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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

29
Set19

Don't cry for me Sporting!


Pedro Azevedo

Deixo aqui a sugestão a todos os Sportinguistas para procurarem nas Gravações Automáticas da vossa "box" o programa a "A Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio" transmitido na madrugada de Sábado para este Domingo, pelas 01H50, na RTP3. Este programa, apresentado por Carlos Manuel Albuquerque e com os comentadores residentes Rui Manuel Tovar e João Nuno Coelho, contou desta vez com a participação especial, no estúdio, da viúva do nosso grande Hector Yazalde. Os mais saudosistas poderão recordar imagens de vários golos do Chirola, os mais novos e que nunca o viram jogar poderão conhecer melhor este fantástico jogador. Acresce que Carmen Yazalde conta várias histórias que atestam que, para além de grande goleador, o argentino foi um homem com um coração generoso e bom. Que tinha um grande amor ao Sporting. Emocionante, tocante, a não perder! Viva Yazalde (sempre na nossa memória), viva o Sporting!

 

P.S. Para saber mais sobre Yazalde, não perder as excelentes entrevistas de Rui Miguel Tovar a Carmen Yazalde sobre a vida do nosso ex-jogador (disponíveis na "net").

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09
Set19

O pedregulho de Sísifo


Pedro Azevedo

A união no Sporting com Frederico Varandas, tal como o castigo imposto pelos deuses a Sísifo, é um trabalho inútil. Para além disso, não chega sequer a ser esperançoso. É que ao menos Sísifo ainda fazia rodar o pedregulho até ao topo antes de o atirar montanha abaixo, enquanto Varandas não o descola do sopé. E porquê?

 

Viver o Sporting em comunidade tem de ser uma partilha. Para haver partilha, tem de existir confiança. Ora, nós confiamos quando sentimos empatia por pessoas que acreditam naquilo que nós próprios acreditamos, que partilham dos nossos valores e das nossas crenças. É muito difícil confiar em alguém que conhecemos mal, raramente nos transmite uma mensagem, ou que quando finalmente aparece é altaneiro e recriminativo (quando não insultuoso) connosco, mostrando não nos escutar e expondo o pedregulho à nossa frente, não nos deixando ver mais à frente como se a única perspectiva possível fosse a de um passado recente (que queremos ultrapassar) e não a do caminho do futuro. (Adicionalmente, quando temos consócios a invadir a Academia e percebemos que o nosso sistema colectivo de crenças e de valores está em crise, isso deveria obrigar a estabelecer como prioridade o reforço da Cultura Sporting e darem-se passos concretos nesse sentido, reafirmando o que somos, como procedemos e, mais importante, o porquê de aqui estarmos, porque caso contrário valores contaminados vindos de fora encontrarão no clube um solo fértil por onde florescerem.)

 

Não se é líder por se dizer ser líder. A liderança, tal como ser uma autoridade numa determinada matéria, é algo que é reconhecido pelos outros, não pelo próprio. Um líder deve ser inspirador, saber ler o futuro, ter uma visão e partilhá-la com os seus. Criar confiança. Isso, sim, gera empatia, reconhecimento e conectividade. Ao contrário, por exemplo, do autoritarismo (não confundir com autoridade), que só aumenta o ruído (e o stress) e em nada contribui para estreitar os laços entre as pessoas e com a instituição, menos ainda quando se invocam palmadinhas nas costas por parte dos nossos adversários (agora partilham dos nossos valores?) como justificativo para criticar os sócios do Sporting. 

 

Mas uma coisa é certa, seja quem for que dirija, nós temos de fazer a nossa parte e apoiar as diferentes equipas do Sporting nos estádios, pavilhões e pistas deste país. Por isso, em vez de esperarmos por outros, façamos aquilo que só depende de nós. A paixão exterioriza-se, não se reprime, e o Sporting será sempre mais importante do que o que nos desune. Como tal, amá-lo e apoiá-lo, por si só, deverá ser um factor de realização pessoal. É possível não estarmos unidos entre nós no que a proselitismos diga respeito e ainda assim podermos estar todos unidos no amor ao clube? É! E essa tem sido ao longo dos anos a pedrada no charco dos Sportinguistas, a mobilização que impede o clube de capitular definitivamente. Afinal, de que tem servido ao longo dos anos esperar por Godot?

08
Set19

Brothers in arms


Pedro Azevedo

Fraguito (68) e Bruno Fernandes (25) são aniversariantes hoje. Separa-os 43 anos, une-os a visão de jogo, a disponibilidade física (até ser impiedosamente marcado por lesões, Fraguito era um médio infatigável), a imensa qualidade técnica e, evidentemente, o Sporting. Muitos Parabéns aos dois!

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07
Set19

Adjectivos a mais, união a menos


Pedro Azevedo

À margem da entrega dos prémios Leões D`Ouro, prestigiada gala organizada conjuntamente pelos núcleos de Matosinhos, de Vila do Conde/Póvoa do Varzim e pelo Solar do Norte, Frederico Varandas afirmou que "quem acha que num ano se resolve um fosso de dezoito, ou é louco ou desonesto". No mesmo discurso, o presidente do Sporting mencionou ainda que ter gastado 10/12 milhões de euros na contratação de um avançado teria sido uma medida popular, mas que preferiu investir na Academia e na Formação. 

 

A meu ver, Frederico Varandas precisa rapidamente de encontrar o equilíbrio. As suas criticas a sócios do Sporting começam a ultrapassar o limite da razoabilidade. De facto, não pode ser de maneira nenhuma considerado admissível que quem detém o poder executivo no clube (des)trate o universo que o elegeu com epítetos como "esqueletos", "cientistas" (este ainda vá lá...), "cães a ladrar" e agora "loucos" ou "desonestos intelectualmente" (se queria vincar um ponto, não lhe bastaria ter usado a expressão "irrealista"?). Há limites para tudo, nomeadamente para não termos a reprise aditivada dos epítetos de "sportingados", "melancias" e "croquetes", formas de tratamento entre os sócios absolutamente desagregadoras e lesivas para a identidade do clube, aquilo que costumo denominar de Cultura Sporting.  Mais uma vez, sem nomear ninguém e assim pondo todos no mesmo saco, Varandas dá-se ao topete de voltar a destratar sócios, muitos deles certamente com mais anos de associativismo no clube do que ele tem de idade, esquecendo-se de que como membro dos Orgãos Sociais do clube a eles deve prestar contas. No meu caso particular e de tantos outros, sócios que sempre deram o que puderam ao clube e que do clube nunca receberam um centavo, e que ainda assim se consideram profundamente em dívida com uma instituição centenária que os tem acompanhado ao longo da vida. 

 

Dá vontade de perguntar o que é que o senhor presidente da mesa da AG, Dr. Rogério Alves, pensará disto tudo. É que se torna cada vez mais difícil esconder a minha vergonha alheia perante o actual estado de coisas. Acresce que no início de Julho, o próprio Varandas elevou as expectativas ao transmitir estar certo de que esta época iria ser melhor do que a anterior. Não querendo ter com o senhor presidente a mesma desconsideração com que brindou os sócios do clube, resta-me apenas dar conta da contradição no seu discurso escassos dois meses depois, algo que já não é propriamente novo como pode ser aferido quando pede estabilidade no clube e fala em projecto, ele que já vai no quarto treinador de futebol em apenas 1 ano e crê que os ciclos duram 10 meses. E já agora, uma nota: após ter comprado um lateral direito por 8 milhões de euros e 50% do passe de um segundo avançado por 7,5 milhões de euros, não fica bem a Varandas o argumento de que quis poupar num ponta de lança, principalmente quando qualquer sócio ou adepto tinha no início da época essa contratação como prioritária (com ou sem Dost). 

 

Eu sei que haverá franjas de sócios do Sporting com quem não será fácil lidar. Durante anos ouvi e li apreciações sobre Sportinguistas que se preocupariam mais com o seu umbigo do que com o clube e demorei muito a perceber o clube. As coisas são os que são, não o que desejaríamos que fossem. Confúcio dizia que se um problema tem solução, então uma pessoa dever-se-ia concentrar nessa solução; caso o problema não tenha solução, então para quê preocupar-se? O "umbiguismo" é o que é, a feira de vaidades é o que é, e na verdade tudo isso não é exclusivo do Sporting nem provoca grande mossa a um verdadeiro líder, que até o poderá reverter em seu favor. Acresce que o clima tenso pós saída de Bruno de Carvalho adicionou outros focos de tensão, esses sim dignos de merecer a maior atenção. A missão nunca seria fácil, mas Varandas propôs-se a ter esse privilégio e submeteu-se a votos. Como tal deveria ter definido como prioridade do seu mandato a união no clube. Não como slogan eleitoral, mas como prática. Ora, este tipo de comportamento está nos antípodas desse caminho e não traz a paz. O velho discurso do implícito "deixem-me trabalhar" - sempre acompanhado de vitimização - como resposta aos criticos é uma táctica herdada do pior da política. Destina-se apenas e só a ganhar tempo e é próprio de quem já sente esse tempo a fugir, no caso por mau planeamento da temporada desportiva. Deveria, por isso, acusar a recepção da mensagem que os sócios lhe estão a passar sob a forma de uma critica, assinalando que os valoriza, que os escuta até à "ultima gota", o que indubitavelmente reduziria o ruído (quem nunca errou que atire a primeira pedra). Em vez disso, qual animal acossado, isola a sua base de apoio ao dar nota de ignorar o que lhe tentam transmitir e, pior, parte ele para o ataque com adjectivações que revelam pouca elevação e só contribuem para tornar as questões pessoais e aumentar a divisão, recorrendo ainda em discurso indirecto aos nossos rivais, e à sua compreensão - "não lhe dão descanso", "esse clube não tem emenda" - sobre as agruras por que passa, para reforçar o seu próprio ponto de vista sobre os sócios do Sporting, esquecendo-se que mais uma vez o vexado principal é o clube do nosso amor comum. Pelo caminho, não hesitando em flagrantemente encenar uma realidade alternativa, falando em "aposta na Formação" e "contratações Cirúrgicas". Neste estado de coisas, enfraquecida a base de apoio dos moderados, Varandas torna-se precocemente refém dos resultados desportivos. Serão eles a ditar o seu futuro no clube.

