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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

17
Ago19

A razão do Sporting


Pedro Azevedo

Cada Sportinguista deve começar a pensar que mais importante do que ter razão é a razão assistir ao clube. Vou dar um exemplo: uma política de aposta na Formação é a única capaz de garantir a sustentabilidade do clube, isso deve ser entendido como um axioma. Como tal, e de uma vez por todas, é preciso dizer que quem estiver contra isto, está contra o Sporting e o seu futuro. Não basta dizer que a Formação não tem qualidade, há que perceber se quem chega tem mais qualidade do que os jogadores da nossa Formação. Auguste Comte, pai da corrente do Humanismo, dizia que tudo na vida é relativo, sendo esse o único valor absoluto das coisas. Ora, não podemos, ano após ano, desbaratar recursos que andámos a desenvolver para depois se contratar igual ou pior. Porque é que somos tão taxativos na qualificação negativa da nossa Formação e tão evasivos na avaliação de quem vem de fora? É essencialmente devido a isso que chegámos a este ponto de sufoco financeiro e de míngua de títulos. O que deveremos fazer, isso sim, é ir ao mercado apenas para buscar aquela qualidade-extra que nos faltar. E isso tem de ser feito de uma forma absolutamente criteriosa e em pequena escala e não nos actuais termos, em que vamos comprando mais de uma dezena de jogadores por época. O Ajax não deixa de promover miúdos aos séniores e hoje em dia não tem Cruijff, Van Basten ou Bergkamp. (Aliás, apesar de terem tido grandes gerações, os holandeses nunca foram campeões europeus de juniores e a última vez que foram finalistas foi em 1970, sinal de que os seus jogadores vão amadurecendo com o tempo e as oportunidades dadas nas equipas principais dos clubes.) Por isso lançou De Ligt, o qual curiosamente hoje em dia é colega no centro da defesa de Demiral, um jovem turco (literalmente) que em Alvalade nunca encontrou ninguém que apostasse nele. No entanto, a Juventus não hesitou em adquiri-lo, um ano apenas após ter abandonado o Sporting. Outros há que andaram a perder tempo connosco, chamados de volta muitas vezes para encobrir o fracasso da política de contratações. Aliás, foi por essa razão que Palhinha, Podence e Geraldes (os dois últimos acabados de ganhar a Taça da Liga pelo Moreirense) foram chamados a Alvalade no decorrer da temporada de 16/17. Geraldes que ainda voltou em Janeiro de 2019 para novamente não ter uma oportunidade, mesmo que Keizer fosse dizendo que trabalhava bem e que apenas não jogava porque o lugar era de Bruno Fernandes. Curiosamente, pouco depois, havendo indefinição à volta da permanência de Bruno, já não houve hesitações em colocar Geraldes no AEK da Grécia, certamente porque Diaby (Keizer em entrevista admitiu poder jogar a "10") e Vietto davam mais garantias. A continuarmos assim, acabaremos por ter de vender apressadamente a qualidade (os Acuña, Coates, Dost, mesmo o Mathieu para pagar salários) que conseguimos adquirir ao mercado (admitindo que Bruno não sai), ficando com uma equipa enfraquecida e cheia de jogadores de classe média-baixa que as nossas saudades dos "descobrimentos" nos trouxeram. 

Também não basta bater no peito e dizermo-nos Sportinguistas e depois andarmos a brincar aos "sportingados", "brunistas", "letais", "leais", "croquetes", etc. Onde está a razão do Sporting nisso tudo? Essa multiplicidade de conceitos gera dispersão e é na verdade um atentado à Cultura do clube e à sua identidade, criando confusão nas mentes das pessoas e não apelando à união. Para além de que é puramente ruído. Tudo isto parte de um princípio totalmente errado: não são os homens que têm de ser combatidos, mas sim os seus actos ou as suas ideias (se for caso disso). A discussão e crítica "ad-hominem" é pobre e completamente descentrada do essencial que é o clube. Disse-o na passado quando as críticas a Bruno Carvalho ultrapassaram a linha da sua gestão e digo-o agora em relação a Frederico Varandas. No dia em que permitirmos, porque conjunturalmente nos possa agradar, que a discussão à volta do clube seja tomada por radicais, então estaremos mais perto do fim. E creio, infelizmente, que esse fim estará mais próximo. Com muita dor e pesar o digo. E não me venham falar em "too big to fail" e em preconceitos desse género, que disso eu e os portugueses (e não só) já temos a nossa dose.

 

Não se pode alterar o passado, mas pode-se agir no sentido de haver um futuro. Nos dois casos enunciados, a sobreposição das razões individuais de cada um às do clube só tem contribuído para a alienação da nossa sustentabilidade e Cultura corporativa. É por demais evidente que se isto continuar o clube irá definhar até à morte. Morte, sim, pelo menos do clube como sempre o conhecemos, pois poderá sempre advir a possibilidade de um investidor comprar a SAD, naquilo que, a acontecer, terá de ser visto como o maior atestado de incompetência a todos nós, sócios do Sporting Clube de Portugal.  

15
Ago19

O caminho


Pedro Azevedo

Tenho 3 filhos: um rapaz e duas meninas, mais concretamente. Uma das meninas é demasiado pequenina para ter visto o Sporting vencer. Os dois mais velhos eram também demasiado pequeninos na época para hoje terem qualquer recordação de um Sporting campeão. Quero, por isso, fazer a festa do título com eles. E depois repeti-la, uma e outra vez. Em casa, no Marquês, no estádio, em qualquer lado onde houver Sportinguistas à nossa volta que possamos abraçar. Mas, se não ganharmos durante mais uns anos, pelo menos que estejamos seguros da perenidade do clube e que continuemos a confiar no caminho seguido.

 

Se um presidente existe, chame-se ele João Rocha, Amado de Freitas, Jorge Gonçalves, Sousa Cintra, Santana Lopes, José Roquette, Dias da Cunha, Soares Franco, José Bettencourt, Godinho Lopes, Bruno Carvalho ou Frederico Varandas, é para fazer os sócios felizes. Não vejo o exercício do mandato presidencial de uma outra forma. Houve um tempo na minha vida em que me bastava ser do Sporting para ser feliz, sem precisar propriamente de qualquer outro motivo, algo que o poeta Carlos Drummond de Andrade dizia ser a mais autêntica forma de felicidade. Acontece que a minha ideia de Sporting é um todo. Por isso, se tenho um clube partido e não se faz o suficiente para o consertar, esse todo é menor. E isso não me pode deixar feliz. Ainda mais do que consertar, há que concertar uma estratégia que a todos envolva e galvanize. O clube deve viver para os Sportinguistas, não é concebível que sobreviva apesar dos Sportinguistas. Nessa situação, embora a base continue a ser de Sportinguistas, o expoente será menor, pelo que o Sporting enquanto potência valerá menos. Ora, eu serei sempre menos feliz como parte de um grupinho do que enquanto integrante de um Sporting uno e indivisível. Quer isso dizer que desejo um clube acrítico? Obviamente que não. Tenho bem resolvido na minha cabeça que não é a critica que divide, mas sim a incerteza quanto à resolução dos problemas. Na realidade, o ser humano sabe conviver com o bom e com o mau. Em ambas as circunstâncias, adapta-se. O que o ser humano não sabe é viver com a incerteza. Tal gera ansiedade, angústia, depressão. E cria ruído. Nesse sentido, o maior problema do Sporting actual não é a maior ou menor confiança no caminho seguido, é a falta de percepção de que caminho é esse, tão diferente parece ele ser na prática daquilo que foi previamente anunciado. 

13
Ago19

A teoria do todo


Pedro Azevedo

Já é habitual, quando as coisas não correm bem numa equipa de futebol, o treinador ser logo posto em causa. A meu ver, na conjuntura actual do Sporting, o técnico, apesar de muito longe de estar isento de erros ou limitações próprias, não é o problema principal, pelo que a sua imediata substituição não me parece que resolva de forma definitiva os problemas existentes. Também não vou enumerar exaustivamente neste Post os erros evidentes de gestão desportiva por parte da Direcção do clube (escolha de um treinador alegadamente da escola Ajax, mas que não partilha de muitos princípios da referida escola), algo aliás comum a outras direcções no passado. O que motiva este Post é uma reflexão não conjuntural, mas sim estrutural, sobre as causas do nosso permanente insucesso, recorrendo para tal a uma análise de cima a baixo sobre a organização do futebol do Sporting.

 

Quando olho para o tipo de futebol que Keizer pretende apresentar, saltam à vista alguns estereótipos: alas de pé trocado para fomentar o jogo interior, uma posição "6" encarada mais como tipo limpa pára-brisas (daí talvez o Ajax, limpa-vidros evidentemente...) do que como início de construção do jogo. Aqui residem os primeiros equívocos da montagem do actual plantel e também se torna evidente a entropia entre Formação e equipa principal. Vou tentar explicar de seguida: se eu quero que os meus alas venham para dentro, então necessito de laterais ofensivos que subam nas costas dos alas e vão à linha cruzar para Dost. Ora, se em relação a Thierry (ainda tímido e a dar os primeiros passos a este nível) e Rosier (lesionado) ainda é cedo para se tirarem conclusões definitivas, no caso de Borja é por demais evidente que não possui as características ideais para o que é requerido. Não estando dentro da Estrutura e não conhecendo qual a importância da opinião de Keizer nas nossas idas ao mercado, não me é possível determinar se a contratação do colombiano foi um erro de Scouting, ou se tal deve ser assacado ao treinador, o que me parece evidente é que Borja não é o jogador adequado para o sistema posto em prática pelo treinador holandês. A não ser que a ideia de utilização ofensiva dos laterais seja só dissuasora e destinada apenas a criar uma ilusão no adversário para depois o "matar" pelo centro... Já no que diz respeito à posição "6", fica exposta a falta de coordenação entre o futebol sénior e juvenil. Só assim se compreende que em Alcochete tenhamos durante anos desenvolvido para essa posição um médio com características de construção do jogo ofensivo (Daniel Bragança) para depois, na equipa principal, querermos um tipo de jogador diferente, mais corpulento e dissuasor do que criativo. 

