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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

19
Mai19

Tudo ao molho e fé em Deus - Cantos do cisne


Pedro Azevedo

No futebol português, os árbitros parecem nutrir especial simpatia por quem os intimida. Não há revolta nem indignação perante a opressão, apenas afecto e compaixão, um estado psicológico vulgarmente denominado de Síndrome de Estocolmo, em alusão à reacção dos reféns sequestrados no Kreditbanken daquela cidade em 1973. Nesse transe, qualquer tipo de possibilidade de libertação é vista como uma ameaça, ou não estivesse ainda bem presente na mente dos árbitros a invasão ao Centro de Treinos da Maia, ou pedidos presidenciais de veto a um certo árbitro. Isto não é verdade, é veríssimo. Aliás, Veríssimo. Talvez por isso, uma falta duríssima de Felipe sobre Bruno Fernandes, a qual, para além do mais, evitou um promissor contra-ataque leonino, pôde passar em claro sem admoestação, mas a contenção digna de elogio de Acuña perante múltiplas agressões consecutivas acabou "premiada" com um cartão amarelo. Toda uma quantidade de decisões aberrantes que atingiram uma proporção tão inimaginável este ano quanto a outrora remota possibilidade deste Vosso escriba pensar em recomendar aos dirigentes do seu clube que comecem a estudar a possibilidade de integrarem a La Liga. 

 

Por um lado, se calhar até devemos estar agradecidos a Fábio Veríssimo por ter expulso Borja, um ilusionista da bola, evitando assim um bem possível Jamor de perdição para o colombiano sob a forma de um daqueles lances fatais (3 nos últimos 3 jogos) em que ele está lá mas a culpa parece sempre ser exclusiva de outrém. Por outro, aproveitando a maré, penso que é de repreendê-lo por nada ter feito para evitar que Bruno Gaspar tenha ido a jogo. Se lhe tivesse dado um cartão vermelho antes da partida ter começado, talvez Keizer se visse obrigado a ir ao estágio da selecção de sub-20 resgatar Thierry Correia. Também se teria evitado aquele passe despropositado do lateral direito que nos fez ficar a jogar com 10 elementos desde os 17 minutos, embora Borja não tenha ficado isento de culpas, ele que pareceu ter engatado mal a mudança e assim permitiu a Corona, que partiu uns bons 3 metros atrás, ganhar-lhe a dianteira. Em todo o caso, como atenuante para o árbitro, é de destacar o facto de desta vez Petrovic e André Pinto terem mantido a integridade dos seus narizes, algo que a dado momento pareceu pouco plausível perante a impetuosidade dos "sarrafeiros" (que o diga Felipe) jogadores portistas.

 

Já a Keizer não podemos estar muito agradecidos: aquela sua obstinação em manter Bruno Fernandes deverá ter provocado alguns AVCs entre os mais fervorosos adeptos dos leões e poderia ter custado a ausência do nosso capitão no Jamor. É que a partir de certo momento tornou-se claro para todos menos para o holandês que Bruno e Acuña estavam marcados pelos portistas, facto evidenciado em todo o seu esplendor na confusão criada à volta do argentino no lance do qual, ironia do destino, resultou a expulsão de Corona. 

 

Apesar da inferioridade numérica, o Sporting até se colocou em vantagem: Acuña fez barba e cabelo, primeiro num corte a um adversário com pêlo na venta, depois a assistir Luíz Phellype, dando pelo meio um bigode a uns opositores cheios de vontade de lhe retribuirem com uma "pêra". O Felipe das Consoantes também não se fez rogado e marcou o seu oitavo golo em outros tantos jogos. Pena que a equipa tenha estado desastrada nos cantos, perdendo diversos duelos com os seus adversários, deles resultando os dois golos portistas marcados no limite do fora-de-jogo. Mathieu, Renan, Acuña e Luíz Phellype, os melhores leões nesta noite, não mereciam tamanha traição de uma marcação tipo Zona J, que nos deixou socialmente excluídos dos três pontos.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Marcos Acuña

golo luíz phellype.jpg

13
Mai19

Cenas eventualmente chocantes


Pedro Azevedo

coentrão rio ave benfica.jpg

Destas e doutras cenas eventualmente chocantes se fez a deslocação do Benfica a Vila do Conde, onde um equívoco ou desconhecimento profundo das regras da arbitragem, por parte de Hugo Miguel (e do VAR), ficou ainda mais a nu (em cima do intervalo, validação do golo de Felix) do que o Samaris. Assim vai o pouco recomendável futebol português. 

 

P.S. Fora das minudências do futebol português, o Sporting obteve ontem o seu 35º troféu europeu, consolidando-se como a maior potência desportiva nacional, isso sim uma "cena" digna de registo. 

12
Mai19

Tudo ao molho e fé em Deus - Adeus à Champions


Pedro Azevedo

O jogo começou com os acordes de "O mundo sabe que..." ainda a serem entoados, algo infelizmente tão comum como o Ristovski ser expulso na véspera de uma partida contra outro grande do futebol português.  

 

Logo de início, o Borja atrasou uma bola à balda. Mathieu ainda tentou estorvar o mais que pôde, mas já não conseguiu evitar que frente a frente ficassem os dois jogadores mais subvalorizados desta Liga: Tomané e Renan. Venceu o duelo o nosso guarda-redes, tocando a bola miraculosamente para canto. 

 

Aos 4 minutos, o Ristovski apareceu solto na direita do ataque e centrou para o Acuña rematar. A bola saiu meio prensada, mas o Luíz Phellype, na pequena área e de costas para a baliza, conseguiu dominá-la. Quando se ia virar, o Ricardo Costa puxou-o e Tiago Martins assinalou o castigo máximo. Chamado a converter, Bruno Fernandes marcou como de costume, o 32º golo da sua conta pessoal esta época.

 

Um jogador do Sporting foi apanhado em fora de jogo e, seguindo as recomendações, o auxiliar deixou seguir. O comentador da SportTV, um tal de João Aroso, ficou incomodado. Segundo ele, o adiantamento era tão evidente que deveria ter sido logo levantada a bandeirola. Tendi a concordar. [O pior veio depois: já na segunda parte, um jogador do Sporting foi apanhado milimétricamente em fora de jogo e o auxiliar prontamente sancionou. João Aroso voltou a aplaudir e eu fiquei de pé atrás. Foi só esperar mais um pouco para que a cena se repetisse, só que agora estando Wendel perfeitamente em jogo. Desta vez, Aroso não falou.]

 

O jogo ia caminhando para o intervalo. Borja acumulava faltas e ofensivamente mantinha-se fiél ao "inconseguimento" da Assunção Esteves. Eis então que Ristovski aparentemente dá um pisão a um tondelense. (Um indivíduo subscreve um canal pago para depois ter acesso a umas imagens que mais parece terem sido filmadas de Marte.) Ora, como toda a gente sabe, o pisão tem uma medida de intensidade variável, com uma força aplicada máxima em Alvalade e mínima no Dragão e na Luz. Vai daí, o Tiago Martins expulsou o (C)risto, o qual chegou assim à terceira estação da sua Via Crúcis. E só não foi penálti porque o Tomané antes tinha ajeitado a bola com o braço, pelo que o jogo estava interrompido. Com 10 em campo, o Keizer decidiu mandar o Borja continuar a fazer miséria, mas agora na lateral direita. Recuou o santo do Acuña para a lateral esquerda...

 

A etapa complementar começou com o Tondela mais afoito e, lançado por Tomané, Delgado falhou escandalosamente o cabeceamento. O mesmo jogador, logo de seguida, agarra Acuña e impede-o de progredir rapidamente para o ataque. Já com um amarelo, Tiago Martins perdoa-lhe a expulsão. Junto à linha, com um sorriso irónico e braços abertos, não é difícil imaginar o que vai no pensamento de Keizer: "this s**t is a joke (part II)". O Sporting está na sua melhor fase do jogo e Bruno Fernandes (lançado por Raphinha), primeiro, Luíz Phellype (assistência de Acuña), depois, e Mathieu (outra vez Raphinha) perdem o duelo contra Cláudio Ramos, o guardião tondelense. O jogo está partido, Borja não acerta uma, Gudelj está desgastado, mas o Tondela, nervoso, não consegue ligar o jogo, pese embora a entrada de Xavier tenha melhorado a equipa.