 

P.S. Em qualquer organização encontramos sempre pessoas mais bem ou menos bem formadas em termos de valores comportamentais. Mais do que estarmos preocupados negativamente com as criticas, deveremos usar o tempo para analisar a qualidade dos nossos processos. A critica, desde que não seja destrutiva, deve ser vista como algo de positivo, sinal de vitalidade, e dela podem surgir pistas que permitam melhorar aquilo que já existe. Cumpre a um presidente mostrar maturidade para lidar com as diversas sensibilidades e com as tormentas próprias de uma nau da dimensão do Sporting que se move nas águas encrespadas do futebol.

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30
Ago19

O estado da Nação


Pedro Azevedo

O Sporting deste milénio, sendo dos três grandes o único que tem Portugal no seu nome, é curiosamente o menos português dos clubes portugueses. Na verdade, quando a generalidade dos portugueses cultiva o mito sebastiânico e espera que o regresso d`El Rei num dia de nevoeiro os salve de uma vida onde sobra pouco tempo (e dinheiro) para viver a... vida, nós, os Sportinguistas, não somos saudosistas e até gostamos de utilizar a expressão "o cemitério está cheio de insubstituíveis" enquanto contemplamos um céu sem nuvens no horizonte. É um "wishful thinking", o Prozac - deve estar referenciado pelo nosso Scouting - que cada leão toma enquanto lhe levam os anéis (e também o cenário do céu sem nuvens emprestado por um estúdio da Venda do Pinheiro, de Oeiras ou de Queluz). De facto, no Sporting quase tudo é substituível. A começar pelos jogadores. Pouco interessa que não ganhemos um campeonato em ano ímpar desde 1953, há portanto 66 anos. Para nós, os Sportinguistas da era pós-moderna, o Necas, o Malhoa, o Zé da Europa e o Albano foram/são perfeitamente substituíveis. Só que não, como o comprova termos perdido o campeonato em 33 anos ímpares consecutivos. Ainda assim, poder-se-ia ter dado o caso de termos ganho o campeonato em todos os anos pares desde 53. Só que (de novo) não. As nossas vitórias nesses anos não chegam a 1/3, o que significa que ganhámos menos de metade do que Benfica e Porto juntos. E já nem falo de Peyroteo, homem honrado, de outros tempos, que, por ter feito uma festa de despedida que lhe permitiu arrecadar uns cobres para salvar um negócio em mau momento, sentiu que estaria a enganar os Sportinguistas se voltasse aos relvados, pese embora as suas (imensas) capacidades futebolisticas ainda estivessem intactas. Para sua sorte, mas não para sorte da sua carteira, nunca jogou nestes tempos modernos em Alvalade, não se tendo assim de sujeitar a ser considerado um tosco que só atrapalhava o "processo" ofensivo e logo aí ter como destino ser recambiado para alívio salarial da entidade patronal, coisa obviamente de conotação kafkiana para quem apresentaria a modesta contribuição de 1,6 golos por jogo.

 

É curioso, pois quando era pequenino o Sporting era aquele que aos Domingos ia a jogo, em que os ídolos eram os jogadores, a origem do sortilégio da nossa paixão. Hoje, no pós-modernismo leonino, eles são todos substituíveis para os sócios e/ou adeptos. Mesmo que se chamem Bruno Fernandes, Marcos Acuña, Jeremy Mathieu ou Bas Dost, ou qualquer um equivalente ao abono de família do atarantado senhor Keizer - "Tragam-me um ponta de lança. Móvel, de área? Tanto faz" - no fim do mês. Dizem que é a natureza do "negócio", uma forma altamente "edificante" de meritocracia em que aqueles que elevam mais alto a nossa camisola são tratados da mesma forma (quando não pior, e já nem falo do dia de horror vivido em Alcochete) que aqueles que não cumprem os mínimos daquilo que deveria ser a exigência pedida a um futebolista do Sporting. Por exemplo, se Vasco da Gama estivesse ao serviço das nossas cores, a sua descoberta do caminho marítimo para a Índia não valeria mais para nós que o deslindar do melhor caminho para a Brandoa pelo Moovit, ou até que os atalhos que o Ilori e o Borja escolhem para pôr em perigo o meu pobre coração sofredor. É o que fica implícito depois de tanto leilão, ou saldos, ou liquidação total, ou lá o que é. Posto isto, nós, sócios e adeptos, queremos que os jogadores nos respeitem, o que também faz sentido. Para nós, Sportinguistas, única e exclusivamente, bem entendido...

 

Aparentemente, os únicos não-substituíveis no clube são os presidentes. Por eles não se cala a indignação, sobram querelas, batalhas, guerras até. Deles certamente dependerá a emoção de todos os fins de semana. E quando não a emoção, a razão, a nossa sustentabilidade, as contas sempre impecáveis que apresentamos no final de cada época desportiva, ano após ano, razão pela qual todos os futebolistas devem ser substituíveis. Para que possamos apresentar sempre lucros? Não. Para que possamos fazer plantéis cada vez mais fortes? Também não. Por qualquer outra razão estratégica, aliás explicada tim-tim por tim-tim aos sócios? Não, não e não. Para fazer sócios e adeptos felizes, o que deveria ser a única motivação de quem dirige? Nãox4. Mas que interesse tem dissecar tão pueris questões, não é verdade?

 

Últimamente, o nosso futebol também é subsbtituível. Aliás, a minha relação com o nosso fio de jogo é semelhante à que tenho com Deus: creio e sinto que existe, embora não o veja. Bem, houve profetas que pregaram a palavra d`Ele (e um deles foi especialmente relevante) como agora há um Bruno - o Atlas que carrega o nosso céu azul nos seus ombros - que tem o seu nome em quase todas as escrituras dos jogos. Ainda assim há uma diferença. É que em Deus eu tenho fé e nesse Sporting sem os melhores jogadores não tenho fé nenhuma. Confesso que ainda julguei ser possível nos primeiros tempos de Keizer, mas tal como um dos seus (iniciais) princípios perdi-a em cinco segundos. Mas graças a Deus que já era católico antes de ser Sportinguista. Caso contrário, seria tentado a pensar que Deus não existe, partilhar do silogismo de que vale tudo e assim assistir impávido ao declínio, resssentimento, incapacidade de avançar, paralisia, ausência de finalidade ou de resposta ao "porquê" das coisas - o niilismo Sportinguista pós-João Rocha (com breves interrupções que deram esperança e acabaram por gerar grandes desilusões). Antes que me lancem um Auto da Fé Sportinguista, algo com que consócios e adeptos se gostam de entreter nos tempos livres enquanto expiam o sentimento judaico-cristão da culpa, convém lembrar que o último ritual de punição pública na Península Ibérica contra hereges que repudiavam a igreja católica data de 1826. Ainda assim, como nem nisso somos bem portugueses, ou mesmo iberos, e apesar de saber que nós somos um clube civilizado, de gente do bem ("de bem", não sei "bem" o que pensar), diferente até, que como tal terá espírito e certamente se saberá rir de si própria, dizia eu antes que me atirem com um daqueles epítetos que vêm entre aspas e estão tão em voga neste milénio Sportinguista depois de infelizmente terem sido fomentados por um antigo presidente, cumpre-me informar que não tendo fé ainda tenho paixão. Muita! Imensa! E genuína! Mas não ao ponto de estar preocupado. Se o (actual) insubstituível não está, porque carga d`água deveria eu estar? Só está preocupado quem tem uma ilusão e eu não tenho ilusão nenhuma, só paixão. Essa paixão leva-me a ter um ideal de clube, da sua identidade, da sua Cultura corporativa, princípios e sustentabilidade, que ninguém irá substituír porque reside na minha mente, morrerá comigo e não é alienável como a celebérrima aposta na Formação é para alguns (ateus da sustentabilidade, por certo). Bom, a esta hora muitos estarão a pensar que também eu sou substituível. Eu e mais uns quantos sócios do Sporting. O que num dia, que até já esteve mais longe, será indiferente, na medida em que por este andar só contarão os accionistas. Da SAD, obviamente. Maioritários, obviamente (de novo). Afinal, o dinheiro compra quase tudo. Bem, a luxúria talvez, mas não compra o amor. Se bem que este, por estes dias, também já deva ser substituível. No pós-modernismo, onde o equilíbrio é uma coisa que só imaginamos no trapézio do circo, o que interessa é o cliente, essa figura da mitologia leonina que um dia chega a Alvalade e compra todas as gamebox do futebol mais as das modalidades, sorve cem tonéis de duzentos litros de cerveja com alcool, enfarda uma tonelada de cachorros quentes e de enfiada ainda varre todas as camisolas do Bas Dost, perdão do Bruno Fernandes, perdão do Acuña, perdão... Do Tiago Ilori ou do presidente Varandas?... Bolas!!! Não me deem cabo do(s) plano(s). Deixem-me trabalhar. Vá, soletrem lá: A, B, C...   

 

P.S.1: Não troco a próxima geração pela próxima exibição. 

P.S.2: A paixão pelo clube, na sua génese comum a todas as gerações de Sportinguistas, confunde-se com a paixão por jogadores míticos que ajudaram a fazer a história do Sporting Clube de Portugal. É bom não o esquecer.

P.S.3: O Grande Prémio do Mónaco de BF8 não tem transmissão televisiva?

P.S.4: Jorge Fonseca sagrou-se hoje campeão do mundo de judo (-100Kg). Atleta do Sporting, é o primeiro campeão do mundo de judo de nacionalidade portuguesa. Mais um campeão que o Sporting oferece ao desporto português e ao país. Há todo um Sporting eclético e gerador de contentamento para lá da Sporting SAD...