 

Há demasiados erros conceptuais no projecto do futebol do Sporting. Creio, por isso, que mais do que um novo treinador o que necessitamos é de um Director Técnico. O Sporting precisa de alguém que seja um pensador de todo o futebol do clube e que possa actuar com total autonomia, numa abordagem "top-down", definindo o tipo de jogo que se pretende praticar a nível sénior - se a Direcção, como entendo que o deve fazer até em função de poder chamar mais gente aos estádios, definir como prioridade uma ideia de "futebol positivo", então o Director Técnico deve procurar modelizar um sistema de jogo compatível com tal - , sugerindo à Direcção treinadores que se possam adequar a esse desiderato, coordenando o futebol juvenil, de forma a que as rotinas implementadas se assemelhem tanto quanto ao possível à realidade dos seniores, trabalhando com os treinadores da Formação no sentido de serem desenvolvidas determinadas características em futebolistas jovens que mais tarde possam constituír uma mais-valia no plantel principal. A meu ver, esse Director Técnico deveria também ser responsável pelo complemento da formação de jovens treinadores a trabalhar na Academia, facilitando assim o seu crescimento na Estrutura até, alguns deles, poderem assumir-se como timoneiros da equipa principal do clube (vidé o exemplo de Bruno Lage no Benfica), ganhando assim o projecto por haver técnicos bem identificados com o processo. 

 

O investimento na Formação tem de ter um propósito para além da futura poupança de custos no futebol profissional. Como tal, desde tenra idade os nossos jovens devem estar identificados com o processo de treino dos seniores. Assim ganhar-se-ão jogadores plenamente identificados com as metodologias e rotinas do plantel principal, uma vantagem comparativa face a quem vem de fora. Adicionalmente, a existência de um Director Técnico com plenos poderes permitirá ir monitorizando o crescimento individual de cada miúdo e estabelecer estimativas do potencial de cada um, elementos fundamentais na ligação à gestão de activos. É que não só de craques vive a Academia e é preciso rendibilizar todos os anos o investimento produzido, pelo que a venda de alguns jovens não considerados prioritários também ajudará a produzir algumas receitas. (Há anos que defendo o pré-diagnóstico e escalonamento dos nossos jovens em 4 categorias - excelente, muito bom, bom e razoável - , de forma a ser possível tomar decisões sobre o seu futuro.)

 

Da forma como entendo o modelo, de cada vez que o treinador principal necessitar de um jogador com determinadas características, o Director Técnico deve primeiro procurar se elas existem na Academia, ou se é possível desenvolvê-las em tempo útil. Caso tal não seja possível, então, sim, dever-se-á recorrer ao mercado. (Se tivermos um miúdo nos escalões jovens que precisa de mais 1 ano para amadurecer, mais vale ir buscar um veterano tipo Mathieu que me faça uma temporada do que investir bastante dinheiro na compra de um jovem promissor que depois vai tapar o lugar ao produto da nossa Academia.) Como profundo conhecedor que será das necessidades da equipa principal, o Director Técnico deverá sempre ter a última palavra, ficando numa posição hierarquicamente superior ao chefe do Scouting, de forma a que sejam limitados ao máximo os erros de "casting". Bom, também defendo que as transferências devem ser acompanhadas por um Comité de Compliance, mas isso é conversa para um outro dia. 

 

P.S.1:  Alguns Directores-Técnicos possíveis que já trabalharam em Portugal: Lazlo Boloni, Luis Castro, Jesualdo Ferreira. Nota: a estes, ou quaisquer outros (verdadeira escola Ajax ou Barcelona agradam-me) ser-lhes-ia previamente informado que em nenhuma circunstância assumiriam a função de treinador.

P.S. 2: Para quem associa a meu ver excessivamente a qualidade ou abundância dos relvados da Academia com o rendimento, e para alguns que zombaram do facto de em tempos, quando apresentei uma estratégia global para o Sporting, ter falado (a propósito do capítulo "Sustentabilidade da Política Desportiva") na necessidade de (também) recriar as condições do futebol de rua em Alcochete, aqui fica para reflexão: https://maisfutebol.iol.pt/historia/internacional/o-ajax-esta-a-mandar-os-miudos-para-a-rua-literalmente

07
Ago19

Comprar tempo


Pedro Azevedo

Um gestor compra essencialmente tempo. Num momento inicial, surge o esboço de uma ideia. Uma espécie de esquisso que se vai desenvolvendo até se transformar no corpo de uma estratégia. De seguida, há que tratar da sua implementação. Este período que medeia entre a criação do conceito e sua passagem a produção exige ao gestor persuasão. Ele deve ser capaz de transmitir aos que o rodeiam o que vai fazer e como. Mais importante ainda, ele deve saber explicar a razão pela qual um determinado caminho deve ser seguido. Como já disse anteriormente, o porquê das coisas é o que gera um elo emocional com as pessoas. 

 

Frederico Varandas não herdeu uma situação fácil. Mas está a torná-la bem mais difícil ao não ser capaz de esclarecer a sócios e adeptos a razão por que estamos a seguir numa determinada direcção. É que não basta dizer que a Formação não é boa: um caminho de cabras às vezes é a única forma de se chegar a um determinado destino, e saber-se que o caminho é acidentado não me garante imediatamente uma alternativa melhor. Assim, para além da dificuldade em transmitir as suas razões, produto de uma Comunicação absolutamente desastrada, o actual presidente enfrenta também legítimas dúvidas sobre aquilo que se vai perspectivando nas entrelinhas ser a sua estratégia. 

 

A precisar de comprar tempo, a necessitar de ganhar paz, dir-se-ia que o presidente leonino, líder de uma enorme instituição em recobro de um recente traumatismo, não investiu (como deveria) o suficiente na esgrima dos seus argumentos, situação que cria perplexidade pois tende a sugerir que pretende receber um cheque em branco. É isso aliás que se infere quando pede às pessoas que não fiquem preocupadas, na medida em que ele também não o está, como se isso fosse garantia de alguma coisa. (Mais do que as palavras, os actos é que podem tranquilizar as pessoas.) 

 

Quem olha para as contas do Sporting com olhos de ver, interpreta a estratégia desportiva que está a ser perseguida e entende as assimetrias que estão a ser criadas no futebol português tem toda a razão para estar preocupado. De facto, só um lunático não o estaria e eu não creio que Frederico Varandas viva no mundo da lua. Será por isso necessário Varandas começar a descer à Terra (terra?) e entender que as convicções só fazem sentido até à realidade chocar com elas de frente. Nesses momentos, há que controlar os danos, engolir o orgulho e mudar de vida, que é como quem diz mudar de rumo. 

 

 

24
Jul19

Algumas ideias para o Sporting


Pedro Azevedo

Quando falamos em cultura corporativa, referimo-nos a um conjunto de princípios, atitudes e comportamentos existentes numa Organização que criam um elo identificador entre sócios e/ou accionistas, administração e colaboradores. Quando a cultura é forte, todas as pessoas directa ou indirectamente relacionadas adoptam uma postura diferente daquela que têm lá fora, absorvendo assim os valores da Organização. Quando a cultura é fraca, tudo o que de negativo vem de fora é trazido para o dia-a-dia da Organização.

 

Os acontecimentos recentes demonstram que é urgente produzir um reforço da nossa cultura corporativa. O que é ser do Sporting e o que é hoje um Ser do Sporting? Na procura desse padrão de identidade único, a pior coisa que se pode fazer é multiplicar essa identidade. Os “sportingados”, os “croquettes”, os "melancias", os “verdadeiros sportinguistas”, "os brunistas" significam, no caso concreto, uma dispersão de conceitos perfeitamente evitável e que, para além de causar confusão na mente das pessoas, não apela à união. O marketing criou em tempos o “Feito de Sporting”, o que me pareceu bem, mas depois falta uma narrativa por detrás da expressão, algo que arregimente à volta do clube. O mesmo com o "Até ao fim", que até dá area apocalípticos e presta-se a zombaria, ou com o "Vem de dentro", que me parece pouco conseguido. Mais do que “o que” fazemos ou “como" fazemos, o que cria laços com as pessoas é o “porquê”. Vejam os exemplos da Apple, de Martin Luther King e dos irmãos Wright. A Apple não vende um produto, cria um novo conceito, um nova modo de utilização, revolucionando paralelamente o mundo dos computadores, da música, dos telemóveis, etc. O Dr King teve muito mais sucesso que os pregadores do seu tempo. Enquanto outros bebiam do ódio racial, Martin disse “I have a dream”, sonhando que brancos e pretos um dia seriam iguais. Os irmãos Wright tinham uma pequena loja de bicicletas e uma paixão genuína por voar. Paralelamente, Samuel Pierpont Langley era rico, tinha um financiamento de 50.000 usd (na época) do departamento de Guerra americano e acompanhamento do NY Times. A verdade é que os irmãos Wright foram os primeiros a voar. Langley desistiu por não ter sido o primeiro. A sua motivação não era voar, mas sim a vaidade, o reconhecimento de ter sido o primeiro, uma motivação errada. Não somos o “glorioso”, nem temos a "causa do Norte" e da descentralização, pelo que temos de descobrir a nossa própria cultura, o que é “Ser Sporting”, a razão de aqui estarmos. E depois, partilhar o nosso sonho com o nosso mercado-alvo. William Bruce Cameron um dia disse que “nem tudo o que pode ser contado conta, nem tudo o que conta pode ser contado”. Atendendo a que somos um clube com menos títulos que os outros dois, mas que sempre (espero que o processo Cashball não tenha delapidado essa noção) pugnou por um comportamento desportivo exemplar, julgo que estas frases se aplicariam como uma luva à nossa narrativa. Para além de que deveríamos reflectir na razão pela qual ganhando muito pouco (no futebol) conseguimos manter, passando sportinguismo de geração em geração, um número de simpatizantes que representa cerca de 3,5 milhões de portugueses.

