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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

14
Ago19

O amor é... por José Duarte(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José Duarte, a.k.a. "Leão de Alvalade". Novo nestas lides, ia lendo esporadicamente o "A Norte de Alvalade", o blogue do qual o José Duarte é autor, quando um dia me deparei com um texto genial, de um humor temperado das proporções certas de inteligência, fina ironia e prazeiroso sarcasmo, que aqui recordo, recomendando-o vivamente a quem não teve oportunidade de lêr. Como quem me acompanha se vai apercebendo, a ironia é uma ferramenta essencial ao meu bem-estar: na sua companhia poupei-me a levar demasiadamente a sério a minha existência, evitando aquele deslumbramento tão enganador que nos faz descolar da nossa humanidade e perder as referências; com ela, em tempos de cólera no meu clube, não deixando de criticar aquilo que não me parece bem, tenho feito o que me é possível para passar uma mensagem que não aumente a temperatura e adicione ruído numa era em que os sócios do Sporting se veem permanentemente obrigados a viver encostados a uma coluna a bombar de uma discoteca. Ora, este supracitado texto do José foi para mim um sortilégio, ou seja, um bocadinho de magia, como um dia ouvi definir num pequeno café na Boulevard St Michel, ali no Quartier Latin. A partir daí tornei-me leitor assíduo do blogue, pese embora nem sempre o José siga a sua orientação editorial nesse sentido que tanto me agrada. A inteligência numa pessoa foi sempre algo que me fascinou, a humildade também. Neste breve contacto que mantivémos a propósito do meu pedido para colaborar nesta série, o José mostrou-me uma faceta humilde que só se encontra nos verdadeiramente grandes. É por isso com redobrado prazer que sem mais demora aqui vos deixo o texto que o José Duarte, "um leão a Norte, onde se é leão por convicção", escreveu por amor ao Sporting:

 

"Ser especial é ser de um clube especial.

 

Sou daquelas pessoas que tanto confia quase cegamente como se transforma num ensimesmado patológico, quando alguma coisa parece não bater certo. Foi o caso deste convite do Pedro Azevedo em escrever um artigo para o seu blogue. Comecei por me perguntar "porque raio alguém que escreve tão bem sobre o Sporting" quer umas linhas minhas, eu que escrevo cada vez mais esparsamente, cada vez mais de forma superficial e de escrita cheia de lugares comuns? 

A dúvida foi crescendo ao ler o texto do Rui Monteiro, cuja escrita deliciosamente mordaz admiro. Ao dar de caras, quase de seguida com o do Pedro Correia, a quem fiquei a dever um artigo que não fui capaz de concluir, ainda mais hesitante fiquei. Mas a vaidade, que a tantos perde, preparou-se para fazer mais uma vítima e aqui estou eu.

A verdade é que eu nem sequer sou um bom exemplo de Sportinguista. Não o sou de berço nem de tenra idade, porque o futebol ou o desporto em geral não eram tema de conversa em casa, apesar do meu pai ser sportinguista. Se tivesse que ser de algum clube por influência familiar certamente que seria benfiquista, uma alegria que não consegui dar à minha querida Tia Ly. Fervorosa adepta do nosso rival, ouvia os relatos religiosamente e até cuidou de me oferecer um equipamento completo, que ainda assim não foi suficiente para me evangelizar para a sua causa.

Não sei precisar quando despertou em mim o interesse pelo Sporting. Mas sei exactamente o momento em que percebi que era uma paixão que iria ficar para toda a vida. Falo mais precisamente do dia 22 de Agosto de de 1981 quando, de férias em Lisboa, e valendo-me da desculpa de um passeio, entro sozinho na superior sul do velhinho Alvalade e assisto à inauguração do campeonato nacional 1981/82. 

Aqueles nomes que eu só conhecia de ouvir falar, de ver fotografias nos jornais ou de aparecer na televisão estavam ali à minha frente em carne e osso. O bigode do Meszaros, a elegância que fazia do difícil fácil do Eurico, os bailados felinos do Jordão (marcou 2 golos, selando assim para sempre a condição de ídolo intemporal) ou a geometria aplicada de Oliveira, tudo parecia ali ao alcance. O Sporting tinha um treinador novo, cuja memória fez questão de arquivar de camisa branca e charuto, e que se fazia acompanhar de um preparador físico "diferente" de nome Roger Spry. Factos que tomara conhecimento previamente no jornal "A Bola" cujos fascículos desse verão versando a contratação do mago Oliveira me tinham arruinado e eu havia devorado com avidez.

Ainda hoje não consigo explicar a razão da empatia imediata que então me envolveu na grandiosidade daquele cenário vibrante. Era como se eu sempre tivesse estado ali e era seguramente ali que eu ia pertencer para o que restasse dos meus dias. Havia como que uma magia no ar, tudo me parecia grandioso, belo, magnífico. Quando no final do dia tentei adormecer as emoções, já depois de tranquilizar os meus tios assustados pela surpresa pouco habitual da ausência prolongada, tive uma tarefa morosa. 

Nem o facto de o resultado ter sido tão decepcionante  como a frouxidão da exibição diminuiu o efeito do encantamento. Sofremos para alcançar o empate, o Belenenses fez-nos a vida negra mesmo terminando com um guarda-redes improvisado na baliza. Não o sabia então que na minha estreia em Alvalade seria imediatamente vacinado contra todo o qualquer desgosto ou infortúnio. A glória do nosso lema haveria de se cumprir no final de época, engalanada numa apetitosa dobradinha.

Como todos os amores esta relação teve altos e baixos. Os embaraços e tristezas, porém, têm uma dimensão microscópica quando ombreiam com o orgulho que sinto em ser e dizer que sou Sportinguista. O encantamento do primeiro encontro em Alvalade era apenas a semente do que se haveria de transformar numa paixão perene alimentada pelo sentimento de pertença a uma instituição especial. Mais do que diferente, como muitas vezes é designado, é especial.

Fundado por aristocratas ainda no regime monárquico, tornou-se num clube de dimensão nacional e popular de forma transversal a toda a sociedade portuguesa, quando o mais natural é que se tivesse ficado na exclusividade de um grupo restrito. Percursor, pioneiro e ecléctico, colecionador de medalhas e recordes olímpicos e mundiais, formador de melhores do mundo e campeões europeus, cumpriu o sonho de ser tão grande como os maiores da Europa.

Um desígnio que sempre que é cumprido tem de ser outras tantas vezes recomeçado. Esse permanentemente sobressalto é a armadilha perfeita para o coração cujo sentimento de pertença ao clube dos  Stromp, de Jorge Vieira, Azevedo, do Zé da Europa, Peyroteo, dos 5 Violinos, do Damas, do Agostinho, do Livramento, Moniz Pereira, Carlos Lopes tantos outros me faz sentir especial. Ser do Sporting foi uma escolha especial."

 

(*) José Duarte, autor de "A Norte de Alvalade"

 

P.S. Mais autores da blogosfera passarão por aqui, mas no entretanto abro este espaço aos leitores que se queiram candidatar a escrever sobre o seu amor ao Sporting. Bastará para tal enviarem um texto com o título "O amor é..." para a caixa de comentários de um qualquer dos meus Posts. 

13
Ago19

O amor é... por Pedro Correia(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o Pedro Correia. Antes de mais, cumpre-me a obrigação de informar que se estou presente na blogosfera devo-o ao Pedro (se não gostarem de me lêr, já sabem para onde enviar a factura), algo de que nunca me esqueço. Foi ele, sem me conhecer, que um dia me desafiou para alinhar no plantel do "És a nossa FÉ" e assim poder ter o privilégio de escrever sobre a minha primeira importante escolha na vida, o Sporting, um amor que não tem fim.

O Pedro tem sido obreiro de vários casos de popularidade: para além do supracitado blogue, de que foi fundador e onde permanece há já largos anos como o co-autor mais influente e profuso, ele é também co-autor do "Delito de Opinião". Cerebral, directo, contundente, provocador por vezes, o Pedro tem um raro instinto para tudo o que possa ser notícia, característica que aliada a uma opinião que procura sempre fundamentar, a uma técnica narrativa irrepreensível e à sagacidade empregue na esgrima de argumentos com os seus leitores o tornam uma figura incontornável da blogosfera. Hoje vão lê-lo porventura num registo um pouco diferente, que isto de falar de amor a um clube obriga-nos a passar a nossa vida em revista. Ilustrando-o, PC enriquece o seu belo texto dando-nos conta de viagens por um mundo onde o Sporting foi sempre uma companhia constante e marcante, sinal inequívoco da implantação de um gigante por vezes sem consciência da sua real relevância social. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Pedro nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Amar o Sporting é cultivar alguns dos valores que mais prezo. Ser fiel às origens, às tradições, à devoção clubística – antónimo de clubite. Praticar a lealdade em campo e fora dele, rejeitando golpes baixos. Gostar muito de vencer, sim – mas sem batota. Recusar ódios tribais a pretexto da glória desportiva. Nunca confundir um adversário com um inimigo, sabendo de antemão que o futebol (só para invocar o desporto que entre nós mobiliza mais paixões) é a coisa mais importante das coisas menos importantes, como Jorge Valdano nos ensinou. 

