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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

10
Jun20

Chana


Pedro Azevedo

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Antes ainda do futebol, o Sporting chegou aos meus ouvidos através do hóquei, por via dos relatos que passavam na rádio. Naquele tempo destacava-se um jovem nascido e criado na Linha (de Cascais), cuja formação incluía os Salesianos do Estoril. Foi aí, por influência do Padre Miguel, que Vítor Manuel dos Santos Carvalho, dito Chana, nasceu para o hóquei na Juventude Salesiana. 

Chegado ao Sporting em 71, vi-o jogar pela primeira vez no antigo Pavilhão dos Desportos, hoje "Carlos Lopes", onde o Sporting realizava os seus jogos antes da construção do seu próprio pavilhão, que se viria a situar ao lado do campo pelado. 


O Chana impressionou-me logo, não só pela quantidade de golos que marcava mas também pela elevada execução técnica empregue em cada lance. Em especial, o poder de finta e a codícia com que colocava a bola por cima do ombro dos guarda-redes, o seu ponto de maior vulnerabilidade, muitas vezes de ângulo dir-se-ia impossível, quando não por trás da baliza. 

No início era ele e o Rendeiro, embora o Salema também fosse um jogador a ter em conta. Depois, chegou o Ramalhete e a equipa ganhou outra segurança. Entretanto, o Chana lá ia brilhando, no Sporting como na seleção nacional, sempre como o melhor marcador. Eis então que João Rocha consegue adicionar a essa equipa as "pedradas" de Sobrinho, outro produto da escola salesiana, e Antonio Livramento.

 

Juntar a qualidade ímpar de patinagem e a técnica do "4" com a habilidade especial e a capacidade de remate do "8" hoje aqui evocado fez as delícias dos apaniguados Sportinguistas. O Sporting ao reuni-los conseguiu impor-se a todos os poderosos adversários que se lhe depararam no caminho. Um a um, todos foram caindo, desde o Benfica de Casimiro, Garrancho, Fernando Pereira, José Carlos, Jorge Vicente, Virgilio, Picas e Piruças, passando pelo Porto de Cristiano e Chalupa, o Infante de Sagres dos irmãos Gomes da Costa, ou o Oeiras dos irmãos Rosado, do Salema (ex-Sporting) e do Carvalho que corria e não deslizava sobre os patins e ainda viria a ser nosso.

 

O mesmo aconteceria na Taça dos Campeões, com o Sporting a trazer pela primeira vez na história do hóquei português a taça para o nosso país. Em noites memoráveis, com o Pavilhão de Alvalade a abarrotar, o Sporting começou por dar a volta ao campeão Voltregá (8-3;2-5), de Nogué e Ferrer, para depois desembaraçar-se com facilidade do Villanueva, de Carlos Trullols - o melhor guarda-redes da sua época, que depois do jogo de Alvalade afirmaria ter realizado a melhor exibição da sua carreira - , por 6-0 e 6-3. 

Já no final da sua carreira, recordo ainda dois grandes momentos de Chana. O primeiro, pela seleção nacional, em 82, no Mundial disputado em Barcelos, onde foi preponderante na vitória de Portugal sobre a Espanha, realizando uma exibição memorável com golos de sonho. Outro grande momento já havia vivido na final da Taça das Taças realizada no ano anterior. Após uma derrota em Oviedo, por 4-1, na primeira mão da final, o Sporting precisava de vencer por mais de 3 golos de diferença na segunda mão para arrecadar o troféu. Acresce que as coisas cedo se complicaram ainda mais, quando o Cibelles se colocou em vantagem por 2-1, totalizando uma diferença de 6-2 no cômputo das duas mãos. Eis então que Chana entrou em acção e com 2 golos de rajada voltou a pôr o Sporting na frente no jogo. Ainda assim faltavam 2 golos para empatar a final quando se iniciou o segundo tempo. Chana ainda voltaria a marcar (terceiro golo consecutivo) e com outro golo os leões conseguiram chegar ao final do tempo regulamentar empatados na final (1-4; 5-2). Foi então preciso recorrer-se a um prolongamento. No pavilhão, o calor era imenso e tal já se fazia sentir não só nos espectadores como também em todos os jogadores. Assim, a primeira parte serviu para recarregar baterias. A hipótese dos penaltis começou a parecer cada vez mais real, mas Chana, sempre ele, tinha outras ideias para a segunda parte: primeiro, com um golo soberbo, colocou o Sporting na frente pela primeira vez; depois, serviu primorosamente o regressado Salema para o 7-2 final (8-6 no total). No banco, Livramento, recém-empossado treinador do clube, exultava de alegria. 

Cinco vezes campeão nacional, em duas ocasiões conquistaria também a Taca de Portugal. A nível internacional acumulou Taça dos Campeões e Taça das Taças. Pela seleção nacional jogou 117 vezes e marcou 226 golos, sagrando-se por duas vezes Campeão do Mundo e por três vezes Campeão da Europa. 

Para mim, que vi jogar os dois, é muito difícil dizer quem foi melhor, se Livramento ou Chana. Na verdade, ambos foram extraordinários. No entanto, o meu coração pende para Chana, que venceu mais coisas pelo Sporting e, talvez por nunca ter jogado no nosso rival, sempre me pareceu um pouco injustiçado e sem o reconhecimento devido da imprensa, distinção essa que seria colocarem-no no mesmo patamar de Antonio Livramento. 

2 comentários

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    Pedro Azevedo 11.06.2020

    É muito feliz esse epíteto de 5 Violinos dirigido a essa equipa de ouro do hóquei nacional e do Sporting. Realmente, a música que tocavam era exclusiva, só ao alcance de solistas extraordinários. Ramalhete era um guarda-redes fantástico, só eventualmente superado no mundo por Trullols. Rendeiro era cerebral, tacticamente irrepreensível, o pêndulo da equipa. Sobrinho era raça, força bruta, cada "pedrada" sua era o pânico dos guarda-redes. Na frente estavam os Straduvarius, cada um a seu jeito, únicos na sua invulgar genialidade. Nunca vi ninguém patinar como António Livramento, bola sempre colada ao stick, com magistrais fintas de corpo iludindo os adversários. Já o Chana tinha uma habilidade imensa. Mas uma habilidade prática, útil, não se perdendo em tantos números circenses como o Leste - outro jogador de grande capacidade técnica da época, célebre pela sua "colher" - , antes procurando a verticalidade e o golo. A sua sede de golos era insaciável e isso fazia dele um jogador inimitável no mundo. Transpondo para o mundo de hoje e para o futebol, é como se tivéssemos podido contar com o Messi e o Ronaldo na mesma equipa. Esse era o Sporting de 77, uma equipa imbatível e, direi, irrepetível.

    Um abraço para si, caro JG

    SL
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