 

Nesse sentido, urge encontrar factores de diferenciação face à concorrência. Oiço, recorrentemente, críticas à aposta nas modalidades e fico atónito. Na verdade, uma constante narrativa pós-moderna, emanada do início do milénio, produziu em sócios e adeptos a ideia que as modalidades impediam a canalização de maior investimento para o futebol. Nada mais errado, o desinvestimento que fizemos nesses tempos nas modalidades acabou foi por retirar identidade ao clube, o qual sempre se afirmou pelo ecletismo. O efeito prático disto foi o fecho de uma série de modalidades, seguido de enormes gastos na construção de um novo estádio, o qual teve um orçamento que resvalou em dezenas de milhões de euros e, ainda por cima, apresentou durante anos um relvado que mais parecia um batatal. É o que se chama confundir cultura com agricultura... Convém não nos esquecermos que a história do Sporting é feita do Professor Mário Moniz Pereira, de Carlos Lopes - primeiro campeão olímpico português -, de Fernando Mamede - antigo recordista do mundo dos 10.000 metros -, de Joaquim Agostinho, 3 vezes seguidas vencedor da Volta a Portugal (2 pódios na Volta a França, 1 pódio na Volta à Espanha) e melhor ciclista português de todos os tempos e de Chana e Livramento, os melhores hóquistas que o mundo viu.

 

O Sporting deve afirmar-se como um clube do Renascimento, com uma capacidade criadora, reformadora, de mudança de paradigma (o status-quo) e que valorize os seus sócios e as suas opiniões (não podemos querer discutir tudo externamente e internamente reduzir a discussão), com respeito pela integridade das competições, o objectivo de promover um desporto melhor, mais justo, equilibrado e íntegro, tudo assente numa cultura de excelência, compromisso e superação. Nunca, em circunstância alguma, deveremos importar modelos que funcionem com outros, mas que não respeitem a nossa idiossincrasia e/ou os nossos valores e que criem um choque com o que são os valores tradicionais sportinguistas. A cultura de uma organização não pode estar nos antípodas do que é a personalidade e o carácter dos seus colaboradores e accionistas/sócios.

 

Há algumas coisas que me fazem alguma confusão quando olho para a nossa secção de futebol profissional. Os jogadores de futebol não são prestadores de serviços, mas sim quadros do clube. No futebol, a cultura corporativa é designada por mística (um jargão do mundo do ludopédio) e refere-se à união de todo um grupo de trabalho, de forma a que o todo se sobreponha sempre à soma das partes. Uma equipa de futebol não pode ser uma ilha e ela necessita dos sócios, adeptos e simpatizantes para que se possa sentir defendida, acarinhada e apoiada. Por isso, urge retirá-la um pouco do isolamento de Alcochete e aproximá-la do coração do clube (Alvalade), dos seus adeptos (não confundir com hooligans) e de atletas de outras modalidades, numa convivência de leoninidade que se pretende salutar.  Marcar-se um treino matinal semanal em Alvalade (às quartas-feiras?) seguido de um "day-out", à tarde, com os sócios e atletas das modalidades, seja através de actividades de team-building, seja através de apoio ao merchandising (com sessões de autógrafos) na Loja Verde, seja através de seminários organizados pelo Sporting que visem acautelar o futuro profissional dos jogadores (criando aquele factor diferenciador que os jogadores reconhecerão), pós cessação da sua carreira desportiva, em matérias como gestão de empresas, liderança, literacia financeira, etc.

 

 Em traços mais gerais, e visando todo o clube, criaria um Comité de Inovação, forum onde todo o tipo de colaboradores do clube estaria representado. O clube podia promover um concurso de ideias para funcionários/sócios, oferecendo um prémio simbólico como forma de motivar as pessoas a apresentarem-nas. Lembro-me sempre daquele episódio académico, salvo erro na Colgate, onde foi aberto um concurso interno em que se pediam ideias a todos os funcionários sobre como aumentar as vendas. O vencedor foi o motorista da empresa, que preconizou que se aumentasse o bocal das bisnagas de dentífrico...

 

Emparedado em Lisboa pelo Benfica e no Norte pelo Porto, o Sporting necessita de ser um “first mover”. Como tal, tem de ser inovador, ter uma orientação para o crescimento e estar disposto a correr alguns riscos. 

 

Em resumo, e de forma a afirmarmos a cultura Sporting, temos de perseguir os seguintes factores de diferenciação (isso sim justificará a expressão "somos diferentes"):

  • Boas práticas de gestão
  • Respeito pela integridade de todas as competições
  • Ausência de conflito de interesses
  • Transparência
  • Limitação dos mandatos de um presidente (2 mandatos)
  • Compliance
  • Clube renascentista, com ideias e sempre virado para os seus sócios
  • Inovação constante
  • Research&Development: scouting de jovens valores/desenvolvimento na Formação
  • Sustentabilidade assente na Formação
  • Dois Bolas-de-Ouro e 1 Bola-de-Prata formados no nosso clube
  • Sustentabilidade assente em défice de exploração ZERO
  • Gerador das grandes transformações do futebol português
  • Orgulho no nosso ecletismo
  • Clube do primeiro campeão olímpico português
  • 29 Títulos europeus em Atletismo, Andebol, Hóquei em Patins, Futebol e Goalball
  • Excelência, compromisso e superação

 

O futebol, pese a sua idiossincrasia, do ponto-de-vista da gestão tem semelhanças com outros negócios, outras indústrias. Veja-se o caso da indústria farmacêutica: a maioria dos recursos são alocados a R&D (pesquisa e desenvolvimento). Ora, o modelo de sustentabilidade que preconizo para o Sporting, que assenta na Formação, pressupõe o necessário investimento nesses vectores de crescimento como forma de obtenção de rendimento desportivo e, simultaneamente, resultados financeiros. Pesquisa é encontrar desde cedo um conjunto de jogadores muito jovens com algo de distintivo, um dom diferenciador, que possam integrar as nossas escolinhas/escalão de infantis. Para isso, precisaremos de um técnicos com especiais características de detecção de talento. César Nascimento ou Osvaldo Silva eram homens com uma sensibilidade especial para isso e, literalmente, fizeram escola. Adicionalmente, tem de se criar uma base alargada de contactos, de forma a que se possa chegar primeiro. Nesse processo, uma boa rede de olheiros é necessária. A utilização de antigos jogadores que vivam nos diversos distritos do país, o aproveitamento do conhecimento no terreno dos núcleos regionais e a informação proveniente das várias escolinhas (franchisadas) do clube é essencial. Detectado o talento, segue-se o contacto com o jovem e seus pais. É necessário convencer os progenitores de que o Sporting é a melhor opção para o futuro do seu filho. Não é de ânimo leve que um pai entrega um filho a um clube, principalmente quando o agregado familiar vive muito longe de Alcochete. Há a questão dos estudos, a dor do afastamento para quem vive longe, a questão da mobilidade para quem está mais próximo, a escolha do melhor clube. O Senhor Aurélio Pereira sempre se destacou pelas garantias que oferecia aos pais, capacidade de persuasão e sentido de responsabilidade, para além das suas capacidades organizativas e dons de prospecção de talento. Certamente tem feito escola, mas o Sporting tem vindo a atrasar-se face à concorrência essecialmente devido à escassez de recursos alocados aos olheiros e rede de prospecção, mas também devido ao isolamento de Alcochete face à rede de transportes. Enquanto o Seixal está a 15 minutos de barco de Lisboa, o acesso a Alcochete é bem mais complicado. 

Bem sei que a primeira lei económica enuncia que os recursos são escassos, mas é exactamente por isso que se devem estabelecer estratégias de gestão desses recursos. Se há investimento que possa ter elevado retorno é o efectuado na Formação. Temos de investir para podermos detectar primeiro. Por outro lado, há que pensar noutras opções para além de Alcochete. Este é um local físico (os terrenos, inclusivé, ter-se-ão valorizado com a perspectiva do aeroporto e procura imobiliária geral), importante é a propriedade intelectual que temos nos nossos quadros, pelo que me agradaria uma solução alternativa eficiente do ponto-de-vista de transportes e escolas, que não roubasse tanto tempo aos jovens e suas famílias.

Adicionalmente, cumprida a fase da pesquisa, entramos no Desenvolvimento. O Sporting tem de ter um conjunto de técnicos com capacidade formadora, tanto a nível futebolistico como humano. A Cultura Sporting começa aqui. Nas atitudes, nos comportamentos, na divulgação do que é o Sporting, a sua história, os seus heróis, os valores do clube. O rendimento escolar também deve ser monitorizado regularmente. Entrando na questão desportiva, é fundamental que haja um plano de desenvolvimento por jogador. Que passe pela componente física (uma previsão de crescimento pode dar dicas sobre a posição a ocupar futuramente no terreno), táctica e técnica. Nesta última vertente, verificamos que poucos jovens chegam a idade adulta com boa técnica de remate, com o pé ou de cabeça. É mais vulgar vermos aparecer jogadores com velocidade e capacidade de finta, com recepção orientada e passe, mas bons rematadores escasseiam. Haverá, certamente, trabalho a desenvolver nessa área. Mais uma vez, é curial dotar recursos. Precisamos dos melhores técnicos, dos melhores formadores e temos de reforçar essa equipa e não estar permanentemente a perder referências para o nosso rival de Lisboa. E, principalmente, é importante reflectir que os investimentos devem traduzir-se em retorno, o que no caso corrente significa que não faz sentido não dar oportunidade aos nossos jovens na equipa principal. 