Amo o Sporting pela marca inconfundível do seu ecletismo. Os meus primeiros heróis leoninos, ainda em criança, eram Leões de corpo inteiro sem jogarem futebol. Foi o Joaquim Agostinho a brilhar nos Alpes e a vencer etapas na Volta à França depois de ter sido o maior campeão de ciclismo de todos os tempos em Portugal. Foi o António Livramento, artista exímio com um stick nas mãos, campeão europeu de verde e branco, além de campeão mundial a nível de selecções. Foi o Carlos Lopes, recordista absoluto do corta-mato europeu, brioso herói da estrada, medalha de prata nos 10 mil metros em Montreal, primeiro português a subir ao pódio olímpico, de ouro ao peito, naquela inesquecível maratona de 1984 em Los Angeles.

Amar o Sporting é abraçar o universalismo que fez este nosso centenário clube transbordar os limites físicos do País e galgar fronteiras. Conheci fervorosos sportinguistas nas mais diversas paragens do planeta. Nos confins de Timor, no bulício de Macau, na placidez de Goa – lá estão, com a nossa marca inconfundível, sedes leoninas que funcionam como agregador social naqueles países e territórios, assumindo em simultâneo uma ligação perene a este recanto mais ocidental da Europa. 

Amar o Sporting é cultivar a tenacidade de quem nos soube ensinar, de legado em legado, que nunca se vira a cara à luta. João Azevedo a jogar lesionado entre os postes, só com um braço disponível, enfrentando o Benfica num dos clássicos cuja memória perdurou através das gerações. Fernando Mendes, um dos esteios do onze que conquistou a Taça das Taças em 1964, alvo de uma lesão no ano seguinte que o afastou para a prática do futebol, mas capaz de conduzir a equipa, já como treinador, ao título de 1980. Francis Obikwelu, nigeriano naturalizado português e brioso atleta leonino que saltou da construção civil onde modestamente ganhava a vida para o ouro nas pistas europeias em 2002, 2006 e 2011. 

Campeões com talento, campeões com garra, campeões inquebrantáveis – mas também campeões humildes, conscientes de que nenhum homem é uma ilha e um desportista, por mais aplausos momentâneos que suscite, é apenas uma parcela de um vasto arquipélago já existente quando surgiu e destinado a perdurar muito para além dele. Na Academia de Alcochete, no Estádio José Alvalade, no Pavilhão João Rocha, somos conscientes disto: ninguém ganha sozinho. Antes de Cristiano Ronaldo havia um Aurélio Pereira, antes de Livramento havia um Torcato Ferreira, antes de Carlos Lopes havia um Mário Moniz Pereira.

O desporto com a genuína marca leonina não cava trincheiras: estende pontes, transmitindo a pedagogia da tolerância e cultivando a convivência entre mulheres e homens de diferentes culturas, ideologias, crenças e gerações. 

É também por isto que amo o Sporting: fez-me sempre descobrir mais pontes que trincheiras. O que assume relevância não apenas no desporto: é igualmente uma singular lição de vida."

 

(*) Pedro Correia, fundador e co-autor de "És a nossa FÉ", co-autor de "Delito de Opinião"

12
Ago19

O amor é... por Joana Marques(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido uma senhora, ou melhor (para que não fiquem dúvidas sobre a sua idade e jovialidade), uma menina, mulher, menina mulher, casada, mãe de 2 filhas e com outra a caminho, a Joana Marques. Há alguns meses atrás, mão amiga trouxe ao meu conhecimento a Joana. No seu blogue escrevera algo sobre o Sporting que eu deveria lêr, dizia o meu amigo. Li. E aquilo tocou-me. Tocou-me pelo estilo de escrita de cunho muito próprio e intimista, pela forma como os seus textos ganhavam vida com a sintaxe por via de uma invulgar e ousada disposição das frases (a indicar uma personalidade muito vincada), mas também (principalmente) pela forma como conseguira traduzir a sua paixão pelo nosso clube. Foi a primeira vez que li o "Feita de Sporting", que mais tarde vi traduzido pelo nosso marketing em "Feito de Sporting", que adicionava as conquistas aos sentimentos. Reli o texto e não esqueci. Não conhecendo a Joana, guardei em ficheiro na minha cabeça para memória futura. E a oportunidade de contacto surgiu com esta série "O amor é...".  Assim, sem mais delongas, esperando ter-lhe feito justiça (há sempre algum pudor e dá sempre um bocadinho de medo apresentar quem acabamos de "conhecer"), aqui fica o texto que a Joana nos escreveu por amor ao Sporting:

 

"Tenho 3 filhas.

Quando penso naquilo que quero para elas peço: saúde, felicidade..

…e que sejam do Sporting.

É por isso que nas noites de mais inspiração, em vez de lhes ler “a Branca de Neve e os 7 anões” lhes conto episódios vividos por mim. Com o Sporting.

Com a Alice e a Mariana ao meu colo e a Luísa dentro da minha barriga, começo devagarinho….

 

Era uma vez….

…há muito, muito tempo.

  1. No Alentejo.

Tinha 6 anos e passava as férias grandes em casa dos meus avós.

Eu, o meu irmão e uma carrada de primos rapazes.

Era levada da breca e tirava a paciência a tudo e a todos.

Era a mais nova.

Hiperactiva. Mimada.

Precisava de atenção e entretenimento constante.

Passávamos os dias a correr atrás do sol e regressávamos a casa ao anoitecer. Lanchávamos a fruta das árvores, bebíamos a água dos fontanários públicos e fazíamos amigos improváveis.

Não havia telemóveis. Toda a gente confiava em nós. Brincávamos como queríamos e onde queríamos.

Os meus pais e os meus tios visitavam-nos ao fim-de-semana. Ao sábado à noite passava um bom par de horas dentro da banheira. No dia seguinte a minha mãe levava-me à missa e não podia ir com aquelas pernas todas encardidas.

 

Os meus pais e os meus tios iam-se embora ao Domingo depois de almoço.

 

 

Um desses domingos. Saíram mais cedo.

Para grande alívio do meu avô.

O campeonato ia começar. O Sporting ia jogar.

Quando o Sporting jogava o mundo parava.

O meu avô, exigia silêncio e atenção.

Sentava-se no sofá da sala com a minha avó ao lado.

Nós sentávamo-nos “à chinês” ao redor do sofá.

Calados que nem ratos. À espera de novidades.

Mas…

….a minha fama era qualquer coisa!

O meu avô confiava no silêncio de todos excepto no meu. Vá se lá saber porquê… ;)

Enquanto sintonizava o rádio chamava-me!

- Joana!

Ficava direitinha e caladinha! Em sentido…

Também eu queria participar do momento.

O meu irmão dizia-me baixinho ao ouvido:

- Se te sentires aborrecida vai por aí tocar às campainhas!

Não fui!

O jogo começou.

Fiquei ali a alimentar o meu Sportinguismo.

O meu avô tinha o rádio ao ouvido.

Nervoso.

Pediu à minha avó ajuda divina.

A minha avó levantou-se e tirou a tampa de uma terrina que tinha em cima da mesa.

Tirou um terço e começou a rezar.

O meu irmão disse-me baixinho ao ouvido...

- A avó está a rezar a Deus para o Sporting ganhar!

 

O Sporting ganhou o jogo!

 O meu avô levantou-se.

Nós fomos atrás dele.

Entrou na adega. 

Saiu de lá com 4 foguetes. 

Lançou-os.

Para que toda a gente soubesse que o Sporting tinha ganho.

 

No fim de semana seguinte  os meus pais voltaram para nos ver e eu tinha uma coisa muito importante para lhes contar.

Mal saíram do carro! Gritei...

- Deus é do Sporting! Deus é do Sporting!

