizer um "santo contestável(!)". 

 

Se, no primeiro tempo, o sucesso do Sporting teve muito a vêr com as diagonais de Raphinha e, essencialmente, com a superioridade na zona central onde apenas Pedro Sá tentava conter os avanços leoninos, para o regresso do intervalo Keizer pediu ao ala argentino para fechar na ala, evitando-se assim que Acuña tivesse de jogar com uma máscara de oxigénio. De quando em vez, sempre compensado por Bruno Fernandes, o antigo jogador do Fulham ia até ao centro e continuava a fazer miséria, algo só interrompido quando Folha finalmente fez entrar Dener para acompanhar o até aí desamparado Pedro Sá. Antes, já o Sporting fizera o terceiro numa jogada de entendimento entre Vietto e Bruno Fernandes, concluída com um tiro indefensável de Raphinha após passe imaculado do maiato. Até ao final do jogo, o Portimonense conseguiu controlar os acontecimentos, com Jackson Martinez à procura do tempo perdido, no jogo e na carreira. Mas o colombiano (hoje) já não foi a tempo e o Sporting assumiu assim, (à hora que escrevo) à condição, a liderança da classificação da Primeira Liga. 

 

Ah!... E o Diaby não jogou... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Luciano Vietto (tem de melhorar o remate à baliza). Bruno Fernandes esteve nos 3 golos, Raphinha marcou dois e perdeu mais 1 de uma forma incrível, Luíz Phellype encostou para outro e deu luta à defesa algarvia. "Mutley" Acuña mordeu as canelas de todos quantos passaram nos seus terrenos e Thierry Correia continua a crescer. Os outros estiveram a um nível médio, com Mathieu a impor-se na defesa após um início atribulado. Renan teve uma noite tranquila e quase voltava a defender uma grande penalidade.

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24
Ago19

O que (não) resolve Dost


Pedro Azevedo

No deve e haver da tesouraria da SAD do Sporting, se é verdade que a venda de Bas Dost permitirá poupar o seu salário, a compra de Vietto (e de outros 4 jogadores nesta janela de transferências) terá carregado ainda mais o cash-flow operacional negativo (antes de vendas de jogadores). Acresce que em termos de Resultados da Sociedade, uns magros 6 milhões de euros - apenas mais 3 milhões do que os pouco ou nada utilizados Iuri e Domingos Duarte - não resolverão praticamente nada, obrigando a mais vendas, e de valor significativo, antes do final da época. Com um défice estrutural que deverá andar perto dos 60 milhões de euros, as vendas registadas até agora tê-lo-âo, quanto muito, baixado para cerca de €45 milhões. Acresce que as compras no Mercado de Verão pesarão em sentido contrário, na proporção da amortização anual dos contratos dos jogadores, subtraindo entre 4 a 5 milhões aos Resultados. O problema é que não estamos a conseguir colocar a maioria dos excedentários do plantel que pesam mais na conta de exploração (largando os que ganham pouco e que, ficando connosco, podiam contribuír para a nossa sustentabilidade), o que não permite "aliviar" os custos com pessoal. Teria sido prudente começar por aí, não indo ao mercado comprar ainda mais jogadores. Ao não fazê-lo, a SAD entrou num jogo de póquer. Ciente disso, o mercado decidiu especular com a SAD, baixando todas as propostas de aquisição por jogadores nossos (vidé exemplo Bruno Fernandes). E irá continuar a fazê-lo, independentemente da valia desses elementos. Agora, só temos duas hipóteses: ou a SAD decide manter os nossos melhores jogadores e enfrenta sócios e accionistas com um R&C referente a Junho de 2020 mostrando um Resultado profundamente negativo (e, entretanto, mais inadiáveis antecipações de proveitos NOS) enquanto procura resolver o défice estrutural colocando muitos excedentários e não privilegiando mais Diabys em detrimento de Matheus e companhia, ou vende ao desbarato, da forma desordenada que eu há muito venho perorando que poderia acontecer (e o caso Bas Dost evidencia-o), os seus melhores jogadores. O problema é que, continuando a vender qualidade esta época, pouco ou nada de substantivo sobrará para vender nas épocas seguintes, tornando-se assim impossível cobrir o "gap" nos Resultados futuros. A não ser, claro, que as 11 contratações desde Janeiro provem a sua utilidade, algo que para além de Matheus Nunes (não é aposta na equipa principal) e de Idrissa Doumbia não me parece assim tão evidente. Portanto, quando se falou aqui em aposta na Formação é porque não existe outro modelo possível. Com ele, teria sido possível baixar a massa salarial para níveis que nos tirassem do sufoco ou garrote financeiro, garantindo-se assim outra liberdade negocial. Mas ainda há quem pense que estas ideias são lesa-Sporting, porque se está implicitamente a criticar quem foi eleito (não perco tempo nem crio desumanidade a atacar pessoas, que aliás separo do essencial que é a sua gestão, mas preocupa-me, isso sim, o Sporting). Como se não vivessemos numa democracia, como se milhares de CEOs no mundo inteiro não fossem permanentemente escrutinados por opinadores e accionistas, como se não houvesse canais televisivos económicos (CNBC e Bloomberg) que transmitem, 24 sobre 24 horas, informação sobre empresas cotadas e outras prontas a entrar em Bolsa, como se o desejo de um sócio não deva ser que o clube sobreviva a si mesmo (sócio) e seja perene. 

 

P.S. Um jogador de futebol tem associado a si um direito económico (para além de um desportivo, também). Como tal, é um activo. Como qualquer outro activo, tem um rendimento. Se uma acção tem um dividendo e uma obrigação tem um cupão, o rendimento de um jogador de futebol é o seu desempenho desportivo. O desempenho desportivo de Dost foi de 93 golos em 3 temporadas. E marcou em cada uma das finais de taça ganhas na época transacta. É bom não esquecer isto quando se fala em "alívio" da massa salarial. 

22
Ago19

Cavaleiro da Dinamarca


Pedro Azevedo

Há um jovem Cavaleiro, oriundo do ‘Reino da Dinamarca’, que anunciou estar preparado para vender parcelas da ‘Gronelândia’, curiosamente, Greenland (terra verde), em inglês. Para tal, até se referiu a uns planos A, B ou C que teria em mente, dando assim conta de estar tranquilo e preparado para o processo, contando porventura com a boa vontade de algum Trump desta era moderna. 

Nao se sabendo que territórios iriam ser alienados, logo a instabilidade se apoderou de todos os habitantes da ilha, retirando-lhes o foco no trabalho. Os mais jovens, sem esperança no futuro, já previamente se haviam exilado fora da ilha, os mais velhos ainda vão resistindo perante a iminente venda de uma das mais importantes e produtivas parcelas da ilha, algo que depois de pré-comunicado levantou forte controvérsia (na ilha e no reino), pese embora o esforço desenvolvido em sentido contrário pelo ‘armador’ Brás&Braz, curiosamente mais conotado com outros reinos, que parece ter ‘dado um bacalhau’ à Comunicação do Cavaleiro.