 

O Tondela deposita esperança num canto e acaba por ser feliz: num duelo aéreo de Brunos, o Monteiro bate o Fernandes e toca a bola para a entrada da pequena área onde aparece Tomané a desviar para a baliza. Keizer decide mexer, trocando Borja por Ilori, mas nada de substancial se altera. Manda então Bas Dost - amarelado no banco na sequência de uma simulação de um jogador do Tondela não sancionada disciplinarmente pelo árbitro - para o campo, por troca com Wendel. Com Bruno à direita, Raphinha à esquerda, Luíz Phellype e Dost no centro do ataque, o Sporting cria novamente perigo, mas eis que o treinador holandês volta a mexer, tirando o ponta de lança brasileiro e colocando Diaby. Foi o canto do cisne! Se o meio-campo já não tinha tracção, pior ficou. Em vez da troca de Gudelj por um fresco Doumbia, a entrada do maliano acentuou a clareira na nossa zona defensiva. Malgrado o esforço de Mathieu, obrigado aos 35 anos a fazer piscinas acima e abaixo de forma a ligar o jogo dos leões, o Tondela pôde então encontrar espaços para circular a bola e só por ansiedade não causou mais perigo. Ainda assim, num livre soberbamente executado por Xavier, Renan brilhou com uma das melhores defesas deste campeonato. Noutra ocasião, um desvio milagroso em Acuña evitou o pior.

 

E assim, ingloriamente, o Sporting despediu-se pelo seu próprio pé da edição da Champions de 2019/20. O bom senso recomendaria poupar alguns jogadores nucleares (Bruno, Acuña, Mathieu, Raphinha) na última partida do campeonato, guardando-os para a final da Taça e evitando aquelas contrariedades que se costumam abater sobre nós antes dos jogos decisivos. Enfim, pode ser que chegue finalmente a oportunidade de Francisco Geraldes.

 

Meus caros, é tudo por hoje. Vou imediatamente deitar-me, antes que o Piscarreta me entre pelo ecrã da televisão adentro e me provoque uma insónia daquelas...

 

P.S. Uma pergunta: o que é que os sapientíssimos "Scouters" do futebol português, que substituiram os antigos Olheiros, não vêem em Tomané?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Acuña. Boas exibições também de Raphinha e Mathieu. Entrevistado no final do jogo, o francês disse que queria "seguir" por cá. Nós, adeptos, também queremos seguir com ele.

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06
Mai19

Tudo ao molho e fé em Deus - Killer Instinct


Pedro Azevedo

Em Manhattan, as ruas não têm nomes mas sim números. No Jamor, a equipa da casa também não tem nome. E hoje o Sporting deixou-a feita num oito. É o que geralmente acontece no futebol quando, de um lado, se reúne uma equipa com tendências suicidas e, do outro, uma (finalmente!!!) com "killer instinct".

 

Silas será, porventura, um treinador para equipa "grande", com guarda-redes, defesas e médios com qualidade técnica superior que garanta alta eficácia de passe perante o risco iminente. Numa equipa média, tal ambição assemelha-se a praticar trapézio sem rede e a queda pode ser bem dolorosa. Ainda assim, os azuis estão fora de perigo, no nono lugar da tabela classificativa, sinal de que a estratégia serviu para o nosso campeonato, facto digno de realce num clube (SAD?) com as dificuldades por todos conhecidas.

 

Num final de tarde triste para Muriel, acabou por ser Guilherme, o seu substituto, a "pagar as favas" (são verdes...). Tudo começou quando aos 4 minutos o guarda-redes brasileiro arriscou um passe para Eduardo, que estava pressionado por dois adversários. Da perda de bola subsequente resultou, primeiro, um remate de Raphinha que encontrou Luíz Phellype (deitado) no caminho da baliza e, depois, um chuto de Bruno Fernandes salvo sobre o risco por Cleylton. Em condições normais, tal seria considerado um aviso. Acontece que, 6 minutos depois, Muriel repetiu a gracinha e agora com consequências bem mais gravosas para a sua equipa: Raphinha interceptou a bola, iludiu um defensor contrário e rematou de pé direito para o primeiro golo do jogo. (Ou como uma ideia de sair a jogar se transforma em hara-kiri.) 

 

Se as coisas já não estavam a correr bem a Muriel, ainda viriam a piorar: Bruno Fernandes e Raphinha combinaram para aplicar na prática o enunciado da Lei de Murphy e o guarda-redes acabou expulso. Silas alterou o seu 3-5-2 para um 4-4-1, fazendo sair um dos centrais e baixando os alas para posições defensivas, a fim de que pudesse entrar alguém para a baliza. Em cima do intervalo, Bruno Fernandes, com um toque de magia (calcanhar), serviu Luíz Phellype para o segundo golo dos leões, o sétimo do brasileiro em seis jogos consecutivos a marcar.  

 

No início da etapa complementar, o Sporting abrandou um pouco o ritmo. Os azuis ameaçaram e à segunda tentativa reduziram o marcador. Mas estava escrito que o dia não seria bom para os pupilos de Silas e, para prová-lo, nada como Gudelj finalmente mostrar a sua lendária, dir-se-ia até hoje mitológica, meia distância, ainda que para tal tenha beneficiado de uma carambola digna do Mundial de Snooker que se está a disputar em Sheffield, Inglaterra. Com o golo sofrido, os azuis definitivamente baixaram os braços. Já desorientados, de uma bola perdida na sua área viria a resultar um penálti desnecessariamente cometido sobre Luíz Phellype. Na conversão, Bruno Fernandes marcou o seu primeiro da tarde. Com 20 minutos ainda para jogar, o Sporting manteve a pressão, revitalizando o miolo do terreno com a entrada de Idrissa Doumbia para o lugar de um pouco intenso Wendel. Bas Dost preparava-se para ir a jogo, mas o Felipe das Consoantes não abandonaria o campo sem deixar pela terceira vez a sua marca no jogo, interpondo-se entre um defesa e o guarda-redes adversário e servindo em bandeja de prata Bruno Fernandes para novo golo. Mal entrou, o holandês marcou: nova bola perdida pelos azuis no seu meio-campo e Bruno Fernandes a servir Dost, o qual marcou à segunda. Depois, Acuña centrou da esquerda e Bruno Fernandes, sem deixar a bola cair, completou o hat-trick, obtendo o seu 31º golo da época, um record europeu para um médio. A partida não terminaria sem que Doumbia se estreasse a marcar - aventurou-se em caminhos que para o colega sérvio seriam o Cabo das Tormentas -, após assistência de Diaby (e belíssima simulação de Dost), na sequência de um passe de ruptura de (quem mais?) Bruno Fernandes (31 golos, 18 assistências, participação importante em outros 16 golos, ou seja, influência em 59,6% dos golos do Sporting). Foi o 109º golo da temporada, marca que suplanta os 108 golos da última temporada de Jorge Jesus, quando ainda faltam 3 jogos para terminar esta época.

 

Em conclusão, na jornada em que deixou de ter hipóteses matemáticas de ganhar o campeonato, o Sporting registou a sua vitória mais robusta da época. O "killer instinct" tão arredio ao leão rampante - na década de 90 já Bobby Robson se queixava da sua ausência - acabou por se manifestar de forma exuberante, algo inimaginável num campo onde o mais que provável futuro campeão nacional perdeu por dois golos de diferença (na Luz, o Benfica também não bateu o Belenenses SAD). Uma pequena compensação e mais uma demonstração do sortilégio do futebol, a fazer-me lembrar um outro 8-1, ao Braga, que há 35 anos atrás presenciei no antigo José de Alvalade. Dia 25 voltaremos ao Estádio Nacional, na esperança de que desta vez não haja um (J)amor de perdição que tudo deite a perder. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes. Menções honrosas para Luíz Phellype e Raphinha. Destaque especial para o regresso de Bas Dost (1 golo). 

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28
Abr19

Tudo ao molho e fé em Deus - O Castro e o ferro


Pedro Azevedo

Durante um quarto de hora, o Sporting abdicou de se acercar das muralhas do Castelo de Guimarães. A tarde, soalheira, convidava mais à praia do que a batalhas castrenses e um Sporting invulgarmente contido preparava o engodo para adormecer os vimaranenses. Propositadamente, ou devido aos ajustamentos necessários à integração de um novo elemento (Doumbia) numa zona vital do terreno, a equipa mantinha-se na expectativa. Entretanto, o Vitória tinha a ilusão de que controlava o jogo e ia trocando a bola de pé em pé. Convencido de que a melhor defesa é o ataque, o líder vimaranense ordenara aos seus guerreiros para atacar o último reduto leonino e Davidson esteve à beira de causar danos profundos, não fora um mau domínio no momento decisivo quando já só tinha Renan pela frente. Sentindo o perigo, os leões iniciaram a exploração do espaço nas costas do adversário. Primeiro desastradamente através de Diaby, um homem lançado brilhantemente por Keizer para criar no adversário a utopia de que nada tinha a temer. Sem que os de Guimarães o pudessem sequer imaginar, em pouco tempo o Sporting transformaria o castelo em ruínas arqueológicas dignas de um Castro. Como sabem, um Castro é típico da idade do ferro e Raphinha, Bruno Fernandes e Phellype substituiram o Carbono-14 nos testes ao metal. Pressentindo que os vimaranenses estavam datados, os leões atingiram pela primeira vez o seu coração, contando para isso com a colaboração de um observador independente - não vislumbrou uma manobra irregular fora da sua área do argentino Acuña - e de um cavalo de tróia, o antigo vitoriano Raphinha (autor do 100º golo do Sporting na temporada). Antes de uma breve trégua retemperadora de 15 minutos, tempo ainda para Phellype realizar o quarto e último exame ao ferro.