A minha mãe quase enfartou.

O meu pai riu desalmadamente.

Eu, acrescentei:

- O Sporting jogou, a avó rezou a Deus e o Sporting ganhou!!

Feliz da vida, acreditei que o Sporting ia ganhar para sempre.

Deus era do Sporting! Deus era do Sporting!

 

 

O Sporting foi desde o meu primeiro dia de vida o prolongamento da minha família, Alvalade o prolongamento da minha casa.

Actualmente, não sou crente mas tenho uma fé inabalável no meu Sporting.

Tudo pode falhar...

...menos o meu Sportinguismo!

Continuo a acreditar que o Sporting vai ganhar os jogos todos!

Nos ombros, tenho a responsabilidade de transmitir toda esta fé e esta memória às minhas filhas, para que daqui a 20 anos, sejam elas as convidadas a escrever um texto sobre o grande amor das nossas vidas!

 

Obrigada, Pedro!

Tão bom estar por aqui. 💚"

 

(*) Joana Marques, autora de "Kiosk da Joana"

11
Ago19

Os jogos da minha vida (V)


Pedro Azevedo

14.12.1986  Sporting - Benfica 7-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas; Gabriel, Venâncio, Virgílio e Fernando Mendes (Duílio, aos 79 min.); Oceano, Litos (Silvinho, aos 79 min.), Zinho e Mário Jorge; Raph Meade e Manuel Fernandes.  

 

O Sporting vs Benfica de 86 é o único jogo desta série que não presenciei ao vivo, facto do qual jamais me perdoarei. Por sortilégio, o que perdi "in loco" em emoção ganhei em explicação racional do que se passou em campo. É verdade, enquanto estudava para uma Frequência de Economia calendarizada para o dia seguinte, o jogo proporcionar-me-ia a aplicação prática das teorias do liberalismo, simbolizadas na expressão "laissez faire, laissez passer" com que a defesa encarnada pretendeu ilustrar os conhecimentos teóricos que eu ia adquirindo nos livros e cadernos de apoio.  

 

À cautela, deixara a aparelhagem sintonizada numa estação radiofónica que cobria o derby. Eu, no meu quarto, à secretária, a aparelhagem na Sala de Estar com o som baixinho. Cerca de 20 metros nos separavam, distância fulminantemente superada logo ao quarto de hora quando Mário Jorge inaugurou o marcador. Seguiu-se uma hora relativamente tranquila, sem grande volatilidade nos decibéis que vinham de outra divisão da casa, que me permitiu concentrar na matéria em atraso. Chegou então a catarse de uma meia hora final feita de constantes piscinas naquele corredor que separava a zona dos quartos das áreas comuns. Desse transe e até à rendição final distaram poucos minutos. A emoção acabaria por vencer a razão, o Sporting nocautearia de uma só penada Adam Smith, Locke, Burke, Bentham, Malthus e Marx. O som da aparelhagem já não estava baixinho e o vizinho de baixo, benfiquista convicto, fazia questão de o notar a toque de cabo de vassoura, anunciando sarilhos. Sarilhos, origem do nosso Manél, imparável nessa tarde. O jogo acabara e era hora de celebrar. Sózinho em casa, olhei para o meu Dual, gira-discos com uma base em madeira onde afinfara três pancadinhas de sorte antes do jogo começar. Em cima do tampo em vidro da geringonça havia um LP e um Single. Por uma vez o recém-importado "Love will tear us apart" dos Joy Division de Ian Curtis ficaria para trás, vergado pelo peso de Mr James Brown, o "Padrinho do soul". I feel good!... 

10
Ago19

113 anos de história, 13 glórias - o meu voto


Pedro Azevedo

O Sporting está a eleger, no seu sítio oficial (https://www.sporting.pt/gloriassporting), durante o mês de Agosto, 9 figuras do seu ecletismo que irão ser imortalizadas em espaço próprio no Pavilhão João Rocha. Os eleitos juntar-se-ão a outras 4 glórias - António Stromp, Mário Moniz Pereira, Reis Pinto e Salazar Carreira - previamente escolhidas pelo Conselho Directivo, perfazendo assim o número de 13 personalidades homenageadas. Os sócios que quiserem votar terão de escolher 5 atletas entre os 20 nomeados na categoria de desportos colectivos e outros 4 atletas entre os 20 nomeados na categoria de desportos individuais.

Eis o meu voto, entretanto já registado (por ordem de disposição no "site"): António Livramento, Bessone Basto, Carlos Silva, Chana, Manuel Brito, Alfredo Trindade, Carlos Lopes, Fernando Mamede e Joaquim Agostinho. 

Todos os momentos de exortação da Cultura Sporting e sua identidade merecem o meu aplauso, pelo que peço a todos os Leitores de Castigo Máximo que sejam sócios do Sporting Clube de Portugal para aderirem a esta iniciativa, votando. Participem! 

09
Ago19

O amor é... por José da Xã(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José da Xã. Conheci o José no meu primeiro jantar do blogue “És a nossa FÉ” e logo me impressionou pela sua autenticidade, camaradagem e profunda devoção ao Sporting. Para além disso, o José é um homem bom, genuíno, de princípios,  intuitivo, sábio até, que cultiva a amizade e tem um coração enorme. Os seus Posts são o produto disso mesmo, cheios de puros sentimentos leoninos que nos contagiam, reconciliam com o nosso amor ao clube e, bem absorvidos, nos fazem querer ser melhores Homens. Assim como ele é. Aqui fica o texto que o José nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Nasci no seio de uma família de sportinguistas, a começar pelo meu pai, que foi sócio durante algum tempo e pelo meu tio, irmão da minha mãe, que ainda hoje é sócio (creio mesmo que fará parte dos “Cinquentenários”), mas que devido à provecta idade deixou de ir a Alvalade.

Entretanto há umas breves semanas veio-me à memória uma recordação da minha infância que reza assim: certo dia estava eu na aldeia, provavelmente de férias, quando um primo, que se preparava para partir para África ao abrigo do SMO, chamou-me para me mostrar as suas recordações!

Era uma daquelas malas de viagem tão em voga nos anos 60, meia de papelão grosso, meia de madeira, com quadrados de estampagem. Ao abrir a tampa vi que naquele pequeníssimo mundo estava uma história fantástica. O meu primo guardara muitos recortes de jornais que falavam do Sporting, cromos de atletas leoninos muito usados e outras referências sportinguistas.

Foi aquele ínfimo espaço que me fez despertar para uma outra realidade, para algo que hoje reconheço ser mais profundo. Foi nesse momento histórico da minha vida que me tornei verdadeiramente sportinguista.

Após esta minha breve viagem a um passado longínquo mas saudoso, regresso à crua actualidade para afirmar sem rodeios que o Sporting é hoje uma profundíssima paixão.

Recordo agora um outro exemplo de fervor clubístico. Certa tarde após um dia de trabalho e à volta de uma mesa numa tasca na Rua do Cruxifixo e por detrás de umas imperiais alguém perguntou a um sportinguista:

- Entre a tua mulher e o Sporting quem escolherias primeiro?

Resposta rápida:

- O Sporting…

- Porquê?

- Porque conheci primeiro…

Não chegando a este exagero diria que o meu amor pelo Sporting é… totalmente incondicional! E irrevogável!

De outra forma há muito que teria deixado de ser sócio, que não compraria o meu lugar em Alvalade ou que não entraria no Pavilhão João Rocha.

Mas este amor não tem explicação lógica. De todo.

Não se percebe, não se entende, não se controla… só se sente. São as unhas roídas nos minutos finais de um jogo, o frio glaciar naquela grande penalidade, a alma repleta de alegria na vitória, o murro no estômago na derrota.

Nisto a razão não manda, não se impõe.

É o coração leonino que se sobrepõe, é o orgulho, a honra, a alegria de se ser do Sporting Clube de Portugal.

Sentimentos únicos que repito ninguém saberá explicar. Nem eu próprio.

É assim o meu amor ao Sporting!" 

 

(*) José da Xã, autor de "LadosAB", co-autor de "És a nossa FÉ"

 

P.S. "O amor é..." voltará na segunda-feira.

08
Ago19

O amor é... por Rui Monteiro(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais, incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting.

