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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

25
Mai20

Os Salteadores da Alma Perdida


Pedro Azevedo

Em cada Sportinguista há um arqueólogo em busca da alma perdida, uma identidade que outrora nos tornou invencíveis e se extraviou algures no inexorável tempo. 

 

A história diz-nos que essa alma foi mais alimentada por vitórias do que propriamente pela força de uma idiossincrasia suficientemente vigorosa que nos unisse. Ora, não ganhando campeonatos de forma consecutiva desde 1954 e não vencendo em ano ímpar a partir de 1953, os Sportinguistas foram perdendo a sua identidade colectiva. O que resta hoje são fragmentos de memórias individuais de grandeza que urge serem colados a fim de formarem um todo que depois de reunido se pretende superior à soma das partes. 

 

Sejamos francos, o Sporting é um enorme clube, mas não está um grande clube. Ainda assim, é muito mais importante ser do que estar, pois isso é o nosso ADN, o que dá sentido à nossa existência em todos os momentos. Nesse sentido, ser Sporting agrega até o verbo que transmite identidade com o substantivo que denomina a nossa tribo. E é pela nossa tribo que devemos começar. O que é um ser do Sporting? Se pensarmos bem, existem demasiados clãs nessa tribo e isso, ao longo dos anos, tem fragmentado o nosso outrora ideário comum. Se não vejamos: já fomos um clube eclético, deixámos de o ser e voltámos a sê-lo, os sócios ora são vistos como sinal de vitalidade ora como um empecilho, há quem queira entregar o futebol a investidores privados, a formação não passa de um slogan tantas vezes apregoado e tão pouco cumprido que mais se assemelha a um placebo destinado a criar um "wishful thinking" no sócio e adepto. E estamos sempre a recomeçar, num sem-propósito, como se de um castigo de Sísifo se tratasse.

 

Ao contrário do que se possa pensar, num clube tantas visões estruturais diferentes não são um sinal de vitalidade. Pelo contrário, são um sinal de fraqueza. Há coisas que não devem ser postas em causa, pois não só confundem as pessoas e atentam contra aquilo que deveria ser a nossa identidade comum como abrem as portas à desagregação e ao radicalismo. É que um clube sem referências está exposto a tudo aquilo que configura o pior da nossa sociedade. E esse é o Sporting dos nossos dias, um clube sem uma Cultura corporativa forte capaz de bloquear determinado tipo de comportamentos, em que o presidente, em vez de doutrinar pelo exemplo e aproximar as pessoas do centro, é ele próprio, por instinto de preservação pessoal, fomentador do maniqueísmo e da guerra de trincheiras que não criou.

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07
Mai20

Quiz47 - A bisar contra Ivkovic


Pedro Azevedo

Já vimos que Ivkovic foi duas vezes eliminado das provas europeias pelo Sporting até se juntar a nós. O que eu quero que me digam hoje é quem foram os únicos dois jogadores do Sporting que participaram em ambas as eliminatórias, a primeira em 82/83 (Taça dos Campeões), a segunda em 87/88 (Taça das Taças). Aguardo as Vossas respostas. 

06
Mai20

Quiz46 - Se não podes com eles, junta-te a eles


Pedro Azevedo

O nosso Quiz está de volta e hoje com uma pergunta de algibeira: quem foi o nosso antigo jogador de futebol que após ter sido eliminado por duas vezes (em duas equipas diferentes) pelo Sporting nas competições europeias acabou por ingressar no nosso clube?

03
Mai20

Mudar de paradigma


Pedro Azevedo

Há um pecado original em toda a concepção do futebol do Sporting que passa pela ideia enraízada na SAD de que a venda de jogadores é uma actividade corrente e não extraordinária, algo que tem sido assumido tanto por Frederico Varandas como por Salgado Zenha. A forma como isso tem sido transmitido não se destina apenas a tirar relevo ao facto do défice de exploração sem venda de jogadores ser alarmante no cenário de progressivo enfraquecimento do valor do activo intangível (plantel), mas constitui essencialmente um erro conceptual que tem implicações negativas a vários níveis.

 

O objectivo de formar deve estar sempre acompanhado do objectivo de desenvolver. Ora, eu não consigo desenvolver algo que já vendi prematuramente. O objectivo do Sporting deve ser sempre o de ganhar campeonatos. São as vitórias na competição mais importante do calendário nacional que dão palmarés, prestígio nacional e internacional e garantem qualificações para a fase de grupos da Champions e concomitante aumento de proveitos (receitas). A vantagem de investirmos na Formação é virmos a ter jovens de qualidade no plantel. Essa base evita idas desnecessárias ao mercado que acarretam um custo de aquisição, comissão a agente do jogador e custos fixos anuais com salários, fiscalidade, seguros, etc. Como o custo de aquisição não entra pela totalidade na Demonstração de Resultados, mas sim em amortizações (o custo é dividido pelo número de anos de contrato), o impacto é relativamente reduzido o que parece motivar as transferências. Acontece porém que o custo anual entra na DR e cada má aquisição vai empolar os Custos com Pessoal e, por inerência, os Gastos Gerais. Outra coisa é o efeito em termos de tesouraria, que tem a ver com o prazo de pagamento acordado com o Fornecedor (clube vendedor), geralmente até 1 ano, onde o custo do salário mensal bruto também produz efeito. E quando não há dinheiro e se recorre ao financiamento, crescem os custos financeiros que também irão pesar no Resultado do exercício. 

 

Mas, voltando à Formação, quando o presidente diz abertamente que a ideia é formar e vender está a laborar num erro. A ideia deve ser formar e ganhar, mesmo que recorrendo também ao mercado para se ir procurar a qualidade que pode faltar. Para além de que esta ideia errada cria na mente do jovem jogador a percepção e ansiedade de que pode vir a sair em breve. E quando essa expectativa sai gorada, acaba por pressionar a SAD no sentido de que o vendam, pois desde cedo, mais do que interiorizar como realização pessoal e profissional jogar na equipa principal do Sporting, projectou no seu imaginário a saída para o estrangeiro.. Não creio que tratar publicamente um jogador como mera mercadoria produza qualquer benefício em termos de Cultura Sporting, da nossa alma e identidade, pelo que deveremos repensar tudo isto. Caso contrário, os sócios e adeptos continuarão a queixar-se da pouca ligação afectiva dos jogadores ao clube, esquecendo-se que em muitas situações foi a nossa gestão, um acto nosso, que conduziu a isso. Sem olvidar que muitas vendas prematuras de pérolas da nossa Formação acontecem porque entretanto se gastou dinheiro desnecessariamente em jogadores que só vieram acrescentar à conta de exploração da SAD.

 

Finalizando, acredito num projecto sustentável com custos controlados, eliminação de gorduras estéreis e músculo proveniente de fibras jovens da nossa Formação e jogadores de qualidade indiscutível importados do mercado. O middle-market é a nossa ruína e deve ser erradicado. Não é sustentável gastar 50 milhões de euros num ano em 15 jogadores que não fazem objectivamente a diferença, quando se deveria cirurgicamente (mas com bisturi de cirurgião plástico e não de talhante) comprar 2-3 jogadores de 10 milhões de euros que efectivamente produziriam a diferença e transformariam a equipa para melhor. E ir ano a ano reforçando essa qualidade nos mesmos moldes, de forma a termos uma equipa competitiva e capaz de se bater de igual para igual com os nossos concorrentes no prazo de 2 anos e sem estrangulamentos de tesouraria. Menos quantidade e mais qualidade, menos desperdícios e mais atenção ao que formamos, evitando vender prematuramente jogadores que nos poderão dar outro rendimento (desportivo e financeiro) depois de convenientemente desenvolvidos, essa seria a minha solução. 