 

Adicionalmente, é para mim importante que o Sporting seja visto como um clube que aplica boas práticas e transparente, pelo que gostaria de erradicar todo o ruído históricamente existente à volta das transferências de jogadores - ouvir o presidente dizer que ninguém do actual elenco directivo irá receber "comissões", como se isso fosse digno de elogio (sinal dos tempos), é algo penoso, pois a honestidade/integridade é o mínimo que se espera de quem exerça funções no Sporting, a sua ausência é que deveria merecer veemente repúdio -  e credibilidade de entidades que se relacionem com o clube. Assim, constituiria um Comité de Compliance, independente, composto por personalidades com provas dadas, que pudesse analisar "in loco" todas essas questões (que só chegam ao Conselho Fiscal e Disciplinar mais tarde), emitir o seu parecer e as suas recomendações e inclusivé ter o poder de veto em determinadas negociações. Para além disso, caberia a esse Comité rever todo o tipo de procedimentos existentes no clube, códigos de conduta (colaboradores, sócios, claques) e propor medidas que ajudem à transformação do futebol português (código de ética do agente desportivo...), algo que abordarei em maior detalhe mais tarde.

 

Penso que a visão para o clube e para a SAD deve ser comum. Por isso, entende que o presidente do clube deve, também, ser o presidente da SAD. Com a criação de orgãos que vão reforçar a transparência da(s) instituição(ões), julgo que ficam asseguradas as condições para que tudo corra pela normalidade. Adicionalmente, proporia em Assembleia Geral uma limitação de mandatos do presidente do clube a 2 mandatos. Com isso pretenderia evitar o sempre problemático apego ao poder e estimularia o trabalho em equipa. 

 

O Sporting precisa de maiores proveitos e entendo como importante a dinamização dos núcleos nesse sentido. Estes são um bom canal de vendas (para além da bilhética) e potenciadores de negócios para o clube. Estão nas regiões e devem estar ligados ao tecido económico das mesmas. Poderão servir para aumentar o número de associados, incrementar as vendas de produtos e serviços do clube e como polo aglutinador de patrocinadores para o clube através do conhecimento das forças vivas da região e suas necessidades de promoção das marcas. Deveriam ter Promotores comerciais, pagos à comissão, na venda de produtos/serviços, num modelo que poderia atribuir um "fee" maior ao núcleo, ficando estes responsáveis pelo pagamento dos comerciais, ou um "fee" menor, assumindo o Sporting os compromissos com esses comerciais. Gostaria que um dia nos fosse mostrada uma discriminação dos proveitos obtidos na Loja Verde, Rua Augusta, "on-line sales" e outros canais, de forma a perceber de que forma se podem melhorar as vendas nos diversos canais de distribuição. Nos escrutínios eleitorais, os núcleos deveriam poder participar através do voto electrónico, observadas as necessárias garantias de fiabilidade e integridade do sistema. 

 

Gostaria que o Conselho Directivo do clube tivesse um pelouro da Juventude. Para quem não pratica desporto federado no clube e é jovem, a oferta é pouco mais do que umas idas ao estádio ou pavilhão para apoiar as equipas do clube. A juventude não são só as claques (muitos deles já avôs) e temos de estimulá-los. Olhando para as novas tendências e para a emergência dos desportos radicais, o Sporting poderia abrir as portas para quem se quisesse iniciar em modalidades como o surf (entretanto criado), kite-surf, escalada, paraquedismo, et caetera, actividades pagas e com um custo mais baixo para novos associados, iniciativa que creio iria contribuir para chegarmos a mais sócios e mais cedo. Adicionalmente, e em conjunto com a Fundação Sporting, estimularia programas de voluntariado para jovens, em acções de responsabilidade social.

 

Em relação à relação do clube com os seus sócios, proporia o seguinte:

  •  CRM Sporting: os sócios têm diferentes competências, trabalham em diferentes sectores de actividade, têm skills que podem ser úteis ao clube e à sua Direcção. A partir do momento em que é extinto o Conselho Leonino, ainda mais importante é explorar o conhecimento que estes sócios têm sobre matérias específicas, podendo e devendo a Direcção pedir-lhes apoio na implementação de certos projectos ou, simplesmente, via algum conselho que possa ser dado, sempre em complemento das equipas de colaboradores do Sporting. Para que a Direcção possa conhecer melhor os seus sócios tem de promover um novo cadastramento dos mesmos (os dados preenchidos aquando da adesão são insuficientes). Proponho que se olhe para as melhores práticas da banca, a qual tem hoje em dia um formulário obrigatório denominado Know Your Customer (KYC), que inclui dados complementares (profissionais e áreas de interesse). Depois é adaptá-lo à relação entre um clube e seus sócios (os dados patrimoniais já seriam talvez intrusivos) e lançá-los numa plataforma CRM. No passado, criei uma de raíz através do Microsoft Dynamics, a custo muito baixo. Outro aspecto relevante é esta ferramenta também permitir fazer uma segmentação dos sócios, por "bucket" etário, geografia, profissão, interesses, etc, adaptando a nossa oferta de produtos/serviços a cada segmento. Preocupação que tenho nesta matéria: Protecção de dados. Associado ao CRM, geralmente existem diferentes níveis de prioridade de acesso aos dados do cliente/sócio. Alguns dados deveriam permanecer confidenciais para todos os colaboradores e só poderiam ser acedidos pelo Conselho Directivo/Conselho de Administração e pelo Director de Marketing. Tenho um exemplo muito desagradável no passado, com outra Direcção, quando, através de um Contact Center, uma determinada companhia de seguros começou a ligar-me diariamente e às horas mais impróprias (durante reuniões e/ou à hora do jantar) no sentido de que lhes comprasse um  determinado produto. Isto durou meses - todos os dias ligavam-me pessoas diferentes - apesar de, desde o início, ter referido não estar interessado. Quando lhes perguntei como tinham obtido os meus dados referiram-me que o Sporting lhes tinha vendido a base de dados dos seus sócios. Fiquei indignado é só não tomei uma providência por ser o meu clube do coração (já não me recordo - sou sócio há 39 anos - se aquando da filiação havia algum campo que permitisse a transmissão de dados, mas sendo eu menor na altura duvido que isso fosse legalmente permitido). 
  •  Provedor do sócio/Secretário Geral: não sei se existe; no site, em lugar de destaque, não consta. Como podem os sócios encaminhar sugestões para o clube? Ou queixas sobre um determinado abuso por parte do clube? Seria importante, em ambiente fechado ou aberto a outros sócios, os sócios terem um espaço onde pudessem apresentar sugestões de melhoria de determinados serviços ou ideias, visões, para o futuro do clube. O tipo de conteúdo é diferente de uma Linha de Apoio, pelo que deveria haver um canal próprio criado para o efeito. Já agora, gostaria de deixar aqui uma nota à atenção de alguém responsável porque, tendo acontecido comigo, dela tenho conhecimento. No início do ano passado, o banco que uso para débito em conta, das quotas dos meus 3 filhos, após uma integração, mudou os IBANs dos seus clientes. O resultado disso foi que os antigos IBANs deixaram de estar disponíveis e os pagamentos não foram efectuados (teria de me ter deslocado a Alvalade e dado os novos IBANs). São 3 quotas que estão a meu cargo, dois dos meus filhos já são maiores de idade e já não sou eu que recebo as mensagens para pagamento, e o Sporting deixou de ter assegurado o pagamento das quotas por débito directo, passando para a situação mais precária (e ao cuidado da memória de cada um) de ter de ser o sócio a fazer a transferência por multibanco ou home-banking, tudo isto, dizia, sem me fazer um único telefonema. Ora, é ou não de todo o interesse do clube que os sócios não tenham as quotas em atraso?  
  • Sócios - iniciativa Glória do mês: iniciativa que visaria homenagear mensalmente um atleta que pelo seu palmarés e comportamento social tenha sido uma referência dos valores que apregoamos. Do futebol ao atletismo, do hóquei ao basquetebol, do andebol ao futsal e restantes modalidades seria prestada homenagem a essas figuras, o que permitiria aos mais jovens tomar consciência de quem foram essas pessoas e aos mais antigos recordá-las com saudade. Armando Marques (tiro), vice-campeão olímpico (quem conhece?), Chana (hóquei, campeão do mundo, para mim, ainda melhor que Livramento, quem conhece?), Rita Villas-Boas (trampolins, vários títulos, quem conhece?). Isso permitiria às pessoas, durante esse mês, tomar contacto com a história desse atleta e da sua modalidade, com peças na SportingTV, jornal do Sporting, Site do clube e iniciativas próprias no estádio de Alvalade e no Pavilhão João Rocha antes dos jogos das nossas equipas, reforçando o orgulho de ser Sporting e o "awareness" sobre uma modalidade específica.  
  • Stock-out Loja Verde: mensalmente, haveria um dia com preços bastante mais baixos, com colecções "retro" de outras épocas, vendidas a preço muito acessível. 
  • Dia de Sporting: trabalho de pré-época, de conjugação dos calendários dos jogos no Pavilhão com os jogos no Estádio, permitindo maior afluência de público, envolvendo famílias. Criação do Pack Dia do Sporting, de bilhete único para utilizar no estádio e pavilhão, no mesmo dia. 
  • Sócio do mês: em todos os jogos em Alvalade, o Conselho Directivo (por mérito ou por sorteio, critério a definir) escolheria alguns sócios, os quais teriam direito a assistir aos jogos em Alvalade com a sua família (4 pessoas, p.e.), entrar em campo com as equipas, dar um pontapé de saída simbólico, receber uma bola autografada por todos os jogadores e treinadores, efectuar uma visita guiada a Academia e Museu, participar nas homenagens ao atleta do mês (Glória), entrevistas a SportingTV e Jornal do clube dando conta da sua experiência de envolvimento com o clube. Nota: poucos sócios reunem condições para terem a familia com eles nos jogos durante toda a época. Só aqui em casa somos cinco, pelo que se torna incomportavel caso não queiramos naturalmente descriminar qualquer dos filhos. 
  • Colecção de cromos GLÓRIAS do SPORTING: (ideia que me foi trazida pelo Leitor JHC e posteriormente desenvolvida) uma colecção de cromos digital (com um chip que possa ser lido em aplicativo) com os craques de todos os tempos do nosso clube e vendida na Loja Verde;
  • Site do Sporting: carece de urgente reformulação. Não só é muito pouco sofisticado técnicamente, com consequências a nível de navegação, como é paupérrimo em termos de conteúdos e da sua actualização (procurar as equipas de Formação é um exercício surrealista, os jogadores são sempre os do ano anterior), mesmo a nível do calendário de jogos da nossa equipa principal de futebol. É muito pobre, tem muito poucas referências à nossa história e à dos nossos atletas e é pouco funcional e interactivo (a não ser para pagamentos de quotas ou gamebox). Aqui há tempos, o Nosso comentador JHC deu conta de um site brasileiro, "Esquadrão Imortal", que faz mais jus à carreira de Peyroteo e dos 5 Violinos do que qualquer publicação leonina (exceptuando os livros de Fernando Correia). No mês dedicado a um atleta, poderiam ser incluídos no site peças diárias sobre todos os relevantes atletas dessa modalidade onde o homenageado se destacou. 

