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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

07
Set19

Clássicos "Castigo Máximo" - A metamorfose


Pedro Azevedo

Era uma vez um treinador, de nome Marcel Keizer, que abandonou a sua terra natal para tentar uma carreira de sucesso em Portugal. As ideias eram positivas, o futebol agradável e assim o seu primeiro mês foi uma fábula feita de histórias de encantar cheias de vitórias e goleadas para entreter pequenos e graúdos leões. No entanto, um dia, e sem que nada o fizesse prever, Keizer acordou metamorfoseado em treinador tuga, uma classe futebolistica cuja especialidade consiste em empatar o adversário e o próprio adepto até à exaustão, entorpedecendo-os através da ausência de uma coluna vertebral de jogo que não passe pela adaptação à ideia do seu oponente, com a finalidade de ainda assim conseguir vencê-lo por entediamento (milagre futebolistico, tipo vitória no Euro) ou, simplesmente, cair de pé (milagre científico). Por ironia, passado o choque inicial, Keizer começou a preocupar-se mais com o atraso que já tinha na classificação do que com a sua transformação.

 

Kafka à parte, a primeira coisa que se me oferece dizer sobre o jogo de ontem é no sentido de demostrar o meu agrado pela forma como os cidadãos lusos aculturam os de outra nacionalidade que nos visitam. Sossegue pois a conservadora tribo do futebol cá do burgo, porque depois de umas semanas em que para os sportinguistas o mundo pareceu ter passado a rodar em sentido contrário ao habitual, é hoje uma certeza que tudo voltou à santa paz do Senhor e que Keizer não veio a Portugal para promover revoluções ou conquistar fortuna e fama, mas sim para se integrar nas tradições das nossas gentes, mostrando actualmente ser tão ou mais português quanto o mais insigne descente de D. Afonso Henriques. Não se estranhe, portanto, vê-lo proximamente numa corrida de touros em Barrancos ou a ouvir um fado no Senhor Vinho, a dançar o fandango saloio com as lavadeiras da Ribeira de Lage ou a bailar com os Pauliteiros de Miranda, a atacar uma bacalhauzada com grão ou a afiar o dente a um cozidinho bem acompanhado de um tinto carrascão. Adicione-se umas sacudidelas do muco espectorante para o meio da rua e umas buzinadelas nervosas no trânsito e será caso para lhe ser concedida com urgência uma autorização de residência permanente.  

 

Posto este singelo agradecimento, vou de seguida falar sobre o sentimento que me perpassou a mente - sim, consegui a custo mantê-la a funcionar - no jogo que presenciei ao vivo. Bom, na verdade, vi-o sob dois prismas diferentes: por um lado correu bem, na medida em que Keizer provou ser subtil, jogando com a mesma falta de ambição característica do Peseiro de 2018, mas sem dar tanto nas vistas. É verdade que não recorreu à dupla Dupond e Dupont de sérvios (só no fim) ou aos três tristes trincos. Bastou-lhe apostar em Diaby durante 81 minutos e ter um plano de jogo que consistia em eliminar o meio-campo, despejando bolas directamente da defesa para a cabeça de Bas Dost, à procura da 2ª bola, para que o serviço ficasse feito. Uma sonsice! Por outro lado correu mal, visto que afinal parece que precisávamos de ganhar, embora tal nunca tenha transparecido de forma tácita no terreno de jogo aos olhos deste espectador. 

 

Como cereja no topo do bolo desta forma tão singular de jogar futebol em Portugal tivemos a actuação do árbitro Hugo Miguel. Nem será caso para se dizer que no melhor pano caiu a nódoa, pois o jogo esteve longe de ter a qualidade pretendida. Não, a coisa foi tão "kitsch", que onde se lê pano dever-se-á substituir por naperon, perdão, Macron. Não estivesse a partida já aborrecida o suficiente, Hugo Miguel entrou num desatino de um festival de apito que penalizou todo e qualquer contacto ou simples acto de respirar na proximidade de um opositor. Desta forma, o juíz protegeu-se a ele em detrimento do espectáculo, enquadrando-se bem no espírito dos treinadores de cada equipa. No final, o público também pareceu satisfeito, pelo que não há como criticar a acção de todos os intervenientes.

 

Todos sabemos os condicionalismos deste início da época e as insuficiências do plantel do Sporting. Durante alguns jogos, Keizer retirou o máximo de sumo das laranjas que lhe puseram à disposição, mas chega um momento em que a fruta está toda espremida e não se pode esperar mais nada. A partir daí é só escolher a forma como se quer perder: com honra e fidelidade às ideias ou de forma a minorar os estragos. A minha esperança é que Marcelo Keizer (eu disse-vos que o homem já era nosso patrício) tenha aproveitado o jogo de ontem para fazer um "statement": "Ah, vocês têm a mania de que se adaptam à inovação e que isso é uma coisa do outro mundo, então eu agora vou mostrar-vos que também me adapto às vossas adaptações". Posto isto, e depois de dar uma lição aos treinadores rivais, é possível que Keizer volte ao seu registo anterior de futebol avassalador. E, fiél à sua regra, em cinco segundos. É que, se calhar, tudo o que ficou expresso em cima não passou de um sonho, reflexo de um joguinho disputado logo a seguir a um reconfortante almoço e com um persistente sol de Inverno a bater na moleirinha. Há que tentar manter a fé, não é?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jeremy Mathieu

 

P.S. Publicado originalmente no dia 13 de Janeiro de 2019. Crónica "Tudo ao molho..." que expressava o sentimento de que Marcel Keizer já vacilava nas suas ideias. Que Leonel Pontes se mostre, em qualquer circunstância, sempre fiél às suas!

