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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

06
Abr20

O amor em tempos de cólera

O amor em quarentena


Pedro Azevedo

Como diria o Alexandre O'Neill, ser Sportinguista é uma coisa em forma de assim. Não é mau de todo, diga-se. É mais impositivo do que ser "assim-assim" e menos radical do que ser "assado", embora muitos Sportinguistas frequentemente passem pelas brasas. Aliás, essa atracção pelo abismo é algo que faz parte do nosso ADN. Umas vezes a culpa nem é nossa, como quando somos compelidos a vivenciar o inferno de Alder Dante (o apanha-bolas no nevoeiro das Antas), de Veiga Trigo (Silvinho no berço da nacionalidade), João Ferreira (mão de Ronny), Paraty (carga de Luisão) ou dos inefáveis irmãos Calheiros. Outras vezes somos nós que incendiamos Roma e depois criamos trincheiras onde vamos cavando as nossas diferenças. É também uma forma singular de "jogarmos ao guelas", com covinhas e tudo, em que cada jogador tenta denodadamente "matar" o inimigo interno até que no fim chega o adversário externo munido de um abafador e nos leva os "berlindes" todos. 

 

Em cada Sportinguista há um oráculo: muito antes do Coronavírus já os Sportinguistas haviam experimentado o que é viver colectivamente de forma separada. Com efeito, nós estamos (somos?) como um tubo de ensaio onde se adicionam "reagentes" como a água e o óleo que periodicamente é submetido ao Bico de Bunsen. Por isso, o ambiente entre nós é constantemente quente, os ânimos estão muitas vezes inflamados e há gente que fica mesmo fula (ou, alternativamente, "está com os azeites"). Creio até que a portuguesíssima citação de que "em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão" nos é dedicada. Nesse transe, no Sporting existem pelo menos três milhões e meio de razões, cada uma com a sua idiossincrasia, pelo que convertê-las numa razão comum faz os doze trabalhos de Hércules parecerem uma coisa de meninos. 

 

Ninguém sabe quando esta outrora maravilhosa aventura colectiva irá terminar. Mas todos pressentem que não irá acabar bem. A não ser que o amor triunfe. O problema, já dizia o poeta, é que o amor é fogo que arde sem se ver, ou seja, é como o metanol que precisa de muito carvão para se processar. O risco é provocar-se um incêndio invisível e ter de se atirar água para todos os lados. Menos mal, porém. É que meter água por todos os lados é coisa que nunca constituiu um desafio no Sporting. Haja saúde! 

P.S. Excelente e solidária iniciativa dos Núcleos do Sporting, levando as compras a quem precisa e não se pode deslocar. São estas atitudes que nos devolvem a esperança.. 

02
Abr20

O Super-Lopes


Pedro Azevedo

A primeira vez que o vi ele flutuava imperialmente sobre uma superfície lamacenta e revolta pelo frequente galope dos cavalos. Estávamos em 1976 (28 de Fevereiro) e disputava-se o Campeonato do Mundo de corta-mato. O local: o Hipódromo de Chepstow, no País de Gales. À época Portugal tinha poucas conquistas de relevo no desporto internacional, pelo que a retumbante vitória de Carlos Lopes não me apanhou apenas a mim de surpresa, mas também todo uma nação. Uns meses mais tarde, num outro país e continente (Montreal, Canadá, América do Norte), ei-lo de novo perante os meus olhos. O cenário agora era ainda mais grandioso, visto que a cidade canadiana do Quebec organizava os grandiosos Jogos Olímpicos de Verão. Lopes competia agora em pista, na prova de 10 000 metros (26 de Julho), e não estava entre os principais favoritos. Estes eram o belga Emiel Puttemans, os britânicos Tony Simmons e Brendan Foster e o finlandês e campeão olímpico em título Lasse Viren. O português, que já mostrara anteriormente estar em forma ao vencer a sua série de qualificação, foi logo para a frente impôr ritmo. Um a um, os seus adversários iam ficando para trás, impotentes para acompanharem a passada do homem de Vildemoinhos. Só Viren resistia quando faltavam 500 metros para o fim. Até que o finlandês, suspeito de fazer transfusões do seu próprio sangue previamente congelado, se foi embora e ganhou a medalha de ouro. Carlos Lopes ficou com a prata, tornando-se o primeiro português a ganhar uma medalha em atletismo nuns Jogos Olímpicos. 