 

Hoje apresento o Rui Monteiro. Bom, na verdade o Rui dispensa apresentações, o seu estilo irónico é inconfundível. Ler os seus textos é um renovado prazer. Neles coabitam erudição, inteligência, independência, humor e um sentido de responsabilidade ilustrativo da integridade do autor. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Rui escreveu por amor ao nosso clube:

 

"[O Pedro Azevedo fez a maldade de me pedir um pequeno texto a propósito do Sporting e de uma iniciativa em torno do tema genérico "o amor é...". Os homens não choram, foi assim que o meu pai me ensinou, como tantos outros pais na minha geração. Cada um constrói a carapaça que pode e faz das tripas coração para assim viver a sua vida. Pratico com gosto a ironia, a roçar o cinismo. Não consigo encontrar boa razão para escrever este texto, mas se o Pedro Azevedo mo pede é porque a encontrará seguramente. Tentemos por essa razão.]  

Decorei uma parte da lírica camoniana. Ficou-me de infância e da adolescência e nunca me saiu da cabeça. É como a letra numa qualquer língua estrangeira de uma música que nos parece fazer sentido sem que percebamos exatamente porquê. Ouvimos e vão-se (re)construindo imagens e memórias. “O amor é”, pois é! Que é, é, mas não sabemos o quê. É fogo que arde sem se ver ou uma outra forma de dizer que se define pela sua simples existência. Também é presente do indicativo. Reconhecemo-lo e, quando o reconhecemos, logo passou. O amor é e basta.

Não sei porque sou do Sporting. Admito que por influência do Zé, um miúdo pouco mais velho que morava em minha casa, pois os pais trabalhavam na Guiné. É possível também que seja por oposição ao meu pai, que era portista, ou por assim conseguir lugar nos dérbis que todos os dias jogávamos na escola, em Viseu. As minhas primeiras memórias sportinguistas remontam a 1974, ao jogo da segunda mão da meia-final da Taça das Taças, contra o Magdeburgo, que perdemos por dois a um e assim não passámos à final, e ao da final da Taça de Portugal, contra o Benfica, que ganhámos por dois a um. São memórias que vão de 24 de abril a 9 de junho. O país mudou entretanto e passou-se do antes ao depois do adeus, enquanto fazia dez anos e era aprovado na prova oral do exame da quarta classe, realizando-a um dia antes do previsto e sem vestir os calções que a minha mãe se tinha esmerado a confecionar para esse cerimonial de papagueado conhecimento.

Lisboa era longe, muito longe. O Estádio de Alvalade e o Sporting eram duas entidades distantes. O sportinguismo era uma paixão ficcionada. Alimentava-se de resultados, relatos, cromos e cadernetas e, uma ou outra vez, de jogos na televisão. Fui a Lisboa pela primeira vez para me inscrever no Instituto Superior de Agronomia, onde estudei. Nos primeiros anos, morei em Algés, em Belém e na Ajuda; nos últimos, na Estrada do Desvio, no Lumiar. Apanhava o 36 da Carris para o Campo Pequeno, onde o 56 me levava à Praça do Calvário, percorrendo o resto do caminho a pé até à Tapada da Ajuda. Passava todos os dias pelo Estádio de Alvalade. Vi o pavilhão e passei a ver metade, quando foi parcialmente demolido no início das obras de prolongamento do Metro de Lisboa para o Campo Grande. Via também o pelado, onde muito raramente a equipa principal treinava. Um dia, por impulso, saí do 36 para ver os jogadores treinar. Lembro-me do Duílio como se estivesse há minha frente. Quem vê um bigode como o dele nunca mais o esquece. Ou porque morava longe ou porque não tinha dinheiro, vi jogar o Sporting intermitentemente. Estive à porta do Estádio de Alvalade para comprar bilhete para o jogo contra o Benfica que ganhámos por sete a um. Hesitei e acabei por não comprar: tinha dinheiro ou para viver na semana seguinte ou para ver o jogo. Arrependo-me, hoje mais do que nesse domingo!

[Ainda não cheguei a meio da minha vida e o texto está razoavelmente chato e comprido. Abreviemos pois.] Em 2017, a minha filha, Ana, foi estudar no segundo semestre para a Universidade de San Andrés, em Buenos Aires. Viajou com antecedência para passar uma temporada no Rio de Janeiro. Quando acabou os exames, continuou as viagens que tinha iniciado durante o semestre na América do Sul e, depois do Chile e do Uruguai, andou também pela Colômbia e pelo Perú. Regressou a meio de Agosto e foi para o Festival de Paredes de Coura, enquanto iniciávamos um período de férias, em Troia. Havia meses que não chalaçávamos como deve ser (expressão a que damos um sentido muito próprio, muito nosso). Combinámos ir buscá-la e ao meu sobrinho João, um fanático portista, a Lisboa para passarem o resto das férias connosco, aproveitando a oportunidade para ir ao Estádio de Alvalade ver o Sporting contra o Estoril, o primeiro jogo da época em casa. A Ana não aprecia futebol e é do Sporting porque tem de ser de alguma coisa, mas era uma excelente oportunidade para revivermos a final da Supertaça de 2002, jogada no Estádio do Bonfim, quando ela e o João eram muito pequenos. 

Ao princípio, era uma festa: “O Mundo Sabe Que”; o Acuña a cruzar para o Gelson Martins empurrar a bola ao segundo poste para o primeiro golo; o Bruno Fernandes a fazer a bola sobrevoar a barreira e a marcar o segundo golo. Depois, bem, depois o jogo encanzinou-se, como era o costume do embaralhado tático que o Jorge Jesus nos servia, e pouco a pouco o difícil tornou-se impossível e o fácil em difícil. O Estoril começou a parecer o Real Madrid e, a meio da segunda parte, reduziu para dois a um. Dentro de campo e no estádio houve mosquitos por cordas. No último minuto, na última jogada, o Estoril marcou o segundo golo. O João petrificou e o olhar da Ana revelava uma profunda tristeza; não por ela, não pelo Sporting, mas por mim. A triste ternura daquele olhar encerrava a razão de ser, o sentido, de uma vida, da minha vida. 

O amor autodefine-se, autorreferencia-se. Não é branco nem preto, não é carne nem peixe, não é homem nem mulher. Não é substantivo. Necessita de objeto mas para a sua simples projeção em nós. É e logo se esvanece, persistindo as suas memórias. O Sporting não é o nosso amor, é as nossas memórias (partilhadas) e, para além de nós, mais ninguém é dono delas, seja este ou aquele dirigente, jogador, treinador ou grupo de adeptos e sócios. Nós somos as nossas memórias e, por isso, o Sporting somos nós, todos e cada um.  

[A história tem um final feliz. O vídeo-árbitro assinalou fora-de-jogo e anulou o golo do Estoril. Fomos jantar ao Mercado do Cais do Sodré. Em seguida, demos uma volta por aqui e por ali até nos depararmos com o Jamaica e o Tokyo, meus lugares de culto e de iniciação. Falei-lhes pela enésima vez dos clássicos, como The Doors, The Rolling Stones ou Lou Reed e Velvet Underground, e dos contemporâneos que se transformaram em clássicos para as gerações seguintes, como Dexys Midnight Runners, U2, REM ou The Smiths. Regressámos, tarde, a Troia. O João e a Ana adormeceram, tranquilos. Coloquei o CD Dark Was The Night para ouvir So Far Around The Bend, dos The Nationals, e a voz melancólica de Matt Berninger cantando: “Nobody knows where you are living/Nobody knows where you are/You're so far around the bend/You're so far around the bend/There is no leaving New York/There is no leaving New York”. Não sei o sentido que esta letra tem para quem a escreveu. Para mim, lembra-me inúmeras viagens com a Ana e uma mensagem dela: “Pai, estou num bar a ouvir So Far Around The Bend!”]" 

 

(*) Rui Monteiro, autor de "A insustentável leveza de Liedson"

04
Ago19

Os jogos da minha vida (IV)


Pedro Azevedo

01.06.1980  Sporting - UD Leiria 3-0

 

A nossa equipa: Fidalgo (Vaz, aos 80 min.); José Eduardo, Eurico, Bastos e Barão; Meneses, Ademar e Fraguito; Manoel, Manuel Fernandes e Jordão. 

 

As imagens que retenho são as de um estádio cheio como nunca (ainda com o antigo peão), um ror de gente na recém-inaugurada pista de tartan (substituiu a de cinza) circundante ao relvado, um cordão policial a impedir que os adeptos ultrapassassem as linhas laterais, o golo de Manuel Fernandes que inaugurou o marcador e o mar verde-e-branco que engoliu Jordão após o terceiro golo. Lembro-me também que o Leiria tinha dois Dinis, o mais velho dos quais o "brinca-na-area", nossa antiga glória já em final de carreira. Recordo-me também da festa, a primeira que vivi "in-loco", da invasão de campo por adeptos eufóricos após o apito final, do ar de satisfação de meu pai e do alívio que senti pela concretização de algo que já se perspectivava no regresso daquela minha viagem no Comboio Verde a Guimarães.