 

Reatada a batalha, Bruno Fernandes voltou a ameaçar as muralhas de Guimarães. Seria o presságio para o que viria a seguir: Raphinha dançou à porta do castelo, iludindo dois vimaranenses que a protegiam, e permitiu a Phellype finalmente arrombar a casa da guarda, a sexta vez que o faz perante cinco oponentes consecutivos diferentes.

Os vitorianos não desistiram e Keizer voltou a ser brilhante, trocando o inoperante Diaby por um hesitante Borja, um colombiano que a cada arrancada de 10 metros pára a fim de se interrogar sobre a condição humana, regressando de seguida ao local de partida. (Ao contrário do maliano, que denota inteligência nas movimentações mas tem assim um género de produto cerâmico em forma de paralelepípedo, vulgo tijolos, nos pés, o lateral que veio de um clube mexicano tem boa relação com a bola mas, das duas uma, ou parte para as jogadas de ataque com 1906 possibilidades no seu cérebro, e depois baralha-se e entra em convulsões com tanta opção, ou não tem nenhuma ideia, parte à aventura, e depois logo vê o que pode ou não improvisar, sendo que, seja qual fôr a hipótese mais credível, o resultado tem sido, em regra, a inconsequência.)

Claro que tudo isto fez parte de uma estratégia de disuassão do técnico holandês, servida para dar ao adversário a ilusão de que teria os leões na mão. A verdade é que os vimaranenses voltaram a morder o isco, mas o cansaço de Wendel - com a tarde quente e os 30 minutos que esteve a aquecer, Miguel Luís já estava em ponto de ebulição quando entrou em campo - , Bruno e Raphinha impediu que não ficasse pedra sobre pedra no castelo do Guimarães. Na senda da oportunidade aos jovens da nossa Formação, ainda houve tempo para o salomónico Keizer dar também 1 minuto a Jovane, o que a julgar pelo que tem acontecido a Xico Geraldes deve ser entendido como um presságio de que o cabo-verdiano deve ficar fora dos convocados na próxima semana. No final, nona batalha consecutiva ganha pelos leões. Como em tempos pediam os madridistas: venha a décima!

Em resumo, uma tarde bem passada, e se muito aqui se falou do ferro, dado o sol que incidiu sobre as bancadas também o bronze se tornou inevitável. ( "O ferro e o bronze" porventura seria um título mais apropriado para esta crônica.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Raphinha. Menções honrosas para Bruno, Phellype e Doumbia.

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08
Abr19

Tudo ao molho e fé em Deus - Um Domingo qualquer


Pedro Azevedo

Depois de uma semana negra para a arbitragem portuguesa, o Domingo começou com uma exibição do "VAR tudo" na Feira, uma daquelas situações em que metáfora e realidade se confundem. Em boa verdade (ou será VARdade?), todo o futebol português é uma feira. Senão vejamos: temos os elásticos, que puxam para cima, a barraca dos tirinhos (entre concorrentes), o carrossel das transferências, os carrinhos de choque do pobre do Ristovski, os espelhos que aumentam a dimensão dos craques (na Comunicação Social), as "canções pimba" do senhor Piscarreta, tudo isto enquadrado pelas roullotes das febras e dos couratos, petiscos diversos e cerveja a rodos, que o que é preciso é vender a bola aos pacóvios como uma festa...  

 

Se no Sábado, no Dragão, muitas dúvidas ficaram sobre o lance que permitiu ao Porto adiantar-se no marcador, ontem, em Santa Maria da Feira, houve três lances polémicos decididos sempre contra a equipa da casa. O primeiro, resultou na anulação daquilo que seria o 2-0 para o Feirense. O segundo, permitiu ao Benfica empatar a partida. Finalmente, o terceiro evitou que o Feirense voltasse a empatar o jogo. Enfim, um Domingo como outro qualquer, mas com o adepto anónimo, o "Al Patinho", como figurante, e um "actor" canastrão - penso, logo "un pasito mas" caio Pizzi - como protagonista de um filme Série B. 

 

Após o episódio Catão/Boaventura e a narrativa que vi montar à volta da expulsão de Ristovski, a minha vontade de continuar a ser um idiota útil a alimentar a feira do futebol português esmoreceu. Confúcio dizia que se um problema tivesse solução, então dever-nos-iamos concentrar nessa solução, mas se não tivesse solução, então deveríamos deixar de nos preocupar. Nesse sentido, se o peso dos actuais protagonistas esmaga a nossa leveza de espírito e já não há relativização de situações que nos garanta a tranquilidade, então o melhor é afastarmo-nos.

 

Nesse estado de espírito, ontem não fui a Alvalade. Ainda assim, não resisti a acompanhar na televisão. E se tranquilidade era o que procurava, o jogo deu-me uma noite muito descansada. Tudo começou quando o Felipe das Consoantes deu desenvolvimento a um rápido contra-ataque e abriu na esquerda para o Wendel, este lançou na frente no Acuña, que com um pequeno toque deu no Phellype, que chegou à bola após uma impressionante cavalgada e mostrou um PH ácido de mais para Leo Jardim, o homónimo do nosso antigo grande treinador que defende a baliza vilacondense. Inaugurado o marcador, o Sporting viria ainda a dilatar a vantagem na primeira parte, quando um Messias em crise de fé abalroou o Phellype, o qual acabara de cabecear uma bola endereçada por Bruno Fernandes. Chamado a converter a penalidade, Bruno marcou-a de forma irrepreensível, o que lhe permitiu igualar o record europeu de golos de um médio neste século, registo obtido por Frank Lampard na temporada de 2009/10, ao serviço de um Chelsea treinado pelo italiano Carlo Ancelotti.

 

A segunda parte teve menos motivos de interesse. O Rio Ave rendeu-se cedo e ao Sporting interessava fazer alguma gestão de esforço e poupança de jogadores, razão pela qual Acuña (pequeno toque) e Mathieu sairam mais cedo, acompanhando assim Borja, o qual havia sido substituido (por Jovane) ao intervalo devido a lesão num joelho. Com estas prioridades na cabeça, Keizer acabou por voltar a não dar oportunidade a Geraldes ou Pedro Marques, colocando Gaspar e André Pinto. Antes, Wendel apontara o golo da noite, respondendo a uma solicitação de Bruno Fernandes com um remate colocado de fora da área. Com os jogadores não substituidos a descansarem no campo, o Sporting foi controlando tranquilamente o jogo, perante uns vilacondenses que só criaram suspense por Tarantino, perdão Tarantini, num lance em que Renan conseguiu puxar a fita atrás e evitar males maiores.   

 

E assim terminou uma noite tão, tão tranquila que os nossos nem cartões viram. Um jogo que mais parecia um amigável, onde até a falta de intensidade de Gudelj ficou disfarçada pelo baixo ritmo dos restantes.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel. Destaque ainda para Bruno Fernandes (alternativa para o melhor em campo) , Luíz Phellype, Mathieu e Acuña.  

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P.S. Os meus sentimentos à familia e amigos do nosso ex-jogador Luis Páez. O paraguaio faleceu ontem, aos 29 anos, num acidente de viação. Um dia triste também para toda a nação sportinguista, a mostrar-nos que há coisas para serem levadas bem mais a sério que o futebol. 

 

31
Mar19

Tudo ao molho e fé em Deus - O oculto


Pedro Azevedo

O Jorge Jesus é que tinha razão: o futebol é uma ciência cuja compreensão não é para todos. Por exemplo, para um comum mortal, o "tackle" de Ristovski - chegou à bola bem antes do adversário e não poderia ter cortado as pernas no processo, nem sido mais resistente ao movimento de deslizamento - é um lance absolutamente normal, mas para o perito de arbitragem da SportTV, ex-árbitro mediano (para ser simpático) e "especialista" em física com doutoramento em inércia do movimento, Sérgio Piscarreta, é um vermelho inequívoco. O mesmo senhor que consegue ver, numa entrada de Jefferson ao pé de Bruno Fernandes, "pernas encolhidas", razão para só ser mostrado o cartão amarelo, e que acha que Manuel Mota "geriu muito bem" o jogo ao desrespeitar as regras (digo eu) quando Niltinho agrediu ao pontapé o mesmo Bruno Fernandes. Realmente, JJ estava certo, o futebol, o português bem entendido, é uma ciência. Oculta, diria eu, cujo conhecimento só está ao alcance de certas pessoas, iluminadas por certo. Há que ser humilde e entender tudo isto no âmbito do esoterismo, caso contrário ainda poderíamos ser levados a pensar que o Estaline era um menino no que respeita a reescrever a história quando comparado a Piscarreta&friends.

