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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

08
Set19

Clássicos "Castigo Máximo" - A essência das coisas


Pedro Azevedo

A minha primeira recordação do Sporting é um relato que ouvi durante uma viagem de automóvel. Jogava-se em Alvalade um Sporting vs Oriental e o narrador da Emissora Nacional não parava de gritar golos do Yazalde. Foram 5 nessa tarde e, por alguma razão, disso não me esqueci até hoje.

Nesse tempo de menino, o futebol não era uma guerra. Havia sim uma picardia saudável que estimulava a presença de espírito e o bom humor. Por exemplo, o barbeiro lá de casa - já tinha servido o meu pai e o meu avô - era um acérrimo benfiquista que motivava a minha reacção sportinguista em cada visita ao seu estabelecimento da Rua da Lapa. 

- Ó menino, hoje vai ser um corte à águia? -, dizia ele com ar trocista mal me via. 

- Nada disso! Se é de águia deve meter pena... -, replicava afoitamente eu. 

- Ai que é hoje que a tesoura vai escorregar para o pescoço -, ameaçava ele.

E seguíamos nesse registo, que o senhor Anatólio, apesar do nome de inspiração soviética, era um ponta esquerda (canhoto) cá das direitas - estava nos antípodas da revolução bolchevique - e um homem pacífico e já entradote na idade, mas que mantinha um olhar traquina e um espírito jovial que o faziam achar graça àquele puto reguila que o visitava a cada três semanas, talvez porque lhe relembrasse a sua própria meninice. 

 

Lembro-me também muito bem do primeiro jogo que vi em Alvalade. Uma estreia de Leão! Teria uns 8 anos, quando o meu pai me pediu para o acompanhar um dia à noite. Outra época, tempo em que não questionávamos os progenitores, lá me vi metido no carro a caminho não sabia eu de onde. Na altura eu não conhecia os calendários dos jogos, achava que tudo se passava ao Domingo, pelo que nem me passou pela cabeça que estivesse prestes a entrar pela primeira vez em solo sagrado. Mas assim foi. De repente, dei por mim com o coração aos pulos, em êxtase, mal pus o pé na bancada. E para a experiência ainda se tornar mais enriquecedora o adversário era o Porto. Bom, correu tão bem que fiquei a pensar que seria para sempre assim. Estou certo de que ganhámos por 5-1 e tenho a ideia que o Chico - mais tarde, Chico Faria quando se mudou para um Braga que já tinha um outro Chico, o Gordo -, marcou dois golos. 

Perguntar-me-ão porque trago aqui estas memórias. Eu respondo: porque me ajudam. E, penso eu, porque talvez também Vos possam ajudar. É que um clube é o que é, não o que está, e o nosso Sporting é um grande. Tão grande que da primeira vez que o vi ali ao pé de mim, no relvado, me faltou o fôlego, tal a emoção sentida. Eu tão pequenino, ele tão grande, enorme, arrebatador. Por isso, na minha vida com ele, feita de intensa paixão e breves amuos, de cada vez que penso definitivamente lhe voltar as costas, recordo o princípio da minha ligação, a essência de tudo, e não só arrepio caminho como reforço o meu amor, o meu primeiro amor. Viva o Sporting! 

 

P.S. Publicado originalmente em 27 de Fevereiro de 2019.

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07
Set19

Clássicos "Castigo Máximo" - A metamorfose


Pedro Azevedo

Era uma vez um treinador, de nome Marcel Keizer, que abandonou a sua terra natal para tentar uma carreira de sucesso em Portugal. As ideias eram positivas, o futebol agradável e assim o seu primeiro mês foi uma fábula feita de histórias de encantar cheias de vitórias e goleadas para entreter pequenos e graúdos leões. No entanto, um dia, e sem que nada o fizesse prever, Keizer acordou metamorfoseado em treinador tuga, uma classe futebolistica cuja especialidade consiste em empatar o adversário e o próprio adepto até à exaustão, entorpedecendo-os através da ausência de uma coluna vertebral de jogo que não passe pela adaptação à ideia do seu oponente, com a finalidade de ainda assim conseguir vencê-lo por entediamento (milagre futebolistico, tipo vitória no Euro) ou, simplesmente, cair de pé (milagre científico). Por ironia, passado o choque inicial, Keizer começou a preocupar-se mais com o atraso que já tinha na classificação do que com a sua transformação.

