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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

19
Fev20

A realidade inconveniente


Pedro Azevedo

O Sporting continua a gastar demasiado no futebol para os resultados desportivos que apresenta. Tal concorre para Resultados sem transacção de jogadores fortemente negativos. Eis os principais desequilíbrios verificados a nível da SAD, visíveis através do R&C anual referente à época 2018/19 (não significativamente alterados em 2019/20):

 

  • Resultados Operacionais sem transacção de jogadores negativos em 29 milhões de euros, consequência do lado dos Proveitos da não qualificação para a Champions e do lado dos Custos do não ajustamento dos Custos com Pessoal e dos Fornecimentos e Serviços Externos (FSEs) à nova realidade europeia;
  • Subida das Amortizações para um valor de 30,9 milhões de euros, por via da insuficiente aposta em jovens da Formação (Valor Bruto e Amortização zero) e da aquisição de demasiados jogadores;
  • Resultados Financeiros negativos em 10,4 milhões de euros, devido a um aumento dos custos de financiamento da dívida;
  • Somando estas 3 rúbricas, a Sporting SAD perde 70,3 milhões de euros;
  • Não havendo ajuste dos Custos aos Proveitos, mantendo-se este cenário, a SAD precisará de realizar vendas anuais de 70,3 milhões de euros para não apresentar prejuízos.

 

Olhando para este cenário, é óbvio para todos que a realidade está muito longe da desejada sustentabilidade. Acresce que os resultados desportivos não justificam de todo o investimento produzido (aquisição de jogadores) e os gastos gerais em que a SAD incorre anualmente. Tal resulta de uma política desportiva delirante (pardon my french), completamente desfasada dos constrangimentos financeiros da SAD e que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade e ignora a Formação. Olhando para a Demonstração de Resultados é perfeitamente identificável o não ajuste dos Custos à quebra de Proveitos motivada pela exclusão da Champions, desequilíbrio que não se reflecte positivamente de nenhuma maneira no desempenho da principal equipa de futebol do clube. Sendo certo que a situação já estava descontrolada nos últimos tempos de Bruno Carvalho, por via de um aumento pronunciado dos custos (cerca de 75 milhões de euros em Custos Com Pessoal) e de investimento (63,7 milhões de euros em 17/18 divididos em diferentes R&C) que estava ainda assim suportado num lote de jogadores de qualidade mas que ficou em parte ameaçado com as rescisões, a não imediata reacção à perda de Proveitos e a Alcochete agudizou o problema. É difícil não pensar que se poderia fazer muito melhor gastando e investindo muito menos. Não são só os benchmarks (referências) de mercado (Braga, Rio Ave, Famalicão) que o indiciam, é também o passado. Por exemplo, se olharmos para a temporada de 2013/14 verificamos o seguinte (face à temporada anterior): corte nos FSEs de 4,3 milhões de euros, redução dos Custos com Pessoal em 16,6 milhões de euros, diminuição no valor das Amortizações em 11,3 milhões de euros devido a uma maior aposta na Formação e melhoria dos Resultados Financeiros em cerca de 3 milhões de euros (menos dívida e renegociação das taxas de juro), para além de menos 3 milhões de euros em provisões. Tudo isto concorreu para uma melhoria dos Resultados da SAD em 38,2 milhões de euros. E os resultados desportivos? Bom, passámos de um 7º lugar em 2012/13 para um 2º lugar (qualificação para a Champions) em 2013/14, demonstrativo de que se pode fazer melhor, de uma forma sustentável, mesmo gastando muito menos. 

 

Conclusão: qualquer pessoa minimamente experiente em "turnaround" de empresas saberá que a actual situação é insustentável e que a aposta na Formação conjugada com uma política desportiva que privilegie a qualidade em detrimento da quantidade é a única solução possível. Ora, perante isto, o investimento de 47 milhões de euros em 15 contratações cirúrgicas em apenas 1 ano tem de ser considerado irresponsável, porque não só veio afectar ainda mais negativamente os Resultados da Sociedade como também não se perspectiva que possa proporcionar mais-valias significativas no futuro que possibilitem a cobertura do défice de exploração da Sociedade. Adicionalmente, a troca constante de treinadores (5 durante o consulado de Frederico Varandas) também não tem proporcionado a estabilidade necessária que mitigue um pouco os erros cometidos nas janelas de transferências. Para além disso, é hoje absolutamente notório um enfraquecimento da qualidade média do plantel face ao momento em que Varandas assumiu a presidência do clube. Nani, Raphinha, Bas Dost e Bruno Fernandes já não estão entre nós, Matheus Pereira, Domingos Duarte, Mama Baldé ou Ryan Gauld, jovens que estavam numa linha de sucessão, também não. Perante tudo isto, torna-se complicado perspectivar como a SAD conseguirá viver a partir de 2020/21, nomeadamente sabendo-se que sem cortar na despesa terá um défice de cerca de 70 milhões de euros e poucos jogadores de qualidade para o cobrir. 