Sendo certo que não se fazem Hamlets sem ovos, observadores do processo garantem que teria sido preferível identificar logo uma parcela e vendê-la do que desestabilizar toda uma ilha (e reino). 

20
Ago19

De mal a pior


Pedro Azevedo

A Sporting SAD emitiu um comunicado a clarificar o ponto da situação em torno do futuro do goleador holandês Bas Dost.

 

Eis o Comunicado (transcrito de abola.pt):

 

"A Sporting Clube de Portugal – Futebol, SAD (adiante Sporting SAD ou Sociedade) vem, nos termos e para efeitos do cumprimento da obrigação de informação que decorre do disposto no artigo 248.º-A, n.º 1 al. a) do Código dos Valores Mobiliários, informar o mercado, nos seguintes termos:

 

1. Em Maio de 2019, o jogador Bas Dost informou o treinador de que queria sair da Sporting SAD;

 

2. Dias depois, o seu agente reuniu com o Presidente da Sporting SAD e o director desportivo, e transmitiu que Bas Dost queria sair da Sporting SAD, por considerar ter terminado o seu ciclo no Clube;

 

3. No seguimento dessa conversa, a Sporting SAD e o agente vêm trabalhando em conjunto para a saída do atleta;

 

4. Ao longo dos últimos meses, houve interesse de vários clubes da China, Rússia, Turquia e México. Bas Dost recusou sequer ouvir as propostas, comunicando à Sporting SAD que a sua decisão não tinha por base motivos financeiros, mas sim pessoais;

 

5. Apesar de se tratarem de propostas muito mais atractivas financeiramente do que aquela que lhes veio a suceder, a Sporting SAD respeitou a decisão do jogador, procurando alternativas que iam ao encontro ao seu interesse e vontade;

 

6. Há cerca de uma semana, o agente informou a Sporting SAD que o Eintracht Frankfurt estava interessado em Bas Dost e que este clube e campeonato iam de encontro ao desejado pelo jogador, tendo este inclusivamente já chegado a acordo com o clube alemão;

 

7. A Sporting SAD, que conforme oportunamente comunicado também já alcançou um princípio de acordo com o Eintracht Frankfurt, foi no entanto surpreendida com exigências financeiras de última hora da parte do jogador que estão a impedir a concretização da transferência;

 

8. A Sporting SAD sabe muito bem quem está a colocar e porque é que está a colocar as notícias falsas na imprensa de hoje;

 

9. A Administração da SAD mantém-se disponível para alcançar um acordo vantajoso para todas as partes, mas permanecerá firme e intransigente na defesa dos interesses da Sporting SAD e imune a pressões mediáticas desta espécie."

 

De traidor a mártir, na visão de alguns adeptos, de mártir a traidor provavelmente para a Direcção do clube, duas rectas paralelas que certamente só se encontrarão no infinito. Entretanto, a tenda voltou a instalar-se em Alvalade. À cautela, dada a flagrante falta de equilíbrio (a verdade, na maioria das vezes, esconde-se no meio) dos "artistas", o melhor será colocar uma rede debaixo do trapézio. É o circo, senhores, é o circo! 

 

P.S. Há uma coisa (bom, na verdade várias) que não entendo: então, se o Sporting recusou "propostas muito mais atractivas financeiramente pelo jogador", são agora exigências financeiras de última hora que estão a impedir o negócio? Desproporção do tipo dezenas de milhões vs "peanuts"? E aceitamos vender o jogador por um preço muito abaixo de outros que chegaram a Alvalade, só para satisfazer a vontade dele? E o interesse do clube, onde fica no meio disto? É verdade que o Sporting tinha interesse vendedor, ou tudo fez para que o atleta ficasse? E Keizer já sabia desde Maio que o jogador queria sair? Isto parece-me querer matar dois coelhos de uma cajadada e até já estou com medo de ouvir a versão do jogador... É que, olhando para o Comunicado, é difícil não ficar com a percepção que visa essencialmente tornar de todo inviável a permanência do atleta, demonizando-o perante a opinião pública leonina. Perguntas (retóricas): o contrato do jogador não foi assinado de livre vontade entre as partes? É o jogador obrigado a deslocar-se, a si e à sua família, para o México, a China ou a Rússia? Não é verdade que o treinador e o plantel, com o seu capitão à cabeça, têm interesse em que ele fique? Uma última pergunta (aberta): qual a razão que levou um atleta que disse amar o clube, adorar o país, o sol, cuja família plenamente se integrou, que ganha sumptuosamente, a pedir para sair do clube? Conclusão da minha parte: da mesma maneira que o jogador não era obrigado a mudar-se para o México, China ou Russia, também nós não éramos obrigados a aceitar a proposta mais baixa pela sua aquisição. Se o fizemos, é porque tínhamos um óbvio interesse vendedor alicerçado naquela ideia da poupança de salários. Caso contrário, o jogador teria ficado connosco, onde aliás seria bem-vindo pelo treinador, restantes jogadores e maioria dos sócios. 

20
Ago19

O Keynesianismo-Keizerismo


Pedro Azevedo

Compramos Direitos Desportivos de futebolistas, sem dinheiro (défice estrutural de cerca de 60 milhões de euros, compras de 35 milhões desde Janeiro), como se fossemos a Reserva Federal Americana. Na verdade, não temos a faculdade permitida a um banco central de imprimir moeda, mas por vezes parece que temos uma rotativa em Alvalade. Também não podemos monetizar a dívida, embora já tenhamos encontrado forma de monetizar os créditos da NOS numa operação de antecipação de proveitos. O que não se entende é que a linha de produção da mina de diamantes sita em Alcochete continue interrompida na sua última estação por falta de artífices convictos e vontade institucional. Ontem, ao mais uma vez olhar para Matheus Nunes (bem contratado em Janeiro último, 500 mil euros por 50% do passe), um brasileiro radicado na Ericeira que o Estoril aí foi descobrir, jogador que pode fazer as posições "6", "8" ou "10" (embora seja como "8" que mais o gosto de vêr) e que na verdade tem tudo - recepção, aceleração com bola, transições rápidas, passe à distância, finta, visão de jogo (cabeça sempre levantada) - ,  fiquei perplexo como pôde não ser promovido à equipa principal, ou pelo menos ter tido a oportunidade de fazer a pré-época. Preferiu-se ir buscar um Eduardo (4 anos mais velho) e assim gastar parte do dinheiro que faria falta para manter Bas Dost. Talento especial que também se conseguiu observar em Mitrovski (grande golo), Quaresma, Plata (tem vindo a melhorar o seu entendimento colectivo do jogo), Joelson, ou mesmo Diogo Brás, há 2 anos quase unanimamente considerado o melhor da sua geração e que procura agora recuperar o tempo perdido, os 3 últimos uns alas que, embora não se espere que venham a ser uns Futres, têm um nível técnico muito superior a um Diaby. Não lapidar e dar talhe a estes jovens ao mais alto nível, tal como a muitos outros que andam por aí emprestados, preferindo importar jogadores de 4/5/6 milhões fora de portas, é um tipo de cegueira a que se deve dar o nome de síndrome do keynesianismo-keizerismo, uma doença "ke-ke" que sucede à exuberância irracional vivida no período BdC/JJ. Ao contrário de outros tipos de cegueira, em que o paciente não vendo tem a percepção e os outros sentidos muito bem apurados, esta é absolutamente lesiva em todos os sentidos. Como tal, urge curar. Por isso, Estrutura e treinador organizem-se, por favor. A bem do Sporting, evidentemente. 