 

Após o exuberante ano de 76, Lopes não teve a progressão desejada. Em 77 ainda se sagra vice-campeão mundial de "cross", mas uma arreliadora lesão no tendão de aquiles afasta-o das principais competições mundiais e a carreira está quase a perder-se. Durante 5 anos, o atleta português enfrenta o calvário, resistindo a uma operação que não dava amplas garantias de continuidade de carreira. Optando por tratamentos conservadores, encontra o mestre Koboyashi, o homem que com as suas agulhas de acupuntura salva o português para a competição. Em Maio de 81 vê o seu compatriota e colega de treino, Fernando Mamede, bater o record da Europa dos 10 000 metros. O feito de Mamede espicaça-o. Até que o viseense renasce das cinzas como a fénix e em Oslo, em 26 de Junho de 82, tira mais de 3 segundos à marca do alentejano do Sporting e torna-se o novo recordista da especialidade. Em 83, nova medalha de prata no Mundial de "Cross". O português volta a sagrar-se campeão mundial de corta-mato em 84, nos EUA, batendo o inglês Hutchings e o galês Steve Jones, prenúncio para um resto de temporada fantástico que inclui a obtenção da segunda melhor marca mundial de todos os tempos nos 10 000 metros, em prova onde Mamede bateu o record mundial (Estocolmo), e a primeira medalha de ouro olímpica portuguesa com a vitória na Maratona dos Jogos de los Angeles, batendo o record mundial da prova que celebra a distância percorrida pelo soldado grego Philippides entre Marathon e Atenas. Em 85, correndo em casa e alegando má forma, bate uma dupla africana formada pelo queniano Kipkoech e o etíope Bulti e realiza o hat-trick de vitórias mundiais em corta-mato. Tem 38 anos e nesse momento não há ninguém no mundo que duvide que ele é o atleta mais complato de sempre no combinado de pista, corta-mato e estrada. 

 

Carlos Lopes, um campeão "made-in Sporting".

02
Abr20

Contos de um Leão Rampante - Hector Yazalde(*)


Pedro Azevedo

"Um anjo com cara de índio"

 

O menino permanecia imóvel, como que hipnotizado, diante do imponente Blaupunkt com gravador de bobines, gira-discos e, mais importante, rádio de válvulas onde se podia por exemplo ouvir a BBC. Nesse dia, 31 de Março de 1974, o rádio não estava sintonizado na popular estação britânica, mas sim na Emissora Nacional. A dupla Fernando e Romeu Correia relatava um Sporting-Benfica, o último derby antes da Revolução de Abril, e a vibração da sua narrativa exercia um magnetismo ímpar no menino.

Eram 15h08 e Portugal inteiro parou: os locutores tentavam descrever, ainda incredulos, o que haviam presenciado. Hector Yazalde, o anjo com cara de índio, desafiara o impossível, qual cavaleiro alado mergulhara em voo rasante entre os pés do monstro Humberto e do intratável Barros e, a vinte centímetros do solo, cabeceara (!) a bola na direcção da baliza. Golo!

O jogo continuaria, mas já não seria o mesmo. Naquele momento, ao minuto 8, os espectadores no Estádio sentiram-se recompensados por anos de "idas à bola". Yazalde ainda voltaria a marcar e o Benfica até acabaria por ganhar, mas o Jogo, esse, terminara há muito.

A última aparição pública de Marcelo Caetano (Abril estava mesmo ali), a ovação tremenda e, ver-se-ia, tão enganadora, foi simplesmente olvidada, menosprezada. O momento era de Yazalde, o corajoso e temerario Chirola, o Homem que nunca esquecera as suas origens humildes e que sempre que saía de um treino, presenteava todos os jovens desfavorecidos que o abordavam com tudo o que tinha nos bolsos, entretanto previamente provisionados; o colega que, uns meses depois, quando lhe atribuíram um Toyota, como prémio pela Bota de Ouro europeia, decidiu vender o automóvel e distribuir o dinheiro que daî resultou, equitativamente, por todos os colegas de equipa.

Nesse dia, todos queriam ser Yazalde, até os políticos e os capitães queriam ser Yazalde e Yazalde deixou de ser humano para se tornar um mito em Alvalade, génio impulsionado pela sua musa, a bela Carmén, a quem um dia Beckenbauer, no Lido de Paris após a cerimónia de entrega do Bota de Ouro, disse ser a mais bela de todas as mulheres de jogadores de futebol.

