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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

14
Ago19

O amor é... por José Duarte(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José Duarte, a.k.a. "Leão de Alvalade". Novo nestas lides, ia lendo esporadicamente o "A Norte de Alvalade", o blogue do qual o José Duarte é autor, quando um dia me deparei com um texto genial, de um humor temperado das proporções certas de inteligência, fina ironia e prazeiroso sarcasmo, que aqui recordo, recomendando-o vivamente a quem não teve oportunidade de lêr. Como quem me acompanha se vai apercebendo, a ironia é uma ferramenta essencial ao meu bem-estar: na sua companhia poupei-me a levar demasiadamente a sério a minha existência, evitando aquele deslumbramento tão enganador que nos faz descolar da nossa humanidade e perder as referências; com ela, em tempos de cólera no meu clube, não deixando de criticar aquilo que não me parece bem, tenho feito o que me é possível para passar uma mensagem que não aumente a temperatura e adicione ruído numa era em que os sócios do Sporting se veem permanentemente obrigados a viver encostados a uma coluna a bombar de uma discoteca. Ora, este supracitado texto do José foi para mim um sortilégio, ou seja, um bocadinho de magia, como um dia ouvi definir num pequeno café na Boulevard St Michel, ali no Quartier Latin. A partir daí tornei-me leitor assíduo do blogue, pese embora nem sempre o José siga a sua orientação editorial nesse sentido que tanto me agrada. A inteligência numa pessoa foi sempre algo que me fascinou, a humildade também. Neste breve contacto que mantivémos a propósito do meu pedido para colaborar nesta série, o José mostrou-me uma faceta humilde que só se encontra nos verdadeiramente grandes. É por isso com redobrado prazer que sem mais demora aqui vos deixo o texto que o José Duarte, "um leão a Norte, onde se é leão por convicção", escreveu por amor ao Sporting:

 

"Ser especial é ser de um clube especial.

 

Sou daquelas pessoas que tanto confia quase cegamente como se transforma num ensimesmado patológico, quando alguma coisa parece não bater certo. Foi o caso deste convite do Pedro Azevedo em escrever um artigo para o seu blogue. Comecei por me perguntar "porque raio alguém que escreve tão bem sobre o Sporting" quer umas linhas minhas, eu que escrevo cada vez mais esparsamente, cada vez mais de forma superficial e de escrita cheia de lugares comuns? 

A dúvida foi crescendo ao ler o texto do Rui Monteiro, cuja escrita deliciosamente mordaz admiro. Ao dar de caras, quase de seguida com o do Pedro Correia, a quem fiquei a dever um artigo que não fui capaz de concluir, ainda mais hesitante fiquei. Mas a vaidade, que a tantos perde, preparou-se para fazer mais uma vítima e aqui estou eu.

A verdade é que eu nem sequer sou um bom exemplo de Sportinguista. Não o sou de berço nem de tenra idade, porque o futebol ou o desporto em geral não eram tema de conversa em casa, apesar do meu pai ser sportinguista. Se tivesse que ser de algum clube por influência familiar certamente que seria benfiquista, uma alegria que não consegui dar à minha querida Tia Ly. Fervorosa adepta do nosso rival, ouvia os relatos religiosamente e até cuidou de me oferecer um equipamento completo, que ainda assim não foi suficiente para me evangelizar para a sua causa.

Não sei precisar quando despertou em mim o interesse pelo Sporting. Mas sei exactamente o momento em que percebi que era uma paixão que iria ficar para toda a vida. Falo mais precisamente do dia 22 de Agosto de de 1981 quando, de férias em Lisboa, e valendo-me da desculpa de um passeio, entro sozinho na superior sul do velhinho Alvalade e assisto à inauguração do campeonato nacional 1981/82. 

Aqueles nomes que eu só conhecia de ouvir falar, de ver fotografias nos jornais ou de aparecer na televisão estavam ali à minha frente em carne e osso. O bigode do Meszaros, a elegância que fazia do difícil fácil do Eurico, os bailados felinos do Jordão (marcou 2 golos, selando assim para sempre a condição de ídolo intemporal) ou a geometria aplicada de Oliveira, tudo parecia ali ao alcance. O Sporting tinha um treinador novo, cuja memória fez questão de arquivar de camisa branca e charuto, e que se fazia acompanhar de um preparador físico "diferente" de nome Roger Spry. Factos que tomara conhecimento previamente no jornal "A Bola" cujos fascículos desse verão versando a contratação do mago Oliveira me tinham arruinado e eu havia devorado com avidez.

Ainda hoje não consigo explicar a razão da empatia imediata que então me envolveu na grandiosidade daquele cenário vibrante. Era como se eu sempre tivesse estado ali e era seguramente ali que eu ia pertencer para o que restasse dos meus dias. Havia como que uma magia no ar, tudo me parecia grandioso, belo, magnífico. Quando no final do dia tentei adormecer as emoções, já depois de tranquilizar os meus tios assustados pela surpresa pouco habitual da ausência prolongada, tive uma tarefa morosa. 

Nem o facto de o resultado ter sido tão decepcionante  como a frouxidão da exibição diminuiu o efeito do encantamento. Sofremos para alcançar o empate, o Belenenses fez-nos a vida negra mesmo terminando com um guarda-redes improvisado na baliza. Não o sabia então que na minha estreia em Alvalade seria imediatamente vacinado contra todo o qualquer desgosto ou infortúnio. A glória do nosso lema haveria de se cumprir no final de época, engalanada numa apetitosa dobradinha.

Como todos os amores esta relação teve altos e baixos. Os embaraços e tristezas, porém, têm uma dimensão microscópica quando ombreiam com o orgulho que sinto em ser e dizer que sou Sportinguista. O encantamento do primeiro encontro em Alvalade era apenas a semente do que se haveria de transformar numa paixão perene alimentada pelo sentimento de pertença a uma instituição especial. Mais do que diferente, como muitas vezes é designado, é especial.

Fundado por aristocratas ainda no regime monárquico, tornou-se num clube de dimensão nacional e popular de forma transversal a toda a sociedade portuguesa, quando o mais natural é que se tivesse ficado na exclusividade de um grupo restrito. Percursor, pioneiro e ecléctico, colecionador de medalhas e recordes olímpicos e mundiais, formador de melhores do mundo e campeões europeus, cumpriu o sonho de ser tão grande como os maiores da Europa.

Um desígnio que sempre que é cumprido tem de ser outras tantas vezes recomeçado. Esse permanentemente sobressalto é a armadilha perfeita para o coração cujo sentimento de pertença ao clube dos  Stromp, de Jorge Vieira, Azevedo, do Zé da Europa, Peyroteo, dos 5 Violinos, do Damas, do Agostinho, do Livramento, Moniz Pereira, Carlos Lopes tantos outros me faz sentir especial. Ser do Sporting foi uma escolha especial."

 

(*) José Duarte, autor de "A Norte de Alvalade"

 

P.S. Mais autores da blogosfera passarão por aqui, mas no entretanto abro este espaço aos leitores que se queiram candidatar a escrever sobre o seu amor ao Sporting. Bastará para tal enviarem um texto com o título "O amor é..." para a caixa de comentários de um qualquer dos meus Posts. 

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