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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

22
Ago20

50%Dala+75%Geraldes+3M€=Nuno Santos


Pedro Azevedo

O reino da subjectividade situa-se na ponta mais ocidental da Europa. Aqui é possível sempre adoptar qualquer versão à vontade de quem comenta, menos quando os factos são de tal forma evidentes que batem de frente com a percepção da realidade que se pretende criar.

 

Como exemplo do que acabo de escrever, tomemos a recente contratação de Nuno Santos e concomitantes dispensas de Gelson Dala e de Francisco Geraldes. Lendo o que se comenta por aí fica a sensação que a preocupação de muito boa gente é não permitir que a verdade se entreponha numa boa história. 

 

O que se diz então por aí? Sobre Gelson Dala começa por se dizer que o Sporting só cedeu metade do seu passe. Dito desta forma até parece que reteve a outra metade. Acontece que um mínimo de aprumo levaria os interessados a analisar os R&C da sociedade. Ora, olhando, por exemplo, para o R&C anual de 2018/19 (página 113 de 164) é possível verificar que o Sporting apenas possuía 50% dos Direitos Económicos do atleta angolano. Entrando na análise propriamente dita da sua valia como futebolista circula a tese de que, não tendo sido titular com Carvalhal no Rio Ave, isso seria razão mais do que suficiente para justificar a falta de interesse do Sporting na sua continuação. Fixem bem o pormenor da utilização de Carvalhal como argumento, pois mais à frente, a propósito de Nuno Santos e de uma entrevista que o ex-treinador rioavista concedeu ao Tribuna Expresso em que considerou ter ponderado colocar o ala como interior até que concluiu que ele era muito mais útil como extremo, o actual treinador do Braga já é para os mesmos um Zé-Ninguém, na medida em que é preciso criar uma narrativa em como Nuno Santos encaixa bem no 3-4-2-1 de Ruben Amorim. É o que se denomina desonestidade intelectual. Adiante... 

 

Vamos a indicadores objectivos? Querem números? Pois, aqui estão eles. É certo que Gelson Dala só realizou 14 jogos para o campeonato pelo Rio Ave. Há, no entanto, uma razão para isso ter acontecido: o angolano só chegou em Janeiro, proveniente dos turcos do Antalyaspor. Alguns também dizem que na comparação com Taremi ficou a perder. Realmente, olhando para os dados verificamos que Taremi marcou 18 golos e Dala apenas 6. Curioso, fui ver o número de minutos de utilização de cada um. Eis senão quando me deparo com os seguintes indicadores: em 2352 minutos de utilização na Primeira Liga, Taremi obteve 18 golos (vários de penálti) e produziu 5 assistências. E o Dala? Ora, o angolano foi apenas utilizado em escassos 583 minutos, marcando por 6 ocasiões (sem penáltis) como atrás foi dito e dando 3 assistências (além de ter provocado várias grandes penalidades a favor dos rioavistas). Conclusão: O Taremi marcou 1 golo a cada 131 minutos e o Dala fez abanar as redes a cada 97 minutos, o iraniano demorou 470 minutos entre cada assistência, o angolano apenas precisou de 194 minutos entre cada passe para golo. Mais impressionante: não encontrei nenhum jogador da Primeira Liga que precisasse de tão pouco tempo quanto Gelson Dala para marcar 1 golo. Mas, como quem chegou foi Nuno Santos e não Taremi, fui ver os números do antigo ala vilacondense. Pois então, o Nuno fez 32 jogos para o campeonato onde marcou 2 golos e assistiu em 6 ocasiões. Em média, tendo sido utilizado em 2521 minutos na Primeira Liga, marcou 1 golo a cada 1261 minutos (13 vezes pior rácio que o de Dala). - "Ok, mas o Dala é ponta de lança, o Nuno Santos dá golos a marcar" - , dirão os do costume. Bom, o Nuno assistiu a cada 420 minutos (2,16 vezes pior rácio que o do angolano). Ah, já me esquecia: o Dala marcou estes golos como segundo avançado, médio ofensivo ou ala direito improvisado. Em Portugal só foi ponta de lança mesmo no Sporting B. Conhecem os números? Eu digo-vos: 17 golos em 23 jogos (1829 minutos), 1 golo a cada a 107 minutos de utilização. I rest my case...

 

Quanto ao argumento de que o angolano desperdiçou as oportunidades que lhe foram concedidas por diversos treinadores no Sporting, oferece-me dizer o seguinte: é extraordinário como uma utilização na Primeira Liga inferior a 1 minuto permite chegar a essa conclusão. Há pessoas de facto muito adiantadas no tempo, cuja genialidade permite extrapolar conclusões deste tipo. Eu cá ficarei à espera dos ecos das maravilhas que o Nuno Santos conseguirá fazer no seu 1º minuto de verde e branco, sendo certo que, pelo mesmo padrão de exigência, tudo o que não seja um golo de cabeça, outro de calcanhar e um pontapé de bicicleta, ou, vá lá, de triciclo, me deixará profundamente decepcionado. 