 

Há muita a fazer a nível de merchandising do clube. O merchandising é um elemento essencial na afirmação de uma marca. Na minha opinião, não faz sentido o Sporting abrir uma loja na Rua Augusta, de dimensão bem mais reduzida do que a que o Benfica tem na mesma rua, apenas dois quarteirões abaixo. Aquilo que deveria ser considerado como muito positivo – abertura de uma loja numa zona com enorme circulação de pessoas, muitas delas de cidadania estrangeira, aspecto importante na internacionalização da marca – acaba por ficar indelevelmente marcado pela comparação pela negativa face a um rival, algo facilmente percepcionado por qualquer transeunte e que põe em causa a imagem do Sporting como a maior potência desportiva nacional. Se queriam competir na mesma zona não poderiam ter arranjado um espaço pelo menos de dimensões idênticas às do rival? Estas coisas têm de estar integradas com a estratégia de afirmação do clube e serem transversais a todos os pelouros atribuídos no CD/CA. Outro aspecto que tem vindo a ser negligenciado: os estágios de pré-época na Suiça não têm sido aproveitados para divulgar a nossa marca internacionalmente, nem para satisfazer a procura dos emigrantes portugueses. Por incrível que pareça, o Sporting não tem transportado nenhum material de merchandising consigo nestas viagens onde foi visível a presença de vários emigrantes com camisolas desactualizadas. Dado que a equipa actuou em diversas cidades suíças, porque é que o Sporting não fez deslocar um camião itinerante da Loja Verde? O mesmo se aplica aos nossos jogos fora de casa, em Portugal, que também não costumam ter a presença de qualquer merchandising do clube, algo que acaba por ser um sonho para a contrafacção.

 

PS: Tudo o que se encontra plasmado neste Post e que continua por fazer foi anteriormente publicado em Julho de 2018 no "És a nossa Fé". Algumas outras ideias vi aplicadas, mas certamente não por as terem lido ou ter havido interactividade no passado, vidé a forma como ainda recentemente um dos administradores da SAD se referiu depreciativamente às "redes sociais". Para além da falta de humildade, há toda uma cultura vigente, que já vem de trás, em que as ideias dos sócios não são de todo valorizadas, exceptuando em época de eleições, período em que de repente os sócios passam a ser verdadeiramente o centro das atenções. Tenho muito mais ideias em "pipeline", mas pergunto-me se há interesse nisso, pois o mais certo é ir incomodar alguém. No fim do dia, o que parece importar é se a bola entra ou bate na trave. E contra isso...

16
Jul19

Futebol de autor ou futebol de cada treinador?


Pedro Azevedo

Olhando para o futebol do Barcelona ou do Ajax de Amesterdão é claro que está presente uma filosofia de base e um conjunto de princípios que são incorporados desde a Formação. Por exemplo, um jogador como o holandês De Jong dificilmente poderia jogar numa equipa que não tivesse o mesmo entendimento do que é pretendido para a posição "6", isto é, que não desse prioridade à construção naquela zona do terreno. Talvez não tenha sido por acaso que o Barcelona, que sempre soube adaptar princípios da escola holandesa - ou Rinus Michels, Cruijff e Neeskens, numa primeira fase, Koeman, Witschge, o filho de Cruijff, Reiziger, Cocu, Zenden, os irmãos De Boer, Bogarde, Van Bronckhorst, Davids, Van Bommel e Cillessen, numa segunda fase não tivessem passado por lá - , não tenha hesitado na aquisição de De Jong, pagando por ele a módica quantia de 75 milhões de euros. 

 

A adopção de princípios de jogo na equipa principal comuns aos ensinados na Formação tem a vantagem de melhor poder potenciar os jovens, não se perdendo tantos na transição para sénior. No Sporting, entre outras razões que tenho discutido com os Leitores noutros Posts, muitos médios provenientes da Academia tiveram dificuldades na compreensão do 4-4-2 (Jorge Jesus) face ao 4-3-3 a que estavam habituados, especialmente os médios atacantes, de transição e os alas. Igualmente, não sendo tão clara a nível sénior a cultura de posse de bola, o que é pedido a alguns médios defensivos é mais repressão e menos imaginação, independentemente do sistema táctico adoptado, o que explica em parte as dificuldades que um Daniel Bragança ou um Matheus Nunes actualmente poderão sentir.

 

A pergunta que deixo para reflexão aos Leitores é se entendem que um clube formador de excelência como o Sporting deve ser autor da sua própria filosofia de jogo, formando os seus próprios treinadores ou indo ao mercado procurar treinadores que se adequem a essa filosofia, ou, em alternativa, se consideram que essa filosofia deve variar consoante cada novo treinador, podendo retirar-se daí algumas vantagens (entre as desvantagens que citei) provenientes dos jogadores se enriquecerem mais tacticamente pela utilização de diversos sistemas?

 

Aqui fica então o repto. 

09
Jul19

O Sporting com que eu sonho


Pedro Azevedo

Sonhar é bom. Provavelmente, será a única coisa que nos permitirá contrariar a velha máxima de Ortega Y Gasset e não nos adaptarmos a circunstâncias que belisquem com a ética, a preocupação com o nosso semelhante e o sentido colectivo da humanidade. A ética é estarmos à altura daquilo que nos acontece. Abro então aqui um parêntesis para falar daquilo que nos aconteceu: Bruno de Carvalho teve um primeiro mandato bom. Devolveu a esperança aos sportinguistas, de uma penada só foi capaz de cortar mais de 20 milhões de euros em custos com pessoal, recuperou percentagens importantes de direitos económicos de jogadores, fez crescer as assistências em Alvalade, aumentou exponencialmente o número de sócios. Como não há bela sem senão, o excesso de adjectivação do seu discurso - o presente indica que infelizmente fez escola em diferentes franjas de sportinguistas - e a contratação de Jesus, a qual no meu entendimento precipitou indirectamente o seu canto do cisne. Tendo o seu segundo mandato, para o qual foi eleito com cerca de 90% dos votos (sinal inequívoco do reconhecimento dos sportinguistas)  começado de forma auspiciosa com a inauguração do Pavilhão João Rocha, a pressão inerente à conquista do título nacional de futebol e alguns tiques da sua personalidade deitaram tudo a perder. O discurso guerreiro para o exterior passou a ser canalizado para dentro, numa espécie de caça às bruxas que a dado momento ganhou uma forma de descontrolo total. Sendo certo que lhe são imputadas diversas violações dos Estatutos do clube - os Tribunais sentenciaram contra si, mas é preciso não esquecer que o CD tinha um parecer favorável de um professor como Menezes Cordeiro - , foi essencialmente a falta de bom senso mostrada numa frente aberta com os jogadores (e não só), Alcochete e as rescisões de contrato de vários profissionais que viraram os sportinguistas contra si. Nesse sentido, eu próprio senti que ele já não era uma solução, mas sim um problema, e decidi em conformidade em matéria de destituição. Até aí Bruno de Carvalho só poderia queixar-se de si próprio, inclusivé do facto de ter sido destituído. O que se viria a passar a seguir foi mau de mais. Em parte, também devido a ele, à radicalização do discurso que trouxe para dentro do clube, que permitiu que a troca de opiniões entre sportinguistas se tenha extremado. Mas não foi só, tudo o que aconteceu posteriormente significou para mim a perda de ilusão de que somos diferentes. Essa foi, no essencial, a razão pela qual não alinhei no espectáculo grotesco que alguns sportinguistas têm vindo a dar ao país. Ataques ad-hominem, revanchismo, de um lado, ressabiamento e perturbação da ordem, de outro, não são só formas erradas de viver o sportinguismo, são formas desumanas de viver em sociedade. E o pior de tudo é a forma como isso tem sido industriado por putativos fazedores de opinião sportinguistas, os quais certamente lavam posteriormente as mãos como Pilatos, sem rebate de consciência e indiferentes às consequências das suas palavras. Na vida não vale tudo. Nomeadamente, não vale assassinar socialmente alguém, por muito que por todos os actos do próprio se possa melhor falar em suicídio assistido. Fechado o parêntisis BdC, interessa agora pensar como evoluiremos daqui.