19
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Re(i)nan R(e)ibeiro


Pedro Azevedo

Durante a fase fulgurante de Marcel Keizer, Frederico Varandas atribuiu o mérito ao peso da sua Estrutura para o futebol profissional. E não há como não lhe dar razão. É verdade! Atentem neste fim de semana: enquanto o Porto, acossado pelo "fair-play" financeiro, teve de ir ao mercado buscar uns Luíses quaisquer para remendar a equipa, o Sporting, munido de um super scouting, apresentou-se esta noite com 4 reforços (no banco). Outro mérito indiscutível da Estrutura foi termos alinhado com 1 jogador formado em Alcochete (Thierry Correia), o "quinto metatarso" de uma folia de um pé direito enorme de laterais de raíz ou improvisados de que também fazem parte Ristovski, Bruno Gaspar, Ilori e Rosier, confirmando-se assim a prometida aposta na Formação. Se calhar já são loas a mais à nossa Direcção, mas como esquecer a venda de Dost (e o seu valor) - Keizer diz que leu umas notícias no início da semana e foi perguntar ao presidente(!?) - e as justificações que logo surgiram na CS? Estou totalmente de acordo, pois cada um dos 93 golos do holandês ficava muito caro. Assim, podemos sempre contratar um novo Castaignos ou um novo Barcos, na certeza de que os seus golos ficarão muito mais baratos. Ah, o quê? Não marcaram? Infinitamente caros, como tudo (>0) o que divida por zero o é? Bolas, este elegia estava a correr tão bem... 

 

Esta noite, em Alvalade, o Sporting recebeu o Braga. Após uns bons 15/20 minutos iniciais em que aproveitou para se adiantar no marcador de forma totalmente merecida, o Sporting entregou o controlo do jogo aos bracarenses. Nas bancadas, os adeptos assistiam. No banco, Keizer também. Enquanto nós e Keizer assistíamos, Renan resistia. Uma, duas, três vezes, com defesas assombrosas, lá foi impedindo o empate. Até que Bruno Fernandes tirou o génio da lâmpada e deu a Pablo (Neruda?) material para um poema em forma de golo. Um golo caro!? (Medo!)

 

Na etapa complementar, a toada manteve-se, sendo notórias as falhas de posicionamento de diversos jogadores do meio campo leonino aquando da nossa posse de bola, com Wendel (autor de um golo de classe na primeira parte) à cabeça. Muitas vezes apanhados longe do centro nevrálgico do campo, após a perda de bola os nossos jogadores permitiam ao Braga jogar entrelinhas nas imediações da nossa área, apesar do denodo de Doumbia (bons cortes e agilidade na saída de bola em construção) em dissuadi-lo. Acresce que Raphinha e Diaby, os alas leoninos, não fechavam, permitindo inúmeras situações de 2x1 nos flancos, obrigando Thierry e Acuña (em postura ofensiva, os melhores cruzamentos provenientes das alas) a atenção redobrada, Coates e Mathieu a darem o peito às balas e Renan a muita atenção. Quando já nada havia a fazer, os avançados bracarenses encarregavam-se sozinhos de falhar a baliza. Sem qualquer vigilância na sua zona de acção, André Horta ia organizando todo o jogo bracarense. Nas bancadas, os adeptos desesperavam, tentando marcar o mais novo dos irmãos Horta com os olhos. No banco, Keizer ia olhando os lírios do campo (mas o Veríssimo não estava lá, era o Godinho). Até que o Braga finalmente reduziu a desvantagem. Autor: Wilson Eduardo, ex-jogador da nossa Formação e já habitual carrasco do Sporting, um ala que se tivesse ADN do Mali (ou de qualquer outro recanto do mundo que não Alcochete) seria titular de caras dos leões esta noite.

 

Eis então que Keizer finalmente mexe, alterando o sistema para 3 centrais, mas com a nuance (positiva) de Mathieu desta vez ficar posicionado no eixo da defesa (Neto, recém-entrado, derivou para a esquerda), o que dá sempre jeito quando se pretende recuperação defensiva. (Eu não disse que Keizer nunca repete o mesmo erro?)

Ricardo Horta ainda podia ter empatado, mas a equipa pareceu ter ficado mais consistente, algo reforçado posteriormente com a entrada de Vietto (sacou duas faltas que fizeram "acelerar" o cronómetro) para o lugar de um inoperante Felipe das Consoantes, o qual se havia deixado antecipar frequentemente na área (não dá para pôr uns pedacinhos de picanha à entrada da pequena área, a ver se o homem lá vai como gato ao bofe?). Aliás, tanto Luíz Phellype como Raphinha foram dois jogadores com um PH claramente neutro, nada tendo feito de produtivo. Com Diaby formaram o terceto mais apagado dos leões.  

 

Quem andasse pelas imediações do Alvaláxia no final do jogo, e não soubesse o que se tinha passado, olhando para os rostos dos adeptos leoninos julgaria que estes estariam a sair de um dos filmes do Poltergeist, ou de uma qualquer saga do John Carpenter. É que se o golo é caro, a saúde ainda o é mais. E esta noite todos os que fomos a Alvalade perdemos uns anitos de vida. Os jogadores do Sporting também, pelo menos a avaliar pela forma como mal o jogo terminou se prostraram no relvado. Oxalá estes 3 preciosos pontinhos se venham a revelar de alto rendimento (decisivos), e assim façam valer a pena tanto sacrifício. 

 

Tenor "Tudo ao molho": Renan Ribeiro

 

P.S. No decorrer do jogo não pude deixar de pensar que Francisco Geraldes, actuando numa posição semelhante à que JJ reservou para João Mário, teria dado um jeitaço. É que nas alas houve correria a mais e discernimento a menos. Partindo da direita, ou da esquerda, Xico poderia ter pautado de outra forma os ritmos de jogo, adicionando inteligência ao processo. 