E, o menino? O menino imaginava aquele momento do golo, a ousadia do dianteiro, o espanto dos defesas, o desespero do guarda-redes José Henrique, o Zé Gato, que nesse transe perdera a última das suas sete vidas, sendo substituído ao intervalo por Manuel Galrinho Bento (esse mesmo). E o menino sonhava com isto tudo, estado que se prolongou por todo o Domingo.

No dia seguinte, vestiu a mítica camisola verde-e-branca, com o número 9 cosido nas costas (comprada na Casa Senna), bola na mão, e abalou a caminho da escola, confiante de que a partir daí, nada na sua vida seria impossível de alcançar. Aprendera com o melhor...

 

(*) Publicado originalmente neste blogue em Janeiro de 2019

01
Abr20

A contas com Mathieu


Pedro Azevedo

O Jogo diz que Varandas e Amorim queriam meia-dúzia de craques, mas o investimento deve encolher devido ao Coronavírus. Independentemente da ocorrência do Coronavírus, o facto de alguém ter pensado ser possível comprar 6 craques devia ser encarado como verdadeiramente perturbante, na medida em que demonstra total ausência de consciência da realidade das nossas contas. É preciso dizer a verdade aos Sportinguistas, e esta é que o Sporting precisará de vender quase todo o seu plantel se quiser ter um Resultado positivo no exercício de 2020/21, a não ser que da época desportiva resulte uma valorização exponencial perfeitamente inesperada de um jogador que desponte (a sua venda imediata para compôr as contas também seria demonstrativa de uma gestão por impulsos e longe daquilo que deveria ser uma política desportiva sustentável). Esta já era a situação antes do COVID-19 e não se vê como se pode alterar. E para contratarmos 1-2 jogadores de qualidade acima dos que cá estão, atletas na casa dos 10 milhões de euros, precisaremos primeiro de cortar cerca de 35/40 milhões de euros nos custos (25/30 milhões em custos com pessoal e 10 milhões em fornecimentos e serviços externos), o que significa que teremos de apostar na nossa Formação e nos jogadores que temos emprestados por aí se quisermos completar o plantel. Tudo o resto é fantasia. 

 

Depois da venda de Nani, Raphinha, Dost e Bruno Fernandes, obviamente que a qualidade média do plantel leonino decresceu. Para piorar a situação, as 15 contratações cirúrgicas tardam a demonstrar efectiva valia. São, como tal, no mínimo estranhas as notícias postas a circular em diversos orgãos de comunicação social que apontam para a saída de Jeremy Mathieu. O francês, conjuntamente com Marcos Acuña, compõe o dueto de melhores do Sporting, pelo que a sua perda enfraqueceria ainda mais a equipa. Além disso, não deve ser nos seus melhores jogadores que a SAD deverá cortar, mas sim em todos aqueles que não vão mostrando qualidade à altura dos pergaminhos desta enorme instituição. Mesmo a possibilidade de regresso de José Fonte faz pouco sentido: com que objectivo se trocaria um jogador de 36 anos por outro de 35 e menos rápido (independentemente da sua reconhecida qualidade), pagando ainda uma compensação aos franceses do Lille, clube que levou Rafael Leão sem nunca procurar um acordo com o Sporting? Eu gostaria muito de continuar a ver Mathieu a jogar por cá. E que no futuro pudesse integrar os nossos quadros técnicos ou dirigentes, também. Recupero, por isso, o conteúdo de um Post que escrevi em Novembro de 2019 sobre este gaulês:

 

"Na visão deste Sportinguista que Vos escreve o mundo divide-se em dois: a leste, a Muralha da China; a oeste, Monsieur Mathieu. 

 

Um incêndio numa sala de cinema? Ele já estaria lá fora. Um eléctrico com o freio desgovernado? Idém. Imperturbável, na maioria das situações Mathieu aproveita a sua experiência para antecipar os lances. Outras vezes especula descaradamente com o seu oponente directo: fazendo-se valer do seu ar de simpático ancião, convida o adversário a procurar a profundidade para no último momento mostrar-lhe uma velocidade incomum e desarmá-lo. Essa sua faceta hitchcockiana, de Mestre do Suspense, também pode ser vista quando avança resoluta e destemidamente pelo terreno, bola colada ao pé e face bem levantada. Aí torna-se um Mustang, um cavalo à solta, como se dentro dele ainda houvesse aquele menino traquina a impeli-lo a retornar à juventude. Só por isso já valeria o preço do bilhete (e os seus médios defensivos sempre aprendem alguma coisita). Un Grand Seigneur!"

