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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

19
Nov24

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Remar, REMAX (aos Chutos&Pontapés)


Pedro Azevedo

IMG_3511.jpegSabemos que o mundo é um lugar estranho quando, em pleno "Century 21",  Portugal vai a Split jogar contra a equipa da REMAX (Hrvatska, em croata). É a força da globalização e suas tendências, ainda que paradoxalmente as pessoas andem bastante mais separadas ("Split", na língua global) umas das outras, entretidas a brincar às casinhas. 

Portugal entrou com tudo, com João Neves a marcar o ritmo, Vitinha a esconder a bola, Tomás Araújo imperial com e sem bola e Nuno Mendes omnipresente como central pela esquerda, lateral ofensivo e extremo canhoto. Só o Rafael não apareceu no seu melhor,  no caso em versão emplastro Leão, o que rima com trapalhão (só na definição). O céu parecia ser o limite, o que até é, curiosamente, um slogan caro aos da REMAX, mas muita parra produziu pouca uva e ao intervalo vencíamos por apenas 1 golo de diferença, cortesia de João Félix e de um daqueles seus detalhes de génio da lâmpada que um dia (sebastianismo puro luso) lhe valeram uma transferência de 120 milhões. O problema do João é que o seu perfume requintado coabita num frasco de 25ml, esgota-se em pouco tempo. (Para quem vê o futebol como arte, o delicado entrelaçar de jogo que nasce no seu cognito e logo floresce nos seus pés capta a atenção como se de uma bela e complexa peça de filigrana se tratasse. Não é só o que se vê, é muito também o que se sente: o som perfeito que a bola emite quando por ele impelida, o perfume requintado derramado no acto, a intenção que quase conseguimos tocar latente em cada sua acção, a água que nos cresce na boca como que a pedir sempre mais. Tudo isto nos acontece porque Félix é um dos raros futebolistas que nos despertam os cinco sentidos. Porém, e apesar de todos os predicados, a carreira de Félix tem ficado aquém. Porque não só de talento se faz um caminho, é preciso trabalho, consistência e atitude mental. E é especialmente nesta última que as coisas falham.)


Depois de uma muito boa primeira parte, na segunda perdemos a objectividade: escondermos a bola passou a ser a meta, ao invés de continuarmos a procurar o golo. Foi assim um tempo de espera: esperámos pela REMAX e esperámos por Godot. É normal em Portugal se esperar por Godot, os portugueses estão habituados a esperar e suspirar até por aquilo que nunca vem. Talvez por isso não reajam bem a quem entrega o que promete, gente como o Cristiano Ronaldo e assim, que como tal nem sempre é bem-vista ou bem-quista. No dia, o nosso Godot chamava-se Quenda, Geovany Quenda, e não havia noticiário prévio ao jogo que não anunciasse a sua estreia oficial pela Selecção, estreia essa que bateria o recorde de precocidade pertencente a Paulo Futre. O problema é que, tal como na peça de Beckett, o Quenda nunca chegou. Na antecâmara do jogo haviam 4 potenciais estreias lusas. Dessas quatro, a do Tomás Araújo logo se confirmou (foi titular). Depois entraram o Tiago Djaló, recém-titular de uma defesa do Porto que mete mais buracos que uma balsa a remos de dissidentes cubanos prestes a naufragar ao largo da Flórida, e o Fábio Silva, que anda de clube em clube a ver se alguém lhe dá a mão (ou, pelo menos, lhe mostrem as palmas das mãos, "Las Palmas"). Já foi "Ranger" e até vestiu a pele de Lobo (Wolves), mas quem lhe deu verdadeiramente a mão veste a pele de cordeiro (Martinez). Pelo que o Quenda foi o único que não saiu do banco, dali ficando a ver todas as expectativas criadas pelo próprio Seleccionador gorarem-se, frustrarem-se, o que já não é a primeira vez. Ainda que vendo o Semedo facilitar no golo da REMAX, um golo muito antecipado como outros no passado que resultam da inação face aos acontecimentos tão comum ao nosso Seleccionador, o homem que desperdiçou a melhor geração belga desde a ínclita dos anos 80 e se prepara para fazer o mesmo, se lhe derem tempo, com Portugal. Como também já é um hábito, o Trincão não saiu do banco, passou de afluente no último jogo a não influente neste, o que ilustra bem a (in)coerência de consistência das decisões do treinador. Tudo isto, porém, obedece a um plano estratégico genial por parte de Roberto Martinez, o melhor aliado do Sporting no presente campeonato: é que os nossos jogadores saem da Selecção com tanta fome de bola que depois comem a relva nos compromissos domésticos. Creio que assim deveremos estar muito agradecidos ao Sr Martinez, rezando para que ele não saia para uma REMAX, que até seria um fato à sua medida visto que exige exclusividade no seu portefólio de activos.