 

Epílogo: Se Alcochete foi uma Tragédia Grega, na minha opinião a gestão produzida na SAD durante esta temporada deve ser encarada como uma nova peripécia dessa mesma Tragédia. À exuberância irracional do posicionamento de Bruno Carvalho nos últimos meses da sua presidência seguiu-se o preconceito com a Formação e o deslumbramento ("fácil, fácil") da política desportiva, tudo isto concorrendo para a situação dramática que actualmente se vive, que consiste em resultados desportivos medíocres e numa situação económica (a financeira resolveu-se apenas para esta época) deplorável e em constante deterioração. É urgente parar isto!

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18
Fev20

Liga Europa - A hora de Jovane?


Pedro Azevedo

Absolutamente decisivo em 3 dos últimos 4 jogos do Sporting - um bracarense, em cima do risco de golo, evitou o pleno - , o que mais terá Jovane Cabral de fazer para merecer a titularidade? E não me refiro a 1 jogo para experimentar, mas sim a uma série que lhe proporcione a tranquilidade que tantas vezes tem sido dada a quem porventura não tem feito o suficiente para a merecer. Para que definitivamente não se enraíze a ideia de que Jovane só serve como arma secreta, algo que teria de ser visto como bizarro à luz da pólvora seca comummente usada como 1ª opção. 

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31
Jan20

Ó "Evaristo", tens cá disto?


Pedro Azevedo

Matheus Nunes marcou este golo hoje em Coimbra. Na semana passada, no Estoril, fez a prodigiosa assistência que se pode observar no vídeo em anexo. É caso para perguntar: Silas, há melhor que o Matheus no plantel principal? O nosso treinador lá vai dizendo que Matheus está quase, quase, mas a hora parece nunca mais chegar a este "Pátio das Cantigas" (o Jesé que o diga, sem aspas)... 

31
Jan20

O senhor dos anéis


Pedro Azevedo

Nani, Bas Dost, Raphinha, Domingos Duarte, Matheus Pereira, Bruno Fernandes (Acuña que se cuide...) OUT! Rosier, Ilori, Eduardo, Jesé, Fernando, Neto (tanto nervosismo...) IN!

 

Vão-se os anéis, ficam os dedos? De que mão?

 

P.S. Ponta de lança? O Pedro Mendes já está inscrito e há um rapaz no Varzim (Leonardo Ruíz) que é nosso e é só o melhor marcador da 2ª Liga. Por falar em emprestados, lembram-se do Daniel Bragança? A ideia não era sair a jogar de trás? 

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31
Jan20

Não digam que não avisei


Pedro Azevedo

Após os 12 788 espectadores que estiveram em Alvalade na última segunda feira terem vindo confirmar uma média de assistências significativamente inferior à de anos anteriores, ademais em jogo que já se previa poder ser de despedida de Bruno Fernandes, recupero aqui um Post de 30 de Junho de 2019 que aborda(va) questões como o preço dos bilhetes de época, a mobilização geral dos sócios através de uma comunicação eficaz, o défice de Cultura Sporting que está na origem da confusão que se produz entre sócio e cliente e a ausência de uma política destinada aos jovens que não passe só pela Bancada Sul. Não esquecendo que o momento da equipa de futebol, o dia da semana ou as condições meteorológicas (temas não abordados nesta reflexão) têm muita influência, aqui fica "Venha-viver-uma-experiência-radical - Um estádio às moscas":

 

"A Lei da Procura diz-nos genericamente que o preço e a procura estão inversamente relacionados. Quando o preço de um bem ou serviço sobe, o poder de compra diminui e os consumidores mudam para bens ou serviços mais baratos (efeito de substituição). Considerando o rendimento limitado, essa realocação de bens e serviços dependerá de preferências, restrições orçamentais e de escolhas, podendo ainda se dar o caso de o consumidor deixar simplesmente de consumir o tipo de bem ou serviço, especialmente se não for de primeira necessidade. 