 

A equipa leonina mais uma vez apresentou-se em campo em inferioridade numérica. Apesar disso, adiantou-se no marcador quando Bruno Fernandes encontrou Ristovski sózinho na área e este assistiu o Filipe das Consoantes para o seu primeiro golo de leão rampante. Uma espécie de Kramer contra Kramer, mas na versão Filipe contra Filipe. (Houve também Mota árbitro e Mota treinador, mas nada os movia um contra o outro.) O Sporting dominava e criava boas oportunidades em remates à entrada da área, mas a incapacidade de Wendel em enquadrar um pontapé com a baliza (ele e outros com a mira descalibrada devem estar a precisar de mais umas folgas...) ia adiando a tranquilidade no marcador. Outras jogadas promissoras seriam interrompidas pelo árbitro, num claro benefício do infractor que deverá ser enquadrado numa qualquer teoria do senhor Piscarreta que deve ter escapado à UEFA e à FIFA aquando da elaboração dos regulamentos ou recomendações dos respectivos comités de arbitragem. (Depois queixem-se de que não há árbitros portugueses nas fases finais das grandes competições internacionais de selecções.)  

 

O segundo tempo seguia no mesmo tom, com os leões agora a beneficiarem da paridade numérica em campo, após novo amarelo a Jefferson por outro entrada dura. Até que o Gallo cantou e despertou os de Chaves: o passe do Bruno flaviense encontrou a desmarcação de André Luis, Coates ficou para trás e Renan acabou batido sem apelo nem agravo. Estava decorrida uma hora de jogo. Eis então que Marcel Keizer decide ter um momento de génio ao fazer entrar Doumbia, passando o Sporting a jogar com 11. É que o treinador leonino recentemente assegurou-nos que com ele jogam sempre os melhores, mas eu já ficaria contente se ele garantisse que entramos sempre com 11...

 

A entrada do marfinense praticamente coincidiu com uma paragem de 7 minutos para assistência ao guardião flaviense. Quando este finalmente foi substituido, o jovem Cabral também foi a jogo, naquela substituição clássica em que Borja - mais uns malabarismos inconsequentes - sai e recua Acuña. O Sporting intensificou a pressão e, na sequência de um canto, o argentino vislumbrou Bruno Fernandes, de braços abertos, a pedir a bola desmarcado à entrada da área. A bola chegou ao maiato e este, de primeira, fez um golo de bandeira. Com vantagem no marcador e mais um homem em campo, o Sporting começou a controlar o jogo, termo futebolístico que consiste em jogar para trás e para o lado, semelhante ao encanar a perna à rã, expressão provavelmente mais apropriada a quem escreve num espaço SAPO. Depois aconteceu o tal lance de Ristovski, a bola viajou até Raphinha, este encarou um último defesa e foi derrubado. O árbitro sancionou a falta e expulsou um flaviense. Seriam 11 contra 9, mas o vídeo-árbitro Vasco Santos alertou Manuel Mota para a tal suposta infracção inicial do macedónio. Eis então que Mota volta atrás na sua decisão, retira o vermelho ao jogador do Chaves e expulsa Ristovski. Sobre isto, só me oferece dizer que dúvido que depois deste episódio mais alguém vá comprar uns bifes ao talho de Manuel Mota: é que o homem não sabe o que é um corte limpo...

 

Em poucos segundos, um 11 contra 9 transformava-se num 10 contra 10: a emoção do futebol português não merece ser exportada para o mundo? Pobre Ristovski, há uns meses atrás teve galo ao ser expulso, agora foi de carrinho (ou de Mota?). 

Faltavam dois minutos para o final do tempo regulamentar, mas Manuel Mota deu mais 11 minutos de compensação. O Sporting tentava esconder a bola e os flavienses, na ânsia de a recuperarem, batiam em tudo o que mexia à sua frente. A reacção do árbitro, segundo Piscarreta, era a de gerir o jogo, a dos comentadores da SportTV uma coisa em forma de assim, ou nim, ou coisa nenhuma. Até que, numa das poucas vezes em que conseguiu manter a integridade dos seus tornozelos, Bruno Fernandes fez um passe frontal para Jovane e este, com um toque subtil, deixou Luíz Phellype na cara de Ricardo, o guardião que entrara para o lugar de António Filipe. O brasileiro não perdoou e coroou a sua estreia a marcar com um bis. E assim saímos de Chaves com os 3 pontos e à espera da despenalização de Ristovski para o jogo de quarta-feira. Só espero que o Conselho de Disciplina não reúna na quinta...

 

"This sh*t is a joke". Oh, yeah!

 

Tenor "Tudo ao molho": Bruno Fernandes (destaques para Mathieu, Acuña e Phellype). 

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(Imagem: A Bola)

16
Mar19

Tudo ao molho e fé em Deus - Pobreza franciscana


Pedro Azevedo

Como que para provar que na vida não há concidências, o Sporting recebeu ontem um clube que no seu nome evoca Santa Clara (Chiara d`Offreducci, seguidora da São Francisco de Assis) e realizou um jogo de uma pobreza franciscana, no fundo a mesma a que parece confinado outro Francisco, o Geraldes, em termos de utilização na equipa, ele que só por milagre não estará destinado a ter de ir pregar itenerantemente por outras freguesias o seu futebol, visto que em Alvalade só o deixam pregar gameboxes. 

 

Este foi mais um jogo iniciado sem um único jogador da nossa Formação no "onze" titular, o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues, que expõe a contradição entre um dos dois motivos (aposta na Formação/futebol positivo) enunciados por Frederico Varandas para a contratação do senhor Keizer e aquilo que se passa na prática. Ora, isto seria matéria suficiente para o senhor presidente confrontar o treinador holandês com os factos e ser ele próprio interrogado pelos sócios sobre a opção que tomou, pelo que, à cautela, nada melhor do que colocar um ovo de Colombo em cima da mesa e dizer que a nossa Formação não tem qualidade. Assim, iliba-se de uma só penada presidente e treinador e ganha-se tempo. Ah, a imagem do clube? Não há problema, logo de seguida renova-se com uma dúzia de jovens jogadores. O clube está com uma situação de tesouraria crítica e compromete o fair play financeiro (palavras de um administrador da SAD no Jornal Sporting)? Nada de mais, venha um carregamento de uma dezena de jogadores contratados no Inverno, todos eles certamente provenientes de bem mais excelsas escolas de formação e melhores do que os jovens dos sub-23. É só mais uma voltinha de um carrossel já antigo em que craques como Ronaldo, Figo, Simão, Quaresma, Hugo Viana, Bruma, Dier, João Mário, Adrien, William, Rui Patrício, et caetera, foram vendidos e ainda assim os resultados acumulados da SAD são francamente negativos e os seus capitais próprios encontram-se inteiramente diluídos. Entretanto, a Formação do nosso vizinho do lado, cheia de Jotinhas, até já levanta Ferro e sente-se Felix apoiada por Bruno Lage, enquanto os miúdos anseiam por ser os Bernardos e os Cancelos de amanhã, aqueles que tinham que "nascer 10 vezes" no tempo do outro senhor. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... 

 

Keizer fez-nos acreditar numa laranja mecânica de onde se conseguiria extrair um intenso sumo, mas actualmente o futebol do Sporting assemelha-se mais a um limão gasto e todo espremido à mão. O encantamento outonal foi substituído pela alegria dos cemitérios de um futebol sem chama e pouco pressionante, com várias situações que escapam à compreensão do adepto comum, desde os dedos apontados a Nani até ao estranho eclipse de Bas Dost, passando pelo degredo de Jovane ou Miguel Luís. Adicionalmente, agora que o calendário já não está carregado, não se justificam exibições tão frouxas. 