 

Como demorara a passar essa semana. No fim de semana anterior, tinha ido com o meu pai à Cidade Berço. Estava atrás da baliza onde o Manaca fez o auto-golo, acto perfeitamente involuntário e cobardemente aproveitado pelo nosso adversário de ocasião. Na verdade, o nosso antigo jogador saltara entre dois leões e para sua desventura vira a bola tocar-lhe (creio que) na nuca e surpreendentemente anichar-se nas redes vimaranenses. Mas esse não foi o únco facto insólito desse jogo: a poucos minutos do fim, Fidalgo fez uma defesa "impossível", estirando-se para a sua esquerda e assim defendendo um remate com selo de golo do ex-leão Vítor Manuel, perdendo posteriormente os sentidos ao embater no poste e acabando o jogo com a cabeça toda entrapada. Ainda hoje estou convencido que esse momento de bravura do nosso guarda-redes garantiu-nos o campeonato. No comboio, de regresso a casa, recordo ainda o susto em Campanhã, com as carruagens a serem atacadas com pedras de calçada vindas da gare onde se encontravam adeptos portistas, uma forma singular de ver o desporto por parte de adeptos fanáticos que ainda hoje infelizmente pululam um pouco por todos os clubes.

 

Uma semana depois, éramos campeões! Um título que nunca esquecerei, porque teve um sabor especial. Comigo já neste mundo, o Sporting havia ganho o campeonato de 1970, façanha de que não guardo qualquer memória. Já do de 74 eu tenho uma recordação, mas para mim foi um campeonato radiofónico. Assim, o de 80 foi o "meu" campeonato, aquele que acompanhei nos estádios, em que vivi a gesta daquela dupla jornada final e pude sentir de perto as esperanças e ansiedades dos nossos adeptos até à consagração final.

 

Em 1980, o Sporting não tinha o melhor conjunto de jogadores. É certo que Manuel Fernandes e Jordão eram excelentes, Eurico um patrão na defesa e Fraguito um mago do passe, mas globalmente a qualidade do plantel era inferior à dos nosso rivais. Só que no final ganhámos nós, mérito certamente também dos treinadores Fernando Mendes e Rodrigues Dias (entretanto substituído) e do preparador físico Radisic. Não sei se isto poderá servir como motivação ou exemplo para um grupo - eu gostaria que sim - , mas se há ocasiões em que o todo é muito superior à soma das partes, então a gloriosa campanha de 80 é uma delas, provando que com esforço, dedicação e devoção não há impossíveis. Que hoje, no Algarve, a nossa equipa ponha os olhos nisto!

02
Ago19

Os jogos da minha vida (III)


Pedro Azevedo

07.09.1988  Sporting - Ajax 4-2

 

A nossa equipa: Rodolfo Rodriguez; João Luiz, Venâncio, Morato e Fernando Mendes; Oceano, Carlos Manuel e Litos; Silas, Paulinho Cascavel (Rui Maside, aos 58 min.) e Forbs (Carlos Xavier, aos 82 min.).

 

A Holanda acabara de se sagrar campeã europeia. Nessa equipa, o Ajax tinha 4 elementos: o dúo Arnold Muhren/ Jan Wouters, títulares no miolo da Laranja Mecânica no Euro-88, o médio Aron Winter e o ala John Van`t Schip. Para além destes, os lanceiros tinham como destaque o guarda-redes Stanley Menzo - precursor no futebol mundial da ideia do guardião como líbero - , o defesa Frank Verlaat, os irmãos Witschge (Rob e Richard), o ponta de lança sueco Stefan Pettersson (eleito melhor jogador sueco em 87) e o craque que despontava, o genial Dennis Bergkamp.

 

Em contraposição, no Sporting vivia-se o período das "unhas". Jorge Gonçalves ascendera à presidência e com ele trouxera o guarda-redes uruguaio Rodolfo Rodriguez, os brasileiros Douglas, Silas e Ricardo Rocha, o sueco Eskilsson e o português Carlos Manuel, o "herói de Estugarda". O treinador era o também uruguaio Pedro Rocha, um dos melhores jogadores de sempre da selecção celeste. o único que disputou 4 fases finais de campeonatos do mundo.

 

Vivia-se um tempo novo em Alvalade. Após uma presidência marcante de João Rocha, o seu vice, e sucessor, Amado de Freitas pouco tempo estivera no cargo. Seguiu-se-lhe Jorge Gonçalves, o "bigodes", e com ele uma onda de euforia que viria rapidamente a desfazer-se por entre um mar de problemas financeiros. Mas, à data deste jogo, o ambiente ainda era de esperança e entusiasmo...

 

Sporting e Ajax defrontavam-se pela primeira vez na sua história, em jogo a contar para a 1ª mão da primeira eliminatória da Taça UEFA. Para mim, uma ocasião especial, pois iria ver ao vivo uma equipa cujas camisolas míticas e escola de futebol total me impressionavam desde a década anterior, quando Krol, Haan, Neeskens, Piet Keizer (tio do nosso actual treinador), Rep e Cruijff brilhavam a grande altura. Logo de início, uma tabelinha entre Oceano e Silas permitiria ao primeiro inaugurar o marcador. Pouco tempo depois, Pettersson igualava, de cabeça. Novo ataque do Sporting e Forbs é derrubado na área. Na conversão da penalidade, Paulinho Cascavel volta a dar vantagem ao Sporting, no clássico guarda-redes para um lado, bola para o outro. Ainda antes da meia-hora, insistência de Silas pela direita, passe para João Luiz, e do cruzamento deste, deflectido pelas pernas de Verlaat, resultaria novo golo dos leões. Em cima do intervalo, José Manuel Forbs, completamente isolado na área, perde a oportunidade de dilatar o activo. No reatamento, Oceano desperdiça nova chance de golo. Até que Silas, isolado por Carlos Manuel, cava um penalty no frente-a-frente com Menzo. Na sequência, Litos amplia o resultado. Perto do fim, o sueco Pettersson bisaria na partida, devolvendo a esperança aos holandeses de virarem a eliminatória, algo que não se viria a confirmar, pois os leões, com mais uma exibição portentosa de Silas, ganhariam de novo em Amesterdão (2-1). 

 

O Sporting derrotava assim o vencedor da Taça das Taças de 1987, uma equipa que perdera Frank Rijkaard e Marco Van Basten mas onde a sua fábrica de talentos já produzira novos craques como Rob Witschge (mais tarde no Barcelona) e Bergkamp (Arsenal), que agora apareciam nos grandes palcos. Para além disso, contava com inúmeros internacionais holandeses, muitos deles presentes no Verão anterior na Alemanha, onde a Holanda conseguiu a única (até hoje) importante conquista do seu futebol a nível de selecções. Por tudo isto, a vitória do Sporting neste jogo (e na eliminatória) revestiu-se de um carácter histórico, algo que tive a felicidade de presenciar "in-loco" e aqui deixo em testemunho.  

30
Jul19

Os jogos da minha vida (II)


Pedro Azevedo

18.11.1984  Sporting - Sp. Braga 8-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas; Carlos Xavier, Venâncio, Zezinho e Mário Jorge; Oceano, Virgílio, Litos (Oliveira, aos 34 min.) e Sousa (Eldon, aos 74 min.); Manuel Fernandes e Jordão.

 

Antiga estrela do Liverpool, John Toshack chega em 84 ao Sporting proveniente dos galeses do Swansea, clube onde iniciara a carreira de treinador. Para seu adjunto o Sporting convida Pedro Gomes, ex-jogador e capitão do clube, membro da equipa que venceu a Taça dos Vencedores das Taças em 1964, ainda hoje o único troféu internacional do futebol do Sporting. Damas regressa, após alguns anos no Santander, Guimarães e Portimonense, e Sousa e Jaime Pacheco chegam a Alvalade. Em sentido contrário sai Futre. Ainda hoje me pergunto o que poderia ter sido essa temporada caso o menino do Montijo não tivesse rumado ao Porto. Para além disso, a lesão prolongada de Jaime Pacheco também constituiu um importante revés.