 

P.S. Não se use agora o horrível drama do COVID-19 como desculpa para um gestão de casino. Olhando para o último R&C da SAD é perfeitamente identificável que o valor do plantel (Activos intangíveis) está ao nível do défice de exploração anual. Assim sendo...

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31
Mar20

António Ribeiro Ferreira


Pedro Azevedo

Nascido em Alvaiázere em 17 de Setembro de 1905, licenciou-se pela Faculdade de Direito de Lisboa em 1926. Tendo sido admitido como sócio do Sporting Clube de Portugal em Outubro de 1935, presidiu ao 1º Congresso Leonino em 1940. Posteriormente, foi o Director do Boletim Sporting, antecessor do Jornal Sporting, entre Agosto de 1943 e Março de 1951. Chegou à presidência do clube em 19 de Janeiro de 1946. O seu percurso à frente do clube coincidiu com o período aúreo do futebol leonino, com 6 Campeonatos Nacionais conquistados, a que se acrescentariam duas Taças de Portugal e 2 Campeonatos de Lisboa. 

 

Era o tempo dos 5 Violinos, a célebre linha avançada formada por Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. Em 1949, o Sporting conquistava o seu primeiro tri-campeonato. O abandono de Peyroteo no final dessa época desportiva terá sido o aspecto menos conseguido da presidência de Ribeiro Ferreira. Ainda assim, com a realização de um festa de homenagem que chegou a estar em dúvida cuja receita reverteu a favor do melhor goleador de todos os tempos do futebol internacional, o Sporting viria a contribuir para o saneamento de dívidas contraídas pelo seu ponta de lança no decurso de um negócio comercial de equipamentos desportivos. Mário Wilson foi o homem escolhido para substituir Peyroteo, mas a equipa viria a ressentir-se da ausência do seu "matador" e perderia o título de 50. Recuperaria o ceptro em 51, já com Martins na frente do ataque leonino, revalidando-o em 52 e 53, época que viria a ser completada com Goes Mota na presidência, dado Ribeiro Ferreira ter falecido em 13 de Fevereiro de 53. No total, em cerca de 7 anos à frente dos destinos do clube, Ribeiro Ferreira conquistou 6 títulos de campeão nacional de futebol, o que ainda hoje o faz ser destacadamente o presidente leonino que mais vezes obteve o ceptro máximo do futebol nacional.  

 

Não se infira daqui que a presidência de Ribeiro Ferreira ficou só ligada à conquista de títulos no futebol. Nada disso. Ele foi um dos impulsionadores do ecletismo leonino, tendo sido nos seus mandatos que o Sporting conquistou o primeiro título de andebol de sete. Para além do andebol, o Sporting também conquistou títulos no ténis de mesa, atletismo, ciclismo, tiro, automobilismo, motociclismo, ginástica, basquetebol, ténis e voleibol. Também criou e desenvolveu infraestruturas, realizando importantes obras no Stadium de Lisboa (antigo campo do Sporting) através de financiamento (emissão dos "Lagartos", títulos de empréstimo) e subida das quotas ("cotas") dos sócios. Aumentou ainda o património do clube com a compra dos terrenos denominados de Lumiar A e de um edifício na Rua do Passadiço, local que viria a ser a sede do clube e onde instalou a sala de troféus e construiu um salão para a ginástica e um ringue para as modalidades. 

 

Durante as suas presidências, António Ribeiro Ferreira deu sempre muita atenção ao Boletim do Sporting, que em Junho de 1952 passou a designar-se como Jornal Sporting. Compreendeu muito bem a necessidade de expansão da marca, distribuindo bandeiras, fotos e emblemas pelos distritos do país e impulsionando excursões de sócios aos jogos da equipa de futebol disputados nas várias regiões. Aprovou os sétimos estatutos do clube, elaborou os regulamentos da secção de futebol e o código de conduta do jogador e promoveu o estreitamento das relações com núcleos e delegações, deixando o clube com 13 233 sócios (record, na época), a que correspondia uma receita anual de 1575 contos. 

 

A título de curiosidade, o Sporting terminou o exercício de 1952 com um saldo positivo de quase mil contos, com o futebol a custar cerca de 2 mil contos mas a apresentar um lucro de 773 contos, tendo a actividade desportiva geral do clube dado um resultado positivo de 350 contos. O Jornal Sporting deu um prejuízo de 63 contos. O património do clube tinha um valor de 7242 contos. 