 

Ontem, de destacar, a estreia positiva a titular de Doumbia, um jogador claramente com mais tracção à frente do que Gudelj, embora tenha ainda pormenores, nomeadamente de posicionamento defensivo e de ligação aos centrais para prosseguir a construção de jogo, a corrigir. A espaços Mathieu, Acuña e Bruno Fernandes (o melhor jogador deste elenco) mostraram a sua qualidade top, tendo os dois últimos sido providenciais no golo da vitória (um misto de "ratice" sul-americana e trivela não-sérvia), mas foi Raphinha o melhor em campo no meu entendimento (e não só por ter marcado). O ex-vimaranense foi protagonista quase exclusivo dos poucos desequilíbrios provocados nos açorianos, os quais se apresentaram compactos, reduziram espaços aos leões e, com o tempo, foram ficando mais afoitos, ao ponto de terem criado as melhores oportunidades de golo do jogo. Sendo frio e racional, ganhámos três pontos e continuamos a correr por fora. Enquanto houver vida no campeonato, temos de manter a esperança.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Raphinha

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14
Mar19

O meu "onze" para amanhã


Pedro Azevedo

Contra a pobreza franciscana da nossa saída de bola, Doumbia deve alinhar com Santa Clara. Adicionalmente, lançaria Xico Geraldes no meio campo, gerindo o desgaste de Wendel, colocando Acuña como ala (e não como lateral) para equilibrar mais a equipa defensivamente. Este seria o meu "onze": Renan; Ristovski, Coates, Mathieu e Borja; Doumbia, Bruno Fernandes e Geraldes; Raphinha, Dost e Acuña. 

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12
Mar19

Limpinho, limpinho...


Pedro Azevedo

...mesmo há meses a usar uma lavandaria a moedas, o que condiz bem com um plantel de "trocos"...

 

P.S. As declarações de Rui Pedro Soares fizeram lembrar-me o Mr Chance, com o Peter Sellers. Também eu procurei a metáfora até perceber que o sentido era literal. 

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10
Mar19

Tudo ao molho e fé em Deus - VARdade?


Pedro Azevedo

O Sporting apresentou-se no Bessa com 5 bebés lançados por Keizer. Ah, não? Desculpem, últimamente ando a ler muita ficção científica. O Record, conhecem? Também não se pode levar a mal o jornal, afinal só se enganaram no "careca". Tal como nós. É que se um treinador do Sporting tivesse lançado esses jovens anteriormente no Ajax, então chamar-se-ia Peter Bosz e provavelmente os leões hoje não teriam jogado (substitutos incluidos) sem um único jogador proveniente da sua Formação

 

No xadrez boavisteiro, o Sporting apresentou-se sem uma das suas Torres (Bas Dost). Uma Torre do Tombo, dado o seu desempenho em 2019, mas que de alguma forma encerra em si os pergaminhos de anteriores equipas do Sporting Clube de Portugal, algo que não se viu naquele peão contratado no Inverno que hoje foi a jogo, incapaz de segurar uma bola na zona de ataque, o que conjugado com a desinspiração de Wendel e a falta de apoio de Gudelj fez com que Bruno Fernandes tivesse ficado isolado no miolo, pelo que as nossas jogadas se desenvolveram exclusivamente pelas alas, não havendo penetrações centrais.

 

O jogo começou praticamente com o golo do Boavista. Aos 3 minutos, o Felipe das Consoantes foi até à área leonina mostrar o seu bom jogo de cabeça e daí resultou o golo axadrezado. Levantaram-se dúvidas sobre a posição de Neris - sozinho na pequena área, porque Ristovski deslocou-se para um espaço onde já estava Coates - , mas o VAR manteve a decisão da equipa de arbitragem liderada por João Pinheiro. Durante algum tempo a equipa leonina pareceu de cabeça perdida, com Gudelj literalmente a mostrá-lo após choque com Gustavo Sauer, uma estreia nos do Bessa que deixou muito boas indicações. De seguida, Borja foi tentar compensar a sua defesa, mas acabou ultrapassado por Sauer em lance que terminou com uma defesa de Renan para canto. Um canto que se desdobrou em vários e que terminou com uma involuntária assistência de Coates que miraculosamente não apanhou um boavisteiro no caminho para a baliza. Eis então que Raphinha vai formoso pela direita, ganha a linha de fundo, centra e Edu Machado tenta interpor-se entre Acuña e a sua baliza, acabando por desviar a bola na direcção errada, com o argentino ainda a tocar ao de leve na bola antes de esta passar a linha de golo. O Sporting reequilibrava os pratos da balança, numa altura em que o nosso jogo era monocórdico e consistia em centros razoáveis de Borja para a molhada. Até que um livre marcado por Bruno Fernandes, e desviado por Raphinha, encontrou Luíz Phellype ao segundo poste, sozinho. Cabeceamento do brasileiro e gol...ahhhh...ao poste. Incrível! Phellype, a 2 ou 3 metros da baliza, não fez golo. Logo de seguida, Raphinha marcou de cabeça, mas o árbitro auxiliar, primeiro, e o VAR, depois, anularam o golo, em lance com algumas semelhanças com o golo validado ao Boavista. As notícias não eram boas, mas até ao intervalo a esperança renasceria, nomeadamente quando Gudelj viu um amarelo e ficou impedido de participar no próximo jogo. Soa a Divina Providência, não é? Tempo ainda para Coates fazer de ponta-de-lança (não há um nos Sub-23?) e cabecear a rasar o poste de Bracali, após livre marcado na direita por Acuña. 

 

O segundo tempo iniciou-se com um elaborado gesto "técnico" de Gudelj, uma "pentavela" - trivela com dedo (a mais) de sérvio - em que a bola foi aceleradamente "de vela" directamente pela linha lateral, deixando os adeptos com muitos nós na cabeça. Coates voltou a ir à frente mostrar como se faz, mas a bola teve o mesmo destino da primeira vez. Eis então que, num momento desconcertante, Ristovski tirou um centro de sonho que embalou Phellype para um sono profundo, perdendo-se outra grande oportunidade. Logo de seguida, bicicleta de Bruno e grande defesa de Bracali. Keizer mexeu, entrando Diaby e Doumbia e saindo Borja (recuou Acuña) e Wendel. O marfinense mostrou instantaneamente a sua categoria, saindo da zona de pressão com destreza assente em velocidade e poder de finta, embora jogando mais adiantado do que o costume, mas o maliano foi mais ou menos igual a si próprio, ou seja, uma nulidade. Até que, quando tudo indicava que teríamos a "reprise" do acontecido na Madeira, já em tempo de compensação João Pinheiro viu uma pseudo-agressão a Raphinha na área axadrezada. Penálti, conversão como habitual de Bruno e três pontos sacados no Bessa, uma compensação que promete vir a ser ruidosa para uma silenciosa disparidade de critério disciplinar nos jogos que envolvem o Sporting.

 

A missão do Sporting assemelha-se cada vez mais ao Algoritmo do Caminho Crítico. Neste, há um tempo para cumprimento de um conjunto de tarefas. Para este ser cumprido, é necessário que as várias tarefas intermédias não se atrasem. Ora, esta equipa leonina continua a não evoluir por laborar num conjunto de erros que atrasa a sua progressão. Geraldes vai assistindo do banco, não podendo assim contribuir para a necessária rotatividade do plantel, Miguel Luís anda desterrado nos Sub-23, situação incompreensível e que até terá custado a titularidade do promissor Matheus Nunes nos últimos dois jogos do escalão, e Doumbia continua à espera de Godot, que é como quem diz desesperando, pois o nosso Keizer está a corporizar muito bem o espírito que norteou a obra de Samuel Beckett. Eu cá gosto mais do Elia Kazan e confesso que o amarelo que Gudelj viu hoje soube-me a "um eléctrico chamado desejo". Uma boa semana para todos!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Raphinha. Boas prestações também de Mathieu, Coates, Acuña e Bruno Fernandes.

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04
Mar19

Tudo ao molho e fé em Deus - O condutor


Pedro Azevedo

Na física, um campo eléctrico é criado por cargas eléctricas ou por variação de campos magnéticos. As cargas eléctricas necessitam de condutores para se poderem deslocar. No Sporting, o Bruno Fernandes é esse condutor de electricidade da equipa no campo. Já o Gudelj é um isolante, nele não existe qualquer movimentação de corrente. Tal como um dínamo, ou o motor de um automóvel, Bruno é a fonte de alimentação que traz a corrente contínua a todo o circuito formado pela equipa leonina. A sua acção é constante ao longo do jogo, tal como a de Acuña ou de Mathieu. Por Tiago Ilori, por exemplo, passa uma corrente alternada, pois o sentido do seu jogo varia tanto com o tempo que chega a um ponto em que já não faz qualquer sentido.

 

Em tempo de Carnaval, o Sporting recebeu ontem uma escola de samba em Alvalade. Comandados por Paulinho, e com Tabata, Wellington e Lucas Fernandes em bom plano, o Portimonense, com 8 brasileiros no seu "onze" inicial, tentou pregar uma partida à equipa leonina. Porém, acabaria por ser outro Fernandes, Bruno de seu nome, a ser o Rei Momo. A sua marca ficou logo registada ao minuto 10, e em dose dupla: primeiro, serviu de trivela Raphinha para um remate defendido por Ricardo Ferreira para canto; de seguida, enviou do quarto de círculo um míssil que Diaby desviou para golo; finalmente, com a parte interior do pé direito, isolou Raphinha para o segundo da noite. Nada mal para aquele que cada vez um número mais reduzido de adeptos que certamente não aprecia o bom futebol continua a não querer perdoar, indo ao ponto de lhe atribuir um epíteto insultuoso. É que Bruno não é um verme, mas sim um Vermeer e, em duas pinceladas de génio, da sua cabeça (e pés) saíram umas composições inteligentes e brilhantes com que começou a ilustrar uma nova tela.