 

Olhando para a última estatística disponível no site da Liga, verificamos que o Sporting teve uma média de 33 691 espectadores nos seus jogos em casa durante a temporada de 2018/19, o que corresponde a uma taxa de ocupação de 66,73%. Ora, não deixando de considerar que vários portadores de gamebox não compareceram a todos os jogos e que a taxa de ocupação não reflecte, como tal, o que foi realizado economicamente (apesar das "borlas" poderem compensar este valor), não deixa de ser notório que, em média, 1/3 do estádio não teve ocupação, com consequências óbvias em termos económicos, de apoio à equipa de futebol, na Cultura corporativa, identidade do clube, peso institucional, patrocínios, etc. Perante este cenário, dever-se-iam criar condições para que se aumentasse rapidamente a taxa de ocupação do estádio até à sua máxima capacidade, de forma a que, então sim, quando a optimização fosse atingida, se pudesse começar a manusear para cima a variável preço. Porém, a realidade da Gamebox 2019/20 demonstra o contrário, com particular incidência no sacrifício que é pedido às Famílias, por via do aumento significativo registado no escalão sub-11 (a que se pode acrescentar a realidade dos dias de hoje, em que os jovens ficam até mais tarde em casa dos pais e deles são dependentes até pelo menos terminarem os estudos universitários - por volta dos 23 anos - e entrarem na força laboral, o que aumenta os encargos das Famílias). 

 

Antes de mais, e com o estádio ocupado a apenas 2/3, não faz sentido os preços aumentarem. Isso quanto muito poderia em teoria fazer sentido se a subida do preço viesse acompanhada de um aumento de produção de lugares - o que num estádio de futebol é impossível dado que a sua capacidade é limitada (a não ser que fosse proposto cobrir o fosso com mais espaço de bancada) - , ou uma melhoria de produção de eventos, do tipo de uma presença na Champions, algo que infelizmente também não acontecerá. Adicionalmente, do ponto-de-vista político, é uma medida impopular, inoportuna e imprudente, o que julgo não carecer de explicação. Finalmente, analisando pelo prisma da Cultura sportinguista, oferece-me dizer o seguinte: vários anos de ausência de títulos relevantes produziram uma diminuição da militância, mas, curiosamente, não causaram erosão sensível na base de apoio de simpatizantes, adeptos e sócios, tendo estes últimos, inclusivé, vindo a aumentar nos últimos anos. Tal deveu-se em boa parte a um factor distintivo dos sportinguistas: a capacidade que os pais têm tido de passar o amor ao clube aos seus filhos, de uma forma estóica e resiliente, o que tem permitido manter o impacto social do clube. Ora, em minha opinião, esta subida de preços mais sentida no escalão sub-11 é contraproducente a vários níveis, na medida em que em vez de estimular o reforço da presença do agregado familiar no estádio (com consequências positivas até no ambiente nas bancadas, recuperando tempos idos e diversificando o entusiasmo por diferentes sectores do estádio) acabará por o mitigar, porque obrigará em muitos casos a um "downgrade" de lugares com o impacto que isso tem em termos de curva de satisfação e experiência Sporting e, finalmente, porque nalguns casos pais e filhos trocarão o lugar na bancada por um lugar no sofá junto ao televisor, por a taxa marginal de substituição de satisfação do progenitor não pressupor a vantagem de ir à bola com o filho em detrimento de abrir mão de lugares de Categoria 1/2, por exemplo.

 

Há quem use o argumento de que alguns sócios compravam gamebox em nome dos filhos e iam eles aos jogos. Krugman e Wells levantaram a questão de se saber se os indivíduos na busca do seu interesse próprio contribuiriam para o interesse da sociedade no seu conjunto e o caso referido parece indicar que não, mas isso são questões que se deverão resolver com regulação (no caso, fiscalização à entrada através de cores de cartões diferenciadas).