 

Ribeiro Ferreira foi o grande presidente da história do Sporting Clube de Portugal (pese embora eu tenha conhecido o Sporting pela mão de João Rocha, igualmente um dirigente marcante na nossa epopeia colectiva). Não só pelas conquistas no futebol, mas também pelo cunho definitivamente eclético que imprimiu, pelo desenvolvimento de infraestruturas, expansão da marca e organização interna do clube. Como tal, merece um maior reconhecimento por parte de todos os Sportinguistas. É que um clube será tão grande quanto a distinção dada àqueles que com brilhantismo ajudaram a construir a nossa memória colectiva. 

 

(Bibliografia: Wiki Sporting)

ribeiro ferreira e peyroteo.jpeg

(António Ribeiro Ferreira e Fernando Peyroteo com a Taça Século)

27
Mar20

Com licença que eu vou ali e já volto e o Miguel fica já por aqui


Pedro Azevedo

Quando se julgava já se ter visto de tudo, e numa fase de maior aperto para a SAD em virtude do Coronavírus (previsível impacto no valor de mercado dos jogadores) ter posto ainda mais a nu o excesso de alavancagem da sociedade anónima desportiva do Sporting (insustentáveis mais de 70 milhões de euros de défice de exploração antes de proveitos extraordinários resultantes de vendas de jogadores), eis que o presidente Frederico Varandas, por força da Lei de Defesa Nacional que devido à declaração do Estado de Emergência retirou automaticamente a licença especial de que este militar beneficiava por ser membro de uma Assembleia de Freguesia, teve de se apresentar ao serviço das forças armadas portuguesas, não se sabendo até ao momento se continua a auferir vencimento na SAD, salário esse que aliás irá aumentar a partir de Julho conforme ficou convencionado devido à aprovação, com o voto contra de todos os outros accionistas, de um aumento remuneratório dos administradores (manter-se-á, atendendo ao contexto?). 

 

Poucos dias depois é o vogal do Conselho de Administração da SAD, Miguel Cal, a apresentar a demissão, alegando motivos pessoais e profissionais, reduzindo o número de membros executivos do CA da SAD a dois (Francisco Salgado Zenha e João Sampaio).  

 

Dizem-nos agora que André Bernardo, sócio eleito como vogal suplente do Conselho Directivo do clube que passou recentemente a efectivo após a saída de Francisco Rodrigues dos Santos, será cooptado para a SAD. 

 

Entretanto, a comunicação do clube não foi de quarentena. Agora vendem-nos a previsão de que Gonzalo Plata irá render 60 milhões de euros daqui a 3 anos. O mais estranho é que ao mesmo tempo dão como prioridade a intenção de comprar os 50% do passe do equatoriano que estão na posse do Independiente Del Valle. Será que não deveriam comprar primeiro o resto dos direitos económicos que não nos pertencem e só depois apresentarem as brilhantes expectativas para a valorização do jogador? Ou será que acreditam que no Equador ninguém lê jornais?

 

Bem sei, a pioridade nestes tempos é a nossa saúde. Mas não se podem deixar definhar as instituições, razão pela qual empresas de todo o mundo procuram diariamente encontrar soluções para os problemas de quebra de receitas e excesso de capacidade instalada. No Sporting é este espectáculo. Algo vai muito mal no reino do leão...

25
Mar20

Viver para reconstruir


Pedro Azevedo

Numa hora destas, em que mais do que o tempo estar parado é a nossa forma de viver que está suspensa, é-me difícil falar de futebol. Vivemos um momento singular onde nos é pedido para sobreviver. Não para desfrutar da vida como Deus a terá imaginado para nós, mas tão só sobreviver. Eu sei, acreditem, assim à partida parece pouco. Não foi essa a vida que escolhi para mim. Nunca me imaginei como um sobrevivente, como alguém capaz de trocar a liberdade de pensamento e de actuação por concessões várias que tantas vezes fazem o Homem perder-se no seu caminho. Mas aqui falamos de outro tipo de sobrevivência, é a nossa comunidade que está em risco. Este pedido que agora nos fazem é justo e vai ao encontro do ideal que persigo de sociedade: uma onde existe um sentido colectivo da vida e uma preocupação com o nosso semelhante e tudo o que nos rodeia. 