 

É preciso estarmos à altura daquilo que nos acontece. Um líder não deve conduzir os destinos dos seus permitindo ques estes estejam envoltos na raiva ou ira. Se o fizer, estará a escudar-se a si próprio, salvaguardando-se, e não a cumprir o objectivo da sua liderança, o qual deve ser colectivo. Essa posição (reactiva) não pode nem deve ser permanente, se é que sequer tem cabimento nalgum momento. Já passou demasiado tempo. É preciso manobrar para ganhar liberdade de acção, reduzir vulnerabilidades, ser activo. Lideranças que se aproveitem da divisão nunca são duradouras, e dividir para reinar nada tem a ver com a união. Numa familia sempre haverá opiniões dissonantes, isso é bom, sinónimo de vitalidade. O que não deve existir é divisão, nem nos devemos permitir que pequenos grupos opostos de extremistas, que se alimentam entre si, tomem o papel central num clube onde a maioria dos sócios, adeptos e simpatizantes são moderados e não se revêm em radicalismos e linguagem e gestos primários. O que fazer então? É importante que se canalize as gentes, todas as gentes, para um sonho comum. Mobilizando-as, inspirando-as, envolvendo-as, resgatando-as uma a uma, sempre pela positiva e vendo as suas ideias como uma força e não como uma ameaça. Ideias geram conectividade, a sua ausência, mera separação. Não evoluiremos enquanto houver um sentimento anti no Sporting. As causas importantes provêm do coração, do amor, não do ódio. Traumatizados, cansados, exauridos digamos não ao maniqueísmo, não ao preto e branco, abramos uma janela de esperança. É importante que se comunique o porquê de sermos Sporting, o que nos traz aqui, aquilo em que acreditamos e a razão de nos levantarmos de manhã. Esforço, dedicação e devoção são o tijolo, mas é preciso o cimento que lhe dê consistência colectiva. Não podemos cair no vale do desespero, sem esperança e a viver as dificuldades de ontem, hoje e amanhã. Temos de nos reerguer e construir um clube onde não existam estigmas e apenas orgulho do carácter de cada membro. Um clube integrador, interclassista, que valorize a contribuição de cada um, a sua voz, para além do aspecto monetário. É que nem tudo o que conta pode ser contado: qual o valor da paixão, do amor? Ao contrário do que se tentou propagar, não resolveremos isto numa Assembleia, num dia, em cem dias. Mas que isso não seja a razão para que não começamos a colar as peças. Como um dia Kennedy proferiu nas Portas de Brandenburg, não perguntem o que o Sporting pode fazer por Vós, mas sim o que cada um pode fazer pelo clube, de forma a que se cumpra o desígnio do nosso fundador. 

 

Eu sonho com um clube renascentista, onde se estimule a criação e floresça a capacidade de realização. Um clube disruptivo, que desafie o actual status-quo do futebol português com inteligência. Um clube inovador, criativo, imaginativo, inclusivo, onde os sócios, adeptos e simpatizantes não sejam catalogados em sub-espécies. Portanto, adaptando os Lusíadas, que cesse tudo o que musas antigas cantam, que valor mais alto se alevanta. A partir de agora só há uma missão, um objectivo, um desígnio: todos poderem dizer em uníssono "Eu sou um Sportinguista". Tem a palavra a Direcção. 

 

PS: João Rocha cumpre hoje 89 anos. Ele vive (dentro de nós). 

26
Jun19

Dimensões cívicas e pilares do Sporting


Pedro Azevedo

O civismo tem essencialmente 3 dimensões: uma dimensão ética, em que o indivíduo se norteia por princípios; uma dimensão normativa, que visa o respeito por um conjunto de regras de convivência que se traduzem em leis; uma dimensão identitária, onde se procura um sentido colectivo que garanta a preservação da sociedade, bem como da sua história, memórias e património comum.

 

Portugal não é propriamente um país onde o civismo impere. Como tal, não seria de esperar que o Sporting fosse uma excepção. Não o é, infelizmente, por muito que queiramos afirmar que somos diferentes. E isso pode ser observado nas 3 dimensões que cito em cima.

 

Comecemos pela dimensão ética: o 25 de Abril foi há 45 anos, mas existe um défice de democraticidade que se traduz na forma como as pessoas hesitam em se expôr a si próprias e às suas ideias. Vigora a ditadura do politicamente correcto, como se todos fôssemos cândidos e cumpridores cidadãos. Se a isso juntarmos a projecção de nós próprios que transmitimos aos outros, então estaria tendente a acreditar que estávamos no Paraíso. Porém, a realidade de todos os dias mostra-me que estamos mais perto do purgatório e que a diferença entre a teoria e a prática denuncia tergiversações diversas. Peguemos no exemplo da putativa relação do Sporting com o empresário Jorge Mendes: durante anos, lemos dos sportinguistas alusões a "mendilhões" e falta de transparência na transferência de jogadores envolvendo Mendes, opiniões que ganharam outro fôlego após a divulgação pública do livro "Orgia do Poder", da autoria do jornalista, sociólogo e investigador italiano Pippo Russo. Concomitantemente, e sendo o Benfica um dos clubes apontados como tendo relações privilegiadas com o referido empresário, também o clube da Luz mereceu críticas dos mesmos sportinguistas. Acontece que recentemente, por motivo de necessidade, tacticismo ou estratégia (o tempo o dirá), houve aparentemente (porque nunca devidamente explicada) uma aproximação entre o Sporting e Jorge Mendes para além das negociações por Rui Patrício. Subitamente, presenciamos grandes golpes de rins de alguns sócios sportinguistas que confundem proselitismos com o Sporting Clube de Portugal. Agora, para estes, não se pode ignorar a dimensão do empresário e a sua influência, mesmo que desconfiem dos seus interesses e da sua participação na chamada economia política do futebol (o termo é de Pippo Russo, porém aconselho uma leitura do que o Rui Monteiro escreveu relacionado com as transferências). Ora, isto para mim é a prova provada de que a defesa de supostos princípios que nortearam as críticas iniciais de alguns desses sportinguistas não passou de uma manifestação (perdoe-se-me) hipócrita (classifica a atitude, não necessariamente a pessoa, sabe Deus quantas vezes ficamos aquém do desejado por nós próprios) que não resistiu ao choque com a realidade, ou partiu de um sentimento de inveja face ao rival e não tinha um senso ético a suportá-la. Para quem assim pense, só tenho uma coisa a dizer: os princípios são inalienáveis, não há aí flexibilidade possível, ou então não chamar-se-iam princípios e íamos logo para os meios...

De todo o modo, existem 3 possibilidades adaptáveis a este exemplo: ou a ideia dos poderes no futebol foi fruto da nossa imaginação e inveja e como tal fazemos um "mea culpa", ou aceitamos a alegada realidade do futebol actual e queremos, ainda assim, fazer parte dela, ou simplesmente a repudiamos e seguimos o nosso caminho. Um caminho que precisará de mais foco em nós próprios e menos preocupação com o quintal do vizinho, mais aposta na Formação e menos carroséis de transferências, custos controlados e geração de alpha em detrimento de mais risco na nossa conta de exploração. Ora, isto não é uma matéria de somenos importância. (Com isto não tenho de fazer qualquer juízo de valor sobre o referido empresário, este texto mostra apenas o quão somos pouco consistentes na afirmação prática dos princípios que resultam da nossa percepção, certa ou errada, das coisas, de muitas coisas.) 

 

A segunda dimensão é a normativa: o Sporting, como qualquer Organização, tem os seus próprios Estatutos. Houve uma alegada violação dos mesmos. Chamados a pronunciar-se, os sócios, soberanos, corroboraram e decidiram-se pela destituição do Conselho Directivo do clube numa Assembleia Geral aliás muito concorrida. Sob pena de não conseguirmos conviver entre nós, há que aceitar esse desfecho. Quem votou vencido tem de respeitar a maioria; quem viu as suas pretensões satisfeitas deve respeitar os que ainda pensam de forma diferente. Andarem franjas extremistas, de cada um dos lados do voto, permanentemente a atear o fogo é alimentar uma conflitualidade que não interessa ao clube, tal como no próximo ponto exporei.

 

Finalmente, falarei sobre a 3ª dimensão, a identitária: o radicalismo é sempre mau conselheiro. Gostaria de dizer que uma vasta maioria de sportinguistas não está interessada em alimentar quezílias. Quem ama o Sporting quer que sigamos em frente e põe o clube em primeiro lugar. Infelizmente, vejo, um ano passado após todos os traumatizantes eventos que nos marcaram, uma linguagem indigna nas redes sociais (e não só). E aqui não há inocentes. O radicalismo alimenta-se de polos opostos e ambos estão a prestar um mau serviço ao Sporting Clube de Portugal. Cada um que pense pela sua cabeça, mas pensem acima de tudo no clube, na sua história, na nossa memória colectiva e património comum. Se muitos de nós o fizermos, o ruído irá progressivamente diminuir. E focalizaremos então no essencial: o presente. Para que isso aconteça, e tenhamos um futuro, é importante que não se reduza a discussão sobre o clube. Não a discussão desordeira, mas sim a troca de ideias construtiva que emane da visão que cada um tem para o clube. O pior daquilo que está a acontecer é os sócios deixarem de fazer a sua leitura serena sobre os acontecimentos e sobre os actuais orgãos sociais em nome de uma redução da discussão a rótulos. Quem é independente, e quem ama o Sporting deve sê-lo pois tem de pôr o clube sempre acima de interesses ou simpatias pessoais, não pode admitir isso nem deixar que hipotéticos tacticismos comunicacionais mantenham o ambiente aceso como defesa para a crítica. Isso não seria unir, seria beneficiar da desunião para reinar. Pensar primeiro em si, depois no clube. Por tudo isto, sempre achei uma péssima ideia aquela coisa dos apodos de "sportingados" e "croquetes". Disse-o na altura própria e repito-o: o pior que se pode fazer a uma Cultura Corporativa é criar sub-culturas, sub-espécies. Isso só retira identidade e força ao clube. Como também critiquei o facto de Bruno de Carvalho ter vindo dizer que não precisava de conselhos dos sócios, que para isso tinha os seus pais - ele que antes dizia que o clube voltara a ser dos sócios e que no processo foi perdendo essa bandeira renascentista (admitindo que a tinha genuinamente) - , o "Manual para Burros" e outros dislates que me fizeram retirar-lhe o apoio por ter percepcionado que se colocou acima do clube e dos seus sócios. Mas isso disse-o na altura devida, não fui situacionista, mesmo que também nunca tenha negado ao anterior presidente os inegáveis méritos da sua gestão (opção por JJ e linha de comunicação à parte) e, depois, nunca tenha participado de ataques "ad-hominem" que não engrandecem a alma humana. Desta forma, também não creio que acrescente qualquer valor o apodo de "brunistas" a quem valorize mais o que a anterior gestão fez em detrimento do peso da ultrapassagem de uma linha que na minha opinião devia ser inviolável. Somos todos sportinguistas.