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18
Ago19

Vender qualidade, comprar banalidade


Pedro Azevedo

1) Mínimo de 35 milhões de euros investidos em 11 jogadores, desde Janeiro de 2019, dos quais só um é titular.

 

2)  Alguém explique por que é que, estando a cotação Transfermarket do Vietto em 6 milhões de euros aquando da sua transferência, comprámos metade do seu passe por 7,5 milhões de euros. Igualmente, qual a razão pela qual, estando a cotação de Dost nos 17 milhões de euros (Transfermarket), este foi vendido por 8/9 milhões de euros (as fontes variam). É que a ideia que fica é que compramos acima do valor de mercado e vendemos abaixo do mesmo valor (e por uma diferença percentual muito significativa). É isto um atestado de competência negocial? 

 

3) Adoptando a ‘contabilidade criativa’ que passámos a considerar para as transferências, gostaria de perguntar, entre preço de compra e salários até ao final do contrato, qual o custo efectivo de Vietto. Assim, se o vendermos no entretanto, já ficarei a saber quanto "rendeu"...

 

4) Tal como uma acção ou uma obrigação, o activo-jogador (direito economico) tem um rendimento durante o período em que está na nossa posse. Só que não é um dividendo (caso das acções), ou um cupão (obrigações), mas sim o seu desempenho desportivo. Isto não deve ser ignorado, mas sim ponderado face ao custo de mantê-lo ou ao custo de oportunidade (contratação de outro jogador).

 

5) O Eintracht vendeu Loca Jovic (Real Madrid) por 60 milhões de euros e Sébastien Haller (West Ham) por 40 milhões de euros. Compra agora Bas Dost, segundo melhor marcador europeu (Bota de Prata, só atrás de Messi) em 16/17, por um valor alegadamente inferior a 10 milhões de euros. 

17
Ago19

Na na na na na não!?


Pedro Azevedo

"When the music`s over"...

 

Já vinha pré-anunciado no meu Post anterior e é agora uma realidade: Bas Dost vai sair do Sporting. Inclusivé, no meu esboço de plantel para esta época havia admitido vendê-lo desde que por um valor superior a €20 milhões. 

 

Não é que não goste de um jogador que connosco marcou 93 golos em 127 partidas, olho é para as contas da SAD, para a redundância de contratações sem qualquer sentido e percebo que não há milagres. Com um défice estrutural anual de cerca de 60 milhões de euros, ir ao mercado comprar 11 jogadores desde Janeiro - já nem falo do Lico, Ronaldo e Wang, ou Tang, ou lá o que é... - só pode ser uma brincadeira, na medida em que não só nos constringe ainda mais a tesouraria como aumenta o peso das amortizações nos Resultados, valor que se encontrava nos €8 milhões em Junho de 2014 e que agora, 5 anos depois, deverá andar já acima dos €30 milhões (28 milhões de euros em 30 de Junho de 2018). Tenho vindo a tentar alertar os Sportinguistas sobre as consequências desta política desportiva que se assemelha (em compras em quantidade) à praticada na temporada de 2016/17, mas talvez agora este acontecimento-choque alerte para o real estado das nossas contas e para a necessidade emperiosa de se apostar na Formação, sob pena de, não o fazendo, termos de vender a SAD para não fechar as portas. O mais curioso é que, apostando na Formação, poderíamos ter os tais jogadores que fazem a diferença. A continuar neste caminho, teremos uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma.

 

Está em marcha aquilo que eu previa: gradualmente vamos assistir à venda dos nossos melhores jogadores a fim de tapar o buraco financeiro agravado pelas compras. Aqueles serão substituídos por jogadores de classe média/baixa com os quais o nosso desempenho desportivo se irá sucessivamente deteriorar. É evidente que tudo teria sido diferente se tivessemos apostado na Formação - melhor ou pior, não me parece inferior aos que chegaram desde Janeiro - e procurado no mercado 1 ou 2 jogadores que pudessem fazer a diferença, conseguindo-se assim compatibilizar na folha de pagamentos os jogadores mais caros do plantel, nomeadamente Dost que tinha um vencimento muito elevado (ainda assim de cerca de 1/7 do valor gasto em transferências este ano). Não foi o caso e agora, depois dos 35 milhões de euros investidos (fora as comissões ainda não reveladas do Mercado de Verão) em 11 jogadores, dos quais apenas 1 é titular (Doumbia), corremos o risco de ainda ter de vender mais alguém, com um dos 3 melhores jogadores da equipa (Acuña) à cabeça. E isto se Bruno não vier ainda a sair. 

 

Não sei qual o valor de venda de Dost e repugnam-me estas "coincidências" de nas vésperas destes acontecimentos serem postas a circular notícias sobre custos adicionais com empresários, etc. Gostaria, sim, que quem estivesse à frente do meu clube o pusesse sempre em primeiro lugar. Em termos genéricos, penso que não precisamos da Comunicação para defender pessoas, mas sim o clube. Só espero que essas notícias não sirvam para nos fazer compreender que Dost tinha de ser dado, para que assim se pudessem pagar salários... 

 

Quero confiar, pelo menos, que a venda do holandês permita que se compre o avançado móvel e letal na área de que necessitamos. Estranho é não ver Gelson Dala na convocatória (cheia de defesas e médios) para o Braga, ele que tem essas características e só precisa de um treinador que lhe dê confiança. Afinal, porque razão se travou o empréstimo do angolano ao Antuérpia de Boloni? Para não o ter num jogo importante para nós, quando só Luíz Phellype está disponível? E Pedro Mendes, para que serve? Enfim, a celebérrima aposta na Formação que está a caminho. Por um caminho de cabras, é certo.

 

Termino, desejando a Bas Dost as maiores felicidades. Gostaria de lhe deixar um singelo tributo, pois sempre me emocionou a sua alegria no campo, o seu companheirismo (procurando logo os colegas após os golos) e o seu profissionalismo. Ele parecia genuinamente feliz de estar connosco! Bas Dost sempre foi um senhor, assim continuando mesmo após o drama de Alcochete, em que ele foi o nosso atleta mais violentado. Regressou cheio de ganas, mas após a lesão não voltou ao mesmo nível. Mais do que vítima de um sistema que não o favorecia - marcou muitos golos nos primeiros tempos de Keizer - , nos últimos tempos parecia não tão transbordante de alegria. Talvez já estivesse a sentir os empurrões. E não me refiro àqueles que ocorrem na grande área... 

 

Obrigado Bas Dost! (E que continues a "dostar" por aí.)

 

P.S. Seria interessante alguém analisar o rácio de golos por remate de Bas Dost e compará-lo com o de outros "artistas do golo". Dost nunca teve muita bola na área, mas quando a bola lhe chegava era quase sempre letal.