 

Tantas e tantas vezes no passado o Homem se isolou dos demais, egoísticamente, de forma interesseira, individualista e egocêntrica. Quis agora o destino que esse isolamento se exprimisse altruisticamente. Eu estou em crer que teremos sucesso nessa tarefa. A confirmar-se, tal como espero, pensem então no que poderíamos fazer enquanto seres humanos se o nosso altruismo se pudesse manifestar sem distanciamento social, todos juntos e com respeito mútuo trabalhando em prol de um projecto comum, de um amor compartilhado. Sem exibicionismos, sem umbiguismos, sem bons nem maus da fita, apenas partilhando o melhor da natureza humana que existe em cada um de nós. Gostaria que fechassem os olhos por um momento e imaginassem um Sporting assim...

 

Um dia, após a tempestade, virá a bonança. Com ela, uma nova era. A reconstrução começará em nós próprios, naquilo que necessitamos mudar para podermos fazer a diferença. Deus não nos pôs no mundo para sermos mais um, e cada um deve saber extrair de si o melhor do seu potencial e entregá-lo à comunidade. Fazer a diferença! O Sporting em que eu acredito também é isso, aquele clube que em pequenino me entrou pelos ouvidos numa onda média da rádio até que uma primeira visita ao estádio transformou a onda num tsunami de emoções que foi crescendo, crescendo, sem parar. Um dia eu quero voltar a ver toda a gente feliz no nosso estádio. Quero de volta o sentimento de partilha. Entre amigos e entre desconhecidos. Desejo que as memórias que cada um tem do clube voltem a ser um património comum. E que isso seja vivido, celebrado, com a alma que marca a nossa identidade, a nossa "leoninidade". 

 

Não há instituições sem homens que as sirvam. Portugal, enquanto nação, necessita do nosso civismo e do nosso sentido de responsabilidade neste momento. Como dizia António Quadros, apropriadamente citado pelo nosso Leitor Miguel Correia, Portugal está no mais fundo de nós, e sem ele seremos menos do que somos. Assim também o é com o Sporting. O clube nunca teria atingido o patamar mais alto se não fosse por esta necessidade que o Homem tem de se ligar a algo muito mais grandioso do que ele. Foi essa necessidade exponencial e exponenciada que tornou o Sporting enorme. Por isso, dos escombros do Sporting actual teremos de recuperar a razão das coisas, aquilo que nos liga e, ligando, nos multiplica. Não o que nos divide. Ter uma ideia diferente para o clube nunca poderá ser uma causa de divisão. Pelo contrário, será outra perspectiva, outra visão, algo que acrescentará. 

 

Eu sei, o Sporting, tal como qualquer outra instituição, não pode estar adiado. Mas neste momento é a nossa vida que está adiada, suspensa pelo tempo. A morte saiu à rua, entra-nos pelos telejornais todos os dias. Se isso não nos fizer reflectir sobre o pó que nós somos no Universo, não sei mais aquilo que nos poderá alertar sobre a fragilidade da nossa condição humana. Guardemos por isso o nosso engenho, a nossa inteligência para a tarefa futura de construção e não de destruição. Gerando humanidade e não desumanidade. Apresentando trabalho e não propaganda. Quando se tem uma visão, um sonho e se pensa primeiro no bem-maior colectivo em detrimento do interesse pessoal, não há caminho impossível de trilhar nem obstáculos ou adamastores suficientemente imponentes que nos possam travar. De resto, a única coisa realmente importante a preservar é a vida, a nossa (de todos nós) e a das instituições a que nos ligamos de forma afectiva e/ou profissional. Mantenham-se saudáveis!

 

#estamosjuntos

 

P.S. O meu louvor à anónima comunidade de profissionais de saúde que tem estado na linha da frente da luta contra a covid-19, muitas vezes sem os meios ou a protecção devida que agora parece que felizmente vão chegar. A esses médicos, enfermeiros e auxiliares o meu agradecimento. Vocês são os meus heróis! Também gostaria de agradecer a todos os portugueses que têm sabido interpretar o que está em causa e que com o seu comportamento responsável e cívico vêm ajudando a conter a propagação da doença. 

18
Mar20

A vida em isolamento / Malcolm Allison


Pedro Azevedo

"Cigar" (Charuto)

big mal.png

"Fedora hat" (Chapéu Fedora)

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"A legend by a legend" (Brian Clough sobre Big Mal)

Southampton-Sporting 

#estamosjuntos #sporting

18
Mar20

A vida em isolamento / Big Mal e a receita mágica


Pedro Azevedo

Big Mal e a campanha de 82: cinco craques (Meszaros, Eurico, Oliveira, Jordão e Manuel Fernandes), seis jovens da Formação (Carlos Xavier, Mário Jorge, Ademar, Virgílio, Freire e Alberto) mais outros 4 criados em Alvalade (Barão, Zezinho, Bastos e Inácio) e dois carregadores de piano incansáveis (Marinho e Nogueira), num plantel treinado por um Malcolm Allison que não olhava a nomes ou bilhetes de identidade. Uma receita de sucesso com direito a dobradinha e tudo. 