 

Kafka à parte, a primeira coisa que se me oferece dizer sobre o jogo de ontem é no sentido de demostrar o meu agrado pela forma como os cidadãos lusos aculturam os de outra nacionalidade que nos visitam. Sossegue pois a conservadora tribo do futebol cá do burgo, porque depois de umas semanas em que para os sportinguistas o mundo pareceu ter passado a rodar em sentido contrário ao habitual, é hoje uma certeza que tudo voltou à santa paz do Senhor e que Keizer não veio a Portugal para promover revoluções ou conquistar fortuna e fama, mas sim para se integrar nas tradições das nossas gentes, mostrando actualmente ser tão ou mais português quanto o mais insigne descente de D. Afonso Henriques. Não se estranhe, portanto, vê-lo proximamente numa corrida de touros em Barrancos ou a ouvir um fado no Senhor Vinho, a dançar o fandango saloio com as lavadeiras da Ribeira de Lage ou a bailar com os Pauliteiros de Miranda, a atacar uma bacalhauzada com grão ou a afiar o dente a um cozidinho bem acompanhado de um tinto carrascão. Adicione-se umas sacudidelas do muco espectorante para o meio da rua e umas buzinadelas nervosas no trânsito e será caso para lhe ser concedida com urgência uma autorização de residência permanente.  

 

Posto este singelo agradecimento, vou de seguida falar sobre o sentimento que me perpassou a mente - sim, consegui a custo mantê-la a funcionar - no jogo que presenciei ao vivo. Bom, na verdade, vi-o sob dois prismas diferentes: por um lado correu bem, na medida em que Keizer provou ser subtil, jogando com a mesma falta de ambição característica do Peseiro de 2018, mas sem dar tanto nas vistas. É verdade que não recorreu à dupla Dupond e Dupont de sérvios (só no fim) ou aos três tristes trincos. Bastou-lhe apostar em Diaby durante 81 minutos e ter um plano de jogo que consistia em eliminar o meio-campo, despejando bolas directamente da defesa para a cabeça de Bas Dost, à procura da 2ª bola, para que o serviço ficasse feito. Uma sonsice! Por outro lado correu mal, visto que afinal parece que precisávamos de ganhar, embora tal nunca tenha transparecido de forma tácita no terreno de jogo aos olhos deste espectador. 

 

Como cereja no topo do bolo desta forma tão singular de jogar futebol em Portugal tivemos a actuação do árbitro Hugo Miguel. Nem será caso para se dizer que no melhor pano caiu a nódoa, pois o jogo esteve longe de ter a qualidade pretendida. Não, a coisa foi tão "kitsch", que onde se lê pano dever-se-á substituir por naperon, perdão, Macron. Não estivesse a partida já aborrecida o suficiente, Hugo Miguel entrou num desatino de um festival de apito que penalizou todo e qualquer contacto ou simples acto de respirar na proximidade de um opositor. Desta forma, o juíz protegeu-se a ele em detrimento do espectáculo, enquadrando-se bem no espírito dos treinadores de cada equipa. No final, o público também pareceu satisfeito, pelo que não há como criticar a acção de todos os intervenientes.

 

Todos sabemos os condicionalismos deste início da época e as insuficiências do plantel do Sporting. Durante alguns jogos, Keizer retirou o máximo de sumo das laranjas que lhe puseram à disposição, mas chega um momento em que a fruta está toda espremida e não se pode esperar mais nada. A partir daí é só escolher a forma como se quer perder: com honra e fidelidade às ideias ou de forma a minorar os estragos. A minha esperança é que Marcelo Keizer (eu disse-vos que o homem já era nosso patrício) tenha aproveitado o jogo de ontem para fazer um "statement": "Ah, vocês têm a mania de que se adaptam à inovação e que isso é uma coisa do outro mundo, então eu agora vou mostrar-vos que também me adapto às vossas adaptações". Posto isto, e depois de dar uma lição aos treinadores rivais, é possível que Keizer volte ao seu registo anterior de futebol avassalador. E, fiél à sua regra, em cinco segundos. É que, se calhar, tudo o que ficou expresso em cima não passou de um sonho, reflexo de um joguinho disputado logo a seguir a um reconfortante almoço e com um persistente sol de Inverno a bater na moleirinha. Há que tentar manter a fé, não é?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jeremy Mathieu

 

P.S. Publicado originalmente no dia 13 de Janeiro de 2019. Crónica "Tudo ao molho..." que expressava o sentimento de que Marcel Keizer já vacilava nas suas ideias. Que Leonel Pontes se mostre, em qualquer circunstância, sempre fiél às suas!

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