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17
Ago19

A razão do Sporting


Pedro Azevedo

Cada Sportinguista deve começar a pensar que mais importante do que ter razão é a razão assistir ao clube. Vou dar um exemplo: uma política de aposta na Formação é a única capaz de garantir a sustentabilidade do clube, isso deve ser entendido como um axioma. Como tal, e de uma vez por todas, é preciso dizer que quem estiver contra isto, está contra o Sporting e o seu futuro. Não basta dizer que a Formação não tem qualidade, há que perceber se quem chega tem mais qualidade do que os jogadores da nossa Formação. Auguste Comte, pai da corrente do Humanismo, dizia que tudo na vida é relativo, sendo esse o único valor absoluto das coisas. Ora, não podemos, ano após ano, desbaratar recursos que andámos a desenvolver para depois se contratar igual ou pior. Porque é que somos tão taxativos na qualificação negativa da nossa Formação e tão evasivos na avaliação de quem vem de fora? É essencialmente devido a isso que chegámos a este ponto de sufoco financeiro e de míngua de títulos. O que deveremos fazer, isso sim, é ir ao mercado apenas para buscar aquela qualidade-extra que nos faltar. E isso tem de ser feito de uma forma absolutamente criteriosa e em pequena escala e não nos actuais termos, em que vamos comprando mais de uma dezena de jogadores por época. O Ajax não deixa de promover miúdos aos séniores e hoje em dia não tem Cruijff, Van Basten ou Bergkamp. (Aliás, apesar de terem tido grandes gerações, os holandeses nunca foram campeões europeus de juniores e a última vez que foram finalistas foi em 1970, sinal de que os seus jogadores vão amadurecendo com o tempo e as oportunidades dadas nas equipas principais dos clubes.) Por isso lançou De Ligt, o qual curiosamente hoje em dia é colega no centro da defesa de Demiral, um jovem turco (literalmente) que em Alvalade nunca encontrou ninguém que apostasse nele. No entanto, a Juventus não hesitou em adquiri-lo, um ano apenas após ter abandonado o Sporting. Outros há que andaram a perder tempo connosco, chamados de volta muitas vezes para encobrir o fracasso da política de contratações. Aliás, foi por essa razão que Palhinha, Podence e Geraldes (os dois últimos acabados de ganhar a Taça da Liga pelo Moreirense) foram chamados a Alvalade no decorrer da temporada de 16/17. Geraldes que ainda voltou em Janeiro de 2019 para novamente não ter uma oportunidade, mesmo que Keizer fosse dizendo que trabalhava bem e que apenas não jogava porque o lugar era de Bruno Fernandes. Curiosamente, pouco depois, havendo indefinição à volta da permanência de Bruno, já não houve hesitações em colocar Geraldes no AEK da Grécia, certamente porque Diaby (Keizer em entrevista admitiu poder jogar a "10") e Vietto davam mais garantias. A continuarmos assim, acabaremos por ter de vender apressadamente a qualidade (os Acuña, Coates, Dost, mesmo o Mathieu para pagar salários) que conseguimos adquirir ao mercado (admitindo que Bruno não sai), ficando com uma equipa enfraquecida e cheia de jogadores de classe média-baixa que as nossas saudades dos "descobrimentos" nos trouxeram. 

Também não basta bater no peito e dizermo-nos Sportinguistas e depois andarmos a brincar aos "sportingados", "brunistas", "letais", "leais", "croquetes", etc. Onde está a razão do Sporting nisso tudo? Essa multiplicidade de conceitos gera dispersão e é na verdade um atentado à Cultura do clube e à sua identidade, criando confusão nas mentes das pessoas e não apelando à união. Para além de que é puramente ruído. Tudo isto parte de um princípio totalmente errado: não são os homens que têm de ser combatidos, mas sim os seus actos ou as suas ideias (se for caso disso). A discussão e crítica "ad-hominem" é pobre e completamente descentrada do essencial que é o clube. Disse-o na passado quando as críticas a Bruno Carvalho ultrapassaram a linha da sua gestão e digo-o agora em relação a Frederico Varandas. No dia em que permitirmos, porque conjunturalmente nos possa agradar, que a discussão à volta do clube seja tomada por radicais, então estaremos mais perto do fim. E creio, infelizmente, que esse fim estará mais próximo. Com muita dor e pesar o digo. E não me venham falar em "too big to fail" e em preconceitos desse género, que disso eu e os portugueses (e não só) já temos a nossa dose.

 

Não se pode alterar o passado, mas pode-se agir no sentido de haver um futuro. Nos dois casos enunciados, a sobreposição das razões individuais de cada um às do clube só tem contribuído para a alienação da nossa sustentabilidade e Cultura corporativa. É por demais evidente que se isto continuar o clube irá definhar até à morte. Morte, sim, pelo menos do clube como sempre o conhecemos, pois poderá sempre advir a possibilidade de um investidor comprar a SAD, naquilo que, a acontecer, terá de ser visto como o maior atestado de incompetência a todos nós, sócios do Sporting Clube de Portugal.  

15
Ago19

O caminho


Pedro Azevedo

Tenho 3 filhos: um rapaz e duas meninas, mais concretamente. Uma das meninas é demasiado pequenina para ter visto o Sporting vencer. Os dois mais velhos eram também demasiado pequeninos na época para hoje terem qualquer recordação de um Sporting campeão. Quero, por isso, fazer a festa do título com eles. E depois repeti-la, uma e outra vez. Em casa, no Marquês, no estádio, em qualquer lado onde houver Sportinguistas à nossa volta que possamos abraçar. Mas, se não ganharmos durante mais uns anos, pelo menos que estejamos seguros da perenidade do clube e que continuemos a confiar no caminho seguido.

 

Se um presidente existe, chame-se ele João Rocha, Amado de Freitas, Jorge Gonçalves, Sousa Cintra, Santana Lopes, José Roquette, Dias da Cunha, Soares Franco, José Bettencourt, Godinho Lopes, Bruno Carvalho ou Frederico Varandas, é para fazer os sócios felizes. Não vejo o exercício do mandato presidencial de uma outra forma. Houve um tempo na minha vida em que me bastava ser do Sporting para ser feliz, sem precisar propriamente de qualquer outro motivo, algo que o poeta Carlos Drummond de Andrade dizia ser a mais autêntica forma de felicidade. Acontece que a minha ideia de Sporting é um todo. Por isso, se tenho um clube partido e não se faz o suficiente para o consertar, esse todo é menor. E isso não me pode deixar feliz. Ainda mais do que consertar, há que concertar uma estratégia que a todos envolva e galvanize. O clube deve viver para os Sportinguistas, não é concebível que sobreviva apesar dos Sportinguistas. Nessa situação, embora a base continue a ser de Sportinguistas, o expoente será menor, pelo que o Sporting enquanto potência valerá menos. Ora, eu serei sempre menos feliz como parte de um grupinho do que enquanto integrante de um Sporting uno e indivisível. Quer isso dizer que desejo um clube acrítico? Obviamente que não. Tenho bem resolvido na minha cabeça que não é a critica que divide, mas sim a incerteza quanto à resolução dos problemas. Na realidade, o ser humano sabe conviver com o bom e com o mau. Em ambas as circunstâncias, adapta-se. O que o ser humano não sabe é viver com a incerteza. Tal gera ansiedade, angústia, depressão. E cria ruído. Nesse sentido, o maior problema do Sporting actual não é a maior ou menor confiança no caminho seguido, é a falta de percepção de que caminho é esse, tão diferente parece ele ser na prática daquilo que foi previamente anunciado. 