 

O presente do Sporting está cheio de contradições na forma e no conteúdo, envolvendo nisso sócios e Direcção. E isto carece de análise. E de equilíbrio. É fundamental não se perder o sentido crítico, como também manter a urbanidade na discussão. Os sócios do Sporting são isso mesmo, sócios. Não são clientes, embora da natureza do seu amor e grau de satisfação decorra expressá-lo através da compra de produtos e serviços. Mas isso será exponenciado apenas e só quando se restabelecer o elo emocional com o clube. Para que tal aconteça precisamos de uma Comunicação centrada no Sporting, na sua identidade e no seu maior activo que são os sócios. Há muito tempo que defendo que o Sporting necessita de consolidar 3 pilares: Sustentabilidade, Cultura e Princípios (ética). No fundo, as siglas do nosso clube. É imperioso que se dê passos nesse sentido e que esses passos possam ser monitorizados pelos sócios. Se estes ficam à mercê da Comunicação Social gera-se o vazio, quando não a discórdia. Eu não acredito que se consiga a sustentabilidade sem uma aposta na Formação (apoiada num contingente de jogadores de qualidade) que preencha quase metade do plantel da equipa principal, porque olho para os números e vejo que gastamos mais de 25 milhões de euros por ano em jogadores importados que não se diferenciam daqueles que formamos, exceptuando no peso dos ordenados. Eu não acredito numa Cultura de clube que não passe pela afirmação inequívoca das suas modalidades, vistas correctamente por João Rocha como geradoras de influência social e política. Eu não acredito num clube que não coloque a ética como o patamar mais elevado e que não seja também absolutamente transparente com os seus sócios. Concluindo, se a actual Direcção do meu clube cumprir com estes 3 pilares e tal se possa verificar no decurso da sua acção, então terá o meu apoio incondicional. Caso contrário, que me desculpem as pessoas que a integram e que merecem o meu respeito (as que conheço ainda mais), me desculpem os caros consócios que confundem estabilidade com unicidade ou unanimismo, mas o meu sportinguismo falará mais alto e exercerei o direito à crítica. Sempre! 

 

P.S. A estabilidade conquista-se...

15
Jun19

A causa das coisas


Pedro Azevedo

Como se depreende do título de um livro escrito por Miguel Esteves Cardoso que marcou a minha geração, nada acontece por acaso. Existem sempre causas que explicam as coisas. No caso do Sporting, a situação até é mais complexa: existem causas e coisas (como no livro do MEC), e é o não sermos fiéis às nossas causas que em parte justifica as coisas que nos acontecem. Confusos? Vou tentar explicar adiante. 

 

Contextualizando, irei recorrer ao antigo presidente João Rocha. No seu tempo, a nossa causa era compreendida por todos. Era não só visível em teoria, mas também na prática. Falamos da aposta na Cidade Desportiva, no ecletismo do clube como forma de influência social e de prestígio nacional e internacional. Nesse tempo, só se gastava o que havia. O que não havia era Passivo, pelo que a maior ou menor qualidade da equipa de futebol reflectia o dinheiro disponível no início de cada época. Se era necessário reforçar outras modalidades, construir uma nova bancada onde anteriormente havia o peão, ou criar um novo pavilhão (Nave, por baixo da Bancada Nova) em virtude do desaparecimento do antigo (devido ao interface do metro), então já sabíamos que iríamos perder competitividade no futebol, pois as nossas fontes de financiamento eram essencialmente as quotizações dos sócios e os milhares de praticantes/pagantes de ginástica e natação. Ainda assim, num período (13 anos) que coincidiu com a afirmação do Sporting como maior potência desportiva nacional - creio que em 1980, o jornal A Bola atribuiu um prémio (Taça Stromp) ao clube mais eclético do país, baseado nas classificações obtidas por cada clube nas diferentes modalidades, que o Sporting venceu com mais pontos do que todos os outros clubes juntos - o Sporting ganhou 3 títulos de campeão nacional de futebol, a que juntou outras tantas Taças de Portugal e duas Supertaças, num total de 8 troféus conquistados no desporto-rei.

 

Sendo que o ecletismo era a bandeira de João Rocha, a Formação no futebol não era descurada. Pese as péssimas condições em termos de infra-estruturas (um campo pelado, face a 6/7 relvados que o benfica tinha junto ao estádio da Luz), o Sporting começou a produzir bons jogadores com alguma regularidade, essencialmente devido a um conjunto de treinadores/oheiros de eleição onde se destacavam Aurélio Pereira, César Nascimento e Osvaldo Silva. Foi assim que mais jogadores provenientes dos juniores começaram a aparecer na equipa principal. A uma primeira fornada composta por Freire, Ademar, Virgílio, Carlos Xavier, Mário Jorge e Pedro Venâncio, seguiu-se uma outra que incluía Paulo Futre, Litos e Fernando Mendes. 

 

Durante os anos que medearam entre a saída de João Rocha e o projecto Roquette, o Sporting foi progressivamente perdendo a sua hegemonia nas modalidades. Primeiro no basquetebol, que já vinha em queda desde os tempos de Rocha (secção suspensa em 82 e reactivada na 3ª divisão em 84), depois nas restantes. Em sentido contrário, a Formação de jogadores foi ganhando outra preponderância, surgindo uma nova geração de talentos composta por Figo, Peixe, Paulo Toreres, Poejo e Porfírio. Com a Nova Ordem, várias modalidades terminaram e a nossa causa passou a ser quase exclusivamente o futebol. Apenas andebol e atletismo se mantiveram, o primeiro por decisão dos sócios em referendo, o segundo devido ao prestígio do Professor Moniz Pereira, o qual ainda assim não foi suficiente para que o novo estádio contemplasse uma pista de atletismo. Não houve pista, mas houve fosso entre adeptos e equipa, literal e metafóricamente falando, algo que já se vinha agudizando desde a criação da sociedade anónima desportiva. A influência dos sócios foi trocada pela dos accionistas e os orçamentos começaram incrementalmente a contemplar capitais alheios provenientes de financiamentos bancários. 

 

A perda de protagonismo do ecletismo foi compensada pelo investimento na Formação. Mais especificamente na criação de infraestruturas que pudessem complementar o trabalho competente realizado por profissionais qualificados nos escalões mais jovens. Surgiu assim a Academia de Alcochete, obra de que Quaresma, Hugo Viana ou Ronaldo já praticamente não usufruiram. Nessa época, o Sporting procurava ter treinadores principais com um cunho formador, de forma a que melhor pudessem ser rendibilizados os talentos da Formação. Mirko Jozic e Lazlo Boloni são exemplos disso. 

 

Não deixa de ser curioso que as únicas duas vezes, em 40 anos, que o Sporting fez a dobradinha no futebol tenham ocorrido quando teve treinadores (Allison e Boloni) que apostavam na Formação. Pelo contrário, quando se tornou um interposto de jogadores trazidos por um Scouting duvidoso e se colocou nas mãos de empresários, o clube bateu no fundo. 

 

O primeiro mandato de Bruno Carvalho teve o mérito de ressuscitar a bandeira do ecletismo e de voltar a mobilizar os sócios. Compreendendo que a distância era um factor não difusor do sportinguismo, o pavilhão das modalidades foi construído. Durante um determinado período, os sócios foram vistos (correctamente!!) como o maior activo do clube e este foi reerguendo-se. Infelizmente, aos poucos, os contributos dos sócios começaram a ser vistos com desconfiança e a crítica construtiva vista como se partisse de uma oposição organizada, pelo que a liderança, até aí inspiradora, foi tornando-se mais e mais musculada. Até acontecer o que todos sabemos.