 

Este jogo veio recentemente à baila a propósito da vitória (época passada) por igual resultado do Sporting na deslocação ao Jamor, casa emprestada da Belenenses SAD. Trinta e cinco anos antes, eu estive no estádio com um primo direito meu, na época um dos meus habituais compinchas de bancada. Absolutamente irredutíveis, nada nos demovia. Nem mesmo uma chuva de granizo de proporções bíblicas acompanhada por um dilúvio do arco-da-velha, aquando de uma recepção ao Recreio de Águeda marcada pela estreia de um tal Rodger Wilde (na época havia 2/3 reforços apenas, o que aumentava a curiosidade sobre eles), em que toda a gente se abrigou no interior do estádio, enquanto nós optámos por fazer face à intempérie a fim de não perdermos a entrada em campo do inglês (já não me recordo quem terá substituído).   

 

Voltando atrás, este jogo com o Braga foi referente à 10ª jornada do campeonato. O Sporting somara 7 vitórias, 1 empate e 1 derrota nos nove jogos anteriores. Dir-se-ia estar bem lançado, já com duas vitórias concludentes por 3-0 (Guimarães e Varzim, em casa), outra por 5-2 (Vizela, fora) e ainda uma por 6-2 (Salgueiros, fora). Como senão, uma inesperada derrota por 2-0 em Penafiel, além de um empate sem golos em Portimão. Logo de entrada, uma triangulação entre Mário Jorge e Manuel Fernandes permitiria ao açoriano inaugurar o marcador. Ainda antes do intervalo, António Oliveira ampliaria o resultado, com um tiro à entrada da área. Já no segundo tempo, o Braga reduziu através de uma penalidade polémica convertida por Zinho, um jogador que no futuro viria a representar o Sporting e a ficar na história como um dos que pisaram o relvado no memorável 7-1 ao Benfica. [Neste tesourinho da RAI italiana que encontrei na internet, é possível ver Michel Platini (na época, jogador da Juventus) em estúdio a comentar o castigo máximo e a dizer "non c`è tanto".]

 

Recordo que o golo do Braga despertou um Sporting até aí um pouco adormecido, embalado por dois golos madrugadores. Nem deu tempo para nas bancadas se recrear aquela onda de pessimismo tão típicamente leonina ("we will never make it..."), porque o trio Manuel Fernandes, Oliveira e Jordão abriu o livro. Geralmente, um deles estando bem já era auspicioso. Se dois estivessem ao melhor nível, a vitória estava assegurada. Mas quando os três tenores afinavam a voz... era de qualquer um cair aos seus pés. Assim foi naquela tarde cinzenta de Novembro. Nos últimos 18 minutos, o Sporting marcou 6 golos, uma coisa do outro mundo. Primeiro foi o Manél, completando uma carambola na área bracarense. Depois, Oliveira, bisando no jogo com novo golo de fora da área. De seguida, calhou a vez a Manuel Fernandes de bisar. Na origem dos dois últimos golos, Rui Jordão (Platini, ainda mal recuperado do susto do Euro 84, farta-se de o elogiar). Cansado de assistir, Jordão, à meia-volta, põe o seu nome no marcador. Faltavam ainda 6 minutos para o fim do jogo e o ambiente nas bancadas era electrizante. Os adeptos reagiam entre a incredulidade e a euforia desmedida. Lembro-me de pensar que estava a ter um sonho. Eis então que o craque Fernandes da época faz o seu hat-trick. Mas Oliveira ainda tinha mais génio para soltar da sua lâmpada e inicia um ataque frontal concluído com uma primorosa assistência para o brasileiro Eldon completar o placard. E não foram mais porque a partida terminou aí. Ainda assim, finalizada a décima jornada, o Sporting já tinha marcado por 32 vezes.

 

Estes 18 minutos contra o Braga constituiram a maior demonstração do génio do trio da frente leonino. Outros momentos houve de puro fascínio, e conquistas até bem mais importantes foram por eles protagonizadas, com destaque para a dobradinha de 82, mas se tiver de destacar um momento em que o profano tocou o sagrado então este é o tal. Cortesia dos "deuses" Oliveira, Manuel Fernandes e Jordão.

28
Jul19

Os jogos da minha vida (I)


Pedro Azevedo

22.02.1976  Sporting - FC Porto 5-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas (capitão); Tomé, Laranjeira, José Mendes e Inácio; Nélson, Fraguito e Baltasar; Marinho (Libânio, aos 87 min.), Manuel Fernandes e Chico (Vítor Gomes, aos 63 min.).

 

Costuma dizer-se que não há amor como o primeiro, e este é provavelmente o jogo da minha vida. A minha estreia ao vivo no José Alvalade foi um baptismo de fogo, com um desafio entre o meu Sporting e o FC Porto. Tudo era novo para mim: a multidão concentrada nas bancadas, as luzes, os sons, as movimentações dos jogadores lá em baixo no relvado. Ainda por cima os ânimos andavam exaltados, consequência da Revolução ainda presente no espírito de todos. Para apimentar um pouco mais a coisa, Joaquim Dinis, o "Brinca na Areia", havia trocado à revelia os leões pelos portistas, explorando uma brecha criada pela nova lei das transferências, processo que não caíra bem aos dirigentes leoninos. Se bem me lembro, ainda estava a habituar-me ao cenário que viria a ser a minha segunda casa quando o Porto abriu o activo. Marcou o peruano Cubillas, aquisição milionária dos portistas que havia sido o terceiro melhor marcador do Mundial de 1970 (México) com 5 golos, um número que viria a repetir no Mundial de 1978 (Argentina), onde foi o segundo mais concretizador. Não passou 1 minuto sem que Chico - mais tarde dito Chico Faria para destrinçar de Chico Gordo, seu futuro parceiro de ataque no Braga - igualasse o placard. O grito de golo, o abraço ao meu pai, os sorrisos das pessoas à minha volta, tudo isso coincidiu para a minha primeira comunhão de sportinguismo no templo do leão. À meia-hora de jogo, nova explosão de alegria, com o repetente Chico a colocar-nos em vantagem.  

 

Juca era o treinador leonino (Monteiro da Costa, o portista), e Manuel Fernandes cumpria a sua 1ª temporada de leão, proveniente da CUF, tendo a seu cargo a difícil tarefa de fazer esquecer Yazalde, o anjo com cara de índio que no seu tempo enlouquecera de alegria as bancadas de Alvalade. O Manél de Sarilhos, por volta da hora de jogo, sentenciaria o destino do Porto, marcando o quarto golo do Sporting, culminando uma portentosa exibição. Antes, logo após o recomeço, Fraguito dera uma maior tranquilidade aos leões, obtendo o terceiro. Até ao fim do jogo, o voluntarioso Baltasar, melena loira ao vento, ainda dilataria mais o resultado. E muitos outros ainda ficariam por marcar, tanto quanto a memória ainda me permite relembrar. 

 

Vitória épica do Sporting, contra um Porto recheado de grandes jogadores e em tirocínio para um título de campeão nacional que não lhe escaparia durante muito mais tempo. Dessa equipa recordo Tibi, Gabriel, Simões, Rolando, Alhinho, Murça, Rodolfo, Octávio, Oliveira, Ademir, Seninho, Gomes, Cubillas e Dinis (não jogou em Alvalade), um plantel de luxo. Mas o meu olhar estava fixado em 3 dos 4 ídolos da minha juventude que eu conhecia pela rádio (a minha primeira memória é de um Sporting-Benfica de 1974, ainda com Yazalde, pouco tempo antes do 25 de Abril). E a verdade é que a elegância de Damas, o futebol sambado de Fraguito e a forma como o Manél colava a bola ao pé não me deixaram desiludido e amplamente superaram a tristeza de já não ter visto o "Chirola" ao vivo.

 

Assim começava um grande amor...

 

PS: Os Leitores recordam este jogo? Fica aberto o convite aos mais e menos jovens para relatarem aqui a sua primeira experiência de Sporting no estádio. E começa uma nova rúbrica do "Castigo Máximo": os jogos da minha vida. 

20
Jul19

Leão rima com campeão


Pedro Azevedo

Portugal tem um novo campeão europeu de sub-20. Na prova dos 1500m do Campeonato da Europa de sub-20 em atletismo que se tem estado a disputar em Boras, na Suécia, Nuno Pereira, atleta do Sporting Clube de Portugal, ganhou a medalha de ouro. Para além da vitória, importa assinalar a extraordinária recuperação que protagonizou, com uma ponta final em superação, feita de esforço, dedicação e devoção, que só poderia mesmo ter terminado em glória.