 

P.S. O Sporting nasceu com o objectivo do sucesso desportivo. Portanto, é sobre a política desportiva que temos de nos debruçar primeiramente. Resolvida esta, os resultados desportivos virão, as finanças ficarão equilibradas e a Cultura Sporting será restaurada. Isto não pode ser confundido de forma alguma com a ideia que o nosso negócio é compra/venda de jogadores, o que será quanto muito um meio, nunca um fim, e não deve ser o nosso "core business". O crescimento das receitas deve ser proveniente dos títulos, participações na Champions e da união que se conseguir criar na família leonina. Outro tipo de receitas devem sempre ser vistas como extraordinárias, por muito que o facto de estarmos num país periférico obrige a vender um ou outro jogador. Mas que tal decorra de ser bom para o jogador e para nós, não por estarmos em estado de urgência.

09
Abr20

Contos de um Leão Rampante

Ivaylo Iordanov


Pedro Azevedo

"Leão indomável"

Fato preto, camisa da mesma cor, gravata branca, quando o vi pela primeira vez, acenando a todos nós no tartan azul cinza de Alvalade, o Iordanov parecia uma reminiscência de um daqueles filmes americanos sobre Chicago no tempo da Lei Seca. A coisa para além de retro até era irónica, ou não fosse o Ivaylo proveniente de uma Bulgária que durante tantos anos foi um estado socialista de partido único, integrante da Cortina de Ferro liderada pela URSS. Mas a Perestroika e a Glasnost viriam a despertar nas pessoas o desejo de uma maior abertura política, fazer implodir o poder do Partido Comunista búlgaro e dar origem a uma revolução (pacífica) que terminou com a adopção da primeira constituição democrática desde a 2ª Guerra Mundial. Concomitantemente, deixavam também de figurar as limitações à saída dos seus principais jogadores, os quais anteriormente só podiam emigrar após os 30 anos. Grandes jogadores como Stoichkov, Lechkov, ou o nosso velho conhecido Balakov viriam a beneficiar dessas circunstâncias e o mesmo se passaria com Iordanov, acabando todos por se reunirem naquela mítica equipa búlgara que obteve um quarto lugar no Mundial de 94.  

 

A verdade é que as primeiras impressões podem ser bem enganadoras. O Iordanov era um excelente rapaz, de todos os que vi provavelmente o que melhor terá compreendido a importância daquele símbolo de leão que levou no peito durante as 10 temporadas que esteve connosco. Desde o início, o seu compromisso connosco foi total, deixando tudo no campo como trabalhador notável que sempre foi. Como tal, não admira que o apodassem de "mochilas", porque ele parecia carregar às costas o peso de toda uma nação leonina, compensando nessa entrega uma qualidade técnica menos apurada do que a de outros colegas. Quantas e quantas vezes o colectivo não funcionava, a equipa parecia amorfa, até que o Iorda pegava na bola, baixava a cabeça, cerrava os dentes e lá ia, sempre em frente, galgando metros e empolgando as bancadas. O seu estilo não era o mais ortodoxo, longe disso, mas tinha uma alma indomável de leão. Essa identificação com a nossa causa tornou-o capitão. O segundo estrangeiro da nossa história a merecer tal honraria, depois do brasileiro Vagner (campeão em 74, o ano anterior a ter envergado a braçadeira pela primeira vez) ter sido o primeiro. 

 

Se no campo ele era sempre esfusiante de vida, fora dela foi enganando a morte. Primeiro, sobrevivendo a um terrível acidente de automóvel em que fracturou a coluna, depois controlando a esclorose múltipla com que foi diagnosticado. A tudo reagiu com esperança e bonomia, raça e perseverança, continuando a treinar e a jogar quando era chamado. Mesmo após a sua retirada, um tumor nos intestinos atravessou-se-lhe no caminho. Venceu-o da mesma forma que ultrapassava os adversários.  

 

Há porém duas datas às quais o nome de Iordanov ficará para sempre ligado no meu imaginário. A primeira é o 10 de Junho de 1995, em que o Sporting venceu o Marítimo por 2-0 no Estádio Nacional e arrecadou a Taça de Portugal, quebrando um enguiço de 13 anos. O Iorda marcou os dois golos, ambos de cabeça, voando acima de dois insulares para melhor poder corresponder ao centro de Calos Xavier, ou aproveitando uma bola perdida na área. Eu estive lá e recordo-me dos golos e de o ver a celebrar no relvado com Sousa Cintra, o homem que o trouxe para o Sporting e tinha deixado de ser presidente poucos dias antes (sucedeu-lhe Pedro Santana Lopes). A segunda é o 14 de Maio de 2000, em que seguimos o Iordanov até à Rotunda após a vitória no Vidal Pinheiro que nos devolveu o título de campeão 18 anos depois. A festa foi muito bonita e mais bonita ainda ficou quando o Iorda subiu a uma grua e pendurou um cachecol na Estátua do Marquês de Pombal perante a euforia geral dos Sportinguistas que aí ocorreram. 

 

Iordanov, um campeão da vida!

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02
Abr20

O Super-Lopes


Pedro Azevedo

A primeira vez que o vi ele flutuava imperialmente sobre uma superfície lamacenta e revolta pelo frequente galope dos cavalos. Estávamos em 1976 (28 de Fevereiro) e disputava-se o Campeonato do Mundo de corta-mato. O local: o Hipódromo de Chepstow, no País de Gales. À época Portugal tinha poucas conquistas de relevo no desporto internacional, pelo que a retumbante vitória de Carlos Lopes não me apanhou apenas a mim de surpresa, mas também todo uma nação. Uns meses mais tarde, num outro país e continente (Montreal, Canadá, América do Norte), ei-lo de novo perante os meus olhos. O cenário agora era ainda mais grandioso, visto que a cidade canadiana do Quebec organizava os grandiosos Jogos Olímpicos de Verão. Lopes competia agora em pista, na prova de 10 000 metros (26 de Julho), e não estava entre os principais favoritos. Estes eram o belga Emiel Puttemans, os britânicos Tony Simmons e Brendan Foster e o finlandês e campeão olímpico em título Lasse Viren. O português, que já mostrara anteriormente estar em forma ao vencer a sua série de qualificação, foi logo para a frente impôr ritmo. Um a um, os seus adversários iam ficando para trás, impotentes para acompanharem a passada do homem de Vildemoinhos. Só Viren resistia quando faltavam 500 metros para o fim. Até que o finlandês, suspeito de fazer transfusões do seu próprio sangue previamente congelado, se foi embora e ganhou a medalha de ouro. Carlos Lopes ficou com a prata, tornando-se o primeiro português a ganhar uma medalha em atletismo nuns Jogos Olímpicos. 