 

Todo este arrazoado serve para concluir que nem sempre fomos fiéis às nossas causas. Na minha opinião, a fidelidade a essas causas será determinante para o futuro do clube. Se o ecletismo gera influência social (uma forma de poder), associativismo e cultura de vitória, a Formação é essencial ao modelo de sustentabilidade. Como tal, qualquer tipo de tergiversão afastar-nos-á definitivamente do bom caminho. Por outro lado, o Sporting é um clube de sócios que tem de ser para os sócios. O presidente do clube existe para fazer felizes os sócios e para criar condições de perenidade do clube. Se não, qual seria o propósito da existência de um presidente e de um Conselho Directivo? Temos de ser claros e determinados na defesa das nossas causas, porque elas são os meios necessários à nossa prosperidade desportiva e financeira e à nossa força social. Por isso, temos de adequar a prática à teoria. Não basta dizer que se aposta na Formação, há que criar condições para que isso se materialize na equipa principal. E há que ter convicções: se a Formação nos últimos anos não foi boa, por que razão continuamos a renovar contratos com jogadores de 23/24 anos que nunca tiveram oportunidades? Se esses jogadores cumpriram um trajecto na extinta equipa B e ainda assim nunca tiveram hipóteses na equipa principal, por que razão defendemos tanto a existência dessa equipa? Se os actuais juniores não têm qualidade, porquê renovar-lhes o contrato? Se o treinador principal não aposta na Formação, qual a razão porque dizemos que o contratámos pelo seu perfil de formador? E qual a razão, perante cofres minguados, para continuarmos a comprar tantos jogadores que não façam a diferença? Um clube para os sócios não deve confundi-los. Deve, isso sim, ter uma mensagem clara e que faça sentido para todos. Uma mensagem que deve ser desprovida de politiquices e que elucide os sócios. Quanto aos sócios, estes devem colocar o clube acima de tudo. Às vezes olho para o Sporting e parece-me um partido político, cheio de prosélitos deste e daquele. Não se pode construir nada polarizando pela negativa, como também não se pode governar muito tempo escorado no anti-qualquer coisa, mas sim pela força de um projecto. As ideias, e sua implementação, têm de se traduzir no dia-a-dia do clube. O meio-caminho não é um caminho. Na vida, os atalhos saem sempre caros. A nossa história, recente e menos recente, assim o diz. Mas há uma vantagem muito grande em falhar: a aprendizagem que se recolhe. O erro é fundamental na vida. Por razões de insegurança, os portugueses repudiam o erro. Por isso, em Portugal, a culpa morre sempre solteira. Mas errar é bom (ao contrário da inacção, que é radical), nomeadamente se se traduzir em aprendizagem para o futuro. Agora, sermos autistas, não lermos os sinais, não analisarmos o processo é ficarmos à espera que um dia os resultados nos mostrem como estávamos profundamente ilusionados. Porque, tal como ensina Kundera (adaptando à nossa realidade), é desta insustentável leveza do ser sportinguista que se faz o peso da nossa existência de muitos anos sem campeonatos e sem sustentabilidade. 

 

 

12
Jun19

A vida no Planeta Leão


Pedro Azevedo

Tenho para mim que o Sporting se perdeu no caminho a partir do momento em que o futebol-espectáculo se transformou em futebol-negócio. Tal como todo o Universo, também o Sporting se move de ordem e organização para desordem e desorganização (2ª Lei da Termodinâmica e Princípio da Entropia), e assim sucessivamente. Nesse processo, a dado momento, de forma a progredir, a complexidade é tão grande que surge a vulnerabilidade, a fragilidade. No nosso caso, isso ocorreu com o advento das sociedades anónimas desportivas e os novos desafios daí decorrentes. 

 

A criação das SAD foi o Big Bang do futebol português. Sendo o clube a estrela, o Sol do sistema, o objectivo seria fazer da SAD o planeta onde se criariam as condições de sobrevivência do negócio. Acontece que a SAD foi gastando todos os recursos colocados à sua disposição, não cuidando da sementeira que os poderia repor no futuro. Assim, terrenos e edificações foram perdidos e colheitas "vintage" foram alienadas por tuta e meia, sem que durante muito tempo ninguém questionasse o modelo de sustentabilidade de tudo isto.   

 

Quando a desordem deu lugar ao caos, a sobrevivência do planeta SAD foi posta em causa. Surgiu então uma nova ordem, a qual propunha aproveitar os poucos recursos ainda existentes e voltar a apostar na sementeira. Isto foi acompanhado por uma eliminação dos desperdícios e pela aposta num modelo de desenvolvimento gradual e sustentado. Os sinais eram animadores, mas foi sol de pouca dura. Mal as condições melhoraram, a tentação de queimar etapas levou à aposta num mentor mais conhecido pela utilização intensiva de combustíveis fósseis do que pela adopção de formas alternativas de energia não poluente. A pressão criada pela nova estratégia levou a novos desequilíbrios e a Lei de Murphy entrou em acção. As estruturas voltaram a abanar, regressámos à desordem.

 

Numa situação destes, prudente teria sido voltar aos básicos. Não foi o que aconteceu e, infelizmente, o caminho parece estar cheio de equívocos pelo que o futuro é imprevisível. Adicionalmente, a complexidade é hoje em dia muito grande. Outra forma de vida que existe num sistema concorrente ao nosso adoptou o modelo de desenvolvimento que nós abandonámos, e com bons resultados. Os ecos dessa forma de vida propagam-se com uma velocidade de alguns anos-luz superior. É o que Einstein definia como fendas no espaço-tempo ("cracks") por onde a informação viaja super-rápido ao redor do Universo. Já nós, a uma realidade Supernova e infinitamente densa cumpre escapar. Caso contrário, entraremos num buraco negro... 

21
Mai19

O Sporting e o futuro


Pedro Azevedo

A pressão dos grandes clubes europeus sobre a UEFA, no sentido da criação de uma Superliga, originou as recentes alterações de distribuição de dinheiros da Champions, os quais prometem aumentar ainda mais as assimetrias entre os maiores clubes e os outros.

 

A resposta da UEFA foi uma habilidosa manobra tendente a dissuadir a cisão de uma série de importantes clubes, os quais poderiam criar uma associação de futebol, ou liga, própria, mas constitui uma óbvia ameaça para os clubes dos países periféricos europeus onde Portugal está incluído. 

 

Estou absolutamente convicto de que isto não ficará por aqui, pelo que é importante que haja uma estratégia do Sporting perante esta e futura conjuntura. A própria geografia europeia promete alterar-se, com destaque para a possibilidade de virmos a ter uma Catalunha independente. Ora, a saída de um clube importante como o Barcelona da La Liga seria uma grande machadada no prestígio dessa competição, para não falar das consequências económicas que tal provocaria.

 

Portugal pode ter aqui um papel relevante, no sentido de inspirar a criação da Liga Ibérica, que poderia ser o ovo de colombo que permitiria conciliar clubes espanhóis e catalães (além dos portugueses) num mesmo torneio. Acresce que tal também seria positivo para os catalães, garantindo-lhes por certo mais receitas do que as que eventualmente adviriam de uma Liga Catalã ou mesmo da hipotética incorporação do Barcelona numa Liga Francesa. 

 

Perante o cenário que está montado em Portugal, o Sporting é quem tem menos a perder, razão pela qual deve imperiosamente procurar alternativas. Não conseguimos alterar um conjunto de regras tendentes a adicionar transparência ao formato da nossa competição, porque muitas vezes os outros clubes votam contra nós. Então, talvez valha a pena pôr as coisas de outra forma: o que seria esta Liga sem o Sporting? É do interesse do Benfica e do Porto que o Sporting saia? E dos clubes pequenos? O Sporting tem muito mais poder do que aquilo que a resignação por vezes nos faz crêr. Há que procurar sempre o melhor para o nosso clube, dentro do espírito de integridade e idoneidade que nos caracteriza. Nada é inevitável. Se a Liga Portuguesa não quer entender a força de 3/3,5 milhões de adeptos, então talvez seja a hora de ir jogar para a Liga Espanhola, em trânsito para uma futura Liga Ibérica. Se é para não ganhar nada relevante desportivamente falando, então que se resolva o problema financeiro definitivamente. A esse respeito, aqui deixo os dinheiros anuais dos Direitos TV em Espanha, contrato celebrado na temporada de 2016/17 e válido por três temporadas: Barcelona 146m€, Real Madrid 140 M€, Atlético de Madrid 99M€, Atlético de Bilbau 71M€, Valência 67M€...

 

P.S. Se UEFA e FIFA não vêem incompatibilidade em haver, respectivamente, dois (Leipzig e Salzburg, que quase se encontraram na época passada nas "meias" da Liga Europa) e quatro (além dos dois citados, Toro Loko Brasil e NY) clubes Red Bull na Europa e no mundo, decerto também não seria um problema a inscrição de uma SAD numa competição fora de Portugal, podendo o Sporting clube, se assim o entendesse, continuar a disputar a maior prova nacional (usando a equipa B).  

13
Mar19

200 milhões de ilusões


Pedro Azevedo

Na vida há que aprender com os erros. As dificuldades financeiras que o Sporting vive resultam de uma política desportiva desastrosa que faz com que o modelo económico da SAD não seja sustentável. 

 

Ora, isto não só não se resolverá deitando 200 milhões para cima do problema como provavelmente se agravará para o ponto de não retorno, ou seja, o fim do clube pelo menos como o conhecemos. 

 

Tão importante como sabermos por onde não ir e para onde não ir é termos um caminho. A sua ausência, ou pelo menos, a incapacidade de o comunicar, cria um vazio. A natureza, na sua forma de o preencher (não é assim, Luís Lisboa?), muitas vezes fá-lo de uma forma desordenada. Esse é o terreno fértil para o populismo, o "soundbite" apelativo que entra fácilmente na cabeça do sócio cansado de tanto inêxito.

 

Na minha opinião, não é desinformando as pessoas que se constrói algo. O verdadeiro problema do Sporting reside na falta de firmeza e/ou convicção em trilhar o caminho certo. Que passa por não ter de seguir outros modelos igualmente não sustentáveis. Já vimos isso e em outros sectores de actividade: a corrida ao crédito à habitação e sobresequente empacotamento, em Portugal e no mundo, produziu uma arma de destruição massiva de riqueza.

 

Por tudo isto, sendo certo de que o que é relativo importa, temos de nos concentrar no valor absoluto das coisas e na nossa realidade. E esta passará por eliminar deficiências, entropias, e fazer melhor com menos. É sustentável termos custos com pessoal a orlar os 50 milhões de euros e sermos competitivos. Basta, para isso, eliminar "gorduras" e apostar num misto de qualidade importada cirurgicamente e na pesquisa/desenvolvimento/afirmação de talentos da nossa Academia. 

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