 

Gostaria de terminar, com um reparo ao folheto de promoção do Cartão Gamebox que me chegou às mãos ontem. Nele está contida uma relação explícita entre o amor ao clube e os números que marcam a relação, como se tudo o que conta pudesse ser contado. Há mesmo uma alusão à "dimensão do teu amor". Eu acho triste esta mensagem que poderá não ser muito bem recebida por quem seja sócio há pouco tempo, tenha gamebox há poucos anos, ou seja simplesmente um simpatizante, pois há aspectos que vão desde a distância geográfica, idade, doença, disponibidade profissional, situação financeira, entre outras, que são condicionantes mas em nada prejudicam o amor ao clube. Até estou perfeitamente à vontade dada a minha ligação longa de sócio e portador de gamebox, mas deixo aqui uma nota em jeito de conselho para quem queira ouvir: os sócios são o maior activo do clube. Estes são movidos pela paixão, independentemente das suas circustâncias pessoais. Pensem nisso, no que esses sócios podem dar ao clube e, em primeiro lugar, envolvam-nos no dia-a-dia através de uma Comunicação sóbria, elucidativa, inspiradora e virada para dentro. Depois, sim, um sócio feliz, o elo emocional, a compra por impulso trará o cliente, o qual mais facilmente visitará a Loja Verde se for ao estádio (e menos resistirá ao consumo perante um pedido expresso de uma criança). Ver as coisas ao contrário, no momento débil em que nos encontramos, em que precisamos de nos focar no que nos aproxima e não no que nos afasta, não é muito auspicioso.  

 

P.S. Seja como for, podendo haver quem legitimamente conteste o arrazoado que aqui deixo, creio que numa coisa estamos todos de acordo: este tipo de alteração de preços nunca deveria ter acontecido sem a explicação do seu "porquê". Infelizmente, no Século XXI, continuamos a ter empresas a comunicar o que fazem, como fazem, esquecendo-se da razão das coisas. É que o porquê das coisas é que cria a ligação emocional no sócio, quiçá cliente. No caso concreto, esta subida de preços deveria ter sido acompanhada de um discurso galvanizador do tipo do de Kennedy nas portas de Brandenburg, mas que simultaneamente mostrasse consciência (acusasse a recepção) do sacrifício que se está a pedir às pessoas.

P.S.1. O título deste texto é obviamente provocativo, única e exclusivamente com o propósito de fazer reflectir quem tem responsabilidades no clube. A minha renovação de gamebox será feita como habitualmente. E estou certo que a maioria dos portadores de gamebox tentará, consoante as suas possibilidades, se adaptar.

P.S.2. Um sub-23 (sub-11 também) que compre um lugar de época junto às claques (Categoria 6) gastará cerca de metade do que se acompanhar o seu pai num lugar de Categoria 1/2. Depois admirem-se. Dado todo o histórico recente, não deveríamos ter um Pelouro da Juventude que estudasse estas questões, que aumentasse a oferta aos nossos jovens em vez de a tornar mais redutora, mais própria de um "guetto"? O momento que o clube viveu muito recentemente não nos deveria prestar particular atenção ao segmento mais jovem?

P.S.3. Paralelamente, e atendendo às alterações demográficas em Lisboa, que trabalho está a ser desenvolvido para seduzir os milhares de residentes não-habituais (gamebox) e de turistas (bilhética jogo-a-jogo) com que esbarramos diariamente? Não faria sentido uma campanha de charme junto de embaixadas, consulados, câmaras do comércio, hóteis, etc?" 

29
Jan20

E depois do adeus


Pedro Azevedo

Bruno Fernandes está de saída para o Manchester United e a pergunta que se impõe é como será o futuro desportivo e financeiro do Sporting após a despedida do maiato. Se do ponto de vista desportivo há um óbvio enfraquecimento de qualidade, em termos financeiros a SAD dos leões deverá conseguir fechar a época 19/20 com um Resultado positivo. O problema coloca-se daí para diante. Com um défice estrutural nos Resultados (Operacionais+Amortizações) de cerca de 65 milhões de euros anuais, a SAD está obrigada no actual contexto a vender jogadores todos os anos para suprir esse "gap". O problema é que começa a faltar qualidade no plantel que o permita: Acuña, depois de Bruno o nosso jogador mais valioso, terá um valor de mercado de 20 milhões de euros e Mathieu, outro jogador de qualidade, já não tem um valor de mercado relevante devido à idade. Acresce que os jogadores contratados desde Janeiro de 2019 ainda não mostraram estar num patamar competitivo que lhes proporcione uma rápida valorização e os jovens da Academia não têm tido oportunidades significativas que lhes permitam desenvolver-se desportivamente e futuramente ver a sua cotação subir. Assim sendo, ficam mais expostos os erros cometidos nas janelas de transferência do ano passado onde investimos 40 milhões de euros que a valores de mercado actuais deverão valer seguramente menos. Como resolver então o problema estrutural não emagrecendo Custos com Pessoal (continuam a valores incomportáveis) e FSEs (a subir)? Vender toda a equipa não será solução...