 

"Mares convulsos, ressacas estranhas
Cruzam-te a alma de verde escuro
As ondas que te empurram
As vagas que te esmagam
Contra tudo lutas
Contra tudo falhas

Todas as tuas explosões
Todas as tuas explosões
Redundam em silêncio
Redundam em silêncio
(2x)
Nada me diz

Berras às bestas
Que te sufocam
Em abraços viscosos
Cheios de pavor
Esse frio surdo
O frio que te envolve
Nasce na fonte
Na fonte da dor

Remar remar
Forçar a corrente
Ao mar, ao mar
Que mata a gente
(2x)

Nada me diz"

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Mendes 

09
Jun24

Tudo ao molho e fé em Deus

Do mito à realidade


Pedro Azevedo

Não sei se as Ilhas Faroé, Andorra, Gibraltar, Malta, Chipre ou outros colossos do futebol mundial não estavam disponíveis nesta janela de preparação para o Euro, o que sei é que não havia necessidade de trazer uma selecção de veteranos da Croácia para provar de uma vez por todas a eloquência do futebol de Félix, 120 milhões esvanecendo-se no relvado sob a forma de uma total inconsequência. Mas como com o senhor Martinez aprendemos que a Selecção é um espaço de recuperação de inválidos do comércio e de perpetuação de propaganda sobre figuras da mitologia jornalística nacional, o processo decorre conforme o previsto. A única maçada é que vem aí o Euro, e com ele uma desnecessária exposição a objectivos que não são o núcleo central da acção de um seleccionador nacional. Mas isso é o menos, o pior é que de tanto se procurar transformar mitos em realidade, acaba-se por tratar mal as poucas realidades que não são aparentes ou confundíveis com percepções nem sempre condizentes com o que é real. É o caso do Ronaldo. Nesse sentido o dia de ontem foi muito mau para os estatísticos de amostras de uma observação só, aqueles sempre pródigos a elogiar o fluidez do jogo nacional quando o astro português não está em campo. Tal como o jogo com Marrocos já tinha mostrado à evidência, embora eles teimem em não querer ver. No fundo, o mesmo ensaio sobre a cegueira que os fez embandeirar em arco com o pleno de vitórias sobre a fina flor do terceiro mundo do ludopédio mundial. Ensaio do qual se deve excluir o senhor Martinez: enquanto outros põem a cabeça na areia como a avestruz, ele aprende. Ou diz que aprende, elogiando os méritos destas derrotas e qualificando-as como muito importantes. Como já havia acontecido na Eslovénia ou de cada vez que levamos dois golos de adversários menores. Porque o importante é preparar o Mundial de 2026 e aí perder com estilo para melhor acolher o Euro 2028. E assim sucessivamente. Nesse sentido, Martinez não representa uma evolução face a Fernando Santos: Martinez não é a versão 2.0 de Fernando Santos, mas sim a sua versão beta, sempre disposto a elogiar uma "excelente" pergunta de um jornalista ou a compadecer-se com os azares daqueles que nunca convocou. Pelo que se prevê que continuemos a pedir a Palhinha que, sozinho, segure o peso do mundo, qual Atlas das transições defensivas, em vez de o ajudarmos, pondo-lhe à frente um Matheus Nunes. E que o Diogo Jota continue a ser preterido pelo Félix, numa equipa onde só Ronaldo e Bruno têm golo e para quem as balizas não exercem um fascínio por aí além. Porque a nossa onda é andar a filosofar pelo campo adentro, o Cancelo a mostrar-nos as virtudes e contradições do livre-arbítrio, o Vitinha a ser tese e antítese hegeliana ao mesmo tempo, o Félix a lembrar-nos o existencialismo como Heidegger o vê. Até que o Arquimedes que há em Ronaldo exclame Eureka! ou o Kierkegaard existente no Bruno elucide o Bernardo e todos os outros que a  vida só se compreende olhando para trás mas só se vive para diante. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Diogo Jota