 

Ainda que em quarentena, estamos juntos!

#estamosjuntos #sporting

18
Mar20

A vida em isolamento / A melhor época de sempre


Pedro Azevedo

Menos de 1 mês após o 25 de Abril, o Sporting deslocou-se ao D. Manuel de Mello, no Barreiro, e derrotou o Barreirense por 3-0, sagrando-se campeão nacional em 73/74. Yazalde, com 46 golos (30 jogos), estabeleceu um novo record da competição, marca que ainda se mantém imbatível. Seguiu-se nova vitória na Taça de Portugal, após prolongamento, com o golo do milagroso empate a chegar em cima dos 90 minutos. Na Taça dos Vencedores das Taças, privados do goleador "Chirola" e com muito azar, perdemos com sabor a injustiça contra os então alemães do leste do Magdeburgo. Ainda assim, com a dobradinha a nível nacional e a semi-final europeia, o Sporting teve a melhor época da sua história. Treinador: Mário Lino. O açoriano, campeão nacional pelo Sporting como jogador e treinador (também como adjunto de Fernando Vaz), não continuaria, uma sina que o tempo viria a repetir para infortúnio de todos os Sportinguistas.

 

Ainda que em quarentena, estamos juntos!

#estamosjuntos #sporting

18
Mar20

A vida em isolamento / Carambola de milagre


Pedro Azevedo

O derby eterno. O primeiro jogo de JJ contra o seu anterior clube. O remate de Carrillo que fez carambola em Teo e deu uma Supertaça ao Sporting. 

 

Ainda que em quarentena, estamos juntos!

#estamosjuntos #sporting

18
Mar20

A vida em isolamento / Renan, o homem talismã


Pedro Azevedo

Taça da Liga 18/19: meias-finais e final ganha em penáltis; Taça de Portugal 18/19: final vencido nas grandes penalidades. Um denominador comum: Renan Ribeiro. Renan, o Homem Talismã.

Ainda que em quarentena, estamos juntos!

#estamosjuntos #sporting

18
Mar20

A vida em isolamento / o herói improvável


Pedro Azevedo

O amuo de Simon Vukcevic durante o aquecimento como momento chave de um jogo. Entra Tiuí, o mal-amado, o patinho-feio transformado em herói mais do que improvável, com direito a bicicleta e tudo. O futebol e os seus sortilégios...

 

Ainda que em quarentena, estamos juntos!

#estamosjuntos #sporting

18
Mar20

A vida em isolamento / Reviravolta histórica


Pedro Azevedo

O regresso de Derlei após lesão. O Liedson que resolvia. O golo de primeira de Simon Vukcevic. A perderem por 2-0 ao intervalo, os leões deram a volta e terminaram a ganhar por 5-3. Épico!

 

Ainda que em quarentena, estamos juntos!

#estamosjuntos #sporting

18
Mar20

A vida em isolamento / Eu te amo Sporting


Pedro Azevedo

O golo de Miguel Garcia, o "Herói de Alkmaar". A incontida emoção no último relato de Jorge Perestrelo. Que Deus o guarde em eterno descanso!

 

Ainda que em quarentena, estamos juntos!

#estamosjuntos #sporting

17
Mar20

A vida em isolamento / Teo-19 e o vírus do golo


Pedro Azevedo

Aproveito este tempo de quarentena para relembrar alguns antigos jogadores do Sporting porventura mais caídos em esquecimento. O primeiro que me ocorreu foi Teo Gutierrez, que em Alvalade vestiu uma camisola com o número 19 (da nossa inquietação e descontentamento recentes) estampado nas costas.

 

Para muitos foi sempre um "patinho feio". Excêntrico, protagonizou vários momentos insólitos, desde as novelas dos atrasos no regresso da América do Sul até ao roubo do spray a um árbitro na Liga Europa para comemorar um golo que havia marcado ao Besiktas. Insólita também foi sempre a sua relação com o golo. A ele vi marcar com o peito, a anca, o joelho, as costelas, ou simplesmente como pino desviando um remate de Carrillo que daria a vitória sobre o rival Benfica na Supertaça, como se a bola magicamente o procurasse a caminho do golo e usasse a parte do seu corpo "mais à mão" para o efeito. 