14
Ago19

Dr House (with a porch) e o Ajax Limpa Tudo


Pedro Azevedo

Um elabora o diagnóstico, o outro executa. Exterminadores implacáveis da Formação, especialmente da que já não é teenager, não há germes, perdão genes (com ADN desenvolvido em Alcochete), que não sejam neutralizados no acesso à equipa principal. Espera-se que tudo não termine numa espécie de anatomia da grei leonina.  

14
Ago19

O amor é... por José Duarte(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José Duarte, a.k.a. "Leão de Alvalade". Novo nestas lides, ia lendo esporadicamente o "A Norte de Alvalade", o blogue do qual o José Duarte é autor, quando um dia me deparei com um texto genial, de um humor temperado das proporções certas de inteligência, fina ironia e prazeiroso sarcasmo, que aqui recordo, recomendando-o vivamente a quem não teve oportunidade de lêr. Como quem me acompanha se vai apercebendo, a ironia é uma ferramenta essencial ao meu bem-estar: na sua companhia poupei-me a levar demasiadamente a sério a minha existência, evitando aquele deslumbramento tão enganador que nos faz descolar da nossa humanidade e perder as referências; com ela, em tempos de cólera no meu clube, não deixando de criticar aquilo que não me parece bem, tenho feito o que me é possível para passar uma mensagem que não aumente a temperatura e adicione ruído numa era em que os sócios do Sporting se veem permanentemente obrigados a viver encostados a uma coluna a bombar de uma discoteca. Ora, este supracitado texto do José foi para mim um sortilégio, ou seja, um bocadinho de magia, como um dia ouvi definir num pequeno café na Boulevard St Michel, ali no Quartier Latin. A partir daí tornei-me leitor assíduo do blogue, pese embora nem sempre o José siga a sua orientação editorial nesse sentido que tanto me agrada. A inteligência numa pessoa foi sempre algo que me fascinou, a humildade também. Neste breve contacto que mantivémos a propósito do meu pedido para colaborar nesta série, o José mostrou-me uma faceta humilde que só se encontra nos verdadeiramente grandes. É por isso com redobrado prazer que sem mais demora aqui vos deixo o texto que o José Duarte, "um leão a Norte, onde se é leão por convicção", escreveu por amor ao Sporting:

 

"Ser especial é ser de um clube especial.

 

Sou daquelas pessoas que tanto confia quase cegamente como se transforma num ensimesmado patológico, quando alguma coisa parece não bater certo. Foi o caso deste convite do Pedro Azevedo em escrever um artigo para o seu blogue. Comecei por me perguntar "porque raio alguém que escreve tão bem sobre o Sporting" quer umas linhas minhas, eu que escrevo cada vez mais esparsamente, cada vez mais de forma superficial e de escrita cheia de lugares comuns? 

A dúvida foi crescendo ao ler o texto do Rui Monteiro, cuja escrita deliciosamente mordaz admiro. Ao dar de caras, quase de seguida com o do Pedro Correia, a quem fiquei a dever um artigo que não fui capaz de concluir, ainda mais hesitante fiquei. Mas a vaidade, que a tantos perde, preparou-se para fazer mais uma vítima e aqui estou eu.

A verdade é que eu nem sequer sou um bom exemplo de Sportinguista. Não o sou de berço nem de tenra idade, porque o futebol ou o desporto em geral não eram tema de conversa em casa, apesar do meu pai ser sportinguista. Se tivesse que ser de algum clube por influência familiar certamente que seria benfiquista, uma alegria que não consegui dar à minha querida Tia Ly. Fervorosa adepta do nosso rival, ouvia os relatos religiosamente e até cuidou de me oferecer um equipamento completo, que ainda assim não foi suficiente para me evangelizar para a sua causa.

Não sei precisar quando despertou em mim o interesse pelo Sporting. Mas sei exactamente o momento em que percebi que era uma paixão que iria ficar para toda a vida. Falo mais precisamente do dia 22 de Agosto de de 1981 quando, de férias em Lisboa, e valendo-me da desculpa de um passeio, entro sozinho na superior sul do velhinho Alvalade e assisto à inauguração do campeonato nacional 1981/82. 

Aqueles nomes que eu só conhecia de ouvir falar, de ver fotografias nos jornais ou de aparecer na televisão estavam ali à minha frente em carne e osso. O bigode do Meszaros, a elegância que fazia do difícil fácil do Eurico, os bailados felinos do Jordão (marcou 2 golos, selando assim para sempre a condição de ídolo intemporal) ou a geometria aplicada de Oliveira, tudo parecia ali ao alcance. O Sporting tinha um treinador novo, cuja memória fez questão de arquivar de camisa branca e charuto, e que se fazia acompanhar de um preparador físico "diferente" de nome Roger Spry. Factos que tomara conhecimento previamente no jornal "A Bola" cujos fascículos desse verão versando a contratação do mago Oliveira me tinham arruinado e eu havia devorado com avidez.

Ainda hoje não consigo explicar a razão da empatia imediata que então me envolveu na grandiosidade daquele cenário vibrante. Era como se eu sempre tivesse estado ali e era seguramente ali que eu ia pertencer para o que restasse dos meus dias. Havia como que uma magia no ar, tudo me parecia grandioso, belo, magnífico. Quando no final do dia tentei adormecer as emoções, já depois de tranquilizar os meus tios assustados pela surpresa pouco habitual da ausência prolongada, tive uma tarefa morosa. 

Nem o facto de o resultado ter sido tão decepcionante  como a frouxidão da exibição diminuiu o efeito do encantamento. Sofremos para alcançar o empate, o Belenenses fez-nos a vida negra mesmo terminando com um guarda-redes improvisado na baliza. Não o sabia então que na minha estreia em Alvalade seria imediatamente vacinado contra todo o qualquer desgosto ou infortúnio. A glória do nosso lema haveria de se cumprir no final de época, engalanada numa apetitosa dobradinha.

