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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

26
Jun19

Dimensões cívicas e pilares do Sporting


Pedro Azevedo

O civismo tem essencialmente 3 dimensões: uma dimensão ética, em que o indivíduo se norteia por princípios; uma dimensão normativa, que visa o respeito por um conjunto de regras de convivência que se traduzem em leis; uma dimensão identitária, onde se procura um sentido colectivo que garanta a preservação da sociedade, bem como da sua história, memórias e património comum.

 

Portugal não é propriamente um país onde o civismo impere. Como tal, não seria de esperar que o Sporting fosse uma excepção. Não o é, infelizmente, por muito que queiramos afirmar que somos diferentes. E isso pode ser observado nas 3 dimensões que cito em cima.

 

Comecemos pela dimensão ética: o 25 de Abril foi há 45 anos, mas existe um défice de democraticidade que se traduz na forma como as pessoas hesitam em se expôr a si próprias e às suas ideias. Vigora a ditadura do politicamente correcto, como se todos fôssemos cândidos e cumpridores cidadãos. Se a isso juntarmos a projecção de nós próprios que transmitimos aos outros, então estaria tendente a acreditar que estávamos no Paraíso. Porém, a realidade de todos os dias mostra-me que estamos mais perto do purgatório e que a diferença entre a teoria e a prática denuncia tergiversações diversas. Peguemos no exemplo da putativa relação do Sporting com o empresário Jorge Mendes: durante anos, lemos dos sportinguistas alusões a "mendilhões" e falta de transparência na transferência de jogadores envolvendo Mendes, opiniões que ganharam outro fôlego após a divulgação pública do livro "Orgia do Poder", da autoria do jornalista, sociólogo e investigador italiano Pippo Russo. Concomitantemente, e sendo o Benfica um dos clubes apontados como tendo relações privilegiadas com o referido empresário, também o clube da Luz mereceu críticas dos mesmos sportinguistas. Acontece que recentemente, por motivo de necessidade, tacticismo ou estratégia (o tempo o dirá), houve aparentemente (porque nunca devidamente explicada) uma aproximação entre o Sporting e Jorge Mendes para além das negociações por Rui Patrício. Subitamente, presenciamos grandes golpes de rins de alguns sócios sportinguistas que confundem proselitismos com o Sporting Clube de Portugal. Agora, para estes, não se pode ignorar a dimensão do empresário e a sua influência, mesmo que desconfiem dos seus interesses e da sua participação na chamada economia política do futebol (o termo é de Pippo Russo, porém aconselho uma leitura do que o Rui Monteiro escreveu relacionado com as transferências). Ora, isto para mim é a prova provada de que a defesa de supostos princípios que nortearam as críticas iniciais de alguns desses sportinguistas não passou de uma manifestação (perdoe-se-me) hipócrita (classifica a atitude, não necessariamente a pessoa, sabe Deus quantas vezes ficamos aquém do desejado por nós próprios) que não resistiu ao choque com a realidade, ou partiu de um sentimento de inveja face ao rival e não tinha um senso ético a suportá-la. Para quem assim pense, só tenho uma coisa a dizer: os princípios são inalienáveis, não há aí flexibilidade possível, ou então não chamar-se-iam princípios e íamos logo para os meios...

De todo o modo, existem 3 possibilidades adaptáveis a este exemplo: ou a ideia dos poderes no futebol foi fruto da nossa imaginação e inveja e como tal fazemos um "mea culpa", ou aceitamos a alegada realidade do futebol actual e queremos, ainda assim, fazer parte dela, ou simplesmente a repudiamos e seguimos o nosso caminho. Um caminho que precisará de mais foco em nós próprios e menos preocupação com o quintal do vizinho, mais aposta na Formação e menos carroséis de transferências, custos controlados e geração de alpha em detrimento de mais risco na nossa conta de exploração. Ora, isto não é uma matéria de somenos importância. (Com isto não tenho de fazer qualquer juízo de valor sobre o referido empresário, este texto mostra apenas o quão somos pouco consistentes na afirmação prática dos princípios que resultam da nossa percepção, certa ou errada, das coisas, de muitas coisas.) 

 

A segunda dimensão é a normativa: o Sporting, como qualquer Organização, tem os seus próprios Estatutos. Houve uma alegada violação dos mesmos. Chamados a pronunciar-se, os sócios, soberanos, corroboraram e decidiram-se pela destituição do Conselho Directivo do clube numa Assembleia Geral aliás muito concorrida. Sob pena de não conseguirmos conviver entre nós, há que aceitar esse desfecho. Quem votou vencido tem de respeitar a maioria; quem viu as suas pretensões satisfeitas deve respeitar os que ainda pensam de forma diferente. Andarem franjas extremistas, de cada um dos lados do voto, permanentemente a atear o fogo é alimentar uma conflitualidade que não interessa ao clube, tal como no próximo ponto exporei.