 

Os de Portimão não se ficaram e desataram a incomodar a baliza de Renan. Com facilidade iam ultrapassando Ilori, no solo ou pelos ares, embora sem consequências de maior, até que Renan, primeiro, e Mathieu depois, foram o pronto-socorro que evitou males maiores. Estimulados pela oportunidade, os algarvios viriam a reduzir diferenças, num lance em que Gudelj desligou a ficha e deixou a sua baliza em circuito aberto. Com o golo, o jogo ficou repartido e as oportunidades até ao intervalo sucederam-se a um ritmo frenético. Primeiro, foi Bruno (sempre ele!) a encontrar Raphinha solto na direita e este a deixar Diaby isolado na cara de Ricardo, após simulação e arrastamento de Dost, em lance ingloriamente desperdiçado pelo maliano. Depois, foi Renan o herói, e tal como Bruno em dose dupla, parando os remates consecutivos de Paulinho e de Wellington, sem que nunca Gudelj surgisse a pressionar o portador da bola ou a ajudar os seus defesas. De seguida, Lucas Fernandes enviou uma bomba que acertou na trave e ressaltou para cá da linha de golo, ficando a rabiar nas suas imediações. Finalmente, Bas Dost, servido por Bruno e isolado perante o guarda-redes adversário, voltou a ter uma falha eléctrica no seu cérebro, sintoma que não sabemos se estará relacionado com a leitura de algum relatório e contas.

 

No recomeço, o Sporting já não surgiu tão afoito, facto que também não permitiu as transições portimonenses. Ainda assim, os leões desperdiçaram inúmeras oportunidades. Assim, de cabeça, Diaby e Bruno falharam golos cantados. Mais tarde, com os pés, repetiriam o desígnio. Destaque, no entanto, para a jogada em que Bruno tirou dois adversários da frente e rematou de pé direito para uma enorme defesa de Ricardo Ferreira. Entretanto, ainda antes da hora de jogo, Dost deu lugar a Phellype. Keizer, no fim do jogo, justificou a decisão com a observação de que o seu compatriota não estava no jogo. Observação correcta, diga-se. Não que o brasileiro que o substituiu tenha trazido algo de especial ao jogo, para além do cartão amarelo da ordem. Eis então que Keizer colocou Doumbia em campo para nos mostrar que este é bem melhor que Gudelj e, provavelmente, o único jogador contratado este Inverno para a equipa principal do qual ouviremos falar (bem) no futuro. No entanto, não foi o sérvio a sair mas sim Raphinha. Uma lástima, pois o marfinense deveria jogar sempre e, tal como nos medicamentos, vir acompanhado da contra-indicação de não ser misturado com cidadãos dos balcãs. Com a substituição, o Professor Marcel pretendeu fechar o jogo, mas um algarvio não concordou e imbuído do espírito do entrudo deu uma martelada na cabeça do Bruno Fernandes dentro da área. Chamado a converter a penalidade, o Bruno sentou o guarda-redes com a paradinha e escolheu o lado por onde rematar com sucesso. Ainda houve tempo para a entrada de Francisco Geraldes, por troca com Wendel. O homem que mais aquece em Alvalade queria tanto tocar na bola que quando teve oportunidade agarrou-a (literalmente) com as duas mãos. O Capela não gostou e o Xico saiu do lance com um sorriso (e não só) amarelo. Nós também, no fim do jogo, pese embora tenhamos ganho, o que é sempre o mais importante. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes (who else? - médio com mais golos obtidos numa só época em toda a história do Sporting). Menções honrosas para Renan (3 defesas importantes), Mathieu (seguro, ainda teve tempo de ir à frente assistir Diaby para um falhanço) e Acuña (tem corrente para os 90 minutos). Raphinha e Diaby marcaram um golo cada, mas destacaram-se igualmente (mais o maliano) pela trapalhice com que abordaram alguns lances.

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26
Fev19

Tudo ao molho e fé em Deus - Madeiradas


Pedro Azevedo

À hora que Vos escrevo ainda não é conhecido o resultado do exame toxicológico de Charles, mas a coisa deve ser grave, adianto já, tal a quantidade de spray que inalou após cada defesa que efectuou (rima e tudo!!). O jogo em Portugal é "uma coisa em forma de assim" (Alexandre O`Neill), em que uma quantidade inusitada de jogadores se fazem de mortos enquanto esperam pela entrada do médico (legista?), apenas para que o tempo passe e o ritmo do adversário seja quebrado. Depois, ainda são premiados pelos árbitros, que nunca compensam devidamente os minutos perdidos, pelo que se pode dizer que o crime compensa. O jogador como anti-jogador, eis o paradigma do futebol português e do seu campeonato principal, aquele com menos tempo útil de jogo da elite europeia.

 

O primeiro tempo foi algo confuso: Gudelj viu um cartão amarelo por praticar surf nas costas (de) madeirenses, Borja outro por exercitar mergulho em zona proibida e Diaby preferiu o Bailinho da Madeira, dando sempre umas voltinhas. Numa delas, completamente isolado, a bola ficou no Funchal e ele foi até Porto Santo... Pelo meio, Bruno Fernandes e Bas Dost obrigaram Charles a defesas apertadas e paragens prolongadas. O Marítimo também podia ter marcado, mas Getterson rematou por cima.

 

Na etapa complementar o Sporting foi mais incisivo: primeiro foi Diaby a conduzir uma biga de maritimistas até à linha de fundo e a semear o pânico; depois Bruno Fernandes, de livre, a enviar a bola a rasar a barra; de seguida Raphinha (entrara ao intervalo por troca com Borja), de cabeça, a passe de Bruno, e Charles a brilhar de novo; finalmente, Bruno Fernandes, isolado, a conseguir chegar antes à bola, mas Charles a emendar com uma "mancha" perfeita. De destacar ainda um brilhante lance individual de Idrissa Doumbia (substituiu Gudelj no recomeço), a mostrar que merece a titularidade, e a entrada em jogo de Luís Phellype (troca por Wendel) que, na minha opinião, formatou muito o jogo leonino (Geraldes teria sido mais útil), pelo que nos últimos 10/15 minutos deixámos de criar oportunidades claras. O Marítimo teve apenas uma oportunidade nesta parte, quando Getterson (outra vez) rematou ao lado, após boa defesa de Renan diante de Edgar Costa.

 

O Sporting desperdiçou assim a possibilidade de se aproximar ainda mais do Braga (está a 3 pontos) e ficou mais longe de Porto (11 pontos) e Benfica (10). O resultado acaba por ser injusto, mas a finalização esteve desastrosa. Os golos estão muito dependentes da inspiração de Bruno Fernandes e da assertividade de Dost que parece ter ficado algures em 2018. Há muitas jogadas e golos que se perdem por deficiências técnicas, do tipo haver um canhoto sem pé direito, ou mesmo um canhoto sem pé esquerdo...o que faz com que recepções e remates se assemelhem àquilo que no ténis se chama uma madeirada. Bruno Fernandes, Acuña e Mathieu (ausente há muito tempo) são os jogadores de categoria extra. Vê-se na forma como dominam a bola, como pensam o jogo, ou na dinâmica que empregam. 

 

O Keizer está a fazer um curso intensivo de futebol português. Treinador tuga que se preze tem de ser expulso e hoje tocou-lhe a ele. O ar incrédulo com que a transmissão televisiva o captou mostra que ainda não percebeu onde se veio meter. Vamos ver se terá tempo de se adaptar completamente, pelo menos aos árbitros lusos. Talvez ajudasse a sua carreira olhar para alguns dos miúdos que tem à sua volta. Doumbia, Geraldes ou Thierry já podiam ter sido muito úteis esta época, o que teria melhorado a dinâmica global da equipa.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes (mesmo que abaixo do habitual)

 

P.S. À atenção de todos aqueles que se basearam numa amostra com uma única observação - aonde anda o Rui Oliveira e Costa quando finalmente precisamos dele? - para sentenciarem que a equipa estava melhor sem Nani: três jogos depois da sua saída, se calhar não está... 

P.S.2 Talvez não fosse má ideia o Keizer tentar fazer entender-se em flamengo ou neerlandês (com o Dost a traduzir). Aquele "brutânico" que ele pratica no balneário e nas conferências de imprensa soa menos a qualquer tipo de idioma do que o inglês falado pela minha filha de 7 anos.