14
Ago19

O amor é... por José Duarte(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José Duarte, a.k.a. "Leão de Alvalade". Novo nestas lides, ia lendo esporadicamente o "A Norte de Alvalade", o blogue do qual o José Duarte é autor, quando um dia me deparei com um texto genial, de um humor temperado das proporções certas de inteligência, fina ironia e prazeiroso sarcasmo, que aqui recordo, recomendando-o vivamente a quem não teve oportunidade de lêr. Como quem me acompanha se vai apercebendo, a ironia é uma ferramenta essencial ao meu bem-estar: na sua companhia poupei-me a levar demasiadamente a sério a minha existência, evitando aquele deslumbramento tão enganador que nos faz descolar da nossa humanidade e perder as referências; com ela, em tempos de cólera no meu clube, não deixando de criticar aquilo que não me parece bem, tenho feito o que me é possível para passar uma mensagem que não aumente a temperatura e adicione ruído numa era em que os sócios do Sporting se veem permanentemente obrigados a viver encostados a uma coluna a bombar de uma discoteca. Ora, este supracitado texto do José foi para mim um sortilégio, ou seja, um bocadinho de magia, como um dia ouvi definir num pequeno café na Boulevard St Michel, ali no Quartier Latin. A partir daí tornei-me leitor assíduo do blogue, pese embora nem sempre o José siga a sua orientação editorial nesse sentido que tanto me agrada. A inteligência numa pessoa foi sempre algo que me fascinou, a humildade também. Neste breve contacto que mantivémos a propósito do meu pedido para colaborar nesta série, o José mostrou-me uma faceta humilde que só se encontra nos verdadeiramente grandes. É por isso com redobrado prazer que sem mais demora aqui vos deixo o texto que o José Duarte, "um leão a Norte, onde se é leão por convicção", escreveu por amor ao Sporting:

 

"Ser especial é ser de um clube especial.

 

Sou daquelas pessoas que tanto confia quase cegamente como se transforma num ensimesmado patológico, quando alguma coisa parece não bater certo. Foi o caso deste convite do Pedro Azevedo em escrever um artigo para o seu blogue. Comecei por me perguntar "porque raio alguém que escreve tão bem sobre o Sporting" quer umas linhas minhas, eu que escrevo cada vez mais esparsamente, cada vez mais de forma superficial e de escrita cheia de lugares comuns? 

A dúvida foi crescendo ao ler o texto do Rui Monteiro, cuja escrita deliciosamente mordaz admiro. Ao dar de caras, quase de seguida com o do Pedro Correia, a quem fiquei a dever um artigo que não fui capaz de concluir, ainda mais hesitante fiquei. Mas a vaidade, que a tantos perde, preparou-se para fazer mais uma vítima e aqui estou eu.

A verdade é que eu nem sequer sou um bom exemplo de Sportinguista. Não o sou de berço nem de tenra idade, porque o futebol ou o desporto em geral não eram tema de conversa em casa, apesar do meu pai ser sportinguista. Se tivesse que ser de algum clube por influência familiar certamente que seria benfiquista, uma alegria que não consegui dar à minha querida Tia Ly. Fervorosa adepta do nosso rival, ouvia os relatos religiosamente e até cuidou de me oferecer um equipamento completo, que ainda assim não foi suficiente para me evangelizar para a sua causa.

Não sei precisar quando despertou em mim o interesse pelo Sporting. Mas sei exactamente o momento em que percebi que era uma paixão que iria ficar para toda a vida. Falo mais precisamente do dia 22 de Agosto de de 1981 quando, de férias em Lisboa, e valendo-me da desculpa de um passeio, entro sozinho na superior sul do velhinho Alvalade e assisto à inauguração do campeonato nacional 1981/82. 

Aqueles nomes que eu só conhecia de ouvir falar, de ver fotografias nos jornais ou de aparecer na televisão estavam ali à minha frente em carne e osso. O bigode do Meszaros, a elegância que fazia do difícil fácil do Eurico, os bailados felinos do Jordão (marcou 2 golos, selando assim para sempre a condição de ídolo intemporal) ou a geometria aplicada de Oliveira, tudo parecia ali ao alcance. O Sporting tinha um treinador novo, cuja memória fez questão de arquivar de camisa branca e charuto, e que se fazia acompanhar de um preparador físico "diferente" de nome Roger Spry. Factos que tomara conhecimento previamente no jornal "A Bola" cujos fascículos desse verão versando a contratação do mago Oliveira me tinham arruinado e eu havia devorado com avidez.

Ainda hoje não consigo explicar a razão da empatia imediata que então me envolveu na grandiosidade daquele cenário vibrante. Era como se eu sempre tivesse estado ali e era seguramente ali que eu ia pertencer para o que restasse dos meus dias. Havia como que uma magia no ar, tudo me parecia grandioso, belo, magnífico. Quando no final do dia tentei adormecer as emoções, já depois de tranquilizar os meus tios assustados pela surpresa pouco habitual da ausência prolongada, tive uma tarefa morosa. 

Nem o facto de o resultado ter sido tão decepcionante  como a frouxidão da exibição diminuiu o efeito do encantamento. Sofremos para alcançar o empate, o Belenenses fez-nos a vida negra mesmo terminando com um guarda-redes improvisado na baliza. Não o sabia então que na minha estreia em Alvalade seria imediatamente vacinado contra todo o qualquer desgosto ou infortúnio. A glória do nosso lema haveria de se cumprir no final de época, engalanada numa apetitosa dobradinha.

Como todos os amores esta relação teve altos e baixos. Os embaraços e tristezas, porém, têm uma dimensão microscópica quando ombreiam com o orgulho que sinto em ser e dizer que sou Sportinguista. O encantamento do primeiro encontro em Alvalade era apenas a semente do que se haveria de transformar numa paixão perene alimentada pelo sentimento de pertença a uma instituição especial. Mais do que diferente, como muitas vezes é designado, é especial.

Fundado por aristocratas ainda no regime monárquico, tornou-se num clube de dimensão nacional e popular de forma transversal a toda a sociedade portuguesa, quando o mais natural é que se tivesse ficado na exclusividade de um grupo restrito. Percursor, pioneiro e ecléctico, colecionador de medalhas e recordes olímpicos e mundiais, formador de melhores do mundo e campeões europeus, cumpriu o sonho de ser tão grande como os maiores da Europa.

Um desígnio que sempre que é cumprido tem de ser outras tantas vezes recomeçado. Esse permanentemente sobressalto é a armadilha perfeita para o coração cujo sentimento de pertença ao clube dos  Stromp, de Jorge Vieira, Azevedo, do Zé da Europa, Peyroteo, dos 5 Violinos, do Damas, do Agostinho, do Livramento, Moniz Pereira, Carlos Lopes tantos outros me faz sentir especial. Ser do Sporting foi uma escolha especial."

 

(*) José Duarte, autor de "A Norte de Alvalade"

 

P.S. Mais autores da blogosfera passarão por aqui, mas no entretanto abro este espaço aos leitores que se queiram candidatar a escrever sobre o seu amor ao Sporting. Bastará para tal enviarem um texto com o título "O amor é..." para a caixa de comentários de um qualquer dos meus Posts. 

13
Ago19

O amor é... por Pedro Correia(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o Pedro Correia. Antes de mais, cumpre-me a obrigação de informar que se estou presente na blogosfera devo-o ao Pedro (se não gostarem de me lêr, já sabem para onde enviar a factura), algo de que nunca me esqueço. Foi ele, sem me conhecer, que um dia me desafiou para alinhar no plantel do "És a nossa FÉ" e assim poder ter o privilégio de escrever sobre a minha primeira importante escolha na vida, o Sporting, um amor que não tem fim.

O Pedro tem sido obreiro de vários casos de popularidade: para além do supracitado blogue, de que foi fundador e onde permanece há já largos anos como o co-autor mais influente e profuso, ele é também co-autor do "Delito de Opinião". Cerebral, directo, contundente, provocador por vezes, o Pedro tem um raro instinto para tudo o que possa ser notícia, característica que aliada a uma opinião que procura sempre fundamentar, a uma técnica narrativa irrepreensível e à sagacidade empregue na esgrima de argumentos com os seus leitores o tornam uma figura incontornável da blogosfera. Hoje vão lê-lo porventura num registo um pouco diferente, que isto de falar de amor a um clube obriga-nos a passar a nossa vida em revista. Ilustrando-o, PC enriquece o seu belo texto dando-nos conta de viagens por um mundo onde o Sporting foi sempre uma companhia constante e marcante, sinal inequívoco da implantação de um gigante por vezes sem consciência da sua real relevância social. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Pedro nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Amar o Sporting é cultivar alguns dos valores que mais prezo. Ser fiel às origens, às tradições, à devoção clubística – antónimo de clubite. Praticar a lealdade em campo e fora dele, rejeitando golpes baixos. Gostar muito de vencer, sim – mas sem batota. Recusar ódios tribais a pretexto da glória desportiva. Nunca confundir um adversário com um inimigo, sabendo de antemão que o futebol (só para invocar o desporto que entre nós mobiliza mais paixões) é a coisa mais importante das coisas menos importantes, como Jorge Valdano nos ensinou. 

Amo o Sporting pela marca inconfundível do seu ecletismo. Os meus primeiros heróis leoninos, ainda em criança, eram Leões de corpo inteiro sem jogarem futebol. Foi o Joaquim Agostinho a brilhar nos Alpes e a vencer etapas na Volta à França depois de ter sido o maior campeão de ciclismo de todos os tempos em Portugal. Foi o António Livramento, artista exímio com um stick nas mãos, campeão europeu de verde e branco, além de campeão mundial a nível de selecções. Foi o Carlos Lopes, recordista absoluto do corta-mato europeu, brioso herói da estrada, medalha de prata nos 10 mil metros em Montreal, primeiro português a subir ao pódio olímpico, de ouro ao peito, naquela inesquecível maratona de 1984 em Los Angeles.