 

Após o exuberante ano de 76, Lopes não teve a progressão desejada. Em 77 ainda se sagra vice-campeão mundial de "cross", mas uma arreliadora lesão no tendão de aquiles afasta-o das principais competições mundiais e a carreira está quase a perder-se. Durante 5 anos, o atleta português enfrenta o calvário, resistindo a uma operação que não dava amplas garantias de continuidade de carreira. Optando por tratamentos conservadores, encontra o mestre Koboyashi, o homem que com as suas agulhas de acupuntura salva o português para a competição. Em Maio de 81 vê o seu compatriota e colega de treino, Fernando Mamede, bater o record da Europa dos 10 000 metros. O feito de Mamede espicaça-o. Até que o viseense renasce das cinzas como a fénix e em Oslo, em 26 de Junho de 82, tira mais de 3 segundos à marca do alentejano do Sporting e torna-se o novo recordista da especialidade. Em 83, nova medalha de prata no Mundial de "Cross". O português volta a sagrar-se campeão mundial de corta-mato em 84, nos EUA, batendo o inglês Hutchings e o galês Steve Jones, prenúncio para um resto de temporada fantástico que inclui a obtenção da segunda melhor marca mundial de todos os tempos nos 10 000 metros, em prova onde Mamede bateu o record mundial (Estocolmo), e a primeira medalha de ouro olímpica portuguesa com a vitória na Maratona dos Jogos de los Angeles, batendo o record mundial da prova que celebra a distância percorrida pelo soldado grego Philippides entre Marathon e Atenas. Em 85, correndo em casa e alegando má forma, bate uma dupla africana formada pelo queniano Kipkoech e o etíope Bulti e realiza o hat-trick de vitórias mundiais em corta-mato. Tem 38 anos e nesse momento não há ninguém no mundo que duvide que ele é o atleta mais complato de sempre no combinado de pista, corta-mato e estrada. 

 

Carlos Lopes, um campeão "made-in Sporting".

02
Abr20

Contos de um Leão Rampante - Hector Yazalde(*)


Pedro Azevedo

"Um anjo com cara de índio"

 

O menino permanecia imóvel, como que hipnotizado, diante do imponente Blaupunkt com gravador de bobines, gira-discos e, mais importante, rádio de válvulas onde se podia por exemplo ouvir a BBC. Nesse dia, 31 de Março de 1974, o rádio não estava sintonizado na popular estação britânica, mas sim na Emissora Nacional. A dupla Fernando e Romeu Correia relatava um Sporting-Benfica, o último derby antes da Revolução de Abril, e a vibração da sua narrativa exercia um magnetismo ímpar no menino.

Eram 15h08 e Portugal inteiro parou: os locutores tentavam descrever, ainda incredulos, o que haviam presenciado. Hector Yazalde, o anjo com cara de índio, desafiara o impossível, qual cavaleiro alado mergulhara em voo rasante entre os pés do monstro Humberto e do intratável Barros e, a vinte centímetros do solo, cabeceara (!) a bola na direcção da baliza. Golo!

O jogo continuaria, mas já não seria o mesmo. Naquele momento, ao minuto 8, os espectadores no Estádio sentiram-se recompensados por anos de "idas à bola". Yazalde ainda voltaria a marcar e o Benfica até acabaria por ganhar, mas o Jogo, esse, terminara há muito.

A última aparição pública de Marcelo Caetano (Abril estava mesmo ali), a ovação tremenda e, ver-se-ia, tão enganadora, foi simplesmente olvidada, menosprezada. O momento era de Yazalde, o corajoso e temerario Chirola, o Homem que nunca esquecera as suas origens humildes e que sempre que saía de um treino, presenteava todos os jovens desfavorecidos que o abordavam com tudo o que tinha nos bolsos, entretanto previamente provisionados; o colega que, uns meses depois, quando lhe atribuíram um Toyota, como prémio pela Bota de Ouro europeia, decidiu vender o automóvel e distribuir o dinheiro que daî resultou, equitativamente, por todos os colegas de equipa.

Nesse dia, todos queriam ser Yazalde, até os políticos e os capitães queriam ser Yazalde e Yazalde deixou de ser humano para se tornar um mito em Alvalade, génio impulsionado pela sua musa, a bela Carmén, a quem um dia Beckenbauer, no Lido de Paris após a cerimónia de entrega do Bota de Ouro, disse ser a mais bela de todas as mulheres de jogadores de futebol.

E, o menino? O menino imaginava aquele momento do golo, a ousadia do dianteiro, o espanto dos defesas, o desespero do guarda-redes José Henrique, o Zé Gato, que nesse transe perdera a última das suas sete vidas, sendo substituído ao intervalo por Manuel Galrinho Bento (esse mesmo). E o menino sonhava com isto tudo, estado que se prolongou por todo o Domingo.

No dia seguinte, vestiu a mítica camisola verde-e-branca, com o número 9 cosido nas costas (comprada na Casa Senna), bola na mão, e abalou a caminho da escola, confiante de que a partir daí, nada na sua vida seria impossível de alcançar. Aprendera com o melhor...

 

(*) Publicado originalmente neste blogue em Janeiro de 2019

23
Fev20

Isto não é o Sporting!


Pedro Azevedo

Vencido um jogo europeu, Silas rapidamente entrou no modo-desculpa tão comum ao povo português. Quando já julgávamos ter ouvido tudo, eis que segundo o treinador leonino Janeiro correu mal porque o Bruno Fernandes não estava com a cabeça aqui. Como se já não bastasse ver Varandas desculpar o mau planeamento da época com a continuidade de Bruno, agora é Silas que se sente no direito de também sacudir a água do capote despejando-a nos ombros do antigo capitão dos leões, ele que foi sempre o Atlas do Sporting que vai a campo. Tudo isto não só é inaceitável como é elucidativo de uma Cultura Sporting que não respeita aqueles que se transcendem e dão tudo de cada vez que envergam a nossa camisola. No caso concreto, quando os jornais davam como iminente a sua saída para Inglaterra, Bruno ainda resolveu um jogo em Setúbal contra um misto de doentes e convalescentes em que os seus dois golos foram decisivos para a vitória, totalizando 15 golos, 14 assistências e participação importante em 2 outros golos em meia-época, números que juntou a 48 golos, 36 assistências e 36 participações importantes nas duas épocas anteriores. Esmagador!

 

Neste estranho mundo actual do Sporting estamos permanentemente a ouvir coisas contra-natura como o "zero ídolos", que nos querem fazer crer que a relação com o clube não se confunde com os grandes atletas que o representaram. É imperioso remar contra isto, sob pena de um dia acordarmos para a realidade e percebermos que não temos referências, sem as quais enfrentaremos definitivamente o vazio. Nesse sentido, as palavras de Silas não são respeitadoras para com quem em inúmeras circunstâncias levou a equipa ao colo, resgatando-a das profundezas do Inferno e dando-lhe o Céu, como atesta o seu contributo decisivo para a conquista da Taça de Portugal do ano transacto, troféu que juntou a uma Taça da Liga onde também teve um comportamento meritório. Esse é o Bruno Fernandes que merece ser recordado por todos, aquele deus dos estádios que soube adquirir uma forma humana para se adequar à equipa que tinha. Pelo menos enquanto teve equipa e alguém à sua volta que compreendesse a sua música: como o menor número de participações importantes em golos nesta temporada comprova, a perda sucessiva de jogadores como Nani, Raphinha ou Dost acabou por fazer muitos passes de ruptura seus, no início da construção de jogadas, perderem-se ingloriamente. Além disso, se Bruno desceu de rendimento assim tão visivelmente, conviria perguntar a Silas porque não o tirou da equipa. Mas isso já não interessaria à narrativa desculpabilizante.

 

Um dia, Silas será uma nota de rodapé na história do enorme Sporting Clube de Portugal. Já Bruno Fernandes, por muito que alguns não lhe perdoem a rescisão, constará dela a letras de ouro por aquilo que nos deu no campo de jogo. Além disso, a cada sua entrevista descobrimos um homem inteligente, capaz de ver para além da linha do horizonte, muitas vezes apontando auspiciosos caminhos que esta Direcção e seu quinteto de treinadores nunca ousaram percorrer. Por isso, Bruno, obrigado por tudo e desculpa estas infelizes declarações do teu outrora treinador. Isto não é o Sporting!