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25
Fev19

Qual seria a sua equipa?


Pedro Azevedo

Se fosse o treinador do Sporting, com que "onze" jogaria esta noite na Madeira? Procurando novas soluções e a utilização de jogadores mais frescos, eu faria alinhar: Renan; Ilori, Coates e Borja; Ristovski, Doumbia, Bruno Fernandes, Xico Geraldes e Acuña; Raphinha e Dost.

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18
Fev19

Tudo ao molho e fé em Deus - O abre-latas


Pedro Azevedo

Sporting há só um, o de Portugal e mais nenhum, e hoje Salvador nem precisou de ir ao nosso museu para o constatar, bastou-lhe olhar para o relvado. Se o presidente bracarense assistiu da Tribuna, Abel observou tudo do banco. E deve ter-lhe custado muito, pois só assim se compreende que lhe tenham passado pelos olhos 25 anos em apenas 90 minutos, um pequeno remoque que não lhe ficou bem. A um treinador jovem e com qualidade recomenda-se outro poder de encaixe. A este propósito, imagine-se o que após uma derrota tão concludente como esta se diria na imprensa inglesa, caso Abel treinasse na "velha Albion". Logo eclodiriam os trocadilhos com "able" ou "a bell", do tipo he was not Abel to cope with the situation, ou did anyone ring Abel? A rever...

 

Com jogadores frescos, Keizer introduziu uma nuance táctica que consistiu na aproximação de Borja aos 2 centrais - desta vez trocados, com Ilori na direita - , formando-se uma linha de 3 defesas (sistema táctico de 3-5-2), aquando da posse de bola, ou de 5 defesas (um 5-3-2 com Ristovski e Acuña nas laterais), quando o adversário atacava. Adicionalmente, Diaby e Bruno Fernandes foram-se alternando numa posição mais central por detrás de Dost - quando Diaby procurava a ala, Bruno subia e quando Diaby rondava as costas de Dost, Bruno descia para junto dos outros médios - , algo que também ajudou a baralhar os bracarenses. Só a meio da segunda parte se produziu nos espectadores a sensação de que Abel percebeu o que se estava a passar, nomeadamente quando colocou um segundo homem a penetrar na banda esquerda do seu ataque e com isso criou a dúvida em Ristovski, visto Diaby parecer ter instruções para se manter no meio (o que obrigou Gudelj a desposicionar-se umas duas ou três vezes), uma situação entretanto colmatada pelo treinador holandês ao reposicionar o maliano e, mais tarde, ao fazer entrar Raphinha para a ala direita. Em resumo, pode dizer-se que Keizer deu um banho táctico a Abel, o que teve uma influência importante no desenrolar da partida.

 

O Sporting entrou bem no jogo, com Wendel muito activo desde o apito inicial, a arrastar a equipa para a frente com o seu futebol misto de samba e jazz de improvisação, e o maestro Bruno, de batuta na mão, a jogar e a fazer jogar à sua volta. Assim, não demoraria a primeira grande oportunidade (ao quarto-de-hora), quando Bruno encontrou Ristovski desmarcado nas costas da defesa bracarense e o macedónio serviu de imediato o isolado Dost que perderia o duelo individual com Tiago Sá. Depois de um passe de ruptura, logo de seguida Bruno rematou de fora da área com perigo. Tiago Sá voltou a defender, revelando atenção. Até que após uma das inúmeras faltas cometidas por Raul Silva, Jorge Sousa mandou marcar um livre directo a meia dúzia de metros da entrada da grande área do Braga e descaído para a direita. Acuña ajeitou a bola, mas Bruno ligou de novo o GPS e desta vez Tiago Sá nada podia fazer, com a bola a cair subitamente (folha seca) mal avistou a linha de golo. Até ao intervalo, destaque para uma remate fraco de Diaby que saiu ao lado, quando havia superioridade numérica sportinguista na área bracarense e diversas soluções de passe.

 

O segundo tempo praticamente iniciou-se com um novo golo leonino: Diaby pegou na bola sobre a meia direita e a uns bons 50 metros da baliza bracarense e daí traçou o azimute para a baliza de Tiago Sá, que o levou a galgar metros sobre metros e a ultrapassar 3 adversários numa diagonal até ser derrubado, já dentro da grande área, por Claudemir. Jorge Sousa mandou marcar penálti e, na sua conversão, Dost marcou como de costume (Tiago Sá para um lado, a bola para o outro). À hora de jogo, Bruno quase marcou um golo do outro mundo, com um remate fortíssimo de fora da área que errou o alvo por pouco (o guarda-redes estava batido), após um bom movimento de Wendel que criou o espaço para o nosso capitão aplicar o gesto técnico. Mas não tardaria muito o terceiro dos leões, após um momento de habilidade de Bruno Fernandes que lhe permitiu junto à linha de fundo arrranjar espaço para um centro rasteiro que Dost desviou para a baliza. O jogo praticamente terminaria aí e Keizer teve oportunidade então de poupar sucessivamente Dost, Diaby e Wendel, fazendo entrar Phellype, Raphinha e Doumbia, este último com tempo ainda para mostrar 2 pormenores de elevado requinte técnico e facilidade em progredir com a bola. 

 

O árbitro Jorge Sousa teve uma actuação correcta no capítulo técnico, mas disciplinarmente com critério desigual. Ilustrando isso, a dado momento os jogadores do Sporting chegaram a ter 5 cartões amarelos, enquanto os do Braga só tinham aquele mostrado aquando da grande penalidade. Nesse sentido, foi até particularmente risível a segunda admoestação a um bracarense, claramente provocada por um coro de assobios proveniente da bancada. De registar também a negligência com que deixou passar uma clara agressão de Raul Silva a Marcos Acuña, lance em que o VAR também não actuou.

 

No Sporting, destaques principais para Bruno Fernandes e Wendel. Diaby e Dost também estiveram muito bem, tal como de resto toda a equipa. Nesse sentido, devo dizer que Borja (posição no campo diferente), talvez beneficiando da cobertura dada por Acuña, hoje agradou-me sobremaneira.   

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes: Abel chamou-o de "abre-latas" (ele que até é mais um canivete suiço), mas o maiato foi pura poesia em campo. E, como dizia Bukowski, esta estremece a alma, abre os olhos e...cala a boca. Não é assim, Abel?

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(Imagem: Record)

11
Fev19

Tudo ao molho e fé em Deus - Echo da Feira


Pedro Azevedo

Só pude ver a primeira parte do jogo da Feira. Os Echo & The Bunnymen tocavam em Lisboa e o concerto era ainda longe do bairro onde moro, pelo que tive de sair de casa ao intervalo. Devo ter perdido a melhor parte, pois o que vi deixou-me à beira de uma ataque de nervos. Os jogadores do Feirense pareciam porcos-espinhos ("Porcupine") que os leões evitavam tocar, ganhando sucessivos duelos individuais e aproximando-se com perigo da nossa baliza. Nesse transe, os fogaceiros conquistavam alguns cantos a seu favor. De um deles resultou o golo feirense: Renan tinha Marco Soares à sua frente, não foi suficientemente efusivo a dar conta de ter sido estorvado na pequena área e a bola acabou por bater no "derrière" do cabo-verdiano e entrar. Porém, antes que eu pudesse esboçar uma sarcástica piada escatológica, o VAR interveio e aconselhou Manuel Mota a visionar o lance. Em sequência, o árbitro anulou o golo. Safámo-nos de boa, pensei eu, e logo troquei o sarcasmo pelo agradecimento a Deus ("Heaven up here"). Logo de seguida, novo canto e desta vez foi Renan, com uma defesa miraculosa, de puro instinto, a evitar que os de Santa Maria da Feira inaugurassem o marcador. Os feirenses, a precisarem de pontos, batiam em tudo o que vestisse de verde-e-branco e numa dessas jogadas Marco Soares mereceu ter ido a banhos mais cedo, após entrada fora de tempo ao tornozelo de Bruno Fernandes. Manuel Mota nem amarelo deu, enquanto Bruno se contorcia no chão com dores. A partida caminhava para o intervalo e a minha impaciência, sabendo que teria de sair, ia aumentando. Paralelamente, ia constatando que, mais do que falta daquele jargão futebolistico de "atitude", aos leões faltavam jogadores de qualidade extra para além de Bruno Fernandes e de Acuña (apesar de uma folha salarial de aproximadamente 70 milhões de euros por ano). Estava eu neste pensamento quando o maiato vê o argentino solto na meia-lua, endereça-lhe a bola e Acuña coloca a bola magistralmente nas costas da defesa feirense, onde apareceu Borja a centrar para um cabeceamento de Wendel que ainda tocou no braço de Briseño antes de encontrar o caminho da baliza de André Moreira. O Sporting desfazia o nulo no marcador em cima dos primeiros 45 minutos. 