Amar o Sporting é abraçar o universalismo que fez este nosso centenário clube transbordar os limites físicos do País e galgar fronteiras. Conheci fervorosos sportinguistas nas mais diversas paragens do planeta. Nos confins de Timor, no bulício de Macau, na placidez de Goa – lá estão, com a nossa marca inconfundível, sedes leoninas que funcionam como agregador social naqueles países e territórios, assumindo em simultâneo uma ligação perene a este recanto mais ocidental da Europa. 

Amar o Sporting é cultivar a tenacidade de quem nos soube ensinar, de legado em legado, que nunca se vira a cara à luta. João Azevedo a jogar lesionado entre os postes, só com um braço disponível, enfrentando o Benfica num dos clássicos cuja memória perdurou através das gerações. Fernando Mendes, um dos esteios do onze que conquistou a Taça das Taças em 1964, alvo de uma lesão no ano seguinte que o afastou para a prática do futebol, mas capaz de conduzir a equipa, já como treinador, ao título de 1980. Francis Obikwelu, nigeriano naturalizado português e brioso atleta leonino que saltou da construção civil onde modestamente ganhava a vida para o ouro nas pistas europeias em 2002, 2006 e 2011. 

Campeões com talento, campeões com garra, campeões inquebrantáveis – mas também campeões humildes, conscientes de que nenhum homem é uma ilha e um desportista, por mais aplausos momentâneos que suscite, é apenas uma parcela de um vasto arquipélago já existente quando surgiu e destinado a perdurar muito para além dele. Na Academia de Alcochete, no Estádio José Alvalade, no Pavilhão João Rocha, somos conscientes disto: ninguém ganha sozinho. Antes de Cristiano Ronaldo havia um Aurélio Pereira, antes de Livramento havia um Torcato Ferreira, antes de Carlos Lopes havia um Mário Moniz Pereira.

O desporto com a genuína marca leonina não cava trincheiras: estende pontes, transmitindo a pedagogia da tolerância e cultivando a convivência entre mulheres e homens de diferentes culturas, ideologias, crenças e gerações. 

É também por isto que amo o Sporting: fez-me sempre descobrir mais pontes que trincheiras. O que assume relevância não apenas no desporto: é igualmente uma singular lição de vida."

 

(*) Pedro Correia, fundador e co-autor de "És a nossa FÉ", co-autor de "Delito de Opinião"

12
Ago19

O amor é... por Joana Marques(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido uma senhora, ou melhor (para que não fiquem dúvidas sobre a sua idade e jovialidade), uma menina, mulher, menina mulher, casada, mãe de 2 filhas e com outra a caminho, a Joana Marques. Há alguns meses atrás, mão amiga trouxe ao meu conhecimento a Joana. No seu blogue escrevera algo sobre o Sporting que eu deveria lêr, dizia o meu amigo. Li. E aquilo tocou-me. Tocou-me pelo estilo de escrita de cunho muito próprio e intimista, pela forma como os seus textos ganhavam vida com a sintaxe por via de uma invulgar e ousada disposição das frases (a indicar uma personalidade muito vincada), mas também (principalmente) pela forma como conseguira traduzir a sua paixão pelo nosso clube. Foi a primeira vez que li o "Feita de Sporting", que mais tarde vi traduzido pelo nosso marketing em "Feito de Sporting", que adicionava as conquistas aos sentimentos. Reli o texto e não esqueci. Não conhecendo a Joana, guardei em ficheiro na minha cabeça para memória futura. E a oportunidade de contacto surgiu com esta série "O amor é...".  Assim, sem mais delongas, esperando ter-lhe feito justiça (há sempre algum pudor e dá sempre um bocadinho de medo apresentar quem acabamos de "conhecer"), aqui fica o texto que a Joana nos escreveu por amor ao Sporting:

 

"Tenho 3 filhas.

Quando penso naquilo que quero para elas peço: saúde, felicidade..

…e que sejam do Sporting.

É por isso que nas noites de mais inspiração, em vez de lhes ler “a Branca de Neve e os 7 anões” lhes conto episódios vividos por mim. Com o Sporting.

Com a Alice e a Mariana ao meu colo e a Luísa dentro da minha barriga, começo devagarinho….

 

Era uma vez….

…há muito, muito tempo.

  1. No Alentejo.

Tinha 6 anos e passava as férias grandes em casa dos meus avós.

Eu, o meu irmão e uma carrada de primos rapazes.

Era levada da breca e tirava a paciência a tudo e a todos.

Era a mais nova.

Hiperactiva. Mimada.

Precisava de atenção e entretenimento constante.

Passávamos os dias a correr atrás do sol e regressávamos a casa ao anoitecer. Lanchávamos a fruta das árvores, bebíamos a água dos fontanários públicos e fazíamos amigos improváveis.

Não havia telemóveis. Toda a gente confiava em nós. Brincávamos como queríamos e onde queríamos.

Os meus pais e os meus tios visitavam-nos ao fim-de-semana. Ao sábado à noite passava um bom par de horas dentro da banheira. No dia seguinte a minha mãe levava-me à missa e não podia ir com aquelas pernas todas encardidas.

 

Os meus pais e os meus tios iam-se embora ao Domingo depois de almoço.

 

 

Um desses domingos. Saíram mais cedo.

Para grande alívio do meu avô.

O campeonato ia começar. O Sporting ia jogar.

Quando o Sporting jogava o mundo parava.

O meu avô, exigia silêncio e atenção.

Sentava-se no sofá da sala com a minha avó ao lado.

Nós sentávamo-nos “à chinês” ao redor do sofá.

Calados que nem ratos. À espera de novidades.

Mas…

….a minha fama era qualquer coisa!

O meu avô confiava no silêncio de todos excepto no meu. Vá se lá saber porquê… ;)

Enquanto sintonizava o rádio chamava-me!

- Joana!

Ficava direitinha e caladinha! Em sentido…

Também eu queria participar do momento.

O meu irmão dizia-me baixinho ao ouvido:

- Se te sentires aborrecida vai por aí tocar às campainhas!

Não fui!

O jogo começou.

Fiquei ali a alimentar o meu Sportinguismo.

O meu avô tinha o rádio ao ouvido.

Nervoso.

Pediu à minha avó ajuda divina.

A minha avó levantou-se e tirou a tampa de uma terrina que tinha em cima da mesa.

Tirou um terço e começou a rezar.

O meu irmão disse-me baixinho ao ouvido...

- A avó está a rezar a Deus para o Sporting ganhar!

 

O Sporting ganhou o jogo!

 O meu avô levantou-se.

Nós fomos atrás dele.

Entrou na adega. 

Saiu de lá com 4 foguetes. 

Lançou-os.

Para que toda a gente soubesse que o Sporting tinha ganho.

 

No fim de semana seguinte  os meus pais voltaram para nos ver e eu tinha uma coisa muito importante para lhes contar.

Mal saíram do carro! Gritei...

- Deus é do Sporting! Deus é do Sporting!

A minha mãe quase enfartou.

O meu pai riu desalmadamente.

Eu, acrescentei:

- O Sporting jogou, a avó rezou a Deus e o Sporting ganhou!!

Feliz da vida, acreditei que o Sporting ia ganhar para sempre.

Deus era do Sporting! Deus era do Sporting!

 

 

O Sporting foi desde o meu primeiro dia de vida o prolongamento da minha família, Alvalade o prolongamento da minha casa.

Actualmente, não sou crente mas tenho uma fé inabalável no meu Sporting.

Tudo pode falhar...

...menos o meu Sportinguismo!

Continuo a acreditar que o Sporting vai ganhar os jogos todos!

Nos ombros, tenho a responsabilidade de transmitir toda esta fé e esta memória às minhas filhas, para que daqui a 20 anos, sejam elas as convidadas a escrever um texto sobre o grande amor das nossas vidas!

 

Obrigada, Pedro!

Tão bom estar por aqui. 💚"

 

(*) Joana Marques, autora de "Kiosk da Joana"

11
Ago19

Os jogos da minha vida (V)


Pedro Azevedo

14.12.1986  Sporting - Benfica 7-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas; Gabriel, Venâncio, Virgílio e Fernando Mendes (Duílio, aos 79 min.); Oceano, Litos (Silvinho, aos 79 min.), Zinho e Mário Jorge; Raph Meade e Manuel Fernandes.  

 

O Sporting vs Benfica de 86 é o único jogo desta série que não presenciei ao vivo, facto do qual jamais me perdoarei. Por sortilégio, o que perdi "in loco" em emoção ganhei em explicação racional do que se passou em campo. É verdade, enquanto estudava para uma Frequência de Economia calendarizada para o dia seguinte, o jogo proporcionar-me-ia a aplicação prática das teorias do liberalismo, simbolizadas na expressão "laissez faire, laissez passer" com que a defesa encarnada pretendeu ilustrar os conhecimentos teóricos que eu ia adquirindo nos livros e cadernos de apoio.  

 

À cautela, deixara a aparelhagem sintonizada numa estação radiofónica que cobria o derby. Eu, no meu quarto, à secretária, a aparelhagem na Sala de Estar com o som baixinho. Cerca de 20 metros nos separavam, distância fulminantemente superada logo ao quarto de hora quando Mário Jorge inaugurou o marcador. Seguiu-se uma hora relativamente tranquila, sem grande volatilidade nos decibéis que vinham de outra divisão da casa, que me permitiu concentrar na matéria em atraso. Chegou então a catarse de uma meia hora final feita de constantes piscinas naquele corredor que separava a zona dos quartos das áreas comuns. Desse transe e até à rendição final distaram poucos minutos. A emoção acabaria por vencer a razão, o Sporting nocautearia de uma só penada Adam Smith, Locke, Burke, Bentham, Malthus e Marx. O som da aparelhagem já não estava baixinho e o vizinho de baixo, benfiquista convicto, fazia questão de o notar a toque de cabo de vassoura, anunciando sarilhos. Sarilhos, origem do nosso Manél, imparável nessa tarde. O jogo acabara e era hora de celebrar. Sózinho em casa, olhei para o meu Dual, gira-discos com uma base em madeira onde afinfara três pancadinhas de sorte antes do jogo começar. Em cima do tampo em vidro da geringonça havia um LP e um Single. Por uma vez o recém-importado "Love will tear us apart" dos Joy Division de Ian Curtis ficaria para trás, vergado pelo peso de Mr James Brown, o "Padrinho do soul". I feel good!... 