 

E o Geraldes? Bom, o Chico não teve uma época brilhante, pouco utilizado no AEK de Atenas e no Sporting. Porém, para o comparativo ser rigoroso, recuemos a 17/18, época em que o Geraldes representou o Rio Ave. Tinha 22-23 anos, realizou 30 jogos, marcou por 3 vezes e produziu 7 assistências na Primeira Liga. Em média, pós 2319 minutos de utilização, obteve 1 golo a cada 773 minutos e fez uma assistência a cada 331 minutos, ambos os números inferiores aos de Dala e superiores aos de Nuno Santos no último ano.

 

Ouve-se por aí também o argumento de que estamos a limpar a casa e que com a dispensa destes 2 jogadores vamos poupar salários. Ora, uma leitura do Relatório de Auditoria que infelizmente se tornou público permite concluir que no final de 2018 Geraldes tinha um vencimento ligeiramente inferior a 100.000 euros/ano. Quanto a Dala, o angolano auferiu cerca de 225.000 euros nesse ano. O que não se poderia então dizer sobre Rosier, Borja, Neto, Eduardo, ou mesmo Ilori cujo contrato até tem uma comissão anual de manutenção? Já para não falar de Vietto, cuja relação custo/benefício é assaz duvidosa. 

 

Mais uma vez estamos na presença de um caso de desperdício de talento (ou últimos retoques) fabricado em Alcochete, a somar a tantos outros de que mais tarde nos lamentamos. Todavia, esperemos que um caso semelhante ocorrido no Seixal venha a reverter favoravelmente para nós. Nuno Santos fez a sua formação no Benfica e chega agora ao Sporting. Oxalá, por uma vez, venha a ser um caso sério e uma futura glória do clube. Creio que todos os Sportinguistas querem isso. O que não invalida que o negócio no papel não pareça bom à luz dos indicadores que aqui deixo. (Para além de que, a não ser que Ruben Amorim tenha um plano alternativo envolvendo um 4-4-2 ou um 4-3-3, me parece difícil o encaixe de Nuno Santos como interior nos dois enganches atrás do ponta de lança que o treinador leonino sempre utiliza.) Porque uma coisa é desejarmos sempre o melhor para o clube que amamos, outra é não querermos aceitar a realidade como ela é nem que para tal tenhamos de recorrer a lendas e narrativas. E todos já sabem o que eu penso sobre os amanuenses.  

 

P.S. Gelson Dala tem 24 anos. Geraldes e Nuno Santos têm 25 anos. 

geraldes e dala.jpg

nuno santos.jpg

2 comentários

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    Pedro Azevedo 23.08.2020

    Escrevo creio que há 3 anos em blogues e não paro de me surpreender com algumas reações. Penso que o facto de o futebol ser portador de muitas emoções tolda um pouco o espírito às pessoas. Não esqueço porém que somos todos Sportinguistas e que deverá existir sempre um elo de respeito e consideração entre todos nós. Às vezes, quando ganhamos, eu também quero acreditar que estamos no trilho certo. Olho para o processo que não me agrada de todo, mas quero sonhar, saborear a vitória. Entendo isso como humano, não podemos só viver de coisas negativas. A esperança e o Sporting são duas coisas que andam de mãos dadas. Tal como a resiliência, aliás. Só gostava é que aquilo que é dito no seu devido tempo servisse para alguma coisa de positivo. Até a forma como é dito - sei que o meu caro partilha essa veia irónica - pretende que a crítica não seja tão literal, não doa tanto. Mas se nada evolui, pelo contrário retrai, tudo isto acaba por se constituir de uma vã inutilidade. É aí que surge a consciência social de cada um e o desejo pessoal reformista. Eu gostaria de mudar isto para melhor, tal como outros Sportinguistas. Mas o tempo passa e a sua passagem, em vez de vir acompanhado de lições do tempo, enferma cada vez mais de uma percepção da realidade que nos é transmitida que o próprio Aldous Huxley envolto numa tripe de LSD no seu Doors of Perception pareceria um aprendiz de feiticeiro. São tristes estes tempos e é preciso ter a coragem de o afirmar. Agora é o Acuña que parece que se vai embora. Logo nos dirão que quer sair, à semelhança do Nani, Bas Dost e Mathieu. E do Palhinha, já me esquecia. E cá ficaremos sós, a respirar (suspirar) por um(a) palhinha, o tal que era indiscutível para Ruben no Braga e que Varandas afirmou parentoriamente que integraria o plantel de 20/21.
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