Convido-o então a ver o vídeo (merece a pena):

19
Jul19

A causa das coisas (reloaded)


Pedro Azevedo

No princípio era o sortilégio da bola, aquela "criatura" rebelde, com vontade própria, que rolava e saltava à minha frente. Não podendo ser domada, ensinada, adestrada, havia pelo menos que poder dominá-la, controlá-la, impôr-lhe a nossa vontade, e esse era todo um desafio. Jogar à bola era só a consumação do amor, muitas vezes primeiro era preciso merecê-lo, nem que para isso fosse necessário recorrer à manufactura caseira e improvisar um objecto redondo a partir de umas meias de vidro. Outras vezes havia que estudar a relação da bola com o vento, que parecia soprar com mais ou menos nós conforme a bola fosse de plástico ou de borracha. A bola de cautchu era o nirvana de qualquer miúdo, o banquete para todos os sentidos. Com uma bola "oficial" nas mãos, a ideia de jogador da bola ficava completa com a camisola do clube de eleição no dorso. A minha, a do Sporting, foi comprada na Socidel, a casa que anteriormente havia sido do melhor de nós todos, o incontornável Peyroteo. 

 

Aos 8 anos, o sortilégio passou a ser o estádio. A minha primeira ida a Alvalade, o coração a bater aceleradamente no caminho, as luzes, o público, as balizas, a relva. Que emoção! Uma estreia de fogo, contra o Porto. E uma vitória, concludente, por 5-1, que se tornou inesquecível. No estádio vi passar todos os meus ídolos, com uma única e honrosa excepção: o meu primeiro ídolo nunca vi jogar ao vivo. Ouvi-o, imaginei-o, como naquela tarde contra o Benfica em que através da telefonia sem fios o relatador gritava a plenos pulmões um golo de cabeça apontado a 20/30 centímetros do solo, ou como naquela tarde de passeio de automóvel dominical em que marcou 5 golos a um guarda-redes do Oriental que curiosamente se chamava Azevedo como eu. Também o vi, fugazmente, pela televisão, num tempo em que "a bola" raramente passava no pequeno ecrã. Falo-vos de Yazalde, que eu associo sempre à minha ideia de Sporting. A minha paixão nasceu com ele, e o primeiro amor nunca se esquece.

 

O tempo foi passando e durante muitos anos o meu ídolo foi o Manuel Fernandes. Chegou Keita, Jordão ou Oliveira, mas eu mantive-me fiél ao Manél de Sarilhos. Pequenos de nascimento, grandes para os adversários. Durante alguns anos, essa minha idolatria foi partilhada com um jogador genial. Era o Fraguito, o homem das trivelas, classe pura ao ritmo do samba que os Vapores do Rego entoavam da bancada e um GPS na ponta de cada bota. Infelizmente, os joelhos não deixaram o transmontano ir mais longe, para meu desgosto e pesar de todos quantos amam o futebol. Quando o Samuel (primeiro) e o Manuel (depois) acabaram, senti um vazio. Gostei das "unhas" Douglas e Silas, mas o meu coração palpitava mais por duas estrelas que nunca confirmaram o seu imenso potencial. Eram o Litos e o Xavier, já que o Futre, de quem tanto gostava, nos deixou prematuramente. Do Xavier guardo uma memória mais recente: num torneio do Clube Sétimo, ali para os lados do Parque Eduardo VIIº, a minha empresa defrontou-o na fase de grupos. Calhou-me vigiá-lo durante alguns minutos, que é como quem diz marcá-lo com os olhos e poder de perto admirar o esplendor da sua ainda prodigiosa e intacta técnica - ó Xavier, também não havia necessidade daquele "elástico", não é assim? - , ao serviço de uma equipa onde também figuravam o seu irmão Pedro, o Carraça (a fazer jus ao nome, sempre a agarrar), o José Eduardo (durinho...), o Sotil, entre outros. Quis o sortilégio que ambas as equipas se tivessem apurado para a fase a eliminar, eles em primeiro como é óbvio, nós em segundo. E no mata-mata lá fomos sobrevivendo até ambos chegarmos à final. Ainda sonhámos - estivemos a ganhar por 3-1 muito à conta do pé leve do Pestana e da garra do Vilhena - , mas eles acordaram ainda a tempo e bateram-nos por 5-3. Na cerimónia de entrega dos prémios, a classe demonstrada na quadra pelo Xavier transferiu-se para a sala de jantar, um senhor. E eu, esmagado pela idolatria, senti-me pequenino para lhe dizer que ele era um dos meus eleitos...

 

Na década de 90, presenciei um quarteto de cordas de enormíssimo nível. O Sousa, o Cherba, o Bala e o "Pastlhas" tocavam uma música diferente de todos os outros, eles eram os "Fab Four". A seguir houve um hiato. Eu sei, tivemos João Pinto, Quaresma, Jardel, mas aquele que mais se aproximou do meu afecto foi o André Cruz, que parado mexia mais no jogo do que 10 formiguinhas trabalhadoras. Voltei a acalentar esperanças com Matias Fernandez, um jogador que poderia ter sido um dos imortais, mas a quem sempre pareceu que a vontade não acompanhava a capacidade ilimitada que tinha com os pés. Depois, um longo interregno. Muita burocracia, por vezes mais eficácia, mas a ausência daquele toque de genialidade. Até que vi o Bruno Fernandes, e ele reconciliou-me com as memórias de outros tempos. 

 

O Sporting no seu estado puro é isto. Nesse estado, a paixão pelo clube confunde-se com o amor que temos ao jogo e a quem nele se destaca. Os jogadores são a razão disto tudo, a bola também. O estádio oferece a moldura perfeita. Sem espectadores, o futebol é como manteiga sem sal. Um artista sublima a sua arte perante uma audiência, sem ela perde a razão da sua existência. O segredo é a partilha, e é isso aquilo que um futebolista oferece ao seu adepto. Reparem que neste texto nunca falei de presidentes. E porquê? Porque se não são eles a razão do nosso amor pelo clube, também não podem ser a razão do nosso afastamento. Viva o Sporting!

16
Jul19

Quiz43 - Imperador


Pedro Azevedo

Central considerado muito promissor no Brasil (jogou no Vasco da Gama), teve uma passagem pela Madeira antes de se afirmar no Sporting. De leão ao peito alinhou 5 épocas até partir para Itália, ganhando uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Foi sempre titular, e esse é o melhor elogio que se lhe pode fazer numa época em que o clube tinha defesas como Valckx, Naybet, Beto ou Quiroga. Para além de ter sentido o apreço constante dos adeptos, recebeu o Prémio Stromp na categoria de futebolista profissional. Quem é?

 

Resposta: Marco Aurélio foi titularíssimo do eixo da defesa leonina durante os cinco anos em que vestiu de verde e branco. Por isso, e devido ao seu homónimo antigo governante de Roma, herdou o cognome de "Imperador". Proveniente do Vasco da Gama, chegou a Portugal através do União da Madeira, clube onde cumpriu 4 temporadas. Saiu do Sporting rumo a Itália, mas o tempo dos Imperadores já tinha passado e teve de contentar-se com clubes de menor nomeada, como o Vicenza, Palermo, Cosenza, SPAL e Terramo, jogando apenas duas épocas na série A. 

 

Vencedor do Quiz: os Leitores RCL, A. Pereira e Alberto Miguel acertaram. Por ter sido o primeiro, RCL foi o vencedor. Parabéns, e obrigado a todos pela participação.

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15
Jul19

Quiz42 - Novo nome, nova ventura


Pedro Azevedo

Foi uma das contratações de valor mais elevado à época, tendo custado cerca de 1 milhão de contos (aproximadamente 5 milhões de euros) ao Sporting. Estávamos no final do século XX. Esquerdino desconcertante que alternava momentos de génio com falhas técnicas clamorosas, acabou por ser dispensado. Rumou então primeiro à Argentina, e depois a Espanha e México, onde recuperou um ciclo virtuoso para a sua carreira, então já com um outro apelido por influência de um reencontro familiar. Quem é?