Como todos os amores esta relação teve altos e baixos. Os embaraços e tristezas, porém, têm uma dimensão microscópica quando ombreiam com o orgulho que sinto em ser e dizer que sou Sportinguista. O encantamento do primeiro encontro em Alvalade era apenas a semente do que se haveria de transformar numa paixão perene alimentada pelo sentimento de pertença a uma instituição especial. Mais do que diferente, como muitas vezes é designado, é especial.

Fundado por aristocratas ainda no regime monárquico, tornou-se num clube de dimensão nacional e popular de forma transversal a toda a sociedade portuguesa, quando o mais natural é que se tivesse ficado na exclusividade de um grupo restrito. Percursor, pioneiro e ecléctico, colecionador de medalhas e recordes olímpicos e mundiais, formador de melhores do mundo e campeões europeus, cumpriu o sonho de ser tão grande como os maiores da Europa.

Um desígnio que sempre que é cumprido tem de ser outras tantas vezes recomeçado. Esse permanentemente sobressalto é a armadilha perfeita para o coração cujo sentimento de pertença ao clube dos  Stromp, de Jorge Vieira, Azevedo, do Zé da Europa, Peyroteo, dos 5 Violinos, do Damas, do Agostinho, do Livramento, Moniz Pereira, Carlos Lopes tantos outros me faz sentir especial. Ser do Sporting foi uma escolha especial."

 

(*) José Duarte, autor de "A Norte de Alvalade"

 

P.S. Mais autores da blogosfera passarão por aqui, mas no entretanto abro este espaço aos leitores que se queiram candidatar a escrever sobre o seu amor ao Sporting. Bastará para tal enviarem um texto com o título "O amor é..." para a caixa de comentários de um qualquer dos meus Posts. 

13
Ago19

A teoria do todo


Pedro Azevedo

Já é habitual, quando as coisas não correm bem numa equipa de futebol, o treinador ser logo posto em causa. A meu ver, na conjuntura actual do Sporting, o técnico, apesar de muito longe de estar isento de erros ou limitações próprias, não é o problema principal, pelo que a sua imediata substituição não me parece que resolva de forma definitiva os problemas existentes. Também não vou enumerar exaustivamente neste Post os erros evidentes de gestão desportiva por parte da Direcção do clube (escolha de um treinador alegadamente da escola Ajax, mas que não partilha de muitos princípios da referida escola), algo aliás comum a outras direcções no passado. O que motiva este Post é uma reflexão não conjuntural, mas sim estrutural, sobre as causas do nosso permanente insucesso, recorrendo para tal a uma análise de cima a baixo sobre a organização do futebol do Sporting.

 

Quando olho para o tipo de futebol que Keizer pretende apresentar, saltam à vista alguns estereótipos: alas de pé trocado para fomentar o jogo interior, uma posição "6" encarada mais como tipo limpa pára-brisas (daí talvez o Ajax, limpa-vidros evidentemente...) do que como início de construção do jogo. Aqui residem os primeiros equívocos da montagem do actual plantel e também se torna evidente a entropia entre Formação e equipa principal. Vou tentar explicar de seguida: se eu quero que os meus alas venham para dentro, então necessito de laterais ofensivos que subam nas costas dos alas e vão à linha cruzar para Dost. Ora, se em relação a Thierry (ainda tímido e a dar os primeiros passos a este nível) e Rosier (lesionado) ainda é cedo para se tirarem conclusões definitivas, no caso de Borja é por demais evidente que não possui as características ideais para o que é requerido. Não estando dentro da Estrutura e não conhecendo qual a importância da opinião de Keizer nas nossas idas ao mercado, não me é possível determinar se a contratação do colombiano foi um erro de Scouting, ou se tal deve ser assacado ao treinador, o que me parece evidente é que Borja não é o jogador adequado para o sistema posto em prática pelo treinador holandês. A não ser que a ideia de utilização ofensiva dos laterais seja só dissuasora e destinada apenas a criar uma ilusão no adversário para depois o "matar" pelo centro... Já no que diz respeito à posição "6", fica exposta a falta de coordenação entre o futebol sénior e juvenil. Só assim se compreende que em Alcochete tenhamos durante anos desenvolvido para essa posição um médio com características de construção do jogo ofensivo (Daniel Bragança) para depois, na equipa principal, querermos um tipo de jogador diferente, mais corpulento e dissuasor do que criativo. 

 

Há demasiados erros conceptuais no projecto do futebol do Sporting. Creio, por isso, que mais do que um novo treinador o que necessitamos é de um Director Técnico. O Sporting precisa de alguém que seja um pensador de todo o futebol do clube e que possa actuar com total autonomia, numa abordagem "top-down", definindo o tipo de jogo que se pretende praticar a nível sénior - se a Direcção, como entendo que o deve fazer até em função de poder chamar mais gente aos estádios, definir como prioridade uma ideia de "futebol positivo", então o Director Técnico deve procurar modelizar um sistema de jogo compatível com tal - , sugerindo à Direcção treinadores que se possam adequar a esse desiderato, coordenando o futebol juvenil, de forma a que as rotinas implementadas se assemelhem tanto quanto ao possível à realidade dos seniores, trabalhando com os treinadores da Formação no sentido de serem desenvolvidas determinadas características em futebolistas jovens que mais tarde possam constituír uma mais-valia no plantel principal. A meu ver, esse Director Técnico deveria também ser responsável pelo complemento da formação de jovens treinadores a trabalhar na Academia, facilitando assim o seu crescimento na Estrutura até, alguns deles, poderem assumir-se como timoneiros da equipa principal do clube (vidé o exemplo de Bruno Lage no Benfica), ganhando assim o projecto por haver técnicos bem identificados com o processo. 

 

O investimento na Formação tem de ter um propósito para além da futura poupança de custos no futebol profissional. Como tal, desde tenra idade os nossos jovens devem estar identificados com o processo de treino dos seniores. Assim ganhar-se-ão jogadores plenamente identificados com as metodologias e rotinas do plantel principal, uma vantagem comparativa face a quem vem de fora. Adicionalmente, a existência de um Director Técnico com plenos poderes permitirá ir monitorizando o crescimento individual de cada miúdo e estabelecer estimativas do potencial de cada um, elementos fundamentais na ligação à gestão de activos. É que não só de craques vive a Academia e é preciso rendibilizar todos os anos o investimento produzido, pelo que a venda de alguns jovens não considerados prioritários também ajudará a produzir algumas receitas. (Há anos que defendo o pré-diagnóstico e escalonamento dos nossos jovens em 4 categorias - excelente, muito bom, bom e razoável - , de forma a ser possível tomar decisões sobre o seu futuro.)

