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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

10
Mai19

O Grande Tinô


Pedro Azevedo

Faz hoje 35 anos que morreu Joaquim Agostinho, o maior ciclista português de todos os tempos. Descoberto pelo também ciclista João Roque numa prova popular disputada em Barro, que venceu com 1 volta de avanço sobre o segundo classificado, foi imediatamente convidado para ingressar no Sporting. Já tinha 25 anos e ele próprio não tinha grandes ambições, mas logo na sua 1ª Volta a Portugal (1968) acabou em segundo lugar, compensando a falta de tecnica em cima da bicicleta com uma potência (força multiplicada pela velocidade) de pedalada incrível. Não era chefe-de-fila e a aposta da sua equipa era em Leonel Miranda, o qual acabaria por não ganhar (3º). Esta indefinição terá custado a Agostinho a sua primeira vitória na prova máxima do ciclismo nacional. Nos 5 anos seguintes, entre 1969 e 1973, venceu todas as edições da Volta a Portugal. Desclassificado, já depois de terminadas as provas, em 69 e 73, reteve os triunfos nos outros anos. Na primeira vitória que lhe foi homologada, em 1970, bateu a concorrência por mais de 7 minutos de diferença.  

 

 

Mas foi na Volta a França que o seu nome se tornou maior. Logo na estreia, emprestado pelo Sporting à Frimatic, de Jean de Gribaldy, obteve um oitavo lugar final, cometendo ainda a proeza de vencer duas etapas, a primeira com chegada a Mulhouse, a segunda em Ravel. No total, viria a atingir por oito vezes uma posição entre os 10 primeiros da melhor volta do mundo, tendo terminado no pódio (3º lugar) em dois anos consecutivos (1978 e 1979). Nesse último ano ganhou a mítica etapa do Alpe D`Huez que pode vêr no vídeo abaixo, com 3 minutos e 17 segundos de diferença para Bernardo Hinault e Joop Zoetemelk, os ases do pelotão na época. Ciclista muito popular, carinhosamente tratado por Tinô pelos gauleses, destacava-se pelas suas prestações na montanha e nos contra-relógios. Fora da estrada, as suas conversas de rescaldo de cada etapa com Carlos Miranda do jornal "A Bola" faziam as delícias dos amantes do ciclismo e do bem escrever em português (em rodapé, a conversa com o referido jornalista após a vitória em Ravel, 1969).

 

Também viria a brilhar na Volta a Espanha, tendo-se classificado em 2º lugar na Vuelta de 74, a escassos 11 segundos de José Manuel Fuente, algo que na época motivou grande controvérsia, com acusações de que os cronometristas teriam ajudado o espanhol a triunfar.

 

Regressado a Portugal, com o intuito de levar o Sporting a correr a Volta a França de 84, acabaria por falecer na sequência de um acidente causado por um cão que atravessou a estrada durante a realização da Volta ao Algarve. Por ironia do destino, morreu da mesma forma que viveu a maioria do seu tempo no Sporting: de amarelo vestido, pois liderava a volta algarvia naquele momento fatídico.

 

Joaquim Agostinho, "O Maior", morreu há 35 anos. Mas continuará a viver entre nós como um dos maiores símbolos de sempre do Sporting Clube de Portugal.

À conversa com Carlos Miranda (notável noção do "tempo" certo deste jornalista, que nos envolvia na narrativa como se estivessemos dentro da corrida):

- Aquilo vinha tudo a passo de caracol...

- E o Agostinho resolveu fugir?

- Não, senhor. Nunca me passou tal coisa pela cabeça. Eu vinha muito bem dentro do pelotão, vinha sossegado. Queria sossego, estava tudo dito...

- Mas, afinal...

- Ainda havia outro motivo para que não pensasse em fugir... Dentro daqueles primeiros quilómetros da etapa. tinham-se registado várias tentativas, vários ataques, haviam fulanos que queriam sair. Pois logo que isso acontecia, os belgas da equipa de Eddy Merckx [5 vezes vencedor do Tour] iam buscá-los. Pensei cá para comigo: isto hoje está mau. Ninguém tem ordem para fugir.

- Mas acabaram por sair...

- Claro, houve uma altura em que o grupo atacou. Como aconteceu estar bem colocado, fui com eles.

- Era o princípio...

- A fuga, no entanto, estava condenada a não dar nada. Porque andámos uns seis ou sete quilómetros com o pelotão sempre à vista. Sabe como são estas coisas... Quando um fulano não consegue, logo de entrada, distanciar-se, quando o pelotão se conserva sempre à vista, não há nada a fazer...

- Nesse caso...

- Os sujeitos que iam comigo resolveram abrandar e esperar pelo pelotão. Mas houve uma coincidência...

- Qual foi?

- Isso aconteceu precisamente na altura em que era a minha vez de ir para a frente marcar o passo... E eu impus um andamento forte, bastante forte. Nessa altura, não sei o que sucedeu...

- ...

- Das duas uma: ou os outros fulanos não aguentaram o andamento que eu impus ou o pelotão estava a menos de trezentos metros e eles resolveram não prosseguir no esforço...

- Fosse como fosse...

- Fosse como fosse, quando olhei para trás, estava sózinho. Então, ainda carreguei mais nos pedais. Dei tudo o que podia, mas a verdade é que o pelotão continuava à distância. Tive a sorte, então, de apanhar umas curvas. Empreguei-me a fundo, no sentido de me distanciar do pelotão. A coisa correu-me bem. Porque, cinco quilómetros depois, eu já tinha cerca de dois minutos de avanço.

- Surgia a perspectiva de ganhar a etapa...

- Bem, nessa altura pensei que a coisa podia suceder.

- Tinha conhecimento de que tinham saído mais dois ciclistas atrás de si?

- Pois sabia. Mas ia calmo, sabe?

- Porquê?

- Ora, porque aquele desejo de ganhar uma etapa já tinha passado. Quando foi em Mulhouse é que sofri que me fartei com a ideia que me podiam apanhar. Agora as coisas eram diferentes: eu só tinha que dar tudo o que podia, andar para a frente. Se visse que eles vinham em cima de mim, que estavam quase a apanhar-me, aguentava e esperava por eles.

- Esta vitória acabou por ser mais fácil do que a primeira...

- Claro. Não tive, como da outra vez, aquela perseguição movida pelo Merckx e pelo Gimondi [campeão italiano, ganhou as 3 voltas mais importantes], mas isso não quer dizer que não tenha tido dificuldades...

- A principal...

- O vento. Um fulano andar sózinho, açoitado pelo vento, é qualquer coisa de deixar um homem bem atrapalhado. Foi o diabo... [Nos derradeiros quilómetros, Agostinho ainda conseguiria aumentar o seu avanço, demonstrando ser um corredor com muita força.]

 

E assim, naquele seu jeito de quem não quer a coisa, Agostinho lá ganhou mais uma etapa de uma das maiores competições desportivas do Universo. Na sua estreia!

2 comentários

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    Pedro Azevedo 11.05.2019

    Excelente comentário e uma bela homenagem que aqui deixa ao Joaquim Agostinho. Merecida, diga-se. Muito obrigado!
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