10
Ago19

113 anos de história, 13 glórias - o meu voto


Pedro Azevedo

O Sporting está a eleger, no seu sítio oficial (https://www.sporting.pt/gloriassporting), durante o mês de Agosto, 9 figuras do seu ecletismo que irão ser imortalizadas em espaço próprio no Pavilhão João Rocha. Os eleitos juntar-se-ão a outras 4 glórias - António Stromp, Mário Moniz Pereira, Reis Pinto e Salazar Carreira - previamente escolhidas pelo Conselho Directivo, perfazendo assim o número de 13 personalidades homenageadas. Os sócios que quiserem votar terão de escolher 5 atletas entre os 20 nomeados na categoria de desportos colectivos e outros 4 atletas entre os 20 nomeados na categoria de desportos individuais.

Eis o meu voto, entretanto já registado (por ordem de disposição no "site"): António Livramento, Bessone Basto, Carlos Silva, Chana, Manuel Brito, Alfredo Trindade, Carlos Lopes, Fernando Mamede e Joaquim Agostinho. 

Todos os momentos de exortação da Cultura Sporting e sua identidade merecem o meu aplauso, pelo que peço a todos os Leitores de Castigo Máximo que sejam sócios do Sporting Clube de Portugal para aderirem a esta iniciativa, votando. Participem! 

09
Ago19

O amor é... por José da Xã(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José da Xã. Conheci o José no meu primeiro jantar do blogue “És a nossa FÉ” e logo me impressionou pela sua autenticidade, camaradagem e profunda devoção ao Sporting. Para além disso, o José é um homem bom, genuíno, de princípios,  intuitivo, sábio até, que cultiva a amizade e tem um coração enorme. Os seus Posts são o produto disso mesmo, cheios de puros sentimentos leoninos que nos contagiam, reconciliam com o nosso amor ao clube e, bem absorvidos, nos fazem querer ser melhores Homens. Assim como ele é. Aqui fica o texto que o José nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Nasci no seio de uma família de sportinguistas, a começar pelo meu pai, que foi sócio durante algum tempo e pelo meu tio, irmão da minha mãe, que ainda hoje é sócio (creio mesmo que fará parte dos “Cinquentenários”), mas que devido à provecta idade deixou de ir a Alvalade.

Entretanto há umas breves semanas veio-me à memória uma recordação da minha infância que reza assim: certo dia estava eu na aldeia, provavelmente de férias, quando um primo, que se preparava para partir para África ao abrigo do SMO, chamou-me para me mostrar as suas recordações!

Era uma daquelas malas de viagem tão em voga nos anos 60, meia de papelão grosso, meia de madeira, com quadrados de estampagem. Ao abrir a tampa vi que naquele pequeníssimo mundo estava uma história fantástica. O meu primo guardara muitos recortes de jornais que falavam do Sporting, cromos de atletas leoninos muito usados e outras referências sportinguistas.

Foi aquele ínfimo espaço que me fez despertar para uma outra realidade, para algo que hoje reconheço ser mais profundo. Foi nesse momento histórico da minha vida que me tornei verdadeiramente sportinguista.

Após esta minha breve viagem a um passado longínquo mas saudoso, regresso à crua actualidade para afirmar sem rodeios que o Sporting é hoje uma profundíssima paixão.

Recordo agora um outro exemplo de fervor clubístico. Certa tarde após um dia de trabalho e à volta de uma mesa numa tasca na Rua do Cruxifixo e por detrás de umas imperiais alguém perguntou a um sportinguista:

- Entre a tua mulher e o Sporting quem escolherias primeiro?

Resposta rápida:

- O Sporting…

- Porquê?

- Porque conheci primeiro…

Não chegando a este exagero diria que o meu amor pelo Sporting é… totalmente incondicional! E irrevogável!

De outra forma há muito que teria deixado de ser sócio, que não compraria o meu lugar em Alvalade ou que não entraria no Pavilhão João Rocha.

Mas este amor não tem explicação lógica. De todo.

Não se percebe, não se entende, não se controla… só se sente. São as unhas roídas nos minutos finais de um jogo, o frio glaciar naquela grande penalidade, a alma repleta de alegria na vitória, o murro no estômago na derrota.

Nisto a razão não manda, não se impõe.

É o coração leonino que se sobrepõe, é o orgulho, a honra, a alegria de se ser do Sporting Clube de Portugal.

Sentimentos únicos que repito ninguém saberá explicar. Nem eu próprio.

É assim o meu amor ao Sporting!" 

 

(*) José da Xã, autor de "LadosAB", co-autor de "És a nossa FÉ"

 

P.S. "O amor é..." voltará na segunda-feira.

08
Ago19

O amor é... por Rui Monteiro(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais, incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting.

 

Hoje apresento o Rui Monteiro. Bom, na verdade o Rui dispensa apresentações, o seu estilo irónico é inconfundível. Ler os seus textos é um renovado prazer. Neles coabitam erudição, inteligência, independência, humor e um sentido de responsabilidade ilustrativo da integridade do autor. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Rui escreveu por amor ao nosso clube:

 

"[O Pedro Azevedo fez a maldade de me pedir um pequeno texto a propósito do Sporting e de uma iniciativa em torno do tema genérico "o amor é...". Os homens não choram, foi assim que o meu pai me ensinou, como tantos outros pais na minha geração. Cada um constrói a carapaça que pode e faz das tripas coração para assim viver a sua vida. Pratico com gosto a ironia, a roçar o cinismo. Não consigo encontrar boa razão para escrever este texto, mas se o Pedro Azevedo mo pede é porque a encontrará seguramente. Tentemos por essa razão.]  

Decorei uma parte da lírica camoniana. Ficou-me de infância e da adolescência e nunca me saiu da cabeça. É como a letra numa qualquer língua estrangeira de uma música que nos parece fazer sentido sem que percebamos exatamente porquê. Ouvimos e vão-se (re)construindo imagens e memórias. “O amor é”, pois é! Que é, é, mas não sabemos o quê. É fogo que arde sem se ver ou uma outra forma de dizer que se define pela sua simples existência. Também é presente do indicativo. Reconhecemo-lo e, quando o reconhecemos, logo passou. O amor é e basta.

Não sei porque sou do Sporting. Admito que por influência do Zé, um miúdo pouco mais velho que morava em minha casa, pois os pais trabalhavam na Guiné. É possível também que seja por oposição ao meu pai, que era portista, ou por assim conseguir lugar nos dérbis que todos os dias jogávamos na escola, em Viseu. As minhas primeiras memórias sportinguistas remontam a 1974, ao jogo da segunda mão da meia-final da Taça das Taças, contra o Magdeburgo, que perdemos por dois a um e assim não passámos à final, e ao da final da Taça de Portugal, contra o Benfica, que ganhámos por dois a um. São memórias que vão de 24 de abril a 9 de junho. O país mudou entretanto e passou-se do antes ao depois do adeus, enquanto fazia dez anos e era aprovado na prova oral do exame da quarta classe, realizando-a um dia antes do previsto e sem vestir os calções que a minha mãe se tinha esmerado a confecionar para esse cerimonial de papagueado conhecimento.

Lisboa era longe, muito longe. O Estádio de Alvalade e o Sporting eram duas entidades distantes. O sportinguismo era uma paixão ficcionada. Alimentava-se de resultados, relatos, cromos e cadernetas e, uma ou outra vez, de jogos na televisão. Fui a Lisboa pela primeira vez para me inscrever no Instituto Superior de Agronomia, onde estudei. Nos primeiros anos, morei em Algés, em Belém e na Ajuda; nos últimos, na Estrada do Desvio, no Lumiar. Apanhava o 36 da Carris para o Campo Pequeno, onde o 56 me levava à Praça do Calvário, percorrendo o resto do caminho a pé até à Tapada da Ajuda. Passava todos os dias pelo Estádio de Alvalade. Vi o pavilhão e passei a ver metade, quando foi parcialmente demolido no início das obras de prolongamento do Metro de Lisboa para o Campo Grande. Via também o pelado, onde muito raramente a equipa principal treinava. Um dia, por impulso, saí do 36 para ver os jogadores treinar. Lembro-me do Duílio como se estivesse há minha frente. Quem vê um bigode como o dele nunca mais o esquece. Ou porque morava longe ou porque não tinha dinheiro, vi jogar o Sporting intermitentemente. Estive à porta do Estádio de Alvalade para comprar bilhete para o jogo contra o Benfica que ganhámos por sete a um. Hesitei e acabei por não comprar: tinha dinheiro ou para viver na semana seguinte ou para ver o jogo. Arrependo-me, hoje mais do que nesse domingo!

[Ainda não cheguei a meio da minha vida e o texto está razoavelmente chato e comprido. Abreviemos pois.] Em 2017, a minha filha, Ana, foi estudar no segundo semestre para a Universidade de San Andrés, em Buenos Aires. Viajou com antecedência para passar uma temporada no Rio de Janeiro. Quando acabou os exames, continuou as viagens que tinha iniciado durante o semestre na América do Sul e, depois do Chile e do Uruguai, andou também pela Colômbia e pelo Perú. Regressou a meio de Agosto e foi para o Festival de Paredes de Coura, enquanto iniciávamos um período de férias, em Troia. Havia meses que não chalaçávamos como deve ser (expressão a que damos um sentido muito próprio, muito nosso). Combinámos ir buscá-la e ao meu sobrinho João, um fanático portista, a Lisboa para passarem o resto das férias connosco, aproveitando a oportunidade para ir ao Estádio de Alvalade ver o Sporting contra o Estoril, o primeiro jogo da época em casa. A Ana não aprecia futebol e é do Sporting porque tem de ser de alguma coisa, mas era uma excelente oportunidade para revivermos a final da Supertaça de 2002, jogada no Estádio do Bonfim, quando ela e o João eram muito pequenos. 