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22
Fev20

Quiz45 - A primeira grande estrela


Pedro Azevedo

Proveniente do futebol profissional, foi a primeira grande estrela do futsal português num tempo em que a modalidade ainda era denominada de futebol de salão e tinha regras ligeiramente diferentes. Posteriormente, acompanhou a transição para o actual futsal. Todo ele era virtuosismo. Malabarista, fora de série, dada a sua rapidez, engenho e baixa estatura os mais chegados chamavam-lhe Topo Gigio, em alusão a um simpático e diligente  ratito que Rui Guedes introduziu na televisão portuguesa. De leão ao peito actuou durante 6 épocas de glória, muitas vezes conciliando-o com actuações nos EUA e Espanha. Nascido em Angola, viria a morrer cedo (aos 31 anos), devido a um enfarte do miocárdio ocorrido durante um jogo de futsal da sua equipa de então. Quem é?

09
Fev20

Vamos a Alvalade!


Pedro Azevedo

O problema de termos consciência política é que às vezes ficamos tão reféns das nossas convicções que facilmente podemos confundir quem conjunturalmente nos dirige com a instituição. Nesses momentos é fundamental pensarmos na origem das coisas, regressando ao passado para nos lembrarmos da razão de sermos do Sporting. No meu caso particular, o Sporting não é só um grande amor presente, foi o meu primeiro amor. O que me deu, a companhia que me fez, em Portugal ou no estrangeiro - num tempo sem internet, "gadgets" ou "devices" em que a informação não fluía como hoje - , as tardes e noites que com ele comunguei nunca lhe poderei pagar em vida. Porventura, talvez fosse bom que todos - sócios, adeptos, Direcção - reflectíssemos que o clube nada nos deve, nós é que lhe devemos muito e em todas as circunstâncias. (Mesmo quando nos desilude, ensina-nos a importância da resiliência.)  

 

Nenhum homem é uma ilha. O privilégio que nos é concedido de pertencermos a uma gesta tão gloriosa quanto a de Peyroteo, Carlos Lopes, Joaquim Agostinho, Yazalde, Moniz Pereira ou Aurélio Pereira, Salazar Carreira ou Reis Pinto, Ribeiro Ferreira ou João Rocha é algo tão único e especial que dificilmente se poderá traduzir em palavras. Se calhar, seria bom aprendermos com as crianças, despirmo-nos de filtros, preconceitos e verdades absolutas, e nem que seja por 90 minutos tomarmos a essência do que é o Sporting. Eu recordo como a minha paixão começou por se alimentar da onda média da rádio e se transformou num tsunami aquando da primeira vez que pisei o solo sagrado do antigo José Alvalade. Temos de trazer de volta essa vivência, essas emoções, razão pela qual me incomoda tanto aquele autismo de o hino não ser respeitado naquilo que tem de quase litúrgico, introspectivo, de esmagamento do homem perante algo tão maior e grandioso. Escutemos então aquilo que nos diz o coração. E comunguemos do Sporting e do sportinguismo. Já hoje, pela tarde, em Alvalade. 

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05
Fev20

CR35!!


Pedro Azevedo

Esforço, dedicação, devoção e glória. Sempre o primeiro a chegar aos treinos e dos últimos a sair após uma recuperadora sessão de crioterapia, encontra nova motivação após cada recorde quebrado, a cada título individual ou colectivo conquistado. Campeão europeu e vencedor da Liga das Nações da UEFA por Portugal, 5 Champions por Real (4) e Manchester United (1), 5 Bolas de Ouro de melhor jogador do mundo. Parabéns Cristiano Ronaldo! Haverá alguém nos relvados que corporize melhor o lema do nosso Sporting Clube de Portugal? Infelizmente, hoje em dia não o podemos ver de leão ao peito. Mas, quem sabe se um dia não o voltaremos a ver de verde-e-branco a marcar golos como estes que deixo aqui em galeria...

1º golo pelo Sporting

1º golo pelo Manchester United

1º golo pelo Real Madrid

1º golo pela Juventus

1º golo por Portugal

Golo de bicicleta

Golos de calcanhar

Incríveis golos de cabeça

Melhores golos de livre

AND COUNTING!!!

31
Jan20

Não digam que não avisei


Pedro Azevedo

Após os 12 788 espectadores que estiveram em Alvalade na última segunda feira terem vindo confirmar uma média de assistências significativamente inferior à de anos anteriores, ademais em jogo que já se previa poder ser de despedida de Bruno Fernandes, recupero aqui um Post de 30 de Junho de 2019 que aborda(va) questões como o preço dos bilhetes de época, a mobilização geral dos sócios através de uma comunicação eficaz, o défice de Cultura Sporting que está na origem da confusão que se produz entre sócio e cliente e a ausência de uma política destinada aos jovens que não passe só pela Bancada Sul. Não esquecendo que o momento da equipa de futebol, o dia da semana ou as condições meteorológicas (temas não abordados nesta reflexão) têm muita influência, aqui fica "Venha-viver-uma-experiência-radical - Um estádio às moscas":

 

"A Lei da Procura diz-nos genericamente que o preço e a procura estão inversamente relacionados. Quando o preço de um bem ou serviço sobe, o poder de compra diminui e os consumidores mudam para bens ou serviços mais baratos (efeito de substituição). Considerando o rendimento limitado, essa realocação de bens e serviços dependerá de preferências, restrições orçamentais e de escolhas, podendo ainda se dar o caso de o consumidor deixar simplesmente de consumir o tipo de bem ou serviço, especialmente se não for de primeira necessidade. 

 

Olhando para a última estatística disponível no site da Liga, verificamos que o Sporting teve uma média de 33 691 espectadores nos seus jogos em casa durante a temporada de 2018/19, o que corresponde a uma taxa de ocupação de 66,73%. Ora, não deixando de considerar que vários portadores de gamebox não compareceram a todos os jogos e que a taxa de ocupação não reflecte, como tal, o que foi realizado economicamente (apesar das "borlas" poderem compensar este valor), não deixa de ser notório que, em média, 1/3 do estádio não teve ocupação, com consequências óbvias em termos económicos, de apoio à equipa de futebol, na Cultura corporativa, identidade do clube, peso institucional, patrocínios, etc. Perante este cenário, dever-se-iam criar condições para que se aumentasse rapidamente a taxa de ocupação do estádio até à sua máxima capacidade, de forma a que, então sim, quando a optimização fosse atingida, se pudesse começar a manusear para cima a variável preço. Porém, a realidade da Gamebox 2019/20 demonstra o contrário, com particular incidência no sacrifício que é pedido às Famílias, por via do aumento significativo registado no escalão sub-11 (a que se pode acrescentar a realidade dos dias de hoje, em que os jovens ficam até mais tarde em casa dos pais e deles são dependentes até pelo menos terminarem os estudos universitários - por volta dos 23 anos - e entrarem na força laboral, o que aumenta os encargos das Famílias). 