 

Da forma como entendo o modelo, de cada vez que o treinador principal necessitar de um jogador com determinadas características, o Director Técnico deve primeiro procurar se elas existem na Academia, ou se é possível desenvolvê-las em tempo útil. Caso tal não seja possível, então, sim, dever-se-á recorrer ao mercado. (Se tivermos um miúdo nos escalões jovens que precisa de mais 1 ano para amadurecer, mais vale ir buscar um veterano tipo Mathieu que me faça uma temporada do que investir bastante dinheiro na compra de um jovem promissor que depois vai tapar o lugar ao produto da nossa Academia.) Como profundo conhecedor que será das necessidades da equipa principal, o Director Técnico deverá sempre ter a última palavra, ficando numa posição hierarquicamente superior ao chefe do Scouting, de forma a que sejam limitados ao máximo os erros de "casting". Bom, também defendo que as transferências devem ser acompanhadas por um Comité de Compliance, mas isso é conversa para um outro dia. 

 

P.S.1:  Alguns Directores-Técnicos possíveis que já trabalharam em Portugal: Lazlo Boloni, Luis Castro, Jesualdo Ferreira. Nota: a estes, ou quaisquer outros (verdadeira escola Ajax ou Barcelona agradam-me) ser-lhes-ia previamente informado que em nenhuma circunstância assumiriam a função de treinador.

P.S. 2: Para quem associa a meu ver excessivamente a qualidade ou abundância dos relvados da Academia com o rendimento, e para alguns que zombaram do facto de em tempos, quando apresentei uma estratégia global para o Sporting, ter falado (a propósito do capítulo "Sustentabilidade da Política Desportiva") na necessidade de (também) recriar as condições do futebol de rua em Alcochete, aqui fica para reflexão: https://maisfutebol.iol.pt/historia/internacional/o-ajax-esta-a-mandar-os-miudos-para-a-rua-literalmente

13
Ago19

O amor é... por Pedro Correia(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o Pedro Correia. Antes de mais, cumpre-me a obrigação de informar que se estou presente na blogosfera devo-o ao Pedro (se não gostarem de me lêr, já sabem para onde enviar a factura), algo de que nunca me esqueço. Foi ele, sem me conhecer, que um dia me desafiou para alinhar no plantel do "És a nossa FÉ" e assim poder ter o privilégio de escrever sobre a minha primeira importante escolha na vida, o Sporting, um amor que não tem fim.

O Pedro tem sido obreiro de vários casos de popularidade: para além do supracitado blogue, de que foi fundador e onde permanece há já largos anos como o co-autor mais influente e profuso, ele é também co-autor do "Delito de Opinião". Cerebral, directo, contundente, provocador por vezes, o Pedro tem um raro instinto para tudo o que possa ser notícia, característica que aliada a uma opinião que procura sempre fundamentar, a uma técnica narrativa irrepreensível e à sagacidade empregue na esgrima de argumentos com os seus leitores o tornam uma figura incontornável da blogosfera. Hoje vão lê-lo porventura num registo um pouco diferente, que isto de falar de amor a um clube obriga-nos a passar a nossa vida em revista. Ilustrando-o, PC enriquece o seu belo texto dando-nos conta de viagens por um mundo onde o Sporting foi sempre uma companhia constante e marcante, sinal inequívoco da implantação de um gigante por vezes sem consciência da sua real relevância social. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Pedro nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Amar o Sporting é cultivar alguns dos valores que mais prezo. Ser fiel às origens, às tradições, à devoção clubística – antónimo de clubite. Praticar a lealdade em campo e fora dele, rejeitando golpes baixos. Gostar muito de vencer, sim – mas sem batota. Recusar ódios tribais a pretexto da glória desportiva. Nunca confundir um adversário com um inimigo, sabendo de antemão que o futebol (só para invocar o desporto que entre nós mobiliza mais paixões) é a coisa mais importante das coisas menos importantes, como Jorge Valdano nos ensinou. 

Amo o Sporting pela marca inconfundível do seu ecletismo. Os meus primeiros heróis leoninos, ainda em criança, eram Leões de corpo inteiro sem jogarem futebol. Foi o Joaquim Agostinho a brilhar nos Alpes e a vencer etapas na Volta à França depois de ter sido o maior campeão de ciclismo de todos os tempos em Portugal. Foi o António Livramento, artista exímio com um stick nas mãos, campeão europeu de verde e branco, além de campeão mundial a nível de selecções. Foi o Carlos Lopes, recordista absoluto do corta-mato europeu, brioso herói da estrada, medalha de prata nos 10 mil metros em Montreal, primeiro português a subir ao pódio olímpico, de ouro ao peito, naquela inesquecível maratona de 1984 em Los Angeles.

Amar o Sporting é abraçar o universalismo que fez este nosso centenário clube transbordar os limites físicos do País e galgar fronteiras. Conheci fervorosos sportinguistas nas mais diversas paragens do planeta. Nos confins de Timor, no bulício de Macau, na placidez de Goa – lá estão, com a nossa marca inconfundível, sedes leoninas que funcionam como agregador social naqueles países e territórios, assumindo em simultâneo uma ligação perene a este recanto mais ocidental da Europa. 

Amar o Sporting é cultivar a tenacidade de quem nos soube ensinar, de legado em legado, que nunca se vira a cara à luta. João Azevedo a jogar lesionado entre os postes, só com um braço disponível, enfrentando o Benfica num dos clássicos cuja memória perdurou através das gerações. Fernando Mendes, um dos esteios do onze que conquistou a Taça das Taças em 1964, alvo de uma lesão no ano seguinte que o afastou para a prática do futebol, mas capaz de conduzir a equipa, já como treinador, ao título de 1980. Francis Obikwelu, nigeriano naturalizado português e brioso atleta leonino que saltou da construção civil onde modestamente ganhava a vida para o ouro nas pistas europeias em 2002, 2006 e 2011. 

Campeões com talento, campeões com garra, campeões inquebrantáveis – mas também campeões humildes, conscientes de que nenhum homem é uma ilha e um desportista, por mais aplausos momentâneos que suscite, é apenas uma parcela de um vasto arquipélago já existente quando surgiu e destinado a perdurar muito para além dele. Na Academia de Alcochete, no Estádio José Alvalade, no Pavilhão João Rocha, somos conscientes disto: ninguém ganha sozinho. Antes de Cristiano Ronaldo havia um Aurélio Pereira, antes de Livramento havia um Torcato Ferreira, antes de Carlos Lopes havia um Mário Moniz Pereira.

O desporto com a genuína marca leonina não cava trincheiras: estende pontes, transmitindo a pedagogia da tolerância e cultivando a convivência entre mulheres e homens de diferentes culturas, ideologias, crenças e gerações. 

É também por isto que amo o Sporting: fez-me sempre descobrir mais pontes que trincheiras. O que assume relevância não apenas no desporto: é igualmente uma singular lição de vida."

 

(*) Pedro Correia, fundador e co-autor de "És a nossa FÉ", co-autor de "Delito de Opinião"

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