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Castigo Máximo

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Castigo Máximo

13
Ago19

O amor é... por Pedro Correia(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o Pedro Correia. Antes de mais, cumpre-me a obrigação de informar que se estou presente na blogosfera devo-o ao Pedro (se não gostarem de me lêr, já sabem para onde enviar a factura), algo de que nunca me esqueço. Foi ele, sem me conhecer, que um dia me desafiou para alinhar no plantel do "És a nossa FÉ" e assim poder ter o privilégio de escrever sobre a minha primeira importante escolha na vida, o Sporting, um amor que não tem fim.

O Pedro tem sido obreiro de vários casos de popularidade: para além do supracitado blogue, de que foi fundador e onde permanece há já largos anos como o co-autor mais influente e profuso, ele é também co-autor do "Delito de Opinião". Cerebral, directo, contundente, provocador por vezes, o Pedro tem um raro instinto para tudo o que possa ser notícia, característica que aliada a uma opinião que procura sempre fundamentar, a uma técnica narrativa irrepreensível e à sagacidade empregue na esgrima de argumentos com os seus leitores o tornam uma figura incontornável da blogosfera. Hoje vão lê-lo porventura num registo um pouco diferente, que isto de falar de amor a um clube obriga-nos a passar a nossa vida em revista. Ilustrando-o, PC enriquece o seu belo texto dando-nos conta de viagens por um mundo onde o Sporting foi sempre uma companhia constante e marcante, sinal inequívoco da implantação de um gigante por vezes sem consciência da sua real relevância social. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Pedro nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Amar o Sporting é cultivar alguns dos valores que mais prezo. Ser fiel às origens, às tradições, à devoção clubística – antónimo de clubite. Praticar a lealdade em campo e fora dele, rejeitando golpes baixos. Gostar muito de vencer, sim – mas sem batota. Recusar ódios tribais a pretexto da glória desportiva. Nunca confundir um adversário com um inimigo, sabendo de antemão que o futebol (só para invocar o desporto que entre nós mobiliza mais paixões) é a coisa mais importante das coisas menos importantes, como Jorge Valdano nos ensinou. 

Amo o Sporting pela marca inconfundível do seu ecletismo. Os meus primeiros heróis leoninos, ainda em criança, eram Leões de corpo inteiro sem jogarem futebol. Foi o Joaquim Agostinho a brilhar nos Alpes e a vencer etapas na Volta à França depois de ter sido o maior campeão de ciclismo de todos os tempos em Portugal. Foi o António Livramento, artista exímio com um stick nas mãos, campeão europeu de verde e branco, além de campeão mundial a nível de selecções. Foi o Carlos Lopes, recordista absoluto do corta-mato europeu, brioso herói da estrada, medalha de prata nos 10 mil metros em Montreal, primeiro português a subir ao pódio olímpico, de ouro ao peito, naquela inesquecível maratona de 1984 em Los Angeles.

Amar o Sporting é abraçar o universalismo que fez este nosso centenário clube transbordar os limites físicos do País e galgar fronteiras. Conheci fervorosos sportinguistas nas mais diversas paragens do planeta. Nos confins de Timor, no bulício de Macau, na placidez de Goa – lá estão, com a nossa marca inconfundível, sedes leoninas que funcionam como agregador social naqueles países e territórios, assumindo em simultâneo uma ligação perene a este recanto mais ocidental da Europa. 

Amar o Sporting é cultivar a tenacidade de quem nos soube ensinar, de legado em legado, que nunca se vira a cara à luta. João Azevedo a jogar lesionado entre os postes, só com um braço disponível, enfrentando o Benfica num dos clássicos cuja memória perdurou através das gerações. Fernando Mendes, um dos esteios do onze que conquistou a Taça das Taças em 1964, alvo de uma lesão no ano seguinte que o afastou para a prática do futebol, mas capaz de conduzir a equipa, já como treinador, ao título de 1980. Francis Obikwelu, nigeriano naturalizado português e brioso atleta leonino que saltou da construção civil onde modestamente ganhava a vida para o ouro nas pistas europeias em 2002, 2006 e 2011. 

Campeões com talento, campeões com garra, campeões inquebrantáveis – mas também campeões humildes, conscientes de que nenhum homem é uma ilha e um desportista, por mais aplausos momentâneos que suscite, é apenas uma parcela de um vasto arquipélago já existente quando surgiu e destinado a perdurar muito para além dele. Na Academia de Alcochete, no Estádio José Alvalade, no Pavilhão João Rocha, somos conscientes disto: ninguém ganha sozinho. Antes de Cristiano Ronaldo havia um Aurélio Pereira, antes de Livramento havia um Torcato Ferreira, antes de Carlos Lopes havia um Mário Moniz Pereira.

O desporto com a genuína marca leonina não cava trincheiras: estende pontes, transmitindo a pedagogia da tolerância e cultivando a convivência entre mulheres e homens de diferentes culturas, ideologias, crenças e gerações. 

É também por isto que amo o Sporting: fez-me sempre descobrir mais pontes que trincheiras. O que assume relevância não apenas no desporto: é igualmente uma singular lição de vida."

 

(*) Pedro Correia, fundador e co-autor de "És a nossa FÉ", co-autor de "Delito de Opinião"

2 comentários

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    Pedro Azevedo 13.08.2019

    Amigo José,

    foi um enorme privilégio poder ler aqui a visão do Pedro sobre o amor ao clube. E tenho muita pena que a nossa Comunicação não saiba passar mensagens aos sócios e adeptos deste tipo, mais a mais numa altura delicada do clube em que precisávamos de nos concentrar naquilo que nos une e não no que nos divide, isto sem prejuízo do sentido crítico dever estar sempre presente. Aliás, uma coisa que me faz muita confusão é ouvir sportinguistas tentar calar vozes criticas construtivas. Parece que há pessoas que não têm consciência do tipo de sociedade em que vivemos. Num modelo capitalista, quem é o CEO de empresa, principalmente das cotadas, que não é diariamente escrutinado por accionistas? Ou alguém pensa que tal só acontece aquando da apresentação dos Relatórios e Contas? Talvez os anos em que não vivemos em democracia ainda sejam marcantes no sentimento das pessoas, mas se o clube tem tido problemas tal deve-se principalmente à ausência de sentimento crítico ou ao aparecimento de um certo tipo de oposição sempre focada em ataques ad-hominem, nunca à crítica construtiva e fundamentada em factos.

    Um abraço

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