Ao princípio, era uma festa: “O Mundo Sabe Que”; o Acuña a cruzar para o Gelson Martins empurrar a bola ao segundo poste para o primeiro golo; o Bruno Fernandes a fazer a bola sobrevoar a barreira e a marcar o segundo golo. Depois, bem, depois o jogo encanzinou-se, como era o costume do embaralhado tático que o Jorge Jesus nos servia, e pouco a pouco o difícil tornou-se impossível e o fácil em difícil. O Estoril começou a parecer o Real Madrid e, a meio da segunda parte, reduziu para dois a um. Dentro de campo e no estádio houve mosquitos por cordas. No último minuto, na última jogada, o Estoril marcou o segundo golo. O João petrificou e o olhar da Ana revelava uma profunda tristeza; não por ela, não pelo Sporting, mas por mim. A triste ternura daquele olhar encerrava a razão de ser, o sentido, de uma vida, da minha vida. 

O amor autodefine-se, autorreferencia-se. Não é branco nem preto, não é carne nem peixe, não é homem nem mulher. Não é substantivo. Necessita de objeto mas para a sua simples projeção em nós. É e logo se esvanece, persistindo as suas memórias. O Sporting não é o nosso amor, é as nossas memórias (partilhadas) e, para além de nós, mais ninguém é dono delas, seja este ou aquele dirigente, jogador, treinador ou grupo de adeptos e sócios. Nós somos as nossas memórias e, por isso, o Sporting somos nós, todos e cada um.  

[A história tem um final feliz. O vídeo-árbitro assinalou fora-de-jogo e anulou o golo do Estoril. Fomos jantar ao Mercado do Cais do Sodré. Em seguida, demos uma volta por aqui e por ali até nos depararmos com o Jamaica e o Tokyo, meus lugares de culto e de iniciação. Falei-lhes pela enésima vez dos clássicos, como The Doors, The Rolling Stones ou Lou Reed e Velvet Underground, e dos contemporâneos que se transformaram em clássicos para as gerações seguintes, como Dexys Midnight Runners, U2, REM ou The Smiths. Regressámos, tarde, a Troia. O João e a Ana adormeceram, tranquilos. Coloquei o CD Dark Was The Night para ouvir So Far Around The Bend, dos The Nationals, e a voz melancólica de Matt Berninger cantando: “Nobody knows where you are living/Nobody knows where you are/You're so far around the bend/You're so far around the bend/There is no leaving New York/There is no leaving New York”. Não sei o sentido que esta letra tem para quem a escreveu. Para mim, lembra-me inúmeras viagens com a Ana e uma mensagem dela: “Pai, estou num bar a ouvir So Far Around The Bend!”]" 

 

(*) Rui Monteiro, autor de "A insustentável leveza de Liedson"

04
Ago19

Os jogos da minha vida (IV)


Pedro Azevedo

01.06.1980  Sporting - UD Leiria 3-0

 

A nossa equipa: Fidalgo (Vaz, aos 80 min.); José Eduardo, Eurico, Bastos e Barão; Meneses, Ademar e Fraguito; Manoel, Manuel Fernandes e Jordão. 

 

As imagens que retenho são as de um estádio cheio como nunca (ainda com o antigo peão), um ror de gente na recém-inaugurada pista de tartan (substituiu a de cinza) circundante ao relvado, um cordão policial a impedir que os adeptos ultrapassassem as linhas laterais, o golo de Manuel Fernandes que inaugurou o marcador e o mar verde-e-branco que engoliu Jordão após o terceiro golo. Lembro-me também que o Leiria tinha dois Dinis, o mais velho dos quais o "brinca-na-area", nossa antiga glória já em final de carreira. Recordo-me também da festa, a primeira que vivi "in-loco", da invasão de campo por adeptos eufóricos após o apito final, do ar de satisfação de meu pai e do alívio que senti pela concretização de algo que já se perspectivava no regresso daquela minha viagem no Comboio Verde a Guimarães.

 

Como demorara a passar essa semana. No fim de semana anterior, tinha ido com o meu pai à Cidade Berço. Estava atrás da baliza onde o Manaca fez o auto-golo, acto perfeitamente involuntário e cobardemente aproveitado pelo nosso adversário de ocasião. Na verdade, o nosso antigo jogador saltara entre dois leões e para sua desventura vira a bola tocar-lhe (creio que) na nuca e surpreendentemente anichar-se nas redes vimaranenses. Mas esse não foi o únco facto insólito desse jogo: a poucos minutos do fim, Fidalgo fez uma defesa "impossível", estirando-se para a sua esquerda e assim defendendo um remate com selo de golo do ex-leão Vítor Manuel, perdendo posteriormente os sentidos ao embater no poste e acabando o jogo com a cabeça toda entrapada. Ainda hoje estou convencido que esse momento de bravura do nosso guarda-redes garantiu-nos o campeonato. No comboio, de regresso a casa, recordo ainda o susto em Campanhã, com as carruagens a serem atacadas com pedras de calçada vindas da gare onde se encontravam adeptos portistas, uma forma singular de ver o desporto por parte de adeptos fanáticos que ainda hoje infelizmente pululam um pouco por todos os clubes.

 

Uma semana depois, éramos campeões! Um título que nunca esquecerei, porque teve um sabor especial. Comigo já neste mundo, o Sporting havia ganho o campeonato de 1970, façanha de que não guardo qualquer memória. Já do de 74 eu tenho uma recordação, mas para mim foi um campeonato radiofónico. Assim, o de 80 foi o "meu" campeonato, aquele que acompanhei nos estádios, em que vivi a gesta daquela dupla jornada final e pude sentir de perto as esperanças e ansiedades dos nossos adeptos até à consagração final.

 

Em 1980, o Sporting não tinha o melhor conjunto de jogadores. É certo que Manuel Fernandes e Jordão eram excelentes, Eurico um patrão na defesa e Fraguito um mago do passe, mas globalmente a qualidade do plantel era inferior à dos nosso rivais. Só que no final ganhámos nós, mérito certamente também dos treinadores Fernando Mendes e Rodrigues Dias (entretanto substituído) e do preparador físico Radisic. Não sei se isto poderá servir como motivação ou exemplo para um grupo - eu gostaria que sim - , mas se há ocasiões em que o todo é muito superior à soma das partes, então a gloriosa campanha de 80 é uma delas, provando que com esforço, dedicação e devoção não há impossíveis. Que hoje, no Algarve, a nossa equipa ponha os olhos nisto!

02
Ago19

Os jogos da minha vida (III)


Pedro Azevedo

07.09.1988  Sporting - Ajax 4-2

 

A nossa equipa: Rodolfo Rodriguez; João Luiz, Venâncio, Morato e Fernando Mendes; Oceano, Carlos Manuel e Litos; Silas, Paulinho Cascavel (Rui Maside, aos 58 min.) e Forbs (Carlos Xavier, aos 82 min.).

 

A Holanda acabara de se sagrar campeã europeia. Nessa equipa, o Ajax tinha 4 elementos: o dúo Arnold Muhren/ Jan Wouters, títulares no miolo da Laranja Mecânica no Euro-88, o médio Aron Winter e o ala John Van`t Schip. Para além destes, os lanceiros tinham como destaque o guarda-redes Stanley Menzo - precursor no futebol mundial da ideia do guardião como líbero - , o defesa Frank Verlaat, os irmãos Witschge (Rob e Richard), o ponta de lança sueco Stefan Pettersson (eleito melhor jogador sueco em 87) e o craque que despontava, o genial Dennis Bergkamp.

 

Em contraposição, no Sporting vivia-se o período das "unhas". Jorge Gonçalves ascendera à presidência e com ele trouxera o guarda-redes uruguaio Rodolfo Rodriguez, os brasileiros Douglas, Silas e Ricardo Rocha, o sueco Eskilsson e o português Carlos Manuel, o "herói de Estugarda". O treinador era o também uruguaio Pedro Rocha, um dos melhores jogadores de sempre da selecção celeste. o único que disputou 4 fases finais de campeonatos do mundo.

 

Vivia-se um tempo novo em Alvalade. Após uma presidência marcante de João Rocha, o seu vice, e sucessor, Amado de Freitas pouco tempo estivera no cargo. Seguiu-se-lhe Jorge Gonçalves, o "bigodes", e com ele uma onda de euforia que viria rapidamente a desfazer-se por entre um mar de problemas financeiros. Mas, à data deste jogo, o ambiente ainda era de esperança e entusiasmo...

 

Sporting e Ajax defrontavam-se pela primeira vez na sua história, em jogo a contar para a 1ª mão da primeira eliminatória da Taça UEFA. Para mim, uma ocasião especial, pois iria ver ao vivo uma equipa cujas camisolas míticas e escola de futebol total me impressionavam desde a década anterior, quando Krol, Haan, Neeskens, Piet Keizer (tio do nosso actual treinador), Rep e Cruijff brilhavam a grande altura. Logo de início, uma tabelinha entre Oceano e Silas permitiria ao primeiro inaugurar o marcador. Pouco tempo depois, Pettersson igualava, de cabeça. Novo ataque do Sporting e Forbs é derrubado na área. Na conversão da penalidade, Paulinho Cascavel volta a dar vantagem ao Sporting, no clássico guarda-redes para um lado, bola para o outro. Ainda antes da meia-hora, insistência de Silas pela direita, passe para João Luiz, e do cruzamento deste, deflectido pelas pernas de Verlaat, resultaria novo golo dos leões. Em cima do intervalo, José Manuel Forbs, completamente isolado na área, perde a oportunidade de dilatar o activo. No reatamento, Oceano desperdiça nova chance de golo. Até que Silas, isolado por Carlos Manuel, cava um penalty no frente-a-frente com Menzo. Na sequência, Litos amplia o resultado. Perto do fim, o sueco Pettersson bisaria na partida, devolvendo a esperança aos holandeses de virarem a eliminatória, algo que não se viria a confirmar, pois os leões, com mais uma exibição portentosa de Silas, ganhariam de novo em Amesterdão (2-1). 