 

A verdade é que Teo Gutierrez foi sempre um jogador nuclear para Jorge Jesus. Número 19 nas costas, o "cafetero" sempre se distingiu pela forma inteligente como arrastava marcações, mostrando que tão ou mais importante do que o momento em que se tem a bola é saber o que fazer sem bola, afinal aquilo que acontece na esmagadora maioria do tempo de jogo. Descrevendo umas hipérboles à volta da grande área, o colombiano conseguia abrir espaços para João Mário, Ruiz ou Adrien entrarem nas suas costas e visarem a baliza ou servirem Slimani. Dái aliás resultariam vários golos leoninos nessa época de 2015/16. 

 

Infelizmente, uma inoportuna lesão a que se seguiu a demora no regresso da Colômbia coincidiriam com um período de menos fulgor do Sporting, algo que associado a factores externos alheios aos leões bem pode ter custado o título. No entanto, para que nunca esquecessemos o seu toque distintivo, capricharia no final da época com exibições que lhe valeriam diversas vezes a menção de melhor em campo. Sem criar raízes em Alvalade, viria a sair discretamente no final dessa época sem a repercussão que as vendas de Slimani ou de João Mário tiveram. No entanto, ao contrário destes - ausências colmatadas com a compra de Bas Dost e a promoção de Gelson - , o Sporting não encontraria na temporada seguinte um jogador à altura deste irreverente colombiano nascido em Barranquilla e com passagens pela Turquia, México e Argentina. Aliás, neste último país viria a jogar nos milionários do River Plate, clube pelo qual se notabilizou vencendo a Libertadores, Copa Sul-Americana, Recopa (Supertaça) da América do Sul e campeonato argentino. 

 

Ainda que em quarentena, estamos juntos!

#estamosjuntos #sporting

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14
Mar20

Dogmáticos "ma non troppo"


Pedro Azevedo

O Sporting é um clube curioso onde a antecipação de eleições merece um dogmático não baseado em "os mandatos são para cumprir", mas a eventual antecipação de receitas que em muito ultrapassam o corrente mandato nem sequer precisa de ir a Assembleia Geral (de clube e SAD). 

 

P.S. Não se pode questionar a interrupção de mandato, mas pode-se esvaziar o próximo mandato...   

12
Mar20

Contorcionismo


Pedro Azevedo

Depois de ter promovido Frederico Varandas "ad-nauseam" até à presidência do Sporting, Luis Paixão Martins classifica agora de "triste" o mandato do actual presidente e diz que o Sporting precisa de "eleições clarificadoras" (NA: clarificadoras ou decisivas para a sobrevivência do clube?). "Too late to say I'm sorry", não é Luis Paixão Martins? Nada tema, porém: seguir-se-á um novo ungido pelas agências de comunicação e tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes. Responsabilidade? Não. Um dia vendemos um detergente, outro dia um presidente...

 

P.S. Nas eleições do Sporting todos os candidatos deveriam ser obrigados a declarar os gastos incorridos e financiadores da campanha, bem como eventuais compromissos futuros estabelecidos que envolvam o clube. 

08
Mar20

Um pedido de um Sportinguista


Pedro Azevedo

Peço a todos os que se manifestarão hoje junto ao Estádio José Alvalade para exercerem o seu protesto da forma ordeira que está no nosso centenário ADN Sportinguista. O direito à indignação está consagrado na Constituição da República, porém espero que todos estejam à altura da gesta gloriosa que ajudou a dar forma a esta enorme instituição. Não se esqueçam que Ser Sporting não é só uma responsabilidade para com o futuro, é também o respeito pelo nosso passado. E, por favor, queiram corrigir essa ideia de ficarem fora do estádio enquanto o jogo estiver a decorrer. Eu serei apenas mais um dos presentes na manifestação, mas ocuparei o meu lugar nas bancadas imediatamente antes do jogo começar para apoiar a nossa equipa. Para mim, o Sporting no seu estado puro é aquele que vai a campo, quadra, pista, piscina, etc. Se isso Vos oferecer alguma dúvida, pensem naquilo que Vos estimulava quando eram mais pequenos e ainda não tinham filtros, preconceitos ou pensamento político. Nessa reflexão encontrarão a verdade e saberão separar as águas. Viva o SPORTING!!!  

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