 

P.S. Uma eventual não qualificação para as provas uefeiras só acentuará o problema.

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"E depois do amor

E depois de nós

O adeus...

O ficarmos sós"

21
Jan20

A causa das coisas(*)


Pedro Azevedo

Recupero aqui um Post escrito em 15 de Junho de 2019 que ainda me parece estar actual. Faço-o na expectativa de despertar consciências, na Direcção e sócios e adeptos do clube, na esperança de que num dia não tão longínquo possa ser perceptível que o Sporting tem um rumo, um timoneiro e umas velas equipadas para beneficiar do vento de popa trazido por um povo irredutível na sua resiliência que só necessita de ser orientado para soprar o seu sportinguismo na direcção certa. Aqui vai, então:

 

Como se depreende do título de um livro escrito por Miguel Esteves Cardoso que marcou a minha geração, nada acontece por acaso. Existem sempre causas que explicam as coisas. No caso do Sporting, a situação até é mais complexa: existem causas e coisas (como no livro do MEC), e é o não sermos fiéis às nossas causas que em parte justifica as coisas que nos acontecem. Confusos? Vou tentar explicar adiante. 

 

Contextualizando, irei recorrer ao antigo presidente João Rocha. No seu tempo, a nossa causa era compreendida por todos. Era não só visível em teoria, mas também na prática. Falamos da aposta na Cidade Desportiva, no ecletismo do clube como forma de influência social e de prestígio nacional e internacional. Nesse tempo, só se gastava o que havia. O que não havia era Passivo, pelo que a maior ou menor qualidade da equipa de futebol reflectia o dinheiro disponível no início de cada época. Se era necessário reforçar outras modalidades, construir uma nova bancada onde anteriormente havia o peão, ou criar um novo pavilhão (Nave, por baixo da Bancada Nova) em virtude do desaparecimento do antigo (devido ao interface do metro), então já sabíamos que iríamos perder competitividade no futebol, pois as nossas fontes de financiamento eram essencialmente as quotizações dos sócios e os milhares de praticantes/pagantes de ginástica e natação. Ainda assim, num período (13 anos) que coincidiu com a afirmação do Sporting como maior potência desportiva nacional - creio que em 1980, o jornal A Bola atribuiu um prémio (Taça Stromp) ao clube mais eclético do país, baseado nas classificações obtidas por cada clube nas diferentes modalidades, que o Sporting venceu com mais pontos do que todos os outros clubes juntos - o Sporting ganhou 3 títulos de campeão nacional de futebol, a que juntou outras tantas Taças de Portugal e duas Supertaças, num total de 8 troféus conquistados no desporto-rei.

 

Sendo que o ecletismo era a bandeira de João Rocha, a Formação no futebol não era descurada. Pese as péssimas condições em termos de infra-estruturas (um campo pelado, face a 6/7 relvados que o benfica tinha junto ao estádio da Luz), o Sporting começou a produzir bons jogadores com alguma regularidade, essencialmente devido a um conjunto de treinadores/oheiros de eleição onde se destacavam Aurélio Pereira, César Nascimento e Osvaldo Silva. Foi assim que mais jogadores provenientes dos juniores começaram a aparecer na equipa principal. A uma primeira fornada composta por Freire, Ademar, Virgílio, Carlos Xavier, Mário Jorge e Pedro Venâncio, seguiu-se uma outra que incluía Paulo Futre, Litos e Fernando Mendes. 

 

Durante os anos que medearam entre a saída de João Rocha e o projecto Roquette, o Sporting foi progressivamente perdendo a sua hegemonia nas modalidades. Primeiro no basquetebol, que já vinha em queda desde os tempos de Rocha (secção suspensa em 82 e reactivada na 3ª divisão em 84), depois nas restantes. Em sentido contrário, a Formação de jogadores foi ganhando outra preponderância, surgindo uma nova geração de talentos composta por Figo, Peixe, Paulo Toreres, Poejo e Porfírio. Com a Nova Ordem, várias modalidades terminaram e a nossa causa passou a ser quase exclusivamente o futebol. Apenas andebol e atletismo se mantiveram, o primeiro por decisão dos sócios em referendo, o segundo devido ao prestígio do Professor Moniz Pereira, o qual ainda assim não foi suficiente para que o novo estádio contemplasse uma pista de atletismo. Não houve pista, mas houve fosso entre adeptos e equipa, literal e metafóricamente falando, algo que já se vinha agudizando desde a criação da sociedade anónima desportiva. A influência dos sócios foi trocada pela dos accionistas e os orçamentos começaram incrementalmente a contemplar capitais alheios provenientes de financiamentos bancários. 