 

Antes de mais, e com o estádio ocupado a apenas 2/3, não faz sentido os preços aumentarem. Isso quanto muito poderia em teoria fazer sentido se a subida do preço viesse acompanhada de um aumento de produção de lugares - o que num estádio de futebol é impossível dado que a sua capacidade é limitada (a não ser que fosse proposto cobrir o fosso com mais espaço de bancada) - , ou uma melhoria de produção de eventos, do tipo de uma presença na Champions, algo que infelizmente também não acontecerá. Adicionalmente, do ponto-de-vista político, é uma medida impopular, inoportuna e imprudente, o que julgo não carecer de explicação. Finalmente, analisando pelo prisma da Cultura sportinguista, oferece-me dizer o seguinte: vários anos de ausência de títulos relevantes produziram uma diminuição da militância, mas, curiosamente, não causaram erosão sensível na base de apoio de simpatizantes, adeptos e sócios, tendo estes últimos, inclusivé, vindo a aumentar nos últimos anos. Tal deveu-se em boa parte a um factor distintivo dos sportinguistas: a capacidade que os pais têm tido de passar o amor ao clube aos seus filhos, de uma forma estóica e resiliente, o que tem permitido manter o impacto social do clube. Ora, em minha opinião, esta subida de preços mais sentida no escalão sub-11 é contraproducente a vários níveis, na medida em que em vez de estimular o reforço da presença do agregado familiar no estádio (com consequências positivas até no ambiente nas bancadas, recuperando tempos idos e diversificando o entusiasmo por diferentes sectores do estádio) acabará por o mitigar, porque obrigará em muitos casos a um "downgrade" de lugares com o impacto que isso tem em termos de curva de satisfação e experiência Sporting e, finalmente, porque nalguns casos pais e filhos trocarão o lugar na bancada por um lugar no sofá junto ao televisor, por a taxa marginal de substituição de satisfação do progenitor não pressupor a vantagem de ir à bola com o filho em detrimento de abrir mão de lugares de Categoria 1/2, por exemplo.

 

Há quem use o argumento de que alguns sócios compravam gamebox em nome dos filhos e iam eles aos jogos. Krugman e Wells levantaram a questão de se saber se os indivíduos na busca do seu interesse próprio contribuiriam para o interesse da sociedade no seu conjunto e o caso referido parece indicar que não, mas isso são questões que se deverão resolver com regulação (no caso, fiscalização à entrada através de cores de cartões diferenciadas).

 

Gostaria de terminar, com um reparo ao folheto de promoção do Cartão Gamebox que me chegou às mãos ontem. Nele está contida uma relação explícita entre o amor ao clube e os números que marcam a relação, como se tudo o que conta pudesse ser contado. Há mesmo uma alusão à "dimensão do teu amor". Eu acho triste esta mensagem que poderá não ser muito bem recebida por quem seja sócio há pouco tempo, tenha gamebox há poucos anos, ou seja simplesmente um simpatizante, pois há aspectos que vão desde a distância geográfica, idade, doença, disponibidade profissional, situação financeira, entre outras, que são condicionantes mas em nada prejudicam o amor ao clube. Até estou perfeitamente à vontade dada a minha ligação longa de sócio e portador de gamebox, mas deixo aqui uma nota em jeito de conselho para quem queira ouvir: os sócios são o maior activo do clube. Estes são movidos pela paixão, independentemente das suas circustâncias pessoais. Pensem nisso, no que esses sócios podem dar ao clube e, em primeiro lugar, envolvam-nos no dia-a-dia através de uma Comunicação sóbria, elucidativa, inspiradora e virada para dentro. Depois, sim, um sócio feliz, o elo emocional, a compra por impulso trará o cliente, o qual mais facilmente visitará a Loja Verde se for ao estádio (e menos resistirá ao consumo perante um pedido expresso de uma criança). Ver as coisas ao contrário, no momento débil em que nos encontramos, em que precisamos de nos focar no que nos aproxima e não no que nos afasta, não é muito auspicioso.  

 

P.S. Seja como for, podendo haver quem legitimamente conteste o arrazoado que aqui deixo, creio que numa coisa estamos todos de acordo: este tipo de alteração de preços nunca deveria ter acontecido sem a explicação do seu "porquê". Infelizmente, no Século XXI, continuamos a ter empresas a comunicar o que fazem, como fazem, esquecendo-se da razão das coisas. É que o porquê das coisas é que cria a ligação emocional no sócio, quiçá cliente. No caso concreto, esta subida de preços deveria ter sido acompanhada de um discurso galvanizador do tipo do de Kennedy nas portas de Brandenburg, mas que simultaneamente mostrasse consciência (acusasse a recepção) do sacrifício que se está a pedir às pessoas.

P.S.1. O título deste texto é obviamente provocativo, única e exclusivamente com o propósito de fazer reflectir quem tem responsabilidades no clube. A minha renovação de gamebox será feita como habitualmente. E estou certo que a maioria dos portadores de gamebox tentará, consoante as suas possibilidades, se adaptar.

P.S.2. Um sub-23 (sub-11 também) que compre um lugar de época junto às claques (Categoria 6) gastará cerca de metade do que se acompanhar o seu pai num lugar de Categoria 1/2. Depois admirem-se. Dado todo o histórico recente, não deveríamos ter um Pelouro da Juventude que estudasse estas questões, que aumentasse a oferta aos nossos jovens em vez de a tornar mais redutora, mais própria de um "guetto"? O momento que o clube viveu muito recentemente não nos deveria prestar particular atenção ao segmento mais jovem?

P.S.3. Paralelamente, e atendendo às alterações demográficas em Lisboa, que trabalho está a ser desenvolvido para seduzir os milhares de residentes não-habituais (gamebox) e de turistas (bilhética jogo-a-jogo) com que esbarramos diariamente? Não faria sentido uma campanha de charme junto de embaixadas, consulados, câmaras do comércio, hóteis, etc?" 

29
Dez19

"Os Violinos" de 2019 para Castigo Máximo(3)


Pedro Azevedo

MODALIDADES (Nota: o atletismo teve um destaque à parte por ser a modalidade em que o Sporting é mais titulado, nacional e internacionalmente)

 

Modalidade do ano - Futsal: A conquista da Champions em futsal, modalidade que tem vindo a crescer exponencialmente em número de praticantes, foi um feito considerável. Há muitos anos que o Sporting vinha perseguindo este título, razão que associada à dimensão que a modalidade tem actualmente me leva a considerá-la a modalidade do ano de 2019 do clube.

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Secção do ano - Goalball/Desporto Adaptado: A equipa masculina revalidou o título europeu, a equipa feminina venceu-o pela primeira vez, proezas verdadeiramente notáveis para uma tão jovem modalidade. Duplamente titulada, a secção de Desporto Adaptado, onde está integrado o Goalball, está de parabéns. O clube tem neste momento 15 modalidades paralímpicas em acção.  

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Atleta do ano - Jorge Fonseca: Primeiro campeão mundial do judo português, Jorge Fonseca obteve o título (-100kg) na pátria da modalidade (Japão), o que certamente teve para si um significado especial. Como se tal já não fosse suficiente, sagrou-se (bi)campeão europeu de clubes ao serviço do Sporting. 

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Treinador do ano - Paulo Freitas: Apesar do hóquei em patins ter pouca expressão no mundo - para além da Península Ibérica, tem alguma divulgação em Itália e na América Latina (Argentina e Chile, principalmente) - , é uma modalidade que merece o carinho de todos os portugueses e dos sportinguistas em particular. Paulo Freitas falhou a revalidação do título nacional conquistado no ano anterior, mas em compensação venceu dois troféus internacionais muito importantes: a Liga Europeia (equivalente à Champions no futebol) e a Taça Continental (uma espécie de Supertaça Europeia com índice de dificuldade superior por disputada por 4 equipas). 

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Destaque especial - Andebol: Pela primeira vez atingidos os oitavos-de-final da Champions.

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Atleta do ano Andebol - Carlos Ruesga: A sua imensa classe pode ser atestada pelos destaques que a EHF deu dos golos espectaculares que obteve na Champions. A sua experiência foi fundamental para o Sporting ultrapassar a fase de grupos e o play-off de acesso aos oitavos-de-final, objectivo jamais atingido por qualquer outro clube português no actual formato da competição. 

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Destaque especial - Hóquei em Patins: Conquistas da Liga Europa e Taça Continental.