 

O Sporting derrotava assim o vencedor da Taça das Taças de 1987, uma equipa que perdera Frank Rijkaard e Marco Van Basten mas onde a sua fábrica de talentos já produzira novos craques como Rob Witschge (mais tarde no Barcelona) e Bergkamp (Arsenal), que agora apareciam nos grandes palcos. Para além disso, contava com inúmeros internacionais holandeses, muitos deles presentes no Verão anterior na Alemanha, onde a Holanda conseguiu a única (até hoje) importante conquista do seu futebol a nível de selecções. Por tudo isto, a vitória do Sporting neste jogo (e na eliminatória) revestiu-se de um carácter histórico, algo que tive a felicidade de presenciar "in-loco" e aqui deixo em testemunho.  

30
Jul19

Os jogos da minha vida (II)


Pedro Azevedo

18.11.1984  Sporting - Sp. Braga 8-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas; Carlos Xavier, Venâncio, Zezinho e Mário Jorge; Oceano, Virgílio, Litos (Oliveira, aos 34 min.) e Sousa (Eldon, aos 74 min.); Manuel Fernandes e Jordão.

 

Antiga estrela do Liverpool, John Toshack chega em 84 ao Sporting proveniente dos galeses do Swansea, clube onde iniciara a carreira de treinador. Para seu adjunto o Sporting convida Pedro Gomes, ex-jogador e capitão do clube, membro da equipa que venceu a Taça dos Vencedores das Taças em 1964, ainda hoje o único troféu internacional do futebol do Sporting. Damas regressa, após alguns anos no Santander, Guimarães e Portimonense, e Sousa e Jaime Pacheco chegam a Alvalade. Em sentido contrário sai Futre. Ainda hoje me pergunto o que poderia ter sido essa temporada caso o menino do Montijo não tivesse rumado ao Porto. Para além disso, a lesão prolongada de Jaime Pacheco também constituiu um importante revés.

 

Este jogo veio recentemente à baila a propósito da vitória (época passada) por igual resultado do Sporting na deslocação ao Jamor, casa emprestada da Belenenses SAD. Trinta e cinco anos antes, eu estive no estádio com um primo direito meu, na época um dos meus habituais compinchas de bancada. Absolutamente irredutíveis, nada nos demovia. Nem mesmo uma chuva de granizo de proporções bíblicas acompanhada por um dilúvio do arco-da-velha, aquando de uma recepção ao Recreio de Águeda marcada pela estreia de um tal Rodger Wilde (na época havia 2/3 reforços apenas, o que aumentava a curiosidade sobre eles), em que toda a gente se abrigou no interior do estádio, enquanto nós optámos por fazer face à intempérie a fim de não perdermos a entrada em campo do inglês (já não me recordo quem terá substituído).   

 

Voltando atrás, este jogo com o Braga foi referente à 10ª jornada do campeonato. O Sporting somara 7 vitórias, 1 empate e 1 derrota nos nove jogos anteriores. Dir-se-ia estar bem lançado, já com duas vitórias concludentes por 3-0 (Guimarães e Varzim, em casa), outra por 5-2 (Vizela, fora) e ainda uma por 6-2 (Salgueiros, fora). Como senão, uma inesperada derrota por 2-0 em Penafiel, além de um empate sem golos em Portimão. Logo de entrada, uma triangulação entre Mário Jorge e Manuel Fernandes permitiria ao açoriano inaugurar o marcador. Ainda antes do intervalo, António Oliveira ampliaria o resultado, com um tiro à entrada da área. Já no segundo tempo, o Braga reduziu através de uma penalidade polémica convertida por Zinho, um jogador que no futuro viria a representar o Sporting e a ficar na história como um dos que pisaram o relvado no memorável 7-1 ao Benfica. [Neste tesourinho da RAI italiana que encontrei na internet, é possível ver Michel Platini (na época, jogador da Juventus) em estúdio a comentar o castigo máximo e a dizer "non c`è tanto".]

 

Recordo que o golo do Braga despertou um Sporting até aí um pouco adormecido, embalado por dois golos madrugadores. Nem deu tempo para nas bancadas se recrear aquela onda de pessimismo tão típicamente leonina ("we will never make it..."), porque o trio Manuel Fernandes, Oliveira e Jordão abriu o livro. Geralmente, um deles estando bem já era auspicioso. Se dois estivessem ao melhor nível, a vitória estava assegurada. Mas quando os três tenores afinavam a voz... era de qualquer um cair aos seus pés. Assim foi naquela tarde cinzenta de Novembro. Nos últimos 18 minutos, o Sporting marcou 6 golos, uma coisa do outro mundo. Primeiro foi o Manél, completando uma carambola na área bracarense. Depois, Oliveira, bisando no jogo com novo golo de fora da área. De seguida, calhou a vez a Manuel Fernandes de bisar. Na origem dos dois últimos golos, Rui Jordão (Platini, ainda mal recuperado do susto do Euro 84, farta-se de o elogiar). Cansado de assistir, Jordão, à meia-volta, põe o seu nome no marcador. Faltavam ainda 6 minutos para o fim do jogo e o ambiente nas bancadas era electrizante. Os adeptos reagiam entre a incredulidade e a euforia desmedida. Lembro-me de pensar que estava a ter um sonho. Eis então que o craque Fernandes da época faz o seu hat-trick. Mas Oliveira ainda tinha mais génio para soltar da sua lâmpada e inicia um ataque frontal concluído com uma primorosa assistência para o brasileiro Eldon completar o placard. E não foram mais porque a partida terminou aí. Ainda assim, finalizada a décima jornada, o Sporting já tinha marcado por 32 vezes.

 

Estes 18 minutos contra o Braga constituiram a maior demonstração do génio do trio da frente leonino. Outros momentos houve de puro fascínio, e conquistas até bem mais importantes foram por eles protagonizadas, com destaque para a dobradinha de 82, mas se tiver de destacar um momento em que o profano tocou o sagrado então este é o tal. Cortesia dos "deuses" Oliveira, Manuel Fernandes e Jordão.

28
Jul19

Os jogos da minha vida (I)


Pedro Azevedo

22.02.1976  Sporting - FC Porto 5-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas (capitão); Tomé, Laranjeira, José Mendes e Inácio; Nélson, Fraguito e Baltasar; Marinho (Libânio, aos 87 min.), Manuel Fernandes e Chico (Vítor Gomes, aos 63 min.).

 

Costuma dizer-se que não há amor como o primeiro, e este é provavelmente o jogo da minha vida. A minha estreia ao vivo no José Alvalade foi um baptismo de fogo, com um desafio entre o meu Sporting e o FC Porto. Tudo era novo para mim: a multidão concentrada nas bancadas, as luzes, os sons, as movimentações dos jogadores lá em baixo no relvado. Ainda por cima os ânimos andavam exaltados, consequência da Revolução ainda presente no espírito de todos. Para apimentar um pouco mais a coisa, Joaquim Dinis, o "Brinca na Areia", havia trocado à revelia os leões pelos portistas, explorando uma brecha criada pela nova lei das transferências, processo que não caíra bem aos dirigentes leoninos. Se bem me lembro, ainda estava a habituar-me ao cenário que viria a ser a minha segunda casa quando o Porto abriu o activo. Marcou o peruano Cubillas, aquisição milionária dos portistas que havia sido o terceiro melhor marcador do Mundial de 1970 (México) com 5 golos, um número que viria a repetir no Mundial de 1978 (Argentina), onde foi o segundo mais concretizador. Não passou 1 minuto sem que Chico - mais tarde dito Chico Faria para destrinçar de Chico Gordo, seu futuro parceiro de ataque no Braga - igualasse o placard. O grito de golo, o abraço ao meu pai, os sorrisos das pessoas à minha volta, tudo isso coincidiu para a minha primeira comunhão de sportinguismo no templo do leão. À meia-hora de jogo, nova explosão de alegria, com o repetente Chico a colocar-nos em vantagem.  

 

Juca era o treinador leonino (Monteiro da Costa, o portista), e Manuel Fernandes cumpria a sua 1ª temporada de leão, proveniente da CUF, tendo a seu cargo a difícil tarefa de fazer esquecer Yazalde, o anjo com cara de índio que no seu tempo enlouquecera de alegria as bancadas de Alvalade. O Manél de Sarilhos, por volta da hora de jogo, sentenciaria o destino do Porto, marcando o quarto golo do Sporting, culminando uma portentosa exibição. Antes, logo após o recomeço, Fraguito dera uma maior tranquilidade aos leões, obtendo o terceiro. Até ao fim do jogo, o voluntarioso Baltasar, melena loira ao vento, ainda dilataria mais o resultado. E muitos outros ainda ficariam por marcar, tanto quanto a memória ainda me permite relembrar. 

 

Vitória épica do Sporting, contra um Porto recheado de grandes jogadores e em tirocínio para um título de campeão nacional que não lhe escaparia durante muito mais tempo. Dessa equipa recordo Tibi, Gabriel, Simões, Rolando, Alhinho, Murça, Rodolfo, Octávio, Oliveira, Ademir, Seninho, Gomes, Cubillas e Dinis (não jogou em Alvalade), um plantel de luxo. Mas o meu olhar estava fixado em 3 dos 4 ídolos da minha juventude que eu conhecia pela rádio (a minha primeira memória é de um Sporting-Benfica de 1974, ainda com Yazalde, pouco tempo antes do 25 de Abril). E a verdade é que a elegância de Damas, o futebol sambado de Fraguito e a forma como o Manél colava a bola ao pé não me deixaram desiludido e amplamente superaram a tristeza de já não ter visto o "Chirola" ao vivo.

 

Assim começava um grande amor...