 

A perda de protagonismo do ecletismo foi compensada pelo investimento na Formação. Mais especificamente na criação de infraestruturas que pudessem complementar o trabalho competente realizado por profissionais qualificados nos escalões mais jovens. Surgiu assim a Academia de Alcochete, obra de que Quaresma, Hugo Viana ou Ronaldo já praticamente não usufruiram. Nessa época, o Sporting procurava ter treinadores principais com um cunho formador, de forma a que melhor pudessem ser rendibilizados os talentos da Formação. Mirko Jozic e Lazlo Boloni são exemplos disso. 

 

Não deixa de ser curioso que as únicas duas vezes, em 40 anos, que o Sporting fez a dobradinha no futebol tenham ocorrido quando teve treinadores (Allison e Boloni) que apostavam na Formação. Pelo contrário, quando se tornou um interposto de jogadores trazidos por um Scouting duvidoso e se colocou nas mãos de empresários, o clube bateu no fundo. 

 

O primeiro mandato de Bruno Carvalho teve o mérito de ressuscitar a bandeira do ecletismo e de voltar a mobilizar os sócios. Compreendendo que a distância era um factor não difusor do sportinguismo, o pavilhão das modalidades foi construído. Durante um determinado período, os sócios foram vistos (correctamente!!) como o maior activo do clube e este foi reerguendo-se. Infelizmente, aos poucos, os contributos dos sócios começaram a ser vistos com desconfiança e a crítica construtiva vista como se partisse de uma oposição organizada, pelo que a liderança, até aí inspiradora, foi tornando-se mais e mais musculada. Até acontecer o que todos sabemos.

 

Todo este arrazoado serve para concluir que nem sempre fomos fiéis às nossas causas. Na minha opinião, a fidelidade a essas causas será determinante para o futuro do clube. Se o ecletismo gera influência social (uma forma de poder), associativismo e cultura de vitória, a Formação é essencial ao modelo de sustentabilidade. Como tal, qualquer tipo de tergiversão afastar-nos-á definitivamente do bom caminho. Por outro lado, o Sporting é um clube de sócios que tem de ser para os sócios. O presidente do clube existe para fazer felizes os sócios e para criar condições de perenidade do clube. Se não, qual seria o propósito da existência de um presidente e de um Conselho Directivo? Temos de ser claros e determinados na defesa das nossas causas, porque elas são os meios necessários à nossa prosperidade desportiva e financeira e à nossa força social. Por isso, temos de adequar a prática à teoria. Não basta dizer que se aposta na Formação, há que criar condições para que isso se materialize na equipa principal. E há que ter convicções: se a Formação nos últimos anos não foi boa, por que razão continuamos a renovar contratos com jogadores de 23/24 anos que nunca tiveram oportunidades? Se esses jogadores cumpriram um trajecto na extinta equipa B e ainda assim nunca tiveram hipóteses na equipa principal, por que razão defendemos tanto a existência dessa equipa? Se os actuais juniores não têm qualidade, porquê renovar-lhes o contrato? Se o treinador principal não aposta na Formação, qual a razão porque dizemos que o contratámos pelo seu perfil de formador? E qual a razão, perante cofres minguados, para continuarmos a comprar tantos jogadores que não façam a diferença? Um clube para os sócios não deve confundi-los. Deve, isso sim, ter uma mensagem clara e que faça sentido para todos. Uma mensagem que deve ser desprovida de politiquices e que elucide os sócios. Quanto aos sócios, estes devem colocar o clube acima de tudo. Às vezes olho para o Sporting e parece-me um partido político, cheio de prosélitos deste e daquele. Não se pode construir nada polarizando pela negativa, como também não se pode governar muito tempo escorado no anti-qualquer coisa, mas sim pela força de um projecto. As ideias, e sua implementação, têm de se traduzir no dia-a-dia do clube. O meio-caminho não é um caminho. Na vida, os atalhos saem sempre caros. A nossa história, recente e menos recente, assim o diz. Mas há uma vantagem muito grande em falhar: a aprendizagem que se recolhe. O erro é fundamental na vida. Por razões de insegurança, os portugueses repudiam o erro. Por isso, em Portugal, a culpa morre sempre solteira. Mas errar é bom (ao contrário da inacção, que é radical), nomeadamente se se traduzir em aprendizagem para o futuro. Agora, sermos autistas, não lermos os sinais, não analisarmos o processo, é ficarmos à espera que um dia os resultados nos mostrem como estávamos profundamente ilusionados. Porque, tal como ensina Kundera (adaptando à nossa realidade), é desta insustentável leveza do ser sportinguista que se faz o peso da nossa existência de muitos anos sem campeonatos e sem sustentabilidade. 