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Atleta do ano Hóquei em Patins -André Girão: Para além de ter vencido a Liga Europa e a Taça Continental, sagrou-se campeão do mundo por Portugal (competição disputada em Barcelona). Grande capitão de equipa e portador de uma mística praticamente incomparável, é hoje indiscutivelmente o melhor guarda-redes do mundo da modalidade. 

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Destaque especial - Judo: superiormente orientada por Pedro Soares, a equipa masculina de judo do Sporting revalidou o título europeu. Destaque ainda para a formação de atletas no clube, com natural destaque para o nóvel campeão do mundo Jorge Fonseca, um grande trabalho que tem vindo a ser coordenado também por Pedro Soares.

judo sporting.jpgAtleta do ano Judo: Jorge Fonseca

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Destaque especial - Natação: Octocampeão nacional de clubes, em nadadores masculinos, o Sporting é líder incontestado nesta modalidade. Mérito do excelente trabalho do Prof. Carlos Cruchinho e restante equipa.

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Atleta do ano Natação - Alexis Santos: Sete recordes nacionais durante o ano (4 em piscina de 50m e 3 em piscina de 25m) e um sétimo lugar na final dos Europeus de Piscina Curta (25m).

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Homenagem/Carreira: Madjer: sportinguista de alma e coração e atleta do clube, sagrou-se pela última vez campeão do mundo de futebol de praia, fechando assim com chave de ouro a sua carreira internacional.

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28
Dez19

"Os Violinos" de 2019 para Castigo Máximo(2)


Pedro Azevedo

FUTEBOL

 

Jogador do ano - Bruno Fernandes: Começou o ano civil com a conquista da Taça da Liga. No final de Janeiro assumiu a braçadeira de capitão, reforçando uma liderança natural alicerçada no exemplo deixado no campo e nos incomuns dotes de comunicador mostrados fora dele. Bruno foi o Atlas que segurou sobre os ombros o futebol do clube, o farol que impediu o naufrágio, a revolta contra o habitual fado leonino e a nossa estranha forma de ser, qualidades que foram decisivas na reviravolta de uma eliminatória da Taça de Portugal contra o Benfica que parecia já perdida. Em Maio, juntaria a prova raínha do calendário nacional ao rol de títulos conquistados. Durante a época 18/19 marcou 32 golos e assistiu por 18 vezes. Reportando-nos só ao ano civil, pelo Sporting Bruno fez 31 golos e produziu 22 assistências, números que provam a sua regularidade num altíssimo nível. Por tudo isto, mais tudo aquilo que não pode ser traduzido por números - já dizia William Bruce Cameron que "nem tudo o que conta pode ser contado" - , Bruno Fernandes é, indiscutivelmente, o jogador do ano de 2019 para "Castigo Máximo".

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Treinador do ano - Pedro Coelho (Formação/iniciados e juniores): Treinador do único (iniciados) dos 5 escalões competitivos do futebol do Sporting que foi campeão em 2019, Pedro Coelho voltou a mostrar a qualidade do seu trabalho (já havia ganho o título em 2017), algo que lhe viria a valer a promoção para os juniores na temporada de 19/20. Passo ante passo, Pedro vai cumprindo um caminho sustentável de progressão na carreira. Mais do que Paulo Bento ou Sá Pinto, renomados ex-internacionais do futebol português que cumpriram um curto trajecto nas camadas jovens leoninas antes de subirem ao futebol sénior, ele poderá um dia vir a ser o primeiro treinador do Sporting, na era moderna, verdadeiramente criado nos escalões de Formação. A continuar a acompanhar durante 2020.  

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27
Dez19

"Os Violinos" de 2019 para Castigo Máximo(1)


Pedro Azevedo

ATLETISMO ("Estrada&Vários 2019")

 

Atleta masculino do ano - Carlos Nascimento: Medalha de Ouro na prova dos 100m nos Jogos Europeus de 2019 (Minsk).

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Atleta feminina do ano - Evelise Veiga: Duas Medalhas de Prata nas Universíadas (Nápoles), nas disciplinas de Salto em Comprimento e Triplo Salto; excelente prestação individual na prova por equipas do programa de atletismo dos Jogos Europeus de 2019. 

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26
Dez19

Os jogos da minha vida (VI)


Pedro Azevedo

5.11.1986  Sporting - Barcelona 2-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas; Virgílio (McDonald, aos 87 minutos), Venâncio, Duílio e Fernando Mendes; Oceano, Zinho, Negrete e Mário Jorge; Manuel Fernandes (Gabriel, aos 69 minutos) e Raphael Meade.

 

O Sporting ganhou o jogo, mas perdeu a eliminatória. Como tal, uma vitória à Pirro, "cortesia" de um golo tardio de Roberto, nome que ainda hoje me custa a pronunciar. A eliminação foi absolutamente injusta. A maior decepção (até aí) da minha vida desportiva, que combinada com o fim da idade da inocência me abriu os olhos e preparou para a resistência que seria necessário ter enquanto sócio e adepto do Sporting. 

 

A nossa equipa tinha uma das melhores alas esquerdas de que me recordo. O aniversariante Fernando Mendes, mais explosivo, e Mário Jorge, mais cerebral, formavam uma dupla de eméritos dribladores que punham a cabeça em água a qualquer adversário. Assim também ocorreu nessa noite de recepção aos catalães. Em particular Mendes, que endiabrado produziu as duas assistências para os golos do mexicano Negrete (1ª parte) e do inglês Meade (2º tempo). Por volta dos 70 minutos, o momento do jogo: o Sporting já vencia por dois golos sem resposta quando o lateral esquerdo leonino avançou por caminhos mais interiores até ser derrubado. Levantando-se antes que o árbitro pudesse apitar a falta, o jovem entrou na área isolado. A seu lado, sozinhos e em posição mais central, estavam Negrete e Meade, mas Mendes só teve olhos para a baliza, fitou Zubizarreta e tentou o chapéu. Os adeptos sustiveram a respiração enquanto a bola caía, caía, caía, mas não o suficiente para descer abaixo do travessão da baliza barcelonista, "optando" antes por se anichar, caprichosamente, no encordoamento exterior da malha superior. Ninguém presente no estádio o suporia, mas esse momento marcaria o canto do cisne dos leões. 

 

A 4 minutos do fim do encontro, a desilusão: o Sporting já dera a volta à eliminatória após uma derrota tangencial (1-0) em Barcelona e o jogo aproximava-se do seu termo. O resto foi o meu primeiro contacto com o fado leonino que vem moldando ao longo dos anos esta nossa estranha forma de ser. Dessa vez o agente do destino chamou-se Roberto. Poderia ter sido a estrela Lineker, o playmaker Marcos Alonso, ou o experiente internacional espanhol Júlio Alberto, mas, não, foi um Roberto, marionete de ocasião do Master Puppeteer que é o deus do futebol mundial. Erros próprios e má fortuna, a saga começava...

23
Dez19

Conto de um Natal a verde-e-branco


Pedro Azevedo

Era uma vez um clube. Mais do que um clube, uma nação. Uma nação com vários clãs. Clãs que divergiam em quase tudo: dos grupos etários à influência na sociedade, sem esquecer a doutrina ideológica social e política que incluía conservadores, renovadores moderados e extremistas revolucionários. Há anos que os clãs se vinham degladiando numa luta fratricida pelo poder. Por via disso mesmo e da má gestão do bem comum, a glória acumulada por anos pretéritos de conquistas foi mirrando. Mas os clãs continuavam a batalhar, por vezes conseguindo obter o ceptro para logo repetirem os erros dos seus antecessores. Já pouco mais havia para partilhar do que o orgulho. Bom, havia o afrodisíaco poder, e esse era fruto apetecível para motivar quem estava empossado e quem cobiçava o trono. Preservá-lo, de um lado, ou conquistá-lo, do outro, tornou-se o objectivo principal das facções em compita. Ambas dividindo, beneficiando do radicalismo, para mais facilmente poderem concretizar os seus propósitos. 