 

PS: Os Leitores recordam este jogo? Fica aberto o convite aos mais e menos jovens para relatarem aqui a sua primeira experiência de Sporting no estádio. E começa uma nova rúbrica do "Castigo Máximo": os jogos da minha vida. 

20
Jul19

Leão rima com campeão


Pedro Azevedo

Portugal tem um novo campeão europeu de sub-20. Na prova dos 1500m do Campeonato da Europa de sub-20 em atletismo que se tem estado a disputar em Boras, na Suécia, Nuno Pereira, atleta do Sporting Clube de Portugal, ganhou a medalha de ouro. Para além da vitória, importa assinalar a extraordinária recuperação que protagonizou, com uma ponta final em superação, feita de esforço, dedicação e devoção, que só poderia mesmo ter terminado em glória.

Convido-o então a ver o vídeo (merece a pena):

19
Jul19

A causa das coisas (reloaded)


Pedro Azevedo

No princípio era o sortilégio da bola, aquela "criatura" rebelde, com vontade própria, que rolava e saltava à minha frente. Não podendo ser domada, ensinada, adestrada, havia pelo menos que poder dominá-la, controlá-la, impôr-lhe a nossa vontade, e esse era todo um desafio. Jogar à bola era só a consumação do amor, muitas vezes primeiro era preciso merecê-lo, nem que para isso fosse necessário recorrer à manufactura caseira e improvisar um objecto redondo a partir de umas meias de vidro. Outras vezes havia que estudar a relação da bola com o vento, que parecia soprar com mais ou menos nós conforme a bola fosse de plástico ou de borracha. A bola de cautchu era o nirvana de qualquer miúdo, o banquete para todos os sentidos. Com uma bola "oficial" nas mãos, a ideia de jogador da bola ficava completa com a camisola do clube de eleição no dorso. A minha, a do Sporting, foi comprada na Socidel, a casa que anteriormente havia sido do melhor de nós todos, o incontornável Peyroteo. 

 

Aos 8 anos, o sortilégio passou a ser o estádio. A minha primeira ida a Alvalade, o coração a bater aceleradamente no caminho, as luzes, o público, as balizas, a relva. Que emoção! Uma estreia de fogo, contra o Porto. E uma vitória, concludente, por 5-1, que se tornou inesquecível. No estádio vi passar todos os meus ídolos, com uma única e honrosa excepção: o meu primeiro ídolo nunca vi jogar ao vivo. Ouvi-o, imaginei-o, como naquela tarde contra o Benfica em que através da telefonia sem fios o relatador gritava a plenos pulmões um golo de cabeça apontado a 20/30 centímetros do solo, ou como naquela tarde de passeio de automóvel dominical em que marcou 5 golos a um guarda-redes do Oriental que curiosamente se chamava Azevedo como eu. Também o vi, fugazmente, pela televisão, num tempo em que "a bola" raramente passava no pequeno ecrã. Falo-vos de Yazalde, que eu associo sempre à minha ideia de Sporting. A minha paixão nasceu com ele, e o primeiro amor nunca se esquece.

 

O tempo foi passando e durante muitos anos o meu ídolo foi o Manuel Fernandes. Chegou Keita, Jordão ou Oliveira, mas eu mantive-me fiél ao Manél de Sarilhos. Pequenos de nascimento, grandes para os adversários. Durante alguns anos, essa minha idolatria foi partilhada com um jogador genial. Era o Fraguito, o homem das trivelas, classe pura ao ritmo do samba que os Vapores do Rego entoavam da bancada e um GPS na ponta de cada bota. Infelizmente, os joelhos não deixaram o transmontano ir mais longe, para meu desgosto e pesar de todos quantos amam o futebol. Quando o Samuel (primeiro) e o Manuel (depois) acabaram, senti um vazio. Gostei das "unhas" Douglas e Silas, mas o meu coração palpitava mais por duas estrelas que nunca confirmaram o seu imenso potencial. Eram o Litos e o Xavier, já que o Futre, de quem tanto gostava, nos deixou prematuramente. Do Xavier guardo uma memória mais recente: num torneio do Clube Sétimo, ali para os lados do Parque Eduardo VIIº, a minha empresa defrontou-o na fase de grupos. Calhou-me vigiá-lo durante alguns minutos, que é como quem diz marcá-lo com os olhos e poder de perto admirar o esplendor da sua ainda prodigiosa e intacta técnica - ó Xavier, também não havia necessidade daquele "elástico", não é assim? - , ao serviço de uma equipa onde também figuravam o seu irmão Pedro, o Carraça (a fazer jus ao nome, sempre a agarrar), o José Eduardo (durinho...), o Sotil, entre outros. Quis o sortilégio que ambas as equipas se tivessem apurado para a fase a eliminar, eles em primeiro como é óbvio, nós em segundo. E no mata-mata lá fomos sobrevivendo até ambos chegarmos à final. Ainda sonhámos - estivemos a ganhar por 3-1 muito à conta do pé leve do Pestana e da garra do Vilhena - , mas eles acordaram ainda a tempo e bateram-nos por 5-3. Na cerimónia de entrega dos prémios, a classe demonstrada na quadra pelo Xavier transferiu-se para a sala de jantar, um senhor. E eu, esmagado pela idolatria, senti-me pequenino para lhe dizer que ele era um dos meus eleitos...

 

Na década de 90, presenciei um quarteto de cordas de enormíssimo nível. O Sousa, o Cherba, o Bala e o "Pastlhas" tocavam uma música diferente de todos os outros, eles eram os "Fab Four". A seguir houve um hiato. Eu sei, tivemos João Pinto, Quaresma, Jardel, mas aquele que mais se aproximou do meu afecto foi o André Cruz, que parado mexia mais no jogo do que 10 formiguinhas trabalhadoras. Voltei a acalentar esperanças com Matias Fernandez, um jogador que poderia ter sido um dos imortais, mas a quem sempre pareceu que a vontade não acompanhava a capacidade ilimitada que tinha com os pés. Depois, um longo interregno. Muita burocracia, por vezes mais eficácia, mas a ausência daquele toque de genialidade. Até que vi o Bruno Fernandes, e ele reconciliou-me com as memórias de outros tempos. 

 

O Sporting no seu estado puro é isto. Nesse estado, a paixão pelo clube confunde-se com o amor que temos ao jogo e a quem nele se destaca. Os jogadores são a razão disto tudo, a bola também. O estádio oferece a moldura perfeita. Sem espectadores, o futebol é como manteiga sem sal. Um artista sublima a sua arte perante uma audiência, sem ela perde a razão da sua existência. O segredo é a partilha, e é isso aquilo que um futebolista oferece ao seu adepto. Reparem que neste texto nunca falei de presidentes. E porquê? Porque se não são eles a razão do nosso amor pelo clube, também não podem ser a razão do nosso afastamento. Viva o Sporting!

16
Jul19

Quiz43 - Imperador


Pedro Azevedo

Central considerado muito promissor no Brasil (jogou no Vasco da Gama), teve uma passagem pela Madeira antes de se afirmar no Sporting. De leão ao peito alinhou 5 épocas até partir para Itália, ganhando uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Foi sempre titular, e esse é o melhor elogio que se lhe pode fazer numa época em que o clube tinha defesas como Valckx, Naybet, Beto ou Quiroga. Para além de ter sentido o apreço constante dos adeptos, recebeu o Prémio Stromp na categoria de futebolista profissional. Quem é?

 

Resposta: Marco Aurélio foi titularíssimo do eixo da defesa leonina durante os cinco anos em que vestiu de verde e branco. Por isso, e devido ao seu homónimo antigo governante de Roma, herdou o cognome de "Imperador". Proveniente do Vasco da Gama, chegou a Portugal através do União da Madeira, clube onde cumpriu 4 temporadas. Saiu do Sporting rumo a Itália, mas o tempo dos Imperadores já tinha passado e teve de contentar-se com clubes de menor nomeada, como o Vicenza, Palermo, Cosenza, SPAL e Terramo, jogando apenas duas épocas na série A. 

 

Vencedor do Quiz: os Leitores RCL, A. Pereira e Alberto Miguel acertaram. Por ter sido o primeiro, RCL foi o vencedor. Parabéns, e obrigado a todos pela participação.

marco aurélio.jpg

15
Jul19

Quiz42 - Novo nome, nova ventura


Pedro Azevedo

Foi uma das contratações de valor mais elevado à época, tendo custado cerca de 1 milhão de contos (aproximadamente 5 milhões de euros) ao Sporting. Estávamos no final do século XX. Esquerdino desconcertante que alternava momentos de génio com falhas técnicas clamorosas, acabou por ser dispensado. Rumou então primeiro à Argentina, e depois a Espanha e México, onde recuperou um ciclo virtuoso para a sua carreira, então já com um outro apelido por influência de um reencontro familiar. Quem é?

 

Resposta: Bruno Gimenez chegou ao José Alvalade em 1997, proveniente do Estudiantes de La Plata. As expectativas em seu redor eram elevadas (o clube pagou por ele muito dinheiro para a época), mas acabaram por se gorar. Acabaria por sair 2 anos depois para o Independiente (empréstimo), sendo depois vendido ao Villareal. Em Espanha teve uma carreira interessante que passou também pelo Tenerife. Mas acabaria por ser na Argentina (de novo Independiente e Boca Juniors) e no México que a sua estrela viria a brilhar bastante, ganhando a Libertadores pelo Boca e o campeonato mexicano pelo Pumas. Neste último acumularia o título de campeão com o de melhor marcador do campeonato. Aí já mudara o nome (e a sorte) para Bruno Marioni, seguindo assim a orientação paterna (na viragem do milénio o pai conhecera finalmente o seu progenitor e decidira adoptar o seu apelido de familia, que como sabemos pela cultura hispânica vem antes do nome da mãe na certidão de nascimento).

 

Vencedor do Quiz: Os Leitores João Santos, RCL, LMGM, Pedro Alexandre Dias e Pedro Alvaleide acertaram. Por ter sido o primeiro, João Santos é o vencedor. Parabéns, e obrigado a todos os que participaram!

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