 

Finalmente, falarei sobre a 3ª dimensão, a identitária: o radicalismo é sempre mau conselheiro. Gostaria de dizer que uma vasta maioria de sportinguistas não está interessada em alimentar quezílias. Quem ama o Sporting quer que sigamos em frente e põe o clube em primeiro lugar. Infelizmente, vejo, um ano passado após todos os traumatizantes eventos que nos marcaram, uma linguagem indigna nas redes sociais (e não só). E aqui não há inocentes. O radicalismo alimenta-se de polos opostos e ambos estão a prestar um mau serviço ao Sporting Clube de Portugal. Cada um que pense pela sua cabeça, mas pensem acima de tudo no clube, na sua história, na nossa memória colectiva e património comum. Se muitos de nós o fizermos, o ruído irá progressivamente diminuir. E focalizaremos então no essencial: o presente. Para que isso aconteça, e tenhamos um futuro, é importante que não se reduza a discussão sobre o clube. Não a discussão desordeira, mas sim a troca de ideias construtiva que emane da visão que cada um tem para o clube. O pior daquilo que está a acontecer é os sócios deixarem de fazer a sua leitura serena sobre os acontecimentos e sobre os actuais orgãos sociais em nome de uma redução da discussão a rótulos. Quem é independente, e quem ama o Sporting deve sê-lo pois tem de pôr o clube sempre acima de interesses ou simpatias pessoais, não pode admitir isso nem deixar que hipotéticos tacticismos comunicacionais mantenham o ambiente aceso como defesa para a crítica. Isso não seria unir, seria beneficiar da desunião para reinar. Pensar primeiro em si, depois no clube. Por tudo isto, sempre achei uma péssima ideia aquela coisa dos apodos de "sportingados" e "croquetes". Disse-o na altura própria e repito-o: o pior que se pode fazer a uma Cultura Corporativa é criar sub-culturas, sub-espécies. Isso só retira identidade e força ao clube. Como também critiquei o facto de Bruno de Carvalho ter vindo dizer que não precisava de conselhos dos sócios, que para isso tinha os seus pais - ele que antes dizia que o clube voltara a ser dos sócios e que no processo foi perdendo essa bandeira renascentista (admitindo que a tinha genuinamente) - , o "Manual para Burros" e outros dislates que me fizeram retirar-lhe o apoio por ter percepcionado que se colocou acima do clube e dos seus sócios. Mas isso disse-o na altura devida, não fui situacionista, mesmo que também nunca tenha negado ao anterior presidente os inegáveis méritos da sua gestão (opção por JJ e linha de comunicação à parte) e, depois, nunca tenha participado de ataques "ad-hominem" que não engrandecem a alma humana. Desta forma, também não creio que acrescente qualquer valor o apodo de "brunistas" a quem valorize mais o que a anterior gestão fez em detrimento do peso da ultrapassagem de uma linha que na minha opinião devia ser inviolável. Somos todos sportinguistas.

 

O presente do Sporting está cheio de contradições na forma e no conteúdo, envolvendo nisso sócios e Direcção. E isto carece de análise. E de equilíbrio. É fundamental não se perder o sentido crítico, como também manter a urbanidade na discussão. Os sócios do Sporting são isso mesmo, sócios. Não são clientes, embora da natureza do seu amor e grau de satisfação decorra expressá-lo através da compra de produtos e serviços. Mas isso será exponenciado apenas e só quando se restabelecer o elo emocional com o clube. Para que tal aconteça precisamos de uma Comunicação centrada no Sporting, na sua identidade e no seu maior activo que são os sócios. Há muito tempo que defendo que o Sporting necessita de consolidar 3 pilares: Sustentabilidade, Cultura e Princípios (ética). No fundo, as siglas do nosso clube. É imperioso que se dê passos nesse sentido e que esses passos possam ser monitorizados pelos sócios. Se estes ficam à mercê da Comunicação Social gera-se o vazio, quando não a discórdia. Eu não acredito que se consiga a sustentabilidade sem uma aposta na Formação (apoiada num contingente de jogadores de qualidade) que preencha quase metade do plantel da equipa principal, porque olho para os números e vejo que gastamos mais de 25 milhões de euros por ano em jogadores importados que não se diferenciam daqueles que formamos, exceptuando no peso dos ordenados. Eu não acredito numa Cultura de clube que não passe pela afirmação inequívoca das suas modalidades, vistas correctamente por João Rocha como geradoras de influência social e política. Eu não acredito num clube que não coloque a ética como o patamar mais elevado e que não seja também absolutamente transparente com os seus sócios. Concluindo, se a actual Direcção do meu clube cumprir com estes 3 pilares e tal se possa verificar no decurso da sua acção, então terá o meu apoio incondicional. Caso contrário, que me desculpem as pessoas que a integram e que merecem o meu respeito (as que conheço ainda mais), me desculpem os caros consócios que confundem estabilidade com unicidade ou unanimismo, mas o meu sportinguismo falará mais alto e exercerei o direito à crítica. Sempre! 

 

P.S. A estabilidade conquista-se...

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