 

Estavamos neste impasse quando no Natal se produziu o sortilégio. Ele não surgiu de uma trégua entre os chefes dos clãs, tão assoberbados se encontravam com os seus próprios egos, nem por iniciativa do povo adepto. Não, como que para nos recordar a origem de tudo, o melhor exemplo veio dos artistas contratados pela nação Sportinguista, os jogadores de futebol. Logo eles que haviam sofrido recentemente um choque, que tantas vezes no presente e passado tinham servido de escudo perante a opinião pública para tapar a incompetência de dirigentes, haveriam em Portimão de nos dar uma lição e finalmente deslocar a nossa atenção daquilo que nos divide para aquilo que nos aproxima, nos une, é denominador comum. E assim, contra todas as probabilidades, em inferioridade numérica, em desvantagem no marcador, perante uma arbitragem que objectivamente (n)os prejudicou, conseguir dar a volta por cima e ousar vencer, metaforicamente relembrando a todos nós a razão de ainda cá estarmos, o antes quebrar que torcer, o nosso paradigma comum, a fonte da nossa "leoninidade": a resiliência. Nunca desistiremos! 

Feliz Natal para todos os Leitores de Castigo Máximo! 

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16
Dez19

Alcochete nunca, Sporting sempre!


Pedro Azevedo

O Sportinguismo está doente. A última evidência surgiu nos Açores, onde a comitiva do Sporting foi recebida com gritos de "Alcochete sempre!". De facto, algo vai muito mal no reino do leão quando um grupo de manifestantes se reune para fazer a apologia de um ataque às instalações do clube e seus atletas, um crime que provocou danos morais, reputacionais e financeiros ao clube de José Alvalade. Este tipo de acontecimentos, que deve ser repudiado convictamente por todas as sensibilidades existentes no Sporting, é reflexo de uma sociedade em perda acentuada de valores, mas também é sintomático do estado da Cultura Sporting (e sua identidade), incapaz de filtrar tudo aquilo que vem de fora. Todos, mas rigorosamente todos, precisamos de parar para pensar, sob pena de, não o fazendo, se instalar a mais completa anarquia e o clube se tornar irrecuperável. (A propósito, o que fez a Polícia perante palavras de ordem que incitam à violência física?)

 

O clube está à deriva e falta um faról que evite o naufrágio que se pressente iminente. O presidente, que deveria ser a referência para todos os sócios e adeptos, também tem contribuído para um clima belicista ao dirigir-se a sócios moderados que o contestam com epítetos como "esqueletos", "patetas", "papagaios" ou "idiotas úteis", falhando assim até em unir à sua volta aqueles (onde está a reacção dos mais recentes candidatos a eleições no Sporting?) que mais facilmente repudiariam actos como os vistos esta noite em São Miguel. Mesmo aquando dessas infelizes declarações recebeu palmas da audiência presente na entrega dos prémios Rugido de Leão, algo similar ao experenciado quando Bruno Carvalho nomeou os "sportingados", o que mostra bem como os proselitismos muitas vezes se sobrepõem ao Sporting e, simultaneamente, o estado de desnorte da nação leonina.

 

O erro de Varandas tem sido atirar-se a quem o critica justificadamente, procurando colá-los ao extremismo para melhor surfar a onda da vitimização tão comum à pequena política. O núcleo duro do Sportinguismo é formado por sócios moderados, que são um "swinging vote" e decidem eleições. Atacá-los por motivos estratégicos e oportunistas de curto-prazo acabará por esvaziar de todo a capacidade de reacção que seria necessária para conter com eficácia quem não respeita princípios elementares de vivência em sociedade.

 

O Sporting está hoje perdido num mar de equívocos. Existem radicalismos associados a proselitismos de diversa ordem que geram maniqueísmo e sente-se uma incapacidade total de avançar própria do niilismo que se apoderou do clube. O presidente tem uma dificuldade flagrante de comunicação e isso torna-se ainda mais gritante perante a situação em que o Sporting actualmente vive, a qual recomendaria uma liderança forte e congregadora, educativa, doutrinária e que fosse portadora de uma visão capaz de inspirar e apontar a porto seguro. Mais do que preservar o seu mandato, o Sporting precisa que Varandas preserve o Sporting e o Sportinguismo, o que aliás deverá ser a missão de cada sócio. E isso não pode ser feito atacando todos ao mesmo tempo, misturando opinião critica com arruaça, inquietação legítima com transgressão, convivendo mal com a democracia e assim afastando indiscriminadamente as pessoas do clube, sob pena de na hora "H" ficar sozinho perante o próprio radicalismo que ajudou a fomentar (que não a criar). 

 

O momento do futebol também não pode ser dissociado do actual clima. Pedem-se menos erros e arrogância, mais acerto e boas práticas. A soberba precede a ruína, assim como a altivez precede a queda, diz a Bíblia. Palavras sábias que Varandas não deverá ignorar. É que o exemplo vem sempre de cima, e só com humildade, alma, amor à causa e respeito entre todos se reerguerá o grande Sporting. 

 

P.S. Há muito tempo que venho aqui perorando sobre a Cultura Sporting. Espero que finalmente todos compreendam a razão pela qual a considero um pilar fundamental, tal como a as questões da sustentabilidade e dos princípios de governação, num Sporting de sucesso. 

10
Dez19

Para mais tarde recordar(*)


Pedro Azevedo

Numa cadeira situada no A24, um homem contempla, ao fim da tarde, a silhueta dos seus consócios dispostos pela bancada poente oposta. 

Dada a hora, no relvado já se reflecte a sua sombra.

Muitos dos consócios, sentados em frente de si, brevemente irão partir. Ao amanhecer fartar-se-ão do maniqueísmo, do niilismo, das bravatas e da guerra e não voltarão. E a sombra, sua companheira de viagem, também irá com eles e com eles desaparecerá.

Mas ainda é fim da tarde. O homem busca um pedaço de papel e nele desenha o contorno da sombra.

Esses traços não irão partir.

Não festejarão em uníssono, e ele sabe-o. Mas não irão partir. 

 

(*) Adaptação livre do conto "A arte de desenhar-te", de Eduardo Galeano

05
Dez19

O estado da Nação(*)


Pedro Azevedo

O Sporting deste milénio, sendo dos três grandes o único que tem Portugal no seu nome, é curiosamente o menos português dos clubes portugueses. Na verdade, quando a generalidade dos portugueses cultiva o mito sebastiânico e espera que o regresso d`El Rei num dia de nevoeiro os salve de uma vida onde sobra pouco tempo (e dinheiro) para viver a... vida, nós, os Sportinguistas, não somos saudosistas e até gostamos de utilizar a expressão "o cemitério está cheio de insubstituíveis" enquanto contemplamos um céu sem nuvens no horizonte. Como diria o Silas, aqui não há heróis. É um "wishful thinking", o Prozac - deve estar referenciado pelo nosso Scouting - que cada leão toma enquanto lhe levam os anéis (e também o cenário do céu sem nuvens emprestado por um estúdio da Venda do Pinheiro, de Oeiras ou de Queluz). De facto, no Sporting quase tudo é substituível. A começar pelos jogadores. Pouco interessa que não ganhemos um campeonato em ano ímpar desde 1953, há portanto 66 anos. Para nós, os Sportinguistas da era pós-moderna, o Necas, o Malhoa, o Zé da Europa e o Albano foram/são perfeitamente substituíveis. Só que não, como o comprova termos perdido o campeonato em 33 anos ímpares consecutivos. Ainda assim, poder-se-ia ter dado o caso de termos ganho o campeonato em todos os anos pares desde 53. Só que (de novo) não. As nossas vitórias nesses anos não chegam a 1/3, o que significa que ganhámos menos de metade do que Benfica e Porto juntos. E já nem falo de Peyroteo, homem honrado, de outros tempos, que, por ter feito uma festa de despedida que lhe permitiu arrecadar uns cobres para salvar um negócio em mau momento, sentiu que estaria a enganar os Sportinguistas se voltasse aos relvados, pese embora as suas (imensas) capacidades futebolisticas ainda estivessem intactas. Para sua sorte, mas não para sorte da sua carteira, nunca jogou nestes tempos modernos em Alvalade, não se tendo assim de sujeitar a ser considerado um tosco que só atrapalhava o "processo" ofensivo e logo aí ter como destino ser recambiado para alívio salarial da entidade patronal, processo obviamente de conotação kafkiana para quem apresentaria a modesta contribuição de 1,6 golos por jogo.