 

Não podemos continuar a sacrificar a próxima geração em função do próximo jogo. Não se pode adiar o inadiável em função de putativos resultados imediatos. O importante na vida é o processo. Os resultados podem disfarçar no curto-prazo a falta de estratégia. O problema é que quando os resultados deixam de aparecer ficamos com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Assim é o Sporting: a meio caminho entre a pesada herança e os 40 milhões de euros investidos num ano sob a presidência de Frederico Varandas. Gastando onde não se deve, acabamos sujeitos a ter de vender quem tem qualidade, enfraquecendo cada vez mais a equipa. Num ciclo não-virtuoso. A Formação? Segue dentro de momentos. Primeiro, um pequeno interregno para compromissos comerciais. 

 

(*) Republicação

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16
Jan20

O estranho caso de Matheus Nunes


Pedro Azevedo

Um dia (antevisão do jogo com o Santa Clara) Silas diz que com elevada probabilidade ele rapidamente será opção - nomeando-o como um dos que estão mais perto de jogar pela equipa principal, com quem aliás já treina continuadamente - , num outro dia é suplente dos sub-23 treinados por Leonel Pontes na recente deslocação a Santa Maria da Feira após não ter participado nos dois anteriores jogos da mesma equipa (que aliás não ganhámos). Este é o dia-a-dia de Matheus Nunes, um jogador de quem ainda recentemente os adeptos leoninos voltaram a ouvir falar pela boca do capitão Bruno Fernandes, que referiu ser o brasileiro o jovem com mais condições de entrar na equipa do Sporting. Simplesmente, não só continua a não ser opção para Silas como agora também não joga e ganha ritmo com Leonel. Visto de fora, penso que isto carece de uma explicação. Sob pena de, não havendo, ficarmos a pensar que a articulação entre equipa principal e a Formação não está a funcionar devidamente e que isso não só não facilita a integração dos jovens ao mais alto nível como também não serve ao Sporting e à sua sustentabilidade. 

MatheusNunes.jpg

28
Dez19

O trauma de Alcochete e o futuro


Pedro Azevedo

Não quero de forma alguma desvalorizar as consequências morais, reputacionais e financeiras supervenientes ao infame ataque a Alcochete e entendo que o tribunal deverá apurar até ao limite todas as responsabilidades inerentes a esse dia negro que tantos prejuízos causou ao Sporting Clube de Portugal, mas é tempo de avançarmos, sob pena de, não o fazendo, Alcochete vir a servir ad aeternum como desculpa face ao eventual insucesso.

 

Uma das consequências de Alcochete foi o fim do encurtamento da distância que nos separava dos rivais. Nas quatro épocas compreendidas entre 2009/10 e 2012/13, o Sporting terminou o campeonato com uma diferença para o primeiro classificado que oscilou entre os 26 e os 36 pontos. Ora, nas cinco épocas seguintes, entre 2013/14 e 2017/18, o clube conseguiu atenuar bastante esse "gap", finalizando a prova de regularidade do calendário futebolístico nacional com uma diferença para o campeão que orlou entre os 2 e os 12 pontos (-7, -9, -2, -12, -10). Certamente que a perda de jogadores importantes como os internacionais Rui Patrício, William Carvalho ou Gelson Martins, que rescindiram contrato, não pode ser dissociada do desfecho do último campeonato, competição que finalizámos a 13 pontos do primeiro colocado. Mais difícil de explicar são os resultados desta época desportiva até ao momento, período em que o Sporting já dista os mesmos 13 pontos da liderança do campeonato quando apenas estão cumpridas 14 jornadas. E custa mais perceber porque os acordos celebrados com os jogadores que rescindiram permitiram encaixar algum dinheiro para reforço da equipa. Simplesmente, a opção por jogadores cujo pico de carreira ocorreu há uns anos atrás, ou jovens a precisar de desenvolvimento implicou consumo de tempo de forma a que esses atletas se pudessem integrar ou readquirir a confiança perdida no passado, e tempo é uma variável que o Sporting não tem quando um presidente afirma que a época será melhor que a anterior. Adicionalmente, vieram também para o clube alguns atletas maduros, na casa dos 25/26 anos, mas de qualidade duvidosa para um clube com os pergaminhos do Sporting e que acabaram por servir de travão à imposição de jovens da nossa Academia, o que constituiu um duplo custo para o clube por via de contratação, prémios e ordenado, por um lado, e custo de oportunidade do não desenvolvimento de jovens para futura venda com significativa mais-valia, por outro.