 

Resposta: Bruno Gimenez chegou ao José Alvalade em 1997, proveniente do Estudiantes de La Plata. As expectativas em seu redor eram elevadas (o clube pagou por ele muito dinheiro para a época), mas acabaram por se gorar. Acabaria por sair 2 anos depois para o Independiente (empréstimo), sendo depois vendido ao Villareal. Em Espanha teve uma carreira interessante que passou também pelo Tenerife. Mas acabaria por ser na Argentina (de novo Independiente e Boca Juniors) e no México que a sua estrela viria a brilhar bastante, ganhando a Libertadores pelo Boca e o campeonato mexicano pelo Pumas. Neste último acumularia o título de campeão com o de melhor marcador do campeonato. Aí já mudara o nome (e a sorte) para Bruno Marioni, seguindo assim a orientação paterna (na viragem do milénio o pai conhecera finalmente o seu progenitor e decidira adoptar o seu apelido de familia, que como sabemos pela cultura hispânica vem antes do nome da mãe na certidão de nascimento).

 

Vencedor do Quiz: Os Leitores João Santos, RCL, LMGM, Pedro Alexandre Dias e Pedro Alvaleide acertaram. Por ter sido o primeiro, João Santos é o vencedor. Parabéns, e obrigado a todos os que participaram!

12
Jul19

É bom não esquecer...


Pedro Azevedo

... Fernando Peyroteo, o maior goleador mundial de todos os tempos no rácio número de golos por jogos disputados. 

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Para quando uma estátua de Peyroteo à entrada do José de Alvalade, de forma a assinalar inequivocamente a todos os sportinguistas (e desportistas em geral, inclusivé os milhares de visitantes estrangeiros anuais) o orgulho que temos na valia deste atleta que vestiu de leão ao peito durante doze anos?

 

PS: Cristiano Ronaldo e Figo, dois Bola de Ouro, têm um imenso significado para nós e para a afirmação da nossa Formação, mas Fernando Peyroteo foi enorme com a nossa camisola vestida. E isso faz toda a diferença.

 

 

08
Jul19

Quiz41 - Um quarto de século como atleta


Pedro Azevedo

Antes de se dedicar ao atletismo, iniciou-se na prática de ginástica. Eclético como o Sporting Clube de Portugal, praticou também natação e pólo aquático, andebol, ténis, râguebi e até tiro, mas a sua modalidade de eleição foi o atletismo. Sócio, chegou à presidência do clube ainda como recordista nacional dos 400m barreiras, especialidade onde venceu 3 Campeonatos de Portugal. Introdutor do râguebi no clube, a ele se deve o nosso actual equipamento listado horizontalmente verde e branco do futebol. Quem é? 

 

Resposta: Nascido em 1894, Salazar Carreira foi presidente do Sporting Clube de Portugal entre 19 de Fevereiro de 1925 e 23 de Fevereiro de 1926. Como atleta destacou-se pelo seu ecletismo, notabilizando-se no atletismo, nas especialidades de 400m barreiras (a sua favorita), 100m, 200m, 400m, 800m, 110m barreiras, estafeta 4x400m e pentatlo. Envergou a camisola do clube durante 25 anos (chegou a competir enquanto presidente) e foi o responsável pela introdução do voleibol, do andebol e do râguebi. As camisolas listadas que importou de França para a modalidade da bola oval acabariam por vir a fazer parte do equipamento oficial da equipa de futebol após terem por esta sido utilizadas pela primeira vez numa digressão ao Brasil. 

 

Vencedor do Quiz: os nossos Leitores KM e "8" acertaram. KM foi o mais rápido a fazer a quilómetragem de regresso ao passado e é o vencedor. Parabéns, e obrigado a todos pela participação.

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07
Jul19

Quiz40 - Turbo nos pés


Pedro Azevedo

Avançado estrangeiro, baixo, mas com grande mobilidade e asas nos pés, constituiu uma dupla de respeito com um outro ponta-de-lança proveniente da Cidade Berço. Jogou apenas uma temporada em Alvalade, mas destacou-se essencialmente por ter marcado 4 golos na edição da Taça das Taças dessa época. Perdeu protagonismo após a saída do treinador seu compatriota e acabou sacrificado pelas "unhas de leão". Quem é?

 

Resposta: Formado no sul de Inglaterra, mais concretamente em Southampton, Tony Sealy chegou ao Sporting pela mão de Keith Burkinshaw no início da temporada de 1987/88, proveniente do Leicester (tinha estado emprestado ao Bournemouth). Decorria ainda o consulado de Amado de Freitas. Com a ascensão de Jorge Gonçalves a presidente, e concomitante entrada das "unhas de leão", perdeu espaço no plantel e acabaria dispensado ao Braga. Assim, jogou apenas uma época em Alvalade, tendo-se destacado pelos 3 golos apontados ao Swarovski Tirol e ao nosso futuro guardião Ivkovic, em eliminatória da Taça das Taças. Nessa competição ainda voltaria a marcar, desta vez aos suecos do Kalmar. 

 

Vencedor do Quiz: os Leitores Pedro Alexandre Dias, Luis Ferreira, João Santos e Luis Barros acertaram. Pedro Alexandre Dias foi o primeiro e é o vencedor deste Quiz. Parabéns, e obrigado a todos pela participação. 

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03
Jul19

Quiz39 - Bebé leão


Pedro Azevedo

Nunca tendo sido um indiscutível titular no Sporting, ainda assim construiu um palmarés invejável consubstanciado em 239 jogos realizados (8 épocas, 63 golos), dois campeonatos nacionais conquistados e 3 Taças de Portugal (marcou em duas dessas finais). Avançado, destacou-se pela sua versatilidade, a qual lhe permitia jogar em qualquer uma das três posições da frente. Foi internacional português. Quem é?

 

Resposta: Proveniente da famosa cantera (os "bebés de Matosinhos") do Leixões criada por Óscar Marques, Chico actuou no Sporting durante 8 temporadas. Nesse período foi 3 vezes internacional A. Mais tarde, já no Braga e conhecido como Chico Faria (para distinguir do outro avançado, Chico Gordo), ainda somaria a quarta internacionalização. Acaba por ficar na nossa história como um dos jogadores que mais partidas realizou de leão ao peito não sendo um óbvio titular.

 

Vencedor do Quiz: Os Leitores RCL, João Santos, JMA e "8" acertaram. RCL foi o primeiro e é ele o vencedor deste quiz. Parabéns!

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02
Jul19

PetroMAX


Pedro Azevedo

Tem vindo a ser noticiado que Radosav Petrovic não fará parte do plantel do Sporting para o ataque à temporada de 2019/20. Tenho de dizer que concordo com essa decisão. No entanto, não gostaria de deixar passar a ocasião sem relembrar aquela noite de Braga em que o sérvio aceitou ficar em campo de nariz partido (já depois de André Pinto ter saído com o mesmo problema), para mais a jogar numa posição (defesa central) que não seria a mais confortável para si, sacrificando-se em prol da equipa e mostrando-se à altura do nosso lema de esforço, dedicação, devoção e glória. 

 

Petrovic nunca conseguiu exibir fora de casa o esplendor dos seus primeiros tempos no Partizan de Belgrado. Ainda assim foi mantendo alguma regularidade exibicional no Blackburn Rovers e naquele clube turco de nome impronunciável que um dia causou escândalo em Alvalade (Gençlerbirligi). Até essa fase da sua carreira acumulou 44 internacionalizações pela selecção principal sérvia. Não mais viria a representá-la, datando a sua última presença de 2015. Uma passagem mal conseguida pela Ucrânia, onde representou o Dinamo de Kiev, tirou-lhe ritmo e, aparentemente, confiança. Durante 1 ano apenas realizou 7 jogos e foi nessas circunstâncias que rumou a Alvalade. Jogador com bom passe, mas sem intensidade e com pouco perímetro de acção, nunca foi o "6" que a equipa precisava. Para além disso, a concorrência de William Carvalho não lhe deu qualquer hipótese. 

 

Ainda assim, foi sempre um profissional honesto. Merece, como tal, que lhe agradeçamos e lhe desejemos as maiores felicidades para o futuro. E fica uma certeza: dando razão à máxima estafada de que uma imagem vale mais do que mil palavras, jamais esqueceremos a forma abnegada, dir-se-ia decisiva, à leão, como preferiu ficar em campo (pedindo só que lhe trocassem rapidamente a camisola cheia de sangue) e assim participou na conquista da Taça da Liga. Nesse dia deixou de ser um Petromax, como em tempos jocosamente lhe chamei - aludindo ao facto de ser muito alto e demasiado posicional (um "candeeiro") - , para passar a ser um PetroMAX, por ter com a sua atitude iluminado toda a equipa. Por isso, Radosav, serás sempre bem-vindo de visita a Alvalade. 

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