 

É curioso, pois quando era pequenino o Sporting era aquele que aos Domingos ia a jogo, em que os ídolos eram os jogadores, a origem do sortilégio da nossa paixão. Hoje, no pós-modernismo leonino, eles são todos substituíveis para os sócios e/ou adeptos. Mesmo que se chamem Bruno Fernandes, Marcos Acuña, Jeremy Mathieu ou Bas Dost, ou qualquer um equivalente ao abono de família do às tantas atarantado senhor Keizer, nosso ex-treinador -  "Tragam-me um ponta de lança. Móvel, de área? Tanto faz" - , no fim da janela de transferências de Janeiro. Dizem que é a natureza do "negócio", uma forma altamente "edificante" de meritocracia em que aqueles que elevam mais alto a nossa camisola são tratados da mesma forma (quando não pior, e já nem falo do dia de horror vivido em Alcochete) que aqueles que não cumprem os mínimos daquilo que deveria ser a exigência pedida a um futebolista do Sporting. Por exemplo, se Vasco da Gama estivesse ao serviço das nossas cores, a sua descoberta do caminho marítimo para a Índia não valeria mais para nós que o deslindar do melhor caminho para a Brandoa pelo Moovit, ou até que os atalhos que o Ilori e o Borja escolhem para pôr em perigo o meu pobre coração sofredor. É o que fica implícito depois de tanto leilão, ou saldos, ou liquidação total, ou lá o que é. Posto isto, nós, sócios e adeptos, queremos que os jogadores nos respeitem, o que também faz sentido. Para nós, Sportinguistas, única e exclusivamente, bem entendido...

 

Aparentemente, os únicos não-substituíveis no clube são os presidentes. Por eles não se cala a indignação, sobram querelas, batalhas, guerras até. Deles certamente dependerá a emoção de todos os fins de semana. E quando não a emoção, a razão, a nossa sustentabilidade, as contas sempre impecáveis que apresentamos no final de cada época desportiva, ano após ano, razão pela qual todos os futebolistas devem ser substituíveis. Para que possamos apresentar sempre lucros? Não. Para que possamos fazer plantéis cada vez mais fortes? Também não. Por qualquer outra razão estratégica, aliás explicada tim-tim por tim-tim aos sócios? Não, não e não. Para fazer sócios e adeptos felizes, o que deveria ser a única motivação de quem dirige? Nãox4. Mas que interesse tem dissecar tão pueris questões, não é verdade?

 

Últimamente, o nosso futebol também é subsbtituível. Aliás, a minha relação com o nosso fio de jogo é semelhante à que tenho com Deus: creio e sinto que existe, embora não o veja. Bem, houve profetas que pregaram a palavra d`Ele (e um deles foi especialmente relevante) como agora há um Bruno - o Atlas que carrega o nosso céu azul nos seus ombros - que tem o seu nome em quase todas as escrituras dos jogos. Ainda assim há uma diferença. É que em Deus eu tenho fé e nesse Sporting sem os melhores jogadores não tenho fé nenhuma. Confesso que ainda julguei ser possível nos primeiros tempos de Keizer, mas tal como um dos seus (iniciais) princípios perdi-a em cinco segundos, pelo que com Silas evidenciei outra prudência. Mas, graças a Deus, já era católico antes de ser Sportinguista. Caso contrário, seria tentado a pensar que Deus não existe, partilhar do silogismo de que vale tudo e assim assistir impávido ao declínio, resssentimento, incapacidade de avançar, paralisia, ausência de finalidade ou de resposta ao "porquê" das coisas - o niilismo Sportinguista pós-João Rocha (com breves interrupções que deram esperança e acabaram por gerar grandes desilusões). Antes que me lancem um Auto da Fé Sportinguista, algo com que consócios e adeptos se gostam de entreter nos tempos livres enquanto expiam o sentimento judaico-cristão da culpa, convém lembrar que o último ritual de punição pública na Península Ibérica contra hereges que repudiavam a igreja católica data de 1826. Ainda assim, como nem nisso somos bem portugueses, ou mesmo iberos, e apesar de saber que nós somos um clube civilizado, de gente do bem ("de bem", não sei "bem" o que pensar), diferente até, que como tal terá espírito e certamente se saberá rir de si própria, dizia eu antes que me atirem com um daqueles epítetos que vêm entre aspas e estão tão em voga neste milénio Sportinguista depois de infelizmente terem sido fomentados por um antigo presidente e continuados pelo actual, cumpre-me informar que não tendo fé ainda tenho paixão. Muita! Imensa! E genuína! Mas não ao ponto de estar preocupado. Se o (actual) insubstituível não está, porque carga d`água deveria eu estar? Só está preocupado quem tem uma ilusão e eu não tenho ilusão nenhuma, só paixão. Essa paixão leva-me a ter um ideal de clube, da sua identidade, da sua Cultura corporativa, princípios e sustentabilidade, que ninguém irá substituír porque reside na minha mente, morrerá comigo e não é alienável como a celebérrima aposta na Formação é para alguns (ateus da sustentabilidade, por certo). Bom, a esta hora muitos estarão a pensar que também eu sou substituível. Eu e mais uns quantos sócios do Sporting. O que num dia, que até já esteve mais longe, será indiferente, na medida em que por este andar só contarão os accionistas. Da SAD, obviamente. Maioritários, obviamente (de novo). Afinal, o dinheiro compra quase tudo. Bem, a luxúria talvez, mas não compra o amor. Se bem que este, por estes dias, também já deva ser substituível. No pós-modernismo, onde o equilíbrio é uma coisa que só imaginamos no trapézio do circo, o que interessa é o cliente, essa figura da mitologia leonina que um dia chega a Alvalade e compra todas as gamebox do futebol mais as das modalidades, sorve cem tonéis de duzentos litros de cerveja com alcool, enfarda uma tonelada de cachorros quentes e de enfiada ainda varre todas as camisolas do Bruno Fernandes, perdão do Acuña, perdão... Do Tiago Ilori ou do presidente Varandas?... Bolas!!! Não me deem cabo do(s) plano(s). Deixem-me trabalhar. Vá, soletrem lá (os planos): A, B, C...   

 

(*) Republicado com uns retoques (por infelizmente ainda estar bem actual)

 

P.S.1: Não troco a próxima geração pela próxima exibição. 

P.S.2: A paixão pelo clube, na sua génese comum a todas as gerações de Sportinguistas, confunde-se com a paixão por jogadores míticos que ajudaram a fazer a história do Sporting Clube de Portugal. É bom não o esquecer.

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