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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

18
Fev20

A insustentável inconsequência dos actos(*)


Pedro Azevedo

Ontem à noite, após os lamentáveis acontecimentos de Guimarães, choveram naturais recriminações ao contexto discriminativo que levou o maliano Moussa Marega a abandonar o terreno de jogo como forma de produção de um "statement" de um homem perante o racismo. 

 

O problema, o nosso problema, é a inconsequência material desta "excitação" que se apodera de nós nestas ocasiões e nos alerta para a necessidade de sermos solidários com quem ainda sofre com o preconceito rácico. 

 

Basta puxar atrás a caixa de comentários deste e de outros blogues para ser notório que, após a espuma do momento, o quotidiano segue como de costume. Por isso, se for entendido que o primeiro-ministro do país está a caucionar, por omissão, a estratégia de um rival, logo aparecerá alguém - hoje disposto a rasgar as vestes em benefício de Marega - , a epitetá-lo de "monhé". Alguns chamar-lhe-ão hipocrisia, mas creio que essencialmente tudo reside num preconceito que cumpre erradicar.  

 

A maioria das vezes nem nos apercebemos, fazemo-lo de forma inconsciente, mas o preconceito está lá, muitas vezes apoiado num léxico comum, pátrio, que contém inúmeras expressões figurativas e supostamente estilosas que o sublimam. Se calhar, precisamos de mais umas gerações para combater eficazmente isto, até porque a forma como hoje em dia o tentamos contrariar está longe de ser a desejada. Na era do politicamente correcto,  defendemo-nos recorrendo a todo o tipo de eufemismos que tiram genuinidade e autenticidade, frequentemente sendo pior a emenda que o soneto. É disso caso o tratamento por "negro", em oposição a "preto" ou "castanho", quando, no seu étimo, negro refere-se a escravo, ou seja, está nos antípodas do efeito desejado quando a ele recorremos. Já os americanos, por exemplo, criaram a expressão "afro-americano" como se qualquer africano tivesse de ter uma determinada cor de pele, o que acaba por ser um preconceito em si mesmo. (Outra forma inconsciente de racismo é o misto de indulgência e de condescendência que por vezes se ouve e vê quando nos referimos a uma pessoa de pele escura, consequência próxima do período de colonialismo e das diferenças educacionais mais presentes nesse tempo.) 

 

Nestas e em muitas outras coisas gosto de recorrer à infância, uma idade sem filtros nem preconceitos. Nos recreios das escolas, os miúdos não têm receio de tratar as coisas como elas são sem que daí resulte qualquer contrariedade para a outra parte. Para eles, o preto é tão natural como o branco, apenas mais invulgar e como tal portador de curiosidade acrescida. Assim foi na minha geração - a da descolonização - , da mesma forma que hoje o será entre asiáticos (essencialmente chineses) e brancos. É certo que por vezes uma deficiente intervenção parental subverte as coisas e retira a naturalidade que existe numa criança, embuindo-a de um preconceito com que ela não nasceu e levando-nos a assumir alguma crueldade nela, mas tal não retira a minha convicção de que todos temos muito a aprender com a idade da inocência. 

 

Para terminar, cada ser humano é único na sua diferença. Isso é bom, na medida em que cria diversidade, complexidade. Cada povo tem a sua própria idiossincrasia, sem que a raça seja determinante a essa característica. Por exemplo, um americano do Texas não é igual a um americano de NY na forma como vê o mundo e as questões culturais ou religiosas estão muito para além da raça, como o provam os Amish ou Mormons, por exemplo. Da mesma forma, um magrebino de Marrocos, Tunísia ou Argélia estará mais perto da cultura francesa, tal como uma tanzaniano ou queniano da inglesa, ou um líbio da italiana. Às vezes o preconceito reside em fecharmo-nos numa concha, no não termos mundo e não viajarmos ao filtro do outro. Pessoas assim tendem a simplificar a ignorância, rapidamente encontrando respostas acessíveis (e erradas) para questões muito complexas. Se formos abertos, rapidamente concluiremos o óbvio: sendo certo que todos somos diferentes, somos também todos iguais. Seres humanos. Só. Por isso, obrigado ao Marega por nos relembrar aquilo que nunca deveria estar esquecido.

 

(*) Publicado originalmente ontem no blogue "És a nossa FÉ" 

marega.jpg

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