 

O início da segunda parte ouvi-o já no carro. O locutor da Antena 1 dizia que agora o Feirense tinha mais posse de bola e comecei a temer o pior. De facto, os ecos que me chegavam de Santa Maria da Feira, via rádio, não eram de todo auspiciosos. Enquanto tentava imaginar o que se poderia fazer, o narrador recomendava a troca de Wendel por Idrissa, o qual estaria a aquecer. Subitamente, tudo se alterou: Diaby arrancou um centro da direita do nosso ataque e Bruno Fernandes foi fazer de Bas Dost e marcou de cabeça. Pouco depois, parei para apanhar uns amigos para o concerto no preciso momento em que Bruno se preparava para bater um livre. Perigoso, sugeria a minha companhia radiofónica. Bruno chutou e marcou e, de repente, tudo fez sentido na minha cabeça. É que este concerto dos Echo & The Bunnymen foi premonitório. Eu explico: o Echo inserido no nome da banda resultou do facto de inicialmente não terem um baterista, recorrendo assim a uma caixa de ritmos em sua substituição. Ora, quem marca o ritmo na equipa do Sporting é Bruno Fernandes, daí os ecos dos seus golos que me chegavam da Feira.

Os leões voltavam a ser leões, e não "Crocodiles" a arrastarem-se no terreno de jogo. Com o jogo resolvido, Bruno finalmente lá teve descanso e Xico pôde estrear-se. O Feirense ainda reduziria após uma displicência do brinca-na-areia Borja, mas isso já não importava, a nossa vitória já não fugiria. Lá entrei então para o concerto e o que é que estava no alinhamento? "The game"! Ah pois é, já dizia a Margarida Rebelo Pinto que não há coincidências... Obrigado Ian McCulloch. E, já agora, um pedido: não dá para virem a Lisboa todos os fins-de-semana? A malta do Sporting agradecia...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes (menções honrosas para Acuña e Renan).

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(Imagem: O Jogo)

04
Fev19

Tudo ao molho e fé em Deus - O acordeão


Pedro Azevedo

Há um equívoco no futebol do Sporting. Keizer tem uma (boa) filosofia de jogo, mas não tem jogadores para essa filosofia. (É como ter "queda" para as acrobacias e não ter rede onde cair.) Os centrais são lentos, e protegem-se não subindo no relvado. Com isso, quando a equipa estica e o adversário entra em transição, fica uma buraco no meio. O mesmo, quando tenta pressionar alto. Em suma, a música que tocamos é de acordeão: quando o fole alarga, tudo fica mais grave. 

 

Claro que não ajuda à festa jogar sem Acuña - lesionado ou poupado (para o Zenit) - ou Ristovski, da mesma forma que a ausência de movimentos interiores dos alas não é benéfica nem ajuda a ligar o jogo. Para não falar do modesto metro quadrado que para Gudelj é um latifúndio, ou da súbita apatia de Dost. Deste modo, torna-se difícil ganhar um jogo quando apenas Wendel, Bruno Fernandes e Renan estão minimamente à altura das circunstâncias. Nesse sentido, torna-se incompreensível que não se tenha aproveitado a reabertura de mercado para imediatamente ir buscar pelo menos 1 central veloz, em vez da prioridade dada a um avançado. É que Ilori - enfim, foi essa a opção e, do ponto-de-vista desportivo, não a vou criticar - chegou apenas em cima do Clássico. Também não se entende como Thierry Correia não voltou a ser chamado (após uma aposta inicial), quando Bruno Gaspar se tem sucessivamente mostrado curto para as exigências a este nível, e um lateral muito rápido (Lumor) - qualidade que poderia compensar a lentidão dos centrais -, e que poderia utilizar a sua aceleração para dobrar o eixo defensivo, foi emprestado. Com tudo isto, não sei se aproveitámos o Mercado de Inverno para arranjarmos soluções ou se, simplesmente, comprámos mais problemas, na medida em que acabam sempre por jogar os mesmos (mas os custos são de todos...). 

 

Hoje, o Benfica foi muito superior. E em nossa casa, o que tornou tudo um pouco mais humilhante. Na primeira parte então andámos completamente à deriva, sendo o resultado ao intervalo lisonjeiro face àquilo que foi a nossa actuação, algo que deveremos agradecer a Renan e a Bruno Fernandes, este último autor de um golo de belo efeito. O curioso é que os encarnados só tinham dois médios no centro, mas conseguiram sempre ter superioridade numérica nessa zona nevrálgica do terreno, aproveitando as transições para explorar o espaço que os leões iam dando, eles que durante esse período do tempo deixaram que a equipa se partisse em dois, com Gudelj e os centrais a terem de se haver com os movimentos frontais de João Felix e Seferovic, frequentemente apoiados pelas subidas de Grimaldo (Pizzi fechava), que beneficiou de uma ala direita do Sporting em fim de tarde desastroso. A equipa leonina não melhorou muito a sua organização no segundo tempo e o Benfica continuou a ser mais perigoso, razão pela qual obteve mais dois golos. No fim, vitória confortável do Benfica, num jogo aberto, com 6 golos, 2 golos anulados por acção do VAR (um fora-de-jogo e uma falta), duas bolas ao poste (uma para cada lado) e dois penáltis (um sinalizado pelo VAR). Uma vitória também da verdade desportiva e da implementação do vídeo-árbitro, que evitou um embaraço maior para as nossas cores (noutras circunstâncias teríamos perdido por 2-5).

 

Mas o mais rude golpe no coração de um leão, a nossa maior derrota, foi ver um menino vestido de vermelho fazer gato sapato da nossa defesa. Porque esse menino é um produto da Formação do Seixal e resulta de uma política desportiva definida pelo Benfica. O presidente do clube da Luz pode ter os defeitos todos que lhe reconhecemos, mas neste particular manteve-se firme numa aposta que outrora já foi uma bandeira verde-e-branca. E parece estar a ganhá-la. Já do nosso lado, Miguel Luís e Jovane foram subitamente sujeitos a um ostracismo que deixa várias interrogações. Acrescente-se o caso  de Francisco Geraldes, cuja proximidade do relvado se circunscreve a umas corridas de aquecimento, e o mistério adensa-se. Não digo que Miguel e Xico fossem titulares indiscutíveis, mas a verdade é que permitiriam dar mais descanso a Wendel e Bruno Fernandes, os quais ainda assim conseguem ser os melhores jogadores da equipa. Até admito que Geraldes possa não ser opção e não peço as 20 oportunidades que já foram concedidas a Bruno Gaspar, gostaria é que pelo menos fizesse 1(!) jogo completo. Depois, até poderíamos concluir que não está à altura... 

 

As dúvidas que nos inquietam não obtêm qualquer resposta da Estrutura do clube. Bem sei que "a alma é o segredo do negócio", mas... Como tantas vezes no passado, os sócios só são importantes nos momentos eleitorais. Passado esse período, o desrespeito é quase total. Agora, como num passado bem recente. Bem sei que tivemos limitações várias na construção deste plantel, que esta Direcção entrou em funções com o campeonato já em funcionamento e sem poder ir ao mercado, mas a verdade é que depois do sonho de umas noites de Outono estamos a cair numa realidade que não compreendemos na sua totalidade, onde a ruptura com o passado não é evidente.

O nosso presidente até pode ser um Egas Moniz da medicina, um Rambo das Forças Armadas portuguesas, um Bill Gates da gestão, mas e o futebol? Durante a campanha eleitoral, Varandas apresentou os seus conhecimentos do fenómeno futebolistico como uma mais-valia. Reconheço na sua equipa pessoas com capacidade, pelo menos nas áreas financeira e do marketing, mas uma boa gestão do futebol profissional é fundamental e ajuda a melhorar o desempenho de outras áreas. No entanto, as evidências parecem provar que, mais ainda do que um gestor para o futebol, aparentemente precisamos é de um técnico de investigação operacional, especializado em gestão de stocks (mais de 80 jogadores com contrato profissional na nossa folha de pagamentos) e em simulação de filas de espera (aparentemente, a Gertrudes na Academia está sempre com o sinal encarnado e não há passagens à equipa principal). E assim se vai esticando o acordeão...

 

P.S. Quarta-feira temos de dar a volta. Um leão nunca se rende. Força Sporting!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes (menções honrosas para Wendel e Renan).

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18
Jan19

Geraldes contra a cegueira


Pedro Azevedo

Francisco Geraldes IN, Miguel Luis e Jovane Cabral OUT, as novidades da convocatória de Marcel Keizer para o jogo de amanhã - Alvalade, 18h00 - contra o Moreirense. 

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