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20
Ago19

O Keynesianismo-Keizerismo


Pedro Azevedo

Compramos Direitos Desportivos de futebolistas, sem dinheiro (défice estrutural de cerca de 60 milhões de euros, compras de 35 milhões desde Janeiro), como se fossemos a Reserva Federal Americana. Na verdade, não temos a faculdade permitida a um banco central de imprimir moeda, mas por vezes parece que temos uma rotativa em Alvalade. Também não podemos monetizar a dívida, embora já tenhamos encontrado forma de monetizar os créditos da NOS numa operação de antecipação de proveitos. O que não se entende é que a linha de produção da mina de diamantes sita em Alcochete continue interrompida na sua última estação por falta de artífices convictos e vontade institucional. Ontem, ao mais uma vez olhar para Matheus Nunes (bem contratado em Janeiro último, 500 mil euros por 50% do passe), um brasileiro radicado na Ericeira que o Estoril aí foi descobrir, jogador que pode fazer as posições "6", "8" ou "10" (embora seja como "8" que mais o gosto de vêr) e que na verdade tem tudo - recepção, aceleração com bola, transições rápidas, passe à distância, finta, visão de jogo (cabeça sempre levantada) - ,  fiquei perplexo como pôde não ser promovido à equipa principal, ou pelo menos ter tido a oportunidade de fazer a pré-época. Preferiu-se ir buscar um Eduardo (4 anos mais velho) e assim gastar parte do dinheiro que faria falta para manter Bas Dost. Talento especial que também se conseguiu observar em Mitrovski (grande golo), Quaresma, Plata (tem vindo a melhorar o seu entendimento colectivo do jogo), Joelson, ou mesmo Diogo Brás, há 2 anos quase unanimamente considerado o melhor da sua geração e que procura agora recuperar o tempo perdido, os 3 últimos uns alas que, embora não se espere que venham a ser uns Futres, têm um nível técnico muito superior a um Diaby. Não lapidar e dar talhe a estes jovens ao mais alto nível, tal como a muitos outros que andam por aí emprestados, preferindo importar jogadores de 4/5/6 milhões fora de portas, é um tipo de cegueira a que se deve dar o nome de síndrome do keynesianismo-keizerismo, uma doença "ke-ke" que sucede à exuberância irracional vivida no período BdC/JJ. Ao contrário de outros tipos de cegueira, em que o paciente não vendo tem a percepção e os outros sentidos muito bem apurados, esta é absolutamente lesiva em todos os sentidos. Como tal, urge curar. Por isso, Estrutura e treinador organizem-se, por favor. A bem do Sporting, evidentemente. 

14
Ago19

Dr House (with a porch) e o Ajax Limpa Tudo


Pedro Azevedo

Um elabora o diagnóstico, o outro executa. Exterminadores implacáveis da Formação, especialmente da que já não é teenager, não há germes, perdão genes (com ADN desenvolvido em Alcochete), que não sejam neutralizados no acesso à equipa principal. Espera-se que tudo não termine numa espécie de anatomia da grei leonina.  

12
Ago19

A Keizer o que é de Keizer, a Varandas o que é de Varandas


Pedro Azevedo

Quem definiu a política de contratações? Quem já gastou cerca de 36 milhões de euros (sem contar com as comissões do Mercado de Verão) desde Janeiro? Onze contratações depois, por que é que a categoria dos jogadores não melhorou? Quem decretou que a Formação não tinha qualidade? Quem emprestou ou vendeu quase todos os jovens promissores entre os 18 e os 24 anos? Quem escolheu Keizer? Quem viu no treinador holandês um fiél seguidor dos princípios da escola do Ajax? O que se passa com Battaglia? O que se passa com Dost? O Sporting não é a Christie`s ou a Sotheby`s, então qual a razão porque parecemos uns leiloeiros no mercado internacional? O que quis Keizer dizer com "perguntem ao Director" (sobre Matheus Pereira)? Quem foi responsável pela vinda do "sonho" de uma noite de Verão (Vietto), tragicomédia de inspiração shakespeariana que o treinador já deu a entender não encaixar no seu sistema? 

 

Posto isto, é certo que Keizer aposta pouco nos jovens, é muito rígido nas substituições, tem uma comunicação básica e fraca, um plano de jogo que consiste em meter a bola em Bruno Fernandes, et caetera e tal. Mas a verdade é que o seu início foi auspicioso. Isso até ter começado a aculturizar-se à realidade portuguesa e, quiçá, à tão famosa Estrutura leonina. 

 

Olhando para as mais recentes declarações de Keizer, a que se podem adicionar diversos "soundbites" do presidente Varandas, eu só posso esperar que estes dois protagonistas reflictam no caminho a seguir e ponham as razões do Sporting acima das suas próprias razões. O tempo, inexorável, não pára. É preciso reagir, compreender que o que se nos afigura fácil muitas vezes encerra segredos e mistérios dificilmente decifráveis que exigem especial sensibilidade, e dar a volta por cima. É isto possível? (Ou vamos continuar a brincar "às casinhas"?)

01
Jun19

O polivalente


Pedro Azevedo

Eu já sabia que o Diaby era um jogador de futebol mauzote. Fiquei agora a saber que também é polivalente. (Um polivalente mauzote.) Quem o diz é o Keizer, que em entrevista recente ao Record afirmou ter visto nele (e em Geraldes) um possível substituto de Bruno Fernandes, caso o maiato se tivesse lesionado. O que o senhor não deve ter dado a volta ao miolo perante o dramático, apocalíptico cenário de não ter mais ninguém, para além do Xico, para fazer a posição. E pensou em Diaby, pois claro, porque todos sabemos que com um bocadinho de canela toda a assistência fica mais bela. E dizemos nós que os portugueses são imaginativos... Nesse capítulo, este holandês tem nota muito alta. Dez (10), para ser preciso. 

15
Abr19

Futebol do Sporting: que futuro?


Pedro Azevedo

Parece que a questão de momento é se Keizer deve ou não continuar no próximo ano. Com a época a decorrer, não me parece curial abordar esse tema taxativamente de forma publica, e a verdade é que o treinador tem contrato por mais duas épocas. No entanto, há algo sobre o qual gostaria de reflectir em voz alta com os Sportinguistas e que tem a ver com o projecto desportivo do clube e resultados associados, mas também com a sustentação desse projecto através de um modelo de negócio que garanta a continuidade das operações. 

 

Sendo certo que os resultados são a fase visível do icebergue (chamemos-lhe assim...), analisar os resultados sem olhar ao processo pode ser muito enganador. A questão que se coloca é se os resultados, em tese académica, podem esconder um processo deficiente e a resposta é sim. O que geralmente acontece nesses casos é que mais tarde ou mais cedo as consequências desse processo menos consistente vêm ao de cima, tal como foi visível na banca portuguesa no pós 2008, onde as sociedades que geriam melhor o risco conseguiram mais rapidamente sair da crise e as outras afundaram-se. 

 

Não quero aqui discutir se o terceiro lugar no campeonato - quando Keizer chegou, com 10 jornadas cumpridas, o Sporting tinha mais dois pontos que o Benfica - , e consequente exclusão da prova milionária da UEFA pode ser ou não ser considerado um bom resultado quando a tal se juntar a conquista de uma Taça da Liga e de uma hipotética (mas muito possível) Taça de Portugal, limito-me a constatar que ter um bom desempenho é fundamental a um clube da dimensão do Sporting. Mas o mais importante para o futuro do clube é que não se repitam erros do passado, se faça crescer o valor intrínseco do plantel e não apenas de um ou outro jogador (Bruno Fernandes, Wendel, pouco mais...), se dê atenção à nossa Formação, se promova a rotatividade (Geraldes não joga, Miguel Luís e Jovane ofuscaram-se) de forma a que todo o plantel chegue em boa forma e motivado ao período de Inverno que tem sido fatal para as aspirações do clube e que exista consistentemente uma ideia positiva de futebol. 

 

Quem está mais perto do treinador será logicamente um avaliador mais abalizado do seu desempenho. Mas é importante que se diga que o Sporting não pode mais tergiversar na sua política desportiva, sob pena de voltar a ter de recorrer a operações de antecipação de receitas, pelo menos até existir algo que possa ser antecipado. Porque não serão os jogadores contratados neste Mercado de Inverno que nos darão o extra de qualidade de que precisamos para elevarmos o nosso patamar presente e futuro, exceptuando talvez os casos de Doumbia e de Matheus Nunes, pese embora apresentem um tipo de rendimento que não destoa. Não, a qualidade que existe em Bruno, Acuña ou Mathieu, e em menor escala em Coates, Dost ou Wendel, necessita de ser reforçada com duas contratações cirúrgicas e há jogadores promissores que precisam de um treinador que os desenvolva e aposte neles (Keizer terá ganho créditos com Wendel). Algo de que tenho dúvidas venha a acontecer com este treinador - pessoa que me transmite ser extremamente séria e com uma liderança que parece agradar ao plantel - , para quem, por exemplo, Gudelj é titular indiscutível (para não falar do Diaby).

 

Quando olho para o nosso rival da 2ª Circular e vejo os números de utilização de Florentino (639 min), Ferro (1136 min), João Felix (2283 min), Gedson (2637 min) ou Ruben Dias (4485 min), todos com menos de 22 anos, e comparo com os parcos 16 minutos concedidos a Francisco Geraldes esta época sinto que algo está mal. Por muito que certos alegados procedimentos nos deixem desconfortáveis em relação ao clube em questão, não há dúvidas de que isto estão a fazer bem, conseguindo conciliar em harmonia o desempenho desportivo com a sustentabilidade económico/financeira que advém do desenvolvimento dos jovens jogadores. E nós? 

29
Mar19

A energia by Keizer


Pedro Azevedo

Espreme-se uma entrevista a Marcel Keizer e pouco sumo se retira, para além do respeito pelo espectador consubstanciado numa ideia de futebol positivo que agrade às bancadas. Há, no entanto, uma recorrente alusão à palavra "energia". Tão constante no seu discurso que nem mesmo Joules a terá tanto empregue.

 

Energia não é mais do que a capacidade de produzir um trabalho ou de realizar uma acção concreta. Em física, a energia associada ao movimento dos corpos denomina-se de cinética. Adensando um pouco mais o conceito, a energia própria de uma equipa de futebol, que pressupõe a interacção entre corpos que ocupam diferentes posições espaciais tem o nome de energia potencial. Esta, segundo Faraday, implica a existência de um campo, uma forma de propagação de electricidade. 

 

O papel do treinador de futebol é assegurar que a corrente continue a passar no campo. Para que tal aconteça, o treinador não pode dar azo a que surjam interruptores que tornem o sistema aberto, ou permitir que alguns isolantes prevaleçam sobre os bons conductores de energia, interrompendo assim a interacção electromagnética. Por isso, mais do que falar da energia em geral, Keizer dever-se-ia aplicar em escolher correctamente a matéria que lhe permita ter uma corrente contínua e de alta intensidade. 

 

Não basta dizer que se vive o futebol 24 horas por dia. Quem só sabe de futebol, nada sabe de futebol. E a física talvez possa contribuir para que tenhamos uma boa energia...

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25
Mar19

Folga na Formação


Pedro Azevedo

Poder-se-á alegar que são questões ponderosas de gestão de fadiga do plantel, mas digam lá se numa semana em que o treinador leonino poderia ficar a conhecer melhor os jovens do clube - parte da equipa principal está concentrada nas selecções - os três dias de folga concedidos não passam uma mensagem de pouco interesse pela Formação?

20
Mar19

Ter ou não ter keizer


Pedro Azevedo

Tenho sentimentos mistos sobre Marcel Keizer. Há em mim um romântico que gosta de ganhar com estilo, a célebre "nota artística" que o outro senhor prometia antes de começar a "patinar" no gelo fino da soberba. Por isso, estou agradecido ao holandês por aquele Outono empolgante e de ilusão em que pude observar o melhor futebol desta década. Com resultados a condizer. 

 

Infelizmente, chegou o Inverno e com ele a primeira derrota. A partir daí, nada foi igual. Por falta de rotatividade ou de convicções (houve avanços e recúos), as coisas começaram a correr mal desportivamente. Adicionalmente, em ano em que dificilmente teremos Champions, o treinador não lançou consistentemente alguns jovens do nosso plantel que se poderiam ter valorizado de forma a proporcionar-nos um bom encaixe financeiro no Verão, preterindo-os em função de algumas "vacas sagradas" caras e sem rendimento desportivo de nota. 

 

Assim sendo, e na medida em que o modelo económico onde deveria assentar a nossa sustentabilidade não pode permitir que se continue a alimentar uma quantidade elevadíssima de jogadores caros, de classe média/baixa que fomos importando e que o treinador, obstinadamente, continua a privilegiar em detrimento de jovens da nossa Academia, considero que não há condições para que Keizer permaneça para além do final da presente época desportiva. 

 

O tempo, o inexorável tempo, não está a nosso favor e, mesmo não considerando o custo de que estas operações se revestem para os cofres leoninos, não vai ser possível por muito mais anos antecipar receitas futuras ou securitizar créditos para resolver problemas de tesouraria. Além de que, o nosso défice operacional e os nossos capitais próprios não se coadunam com a actual estrutura de custos. É que a manutenção da situação presente acabará por nos obrigar à venda desordenada - por preço muito abaixo do seu valor intrínseco - dos nossos melhores jogadores (Bruno Fernandes, Acuña, Raphinha, Dost, Coates) e à dispensa, nos mesmos moldes de Nani ou Montero, de Mathieu. Querem apostar?

06
Mar19

Seven - sete pecados de Keizer


Pedro Azevedo

  1. Insistência em Gudelj;
  2. Falta de rotatividade do ‘onze’ titular;
  3. Tergiversação da aposta na Formação;
  4. Apagamento de Jovane e de Miguel Luís;
  5. Pouco tempo de jogo de Geraldes;
  6. Má transição defensiva e ausência de contra-ataque ( transição ofensiva);
  7. Contratações do mercado de Inverno.

 

 

Em defesa do treinador holandês, deve destacar-se a sua não excessiva rigidez táctica, facto que já o fez adoptar, num curto espaço de tempo, o 4x3x3, o 3X5X2, o 3X4X3 e o 4X4x2, bem como a sua preferência por um modelo de futebol atractivo e que simplifica o jogo. 

Igualmente meritorio, o facto de Wendel ter aparecido com ele, Renan se ter consolidado como guarda-redes de equipa grande (dá pontos) e o trapalhão do Diaby só ter conseguido marcar golos (7) durante o seu consulado. No papel de organizador, sem ter de jogar de costas para a baliza como nalguns jogos com Jesus e Peseiro, Bruno Fernandes está a fazer a melhor época da sua ainda curta carreira. 

Como atenuante, Keizer só tem à disposição actualmente 3 jogadores de top ( Bruno Fernandes, Acuña e Mathieu). Bas Dost ( nos dias bons), Wendel, Battaglia (lesionado), Raphinha e Coates são jogadores interessantes, mas falta mais qualidade, pelo que não se compreende como jogadores como Idrissa - única contratação de Inverno para a equipa principal que me parece ter revelado critério - não entram no "onze" e não são dadas oportunidades a jovens que não ficam aquém de alguns titulares.

14
Fev19

With a little help from my friends


Pedro Azevedo

"What would you think if I sang out of tune,
would you stand up and walk out on me?
lend me your ears and I'll sing you a song
and I'll try not to sing out of key.
Oh, I get by with a little help from my friends..." - With a little help from my friends (Beatles)

 

Sob o augúrio da visita do Submarino Amarelo a Lisboa, Keizer, provavelmente inspirado pelos Beatles, afirmou: "o Sporting não é Bruno Fernandes e mais 10". Tendo em conta as dificuldades sentidas por Gudelj em sair rapidamente da zona de pressão, dar fluidez ao jogo e ser um tampão efectivo às progressões adversárias eu estou tentado a concordar com a frase. De facto, o Sporting não é Bruno e mais 10, é talvez Bruno e mais 9...

 

P.S. Não dispensa a constatação de que Acuña é um grande jogador, que alia técnica e raça dignas de um campeão, o que lhe permite integrar o póquer de ases do baralho de Alvalade, na companhia de Bruno e dos já veteranos Nani e Mathieu.

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10
Fev19

The Good, the Bad and the Ugly, um filme de Leão


Pedro Azevedo

O filme caracteriza-se pela permanente tensão que envolve os três treinadores: Jorge Jesus, o "Mau", José Peseiro, o "Feio", e Marcel Keizer, o "Bom". Todos perseguem o pote de ouro debaixo do arco-iris, a conquista do campeonato nacional, perante uma massa associativa sedenta de vitórias e um enquadramento desfavorável no futebol português.

 

Jesus aparece em Alvalade como o treinador mais caro da história do clube e por larga margem, o homem que encerraria em si conhecimentos que, supostamente, o tornariam mais valioso do que uma Estrutura. Sempre hábil a chamar para si os louros nos momentos das vitórias no clube rival, logo no seu primeiro ano no novo clube (que viria a revelar-se a sua melhor época) duplica o orçamento que Leonardo Jardim e Marco Silva tiverem disponível. Não ficaria por aqui, pois no seu terceiro e último ano a conta de exploração chegaria a apresentar o triplo dos custos (com pessoal) face aos seus predecessores. "Pistoleiro" sempre pronto a esvaziar o carregador, vai exaurindo os cofres do clube com as suas renovadas exigencias, obrigando a sucessivas contratações de jogadores, muitos deles rapidamente abandonados pelo treinador e caídos em desgraça. Enquanto isso, a aposta em novos jogadores da Formação é praticamente abandonada, registando-se apenas o lançamento de Gelson Martins e de Ruben Semedo (Leonardo dera oportunidade consistente a Adrien, William, Cedric, Mané, Wilson Eduardo e André Martins, Marco reforçara-a no que respeita aos 3 primeiros e apostara convictamente em João Mário). A sua amizade com o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, incomoda, mas é a ausência de títulos e a extrema tensão superveniente que acaba por o empurrar para a porta de saída. Com ele, e embora o clube tenha aumentado os seus proveitos ordinários - fruto essencialmente do crescimento da bilhética, das receitas da Champions e do contrato de DireitosTV celebrado com a NOS - , o Sporting torna-se novamente dependente da venda de jogadores (a seu favor, as maiores vendas da história do clube) para cobrir o défice operacional, algo que inverte dramaticamente a estratégia seguida nos dois primeiros anos da gestão do então presidente Bruno Carvalho.

 

Envolto num clima de forte tensão política no clube, eis que chega Peseiro. Treinador mal-amado em Alvalade, devido ao campeonato e Liga Europa ingloriamente perdidos na temporada 2004/05, o coruchense procura redimir-se junto da massa associativa leonina. Desde os primeiros tempos, é notório que a proposta de futebol positivo da sua primeira passagem evoluiu agora para um cinismo mais próprio da escola italiana. O jogo agora é feio e chega a contemplar a figura dos três tristes trincos no meio-campo. Apesar disso, a equipa mantém-se próxima dos lugares da frente. No entanto, tudo se desmorona após uma inesperada derrota caseira contra um clube dos escalões secundários, a contar para a Taça da Liga. Sob pressão dos associados, o treinador não resiste e é despedido.   

 

Eis que chega então Marcel Keizer. Sem currículo apreciável - destaca-se apenas uma passagem de meia dúzia de meses pela equipa principal do Ajax - o treinador começa por conquistar os exigentes adeptos dos leões. Sete vitórias em outros tantos jogos e um saldo de golos favorável de 22 (30 golos marcados e 8 sofridos) encantam o povo, subitamente desperto para uma radical mudança de paradigma. Keizer afirma-se aos olhos dos adeptos como o "Bom", um produto de uma escola idealista de futebol positivo, que vai vencendo barreiras levemente xenófobas e conquistando os sportinguistas e os amantes de futebol em geral. Neste período, o treinador holandês acaba com o excesso de trincos e promove um jogo posicional assente em trocas de bola a 1/2 toques, movimentos constantes de aproximação à bola, início de construção pelos centrais, laterais simultaneamente subidos, movimentos interiores dos alas e recuperação de bola em 5 segundos. Tudo isto num sistema táctico de 4x3x3. Para além disso, parece apostar em jovens. Num jogo a contar para a Liga Europa lança Thierry Correia. No seguinte, de uma assentada reforça a confiança no lateral direito e dá também oportunidades a Bruno Paz e a Pedro Marques. Os adeptos leoninos estão em delírio. 

 

Chega então o fatídico jogo de Guimarães. Começa a sentir-se o cansaço em certos jogadores nucleares, os movimentos perdem a fluidez original. Para além disso, há erros individuais que impedem a equipa de carburar. O treinador mantém Diaby em campo os 90 minutos, ele que faz um jogo desastrado, tanto na ligação com os colegas como no momento da concretização. Exibição que viria a repetir em Tondela, novamente com consequências desastrosas. Paira agora a dúvida. Alguns dos iniciais resistentes ao treinador, que já se preparavam para meter a viola no saco, ganham um suplemento de alma. Regressa o discurso da desadaptação de Keizer, da fraqueza da sua transição defensiva, da sua exposição aos ardilosos treinadores tugas. Keizer passa num instante a ser o "Mau" e as suas convicções parecem estar a ceder perante a necessidade imediata de resultados.

 

Aproxima-se a Final Four da Taça da Liga e Keizer é agora um treinador mais pragmático. O Sporting sobrevive quase miraculosamente a um jogo em que foi inferior (Braga) e está na final contra o todo-poderoso Porto. No jogo decisivo, a equipa faz uma bela primeira parte, mas circunstâncias diversas adversas acabam por a empurrar para um pragmatismo assente na resiliência face a sucessivas vagas do adversário. Quando finalmente em desvantagem, consegue voltar ao jogo e acaba por vencer a competição. Keizer é agora o "Feio" - comparações são imediatamente feitas com Peseiro - , mas consegue levar para Alvalade o troféu. 

 

Segue-se uma partida em Setúbal que faz a equipa desgastar-se em demasia, obrigada a superar-se em desvantagem numérica e no marcador. É a antecâmara da recepção ao Benfica. Entre lesões, castigos e impedimentos vários, o Sporting é batido sem apelo nem agravo. Mais do que a derrota, a imagem que fica é de uma total impotência face ao seu adversário. Uma humilhação! O ciclo ainda não terminou e há ainda uma partida para disputar na Luz, a contar para a Taça de Portugal. Teme-se nova debacle, as circunstâncias do jogo não ajudam, mas a equipa não cede, mostra que está com o treinador, e consegue voltar ao jogo e à eliminatória. 

 

O próximo ciclo de jogos permitirá perceber melhor quem é Keizer. O treinador dos 7 primeiros jogos, a que acrescentarei os dois na Feira para as taças e a primeira parte da final da Taça da Liga com o Porto, é o "Bom". Gosto da sua ideia de futebol positivo, da fleuma com que atura jornalistas e as circunstâncias nem sempre favoráveis em que está envolta a sua profissão. Recorrendo por vezes ao sentido de humor e evitando a desculpabilização tão própria dos seus antecessores. Pode ser que este novo ciclo permita uma maior rotatividade ao plantel, que Geraldes e Idrissa possam ser convenientemente testados, que Acuña, Miguel Luís ou Montero estejam totalmente disponíveis, que jovens como Thierry possam ter finalmente uma oportunidade consistente. Está tudo nas mãos de Keizer e na sua fidelidade às suas ideias e convicções. (Ou, pelo menos, espero que não haja restrições de cima que o impeçam de escolher os melhores.) E eu espero que estas vençam. Um treinador que criou tão grande ilusão entre os sportinguistas não pode sair pela porta pequena. 

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09
Fev19

Ironia fina em holandês


Pedro Azevedo

"Nos últimos 5 jogos, ganhámos uma meia-final e uma final. Quer dizer, a Taça estava no autocarro, por isso creio que a ganhámos..." - Marcel Keizer, hoje, em conferência de imprensa

04
Fev19

A Entourage


Pedro Azevedo

Não, não me refiro à homónima série de comédia dramática da HBO. O título deste postal alude ao grupo de pessoas que gravita em torno de Keizer e o texto pretende questionar se têm (ou não) algo a ver com o abandono dos sedutores princípios de jogo do holandês, os quais criaram uma agradável ilusão outonal nos adeptos leoninos. É que há uma diferença substancial entre o "ser" Keizer e o actual "estar" de Keizer e isso deixa todos os sportinguistas intrigados.

 

De uma forma perfeitamente inopinada, o futebol atractico, sedutor - de posse, aproximação à bola, 1/2 toques, envolvimento interior dos alas, saída de bola pelo centro e recuperação em 5 segundos - de Keizer desapareceu. Há quem diga que se adaptou, há quem diga que o seu romantismo é que nos levou a este estado de coisas, uma coisa é certa: hoje, nem ganhamos nem nos divertimos. Como tal, é importante tentar compreender as causas desta súbita, inesperada e radical reviravolta de acontecimentos.  

 

A informação não abunda, por isso na busca de pistas que ajudem a compreender o que efectivamente se passa gostaria em primeiro lugar e neste postal de entender qual o papel do adjunto Rodolfo Correia em tudo isto. Quando chegou, li que vinha complementar as tácticas de Keizer devido ao trabalho defensivo que desenvolvia. Será que na procura do equilíbrio defensivo - 30 golos marcados e apenas 8 sofridos nos primeiros 7 jogos aparentemente não era suficiente - a ideia inicial de jogo se perdeu? Por outro lado, creio que anteriormente esteva a treinar a equipa B do Al Hilal de Jorge Jesus, na Arábia Saudita, logo longe de Portugal e da nossa realidade. Aliás, desde 2012, ano em que iniciou a sua carreira de treinador (adjunto), só durante 4 meses treinou em Portugal, no caso como adjunto de Jorge Paixão no Olhanense. O resto do tempo passou-o no Irão, Polónia, Brasil e Grécia. Assim sendo, e sem pôr em causa minimamente a sua competência, será Rodolfo Correia o homem indicado para explicar as manhas das equipas portuguesas e a realidade do nosso futebol ao seu chefe de equipa? Perguntas que ficam no ar e que se juntam à surpresa que advém das recentes contratações de Raul José e de Miguel Quaresma (outros antigos adjuntos de JJ) para, respectivamente, as áreas de Scouting e da Formação, que não deixam de causar estranheza, seja pela quantidade de "flops" que chegaram a Alvalade no tempo de Jesus, seja pela pouca aposta do treinador da Reboleira nos jovens formados em Alcochete. 

 

P.S. O que quer Bruno Fernandes dizer quando afirma (cito de memória) que "o problema foi que começámos a olhar para os pontos dos outros e deixámos de olhar para os nossos"? Devem presumir-se os "pontos" com ou sem aspas?

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20
Jan19

Cuidado com as comparações(2)


Pedro Azevedo

Muito se tem falado da peseirização do futebol de Keizer e a verdade é que nalguns jogos Keizer esteve longe de ser Keizer, mas confundir a entrada nos últimos minutos de Petrovic - e concomitante adopção do duplo-pivot - com uma táctica de raíz que partia do duplo-pivot e, por vezes, evoluia (com muito tempo para jogar) para um trivote parece-me um absurdo.

Em simultâneo, existem outros críticos que censuram Keizer pelo seu futebol iminentemente ofensivo (em que ficamos?) e falta de compensação defensiva, situações apresentadas como causas para o nosso afastamento do título. Segundo esta teoria, Peseiro só estava a dois pontos do líder quando foi afastado e a sua substituição foi um erro.

Tendo ontem Keizer cumprido o seu 14º jogo ao leme da equipa principal do Sporting, exactamente o mesmo número de jogos em que Peseiro foi o timoneiro, já é possível estabelecer uma comparação fidedigna. E a verdade é que os números são arrasadoramente favoráveis a Keizer. Ora vejamos: Peseiro venceu 9 jogos (64,3%), empatou 1 (7,1%) e perdeu 4 (28,6%); Keizer triunfou em 11 jogos (78,6%), igualou 1 (7,1%) e foi derrotado em 2 (14,3%). O coruchense efectuou 8 partidas para a Liga, uma para a Taça de Portugal, duas para a Taça da Liga e 3 para a Liga Europa, o holandês jogou igual número de partidas para a Liga, 3 para a Taça de Portugal, uma para a Taça da Liga e duas para a Liga Europa. Registe-se que a contar para a Liga ambos ganharam 5 vezes, empataram uma e perderam duas. Analisando os golos obtidos e sofridos não deixamos de nos surpreender: a corrente realista que tanto elogiou a apreguada contenção defensiva de Peseiro não pode deixar de ignorar que nesses 14 jogos o treinador português só consentiu menos um golo que o holandês (14 contra 15), o qual é criticado pelo excessivo balanceamento atacante e falhas no processo de transição defensiva; já os números atacantes de Keizer falam por si próprios e envolvem uns esmagadores 41 golos marcados, contra apenas 24 de Peseiro, indicador que dá argumentos suficientes aos defensores de uma corrente, vamos lá, romântica de ver o jogo.

Em abono da verdade, talvez a verdade esteja no meio, como aliás muitas vezes acontece. Essencialmente, não me parece que a tentativa de procurar um equilíbrio entre as acções ofensivas e defensivas, por parte de Keizer, esteja a ser particularmente bem sucedida. Se analisarmos os seus sete primeiros jogos, o holandês fez o pleno de vitórias e a equipa marcou 30 golos e consentiu 8. Nos últimos sete, Keizer venceu 4, empatou 1 e perdeu duas vezes, marcando 11 golos e sofrendo 6. Poucas melhorias defensivas para tão flagrante perda de explosão ofensiva, e a sensação de que só nos 2 jogos com o Feirense a equipa foi leal o tempo todo à filosofia inicial de Keizer. Por tudo isto, mais do que compararmos Keizer com Peseiro, devemos é comparar os dois ciclos do treinador holandês e perceber o que mudou, no sentido de aferirmos se não valerá a pena uma nova inflexão que privilegie o futebol posicional que tão bons resultados nos trouxe inicialmente. Essa, para mim, é uma das discussões possíveis, a outra é sobre a controversa utilização de jogadores como Bruno Gaspar ou Diaby, súbita exclusão de Jovane e Miguel Luís ou falta de oportunidades de Luíz Phellype, tentando perceber se os que estão em melhor forma estão a ir (ou não) a jogo. 

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17
Jan19

Tudo ao molho e fé em Deus - À bomba!


Pedro Azevedo

Com o nosso melhor "onze" em campo, o Sporting voltou ao Keizerbol e desperdiçou inúmeras oportunidades. Deu até para o "remake" da adaptação leonina de "A Vida de Bryan", agora com Bas Dost como protagonista de mais um falhanço digno dos apanhados. Sem William...Tell, restou trocar a perícia pelo assalto à bomba, missão de que Wendel e Bruno Fernandes se encarregaram finalmente com sucesso.

Como bem sabemos, no futebol português, o resultado influencia em 99,99% a análise que se faz de um jogo. Na verdade, deveria ser a análise a explicar o resultado, mas não, por cá o resultado é que explica a análise. Vai daí, o Sporting fez, provavelmente, a exibição mais conseguida da era Keizer, mas ouvindo os comentadores ao intervalo não se ficava nada com essa ideia. No entretanto, Raphinha, Wendel e Bas Dost tinham tido a oportunidade de activar o marcador (com um tal Brígido sempre a estorvar) e o holandês chegou mesmo a fazê-lo, mas, à falta de VARíssimo, o Veríssimo decidiu que não. Do outro lado, de realçar apenas uma bola parada terminada com uma defesa de Salin a um remate (fora-de-jogo?) de ângulo difícil de Valência.

 

O segundo tempo começou praticamente com o tal falhanço absurdo de Bas Dost - só essa oportunidade mereceria uma crónica sobre a angústia de um avançado na hora de acertar mal na bola perante uma baliza escancarada - , logo seguido de um cabeceamento de Nani que passou ligeiramente por cima do travessão. Trocando a bola com eficácia, o Sporting ia destruindo as marcações dos fogaceiros, mas faltava sempre qualquer coisa na hora da concretização. Por ironia, acabaria por ser um solo de Wendel a resolver o problema: o brasileiro pegou na bola na meia esquerda, flectiu para dentro, com uma maldade tirou um defensor contrário da frente e decidiu-se por um remate em arco, misto de jeito e força, que só parou no fundo das redes e de uma forma que nem Santa Maria pôde ocorrer aos da Feira. Logo de seguida, uma bola que ressaltou para a entrada da área, após canto tenso de Acuña, foi parar ao pé direito de Bruno Fernandes. O maiato rematou de pronto, tão forte e colocado que nem deu tempo de reacção ao guarda-redes adversário. 

 

Até ao fim, de registar a estreia de Luíz Phellype, o qual se tiver a predisposição para os golos que tem para as consoantes será um caso sério. Para já, mostrou pontaria a mais, num tiro que acabou no poste da baliza feirense. Por último, uma menção especial para a actuação do guarda-redes Salin, o único leão que não entrou em descompressão após o segundo golo do Sporting, o que lhe permitiu evitar por três vezes o golo do Feirense, naquilo que podia ter sido uma inadmissível nódoa na exibição leonina e que envolveu pelo menos mais uma momentânea perda de razão do nosso defesa Coates. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel 

wendel.jpg(Fonte de imagem: Record)

16
Jan19

Cuidado com as comparações


Pedro Azevedo

Mesmo que Keizer perca os próximos dois jogos, contra Feirense e Moreirense, ainda assim igualará o "score" de Peseiro de 9 vitórias, 1 empate e 4 derrotas, em 14 jogos disputados para LIga, Taça de Portugal, Liga Europa e Taça da Liga. Para além disso, caso a equipa não marque nesses futuros encontros, contabilizaremos 37 golos obtidos com o treinador holandês face aos 24 golos com o coruchense. E, já agora, bastará não sofrermos golos nesses jogos para que Keizer equivale Peseiro no número de golos consentidos (14). 

Esta é uma outra forma de olharmos para os números, os quais não se resumem ao facto, verídico aliás, de Peseiro ter deixado a equipa a 2 pontos do 1º lugar na Primeira Liga. É que não só ainda faltavam 26 jornadas para disputar no campeonato como estavamos fora da Taça da Liga se a competição tivesse terminado quando o treinador português rescindiu. 

Quanto a aspectos qualitativos, bom, a melhoria com Keizer foi total: bom futebol, goleadas, esperança nos adeptos. Perante isto, só haverá uma forma de o ex-treinador do Ajax se igualar a Peseiro e passará por Keizer ser um anti-Keizer e começar a vêr em cada "Loures" desta vida um gigante Adamastor. To be or not to be (Keizer)? - a discussão segue dentro de momentos num estádio perto de si. 

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(Fonte imagem: MSN.com)

13
Jan19

Tudo ao molho e fé em Deus - A metamorfose


Pedro Azevedo

Era uma vez um treinador, de nome Marcel Keizer, que abandonou a sua terra natal para tentar uma carreira de sucesso em Portugal. As ideias eram positivas, o futebol agradável e assim o seu primeiro mês foi uma fábula feita de histórias de encantar cheias de vitórias e goleadas para entreter pequenos e graúdos leões. No entanto, um dia, e sem que nada o fizesse prever, Keizer acordou metamorfoseado em treinador tuga, uma classe futebolistica cuja especialidade consiste em empatar o adversário e o próprio adepto até à exaustão, entorpedecendo-os através da ausência de uma coluna vertebral de jogo que não passe pela adaptação à ideia do seu oponente, com a finalidade de ainda assim conseguir vencê-lo por entediamento (milagre futebolistico, tipo vitória no Euro) ou, simplesmente, cair de pé (milagre científico). Por ironia, passado o choque inicial, Keizer começou a preocupar-se mais com o atraso que já tinha na classificação do que com a sua transformação.

 

Kafka à parte, a primeira coisa que se me oferece dizer sobre o jogo de ontem é no sentido de demostrar o meu agrado pela forma como os cidadãos lusos aculturam os de outra nacionalidade que nos visitam. Sossegue pois a conservadora tribo do futebol cá do burgo, porque depois de umas semanas em que para os sportinguistas o mundo pareceu ter passado a rodar em sentido contrário ao habitual, é hoje uma certeza que tudo voltou à santa paz do Senhor e que Keizer não veio a Portugal para promover revoluções ou conquistar fortuna e fama, mas sim para se integrar nas tradições das nossas gentes, mostrando actualmente ser tão ou mais português quanto o mais insigne descente de D. Afonso Henriques. Não se estranhe, portanto, vê-lo proximamente numa corrida de touros em Barrancos ou a ouvir um fado no Senhor Vinho, a dançar o fandango saloio com as lavadeiras da Ribeira de Lage ou a bailar com os Pauliteiros de Miranda, a atacar uma bacalhauzada com grão ou a afiar o dente a um cozidinho bem acompanhado de um tinto carrascão. Adicione-se umas sacudidelas do muco espectorante para o meio da rua e umas buzinadelas nervosas no trânsito e será caso para lhe ser concedida com urgência uma autorização de residência permanente.  

 

Posto este singelo agradecimento, vou de seguida falar sobre o sentimento que me perpassou a mente - sim, consegui a custo mantê-la a funcionar - no jogo que presenciei ao vivo. Bom, na verdade, vi-o sob dois prismas diferentes: por um lado correu bem, na medida em que Keizer provou ser subtil, jogando com a mesma falta de ambição característica do Peseiro de 2018, mas sem dar tanto nas vistas. É verdade que não recorreu à dupla Dupond e Dupont de sérvios (só no fim) ou aos três tristes trincos. Bastou-lhe apostar em Diaby durante 81 minutos e ter um plano de jogo que consistia em eliminar o meio-campo, despejando bolas directamente da defesa para a cabeça de Bas Dost, à procura da 2ª bola, para que o serviço ficasse feito. Uma sonsice! Por outro lado correu mal, visto que afinal parece que precisávamos de ganhar, embora tal nunca tenha transparecido de forma tácita no terreno de jogo aos olhos deste espectador. 

 

Como cereja no topo do bolo desta forma tão singular de jogar futebol em Portugal tivemos a actuação do árbitro Hugo Miguel. Nem será caso para se dizer que no melhor pano caiu a nódoa, pois o jogo esteve longe de ter a qualidade pretendida. Não, a coisa foi tão "kitsch", que onde se lê pano dever-se-á substituir por naperon, perdão, Macron. Não estivesse a partida já aborrecida o suficiente, Hugo Miguel entrou num desatino de um festival de apito que penalizou todo e qualquer contacto ou simples acto de respirar na proximidade de um opositor. Desta forma, o juíz protegeu-se a ele em detrimento do espectáculo, enquadrando-se bem no espírito dos treinadores de cada equipa. No final, o público também pareceu satisfeito, pelo que não há como criticar a acção de todos os intervenientes.

 

Todos sabemos os condicionalismos deste início da época e as insuficiências do plantel do Sporting. Durante alguns jogos, Keizer retirou o máximo de sumo das laranjas que lhe puseram à disposição, mas chega um momento em que a fruta está toda espremida e não se pode esperar mais nada. A partir daí é só escolher a forma como se quer perder: com honra e fidelidade às ideias ou de forma a minorar os estragos. A minha esperança é que Marcelo Keizer (eu disse-vos que o homem já era nosso patrício) tenha aproveitado o jogo de ontem para fazer um "statement": "Ah, vocês têm a mania de que se adaptam à inovação e que isso é uma coisa do outro mundo, então eu agora vou mostrar-vos que também me adapto às vossas adaptações". Posto isto, e depois de dar uma lição aos treinadores rivais, é possível que Keizer volte ao seu registo anterior de futebol avassalador. E, fiél à sua regra, em cinco segundos. É que, se calhar, tudo o que ficou expresso em cima não passou de um sonho, reflexo de um joguinho disputado logo a seguir a um reconfortante almoço e com um persistente sol de Inverno a bater na moleirinha. Há que tentar manter a fé, não é?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jeremy Mathieu

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10
Jan19

Viver por uma ideia


Pedro Azevedo

Os últimos dias permitiram-me questionar quão débeis são as convicções dos sportinguistas. Na verdade, em essência, elas são como aquelas casas de madeira com telhados de colmo: abanam com o vento e são altamente inflamáveis. Talvez tal se possa atribuir à falta de títulos ou, simplesmente, seja uma forma singular de se ser português - e o Sporting, dos três "grandes", é o único que tem Portugal na sua denominação -, mas é relativamente comum observar os nossos adeptos dizerem uma coisa e o seu simétrico em menos tempo do que aquele que o Usain Bolt levava a percorrer o hectómetro.  

 

A felicidade para um sportinguista é comparável a estar de boa saúde: um estado transitório que não augura nada de bom. Por isso, nunca vivemos o momento - menos "carpe diem" e mais carpir o dia - e as vitórias são vividas com a angústia de quem percepciona que só se está a adiar o inevitável. Enquanto os outros comemoram esfuziantemente os seus triunfos, nós mostramos aquele recato de quem já se está a prevenir para uma futura desilusão. No fundo, temos medo de ser felizes.

 

No presente, isto nota-se no sentimento para com Marcel Keizer. O treinador holandês chegou e em tempo record, praticamente sem treinos, montou um esquema táctico assente em ideias de um futebol positivo. As vitórias vieram em catarse. Os golos também. Disputámos sete partidas, vencemo-las todos, marcámos trinta golos e consentimos oito. Qualquer adepto de aquém e além mar ficaria transbordante de alegria. Os sportinguistas não. Históricamente, e como disse em cima, é muito fácil abanar a convicção de um sportinguista, seja ele adepto, jogador, treinador ou presidente, e os nossos adversários, rapidamente, puseram em marcha um plano destinado a, primeiro, criar a dúvida, depois a discórdia. A coisa começou com a apresentação de um fragmento da realidade, os golos sofridos pela nossa equipa na era Keizer. Este chavão, muitas vezes repetido, começou a fazer mossa, porque muitos sportinguistas morderam o anzol e desataram a dar-lhe eco. Acontece que o contido Keizer às tantas acrescentou um pouco de cor às suas conferências de imprensa e declarou preferir ganhar por 3-2 do que por 1-0. Caiu o Carmo e a Trindade. Logo os jornalistas encostaram o microfone a Sérgio Conceição - sempre pronto a dar uma bicada a um treinador rival como o episódio com Rui Vitória abundantemente demonstra - e este não se fez rogado e perorou sobre as vantagens do 1-0 e da solidez defensiva, a base de um conjunto de preconceitos na qual o treinador português se protege e, simultaneamente, se ancora para afirmar a sua pretensa superioridade perante o mundo, e que ganha outra expressão pelo feito de termos ganho um Campeonato da Europa, mesmo que com apenas uma vitória (em sete jogos) no tempo regulamentar e com uma equipa onde se destacava o melhor jogador do Mundo (Cristiano Ronaldo). 

 

Assim, um simples "spin" comunicacional deixou-nos a duvidar de nós próprios. O Leitor consegue imaginar que um ladrão se vá preocupar com o desgaste da broca do berbequim que usou para arrombar o canhão de uma fechadura depois de assaltar uma residência de luxo e daí extrair um valioso recheio? É provável que sim, se o ladrão for sportinguista. Em vez de não nos deixarmos enganar e valorizarmos os bons espectáculos de futebol que Keizer nos servia, logo nos deixámos contaminar pela opinião pública. Acredito que estas coisas se propagam como os incêndios nos telhados de colmo e que chegam a jogadores, técnicos e restante Estrutura. E a verdade é que, a partir de Guimarães, foram introduzidas algumas nuances no nosso jogo que lhe retiraram espontaneidade ofensiva, tudo em nome de uma suposta melhor solidez defensiva. E estou em crer que essa procura de equilíbrio está na origem do desequilíbrio que nos conduziu às derrotas na cidade-berço e em Tondela. Como?

 

Se observarmos bem, alguns princípios introduzidos por Keizer não estiveram tão presentes nesses jogos. A saber: a saída de bola deixou de ser feita exclusivamente pelo centro, os centrais foram muitas vezes rendidos pelo trinco ou pelos laterais no início de construção, o trinco deixou de estar na sua posição para recuar uma linha e pegar na bola - alargando o fosso para os outros dois homens do meio campo -, os laterais deixaram de fazer movimentos de profundidade que mais não eram do que um engodo para a bola voltar ao centro, os alas esticaram em largura em detrimento dos movimentos interiores de outrora - ficando assim desposicionados para a transição adversária -, finalmente o banco de suplentes só tinha um jogador atacante, como que demonstrando que a preocupação era a de preparar a equipa para o combate do meio-campo. Se isto não é adaptação e estudo do adversário e, em certa medida, aculturação ao meio envolvente, então não sei o que diga.  

 

Eu quero que Keizer volte a ser Keizer, com o seu futebol avassalador feito de vertigem atacante, mesmo que isso nos cause alguns contratempos. Se tudo estiver destinado no sentido de este período ser o Inverno do nosso descontentamento, então prefirirei sempre ter vivido o sonho de uma(s) noite(s) de Outono com Keizer do que a crónica de uma morte anunciada, que era o que nos estava destinado com Peseiro (com o devido respeito pela pessoa). Até porque é sempre bom vivermos e morrermos pelas nossas convicções, em detrimento de o fazermos pelas convicções de outros, os quais muitas vezes estão só à espera de uma escorregadela para iniciarem as hostilidades, naquilo que configura uma estranha forma de vida sportinguista.

 

Não é de hoje a permeabilidade dos sportinguistas. Vem de trás e não se prende só com as análises que são feitas sobre os treinadores. Analisemos o caso de Acuña: no outro dia, ouvi um comentador do nosso clube queixar-se de falta de atitude dos jogadores, na mesma frase criticando também o argentino por motivos disciplinares. Ora, na minha opinião, o esquerdino é daqueles jogadores raçudos, de antes quebrar que torcer, que dá tudo pela equipa. Se jogasse no Benfica seria incensado, elevado ao olimpo dos deuses. Provavelmente, com um currículo disciplinar mais benigno, do tipo de um Ruben Dias ou de um Fejsa, qualquer um deles bem mais faltoso do que o nosso jogador. Mas, como joga no Sporting, o seu cadastro é o que é. No outro dia, em Alvalade, assisti a um jogo onde a equipa adversária durante 30 minutos bateu em tudo o que mexeu equipado de verde-e-branco, conseguindo assim intimidar a nossa equipa. A coisa só parou quando Acuña "mostrou os dentes". Reacção do público: "lá está o Acuña outra vez a fazer das suas". É difícil conviver com isto e imagino que seja complicado para o jogador aceitar isto dos seus adeptos, também. 

 

O texto já vai longo, mas gostaria para terminar de lembrar algumas das nossas célebres indecisões (ou perda de convicções) que poderão estar na origem dos insucessos presentes: após a caminhada triunfante de 1999/2000, em que o italiano DiFranceschi muito se destacou, deixámos sair o ala para Itália. Alegadamente, porque não quisemos pagar uma cláusula de opção de 1,5 milhões de euros. Espalhou-se o boato de que o jogador andava na noite, talvez para justificar a decisão, mas se andava disfarçava bem, até porque de dia, naquelas segundas partes em que defendiamos sempre o resultado, era ele quem nos levava para a frente com as suas imparáveis cavalgadas. Resultado: o italiano saiu e chegaram Alan Delon, perdão, Mahon e um tal de Tello, que custou uns módicos 6 milhões de euros conforme na altura foi anunciado. Depois, despedimos o treinador campeão (Augusto Inácio), que nos tinha resgatado de 18 anos de jejum. Mourinho esteve para ser apresentado, mas meia-dúzia de energúmenos que invadiram a sala de conferência de imprensa foram determinantes para inviabilizar a sua contratação, não obstante os rumores da época indicarem que tivemos de indemnizar o treinador setubalense por quebra contratual. Resultado: nem demos tempo (ou mostrámos apreço) a um treinador campeão e sportinguista nem contratámos o emergente "Special One". Enfim, muitos anos, muitos casos - podia falar aqui da aposta mais ou menos envergonhada na Formação -, mas sempre com uma matriz comum, a falta de convicção. Por isso, pela nossa felicidade, por uma vez, deixem Keizer ser Keizer, o nosso Dr. Feel Good. E, já agora, deem-lhe alguma matéria-prima de qualidade, a fim de que pelo menos no "onze" base não se notem insuficiências.

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