 

Uma crise como a resultante de Alcochete pode ser vista como uma ameaça ou como uma oportunidade. Tem muita a ver com a liderança do clube a forma como se reage a um acontecimento traumático como esse. À colação trago aqui a história do Manchester United. Em 6 de Fevereiro de 1958, após paragem em Munique para reabastecimento, o avião que transportava a emblemática equipa do norte de Inglaterra caiu. Vários passageiros morreram, entre os quais 8 jogadores do clube. Alguns, como Duncan Edwards ou Tommy Taylor, eram "só" os melhores, outros como Eddie Colman ou Mark Jones eram também muito importantes. O Man U havia vencido os campeonatos de 56 e 57 e era campeão em título aquando do drama. Para além dos óbitos, havia jogadores com lesões provocadas pelo acidente, alguns deles em internamento hospitalar. Este acontecimento tinha tudo para justificar a perda de influência do Manchester United no contexto do futebol inglês e mundial. Mas Sir Matt Busby, treinador e um dos sobreviventes do acidente, não estava pelos ajustes e à volta de Bobby Charlton (também sobrevivente) começou a desenhar o novo United. Aproveitou então as escolas de formação do clube, de onde viria a sair um craque descoberto na Irlanda do Norte do calibre de George Best, e contratou cirurgicamente o jovem Dennis Law (21 anos) aos italianos do Torino, curiosamente outro clube marcado trágicamente por um acidente áereo que dizimou a sua equipa de futebol (todos os jogadores que vieram a Portugal participar na festa de homenagem a Francisco Ferreira, incluindo o famoso Valentino Mazzola, pereceram quando na viagem de regresso a aeronave embateu na cúpula da Catedral de Superga). Juntamente com outros reforços provenientes da formação, organizava-se assim uma nova geração de "Busby Babes", a qual está imortalizada por uma estátua à entrada de Old Trafford com o nome de "United Trinity" que reune Charlton, Law e Best. E a verdade é que o United reagiu bem e terminou o primeiro campeonato (59) pós-tragédia no segundo lugar, posição que repetiria em 64, para em 65 finalmente voltar a vencer a competição, feito que repetiria em 67. Em 1968, a coroa de glória, uma vitória por 4-1 (a.p.) sobre o Benfica de Eusébio daria ao Manchester United a Taça dos clubes Campeões Europeus, uma pequena compensação para a fatalidade que se abatera sobre o clube. Que este exemplo de superação, em circunstâncias incomparáveis (independentemente do dia negro vivido em Alcochete), anime os nossos dirigentes mais na procura de soluções e menos no foco no problema, começando pela optimização dos recursos existentes na nossa casa e por um discurso claro e conciso, com metas intermédias partilhadas com sócios e adeptos, que indique objectivos, prazos para a sua execução e os recursos que serão alocados. Caso contrário, temo que daqui a 10 anos ainda estejamos a apontar Alcochete como causa próxima para o insucesso.

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08
Dez19

A Teoria do Vazio


Pedro Azevedo

Exibição extraordinária de Matheus Pereira (mais uma!) hoje em Birmingham, na recepção do West Bromwich ao Swansea. O brasileiro destruiu completamente os "Swans" com uma actuação pautada por 1 golo, 3 assistências e ainda participação noutro golo, ou seja, esteve em todas.

 

Fica assim mais uma vez evidenciada a razão pela qual Matheus sentia que devia jogar no Sporting. Mas a