croacia.jpg

18
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

Retratos de Rubens


Pedro Azevedo

A conclusão que se poderá tirar deste jogo é que provavelmente a nossa selecção teria ficado melhor no retrato se Fernando Santos houvesse optado por separar ("split") os Rubens. É que se o estilo barroco de Dias se traduziu extravagantemente no marcador, o estilo bacoco de Semedo na abordagem aos lances, misto de excesso de confiança e de um sem medo a roçar a displicência, poderia ter deitado tudo a perder. E é pena, até porque a qualidade (abundante) está lá. Mas, o tempo passa, as falhas de concentração exasperam e deixam qualquer um de rastos (rastas?).

 

Ao contrário do jogo com a França, desta vez a nossa equipa manteve as linhas bem próximas. Num campo cheio de sulcos e muito esperançoso para o cultivo de tubérculos, coube a Moutinho a batata quente de assegurar a ligação do jogo, tarefa que cumpriu com aproveitamento. Todavia, com Ronaldo (ansioso sempre que se aproxima de um novo recorde) e Jota abaixo dos seus níveis habituais de eficácia e Felix e Bruno muito fora do jogo, Portugal, disposto em 4-4-2, sujeitou-se a que os croatas, com a sua qualidade técnica, numa transição rápida fizessem a diferença no marcador. Desse modo, fomos para o intervalo em desvantagem após uma má abordagem defensiva da nossa equipa ter sujeitado Rui Patrício a um pelotão de fuzilamento. 

 

No reatamento, após uma falta nas imediações da área croata, Portugal rapidamente ficou em vantagem numérica no batatal de Split. Na conversão do livre, Ronaldo mandou uma daquelas bolas curvas e cheias de efeito tão comuns no basebol e Livakovic sacudiu como pôde. Os Rubens combinaram e tiraram-lhe o retrato. Bradaric exclamou e Juranovic ajuramentou a igualdade no marcador. Pouco tempo depois, mãozinha marota de Jota sem VAR e Felix a marcar aos trambolhões. Pensava-se que o jogo tinha terminado aí, mas mais uma abordagem macia de Ruben Semedo a um lance e uma deficiente leitura de jogo de Danilo, atraído pela bola e esquecendo-se de cobrir a entrada de área, combinaram para permitir aos croatas restabelecerem a igualdade. O esgar contínuo de pescoço de Fernando Santos era o retrato fiél do que se passava em campo.

 

Fernando lançou Cancelo e conjuntamente com Nelson Semedo passámos a ter duas motas nas alas. Bernardo também entrou e logo falhou um golo digno dos "bloopers": com o guarda-redes no chão, a bola saiu caprichosamente por cima da baliza. Trincão agitava o jogo e justificava a chamada em cabines telefónicas. O jogo aproximava-se do fim e a igualdade teimosamente persistia no marcador. Lovren, após a expulsão de Rog o único não "ic" em campo do lado croata, insistia em orientar a equipa no sentido de virar a página do seu insucesso recente. Nada como fazer entrar Brekalo para assegurar o mesmo propósito, pensou o seleccionador croata. Até que o guarda-redes largou uma bola perfeitamente ao seu alcance e Ruben Dias pintou de novo a manta. Apesar disso, a imagem que ficou não foi a melhor, como aliás Fernando Santos deu conta no final do jogo. Bons tempos estes em que se lamenta uma exibição menos conseguida após uma vitória no relvado(?) do vice-campeão do mundo!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Ruben Dias

croácia portugal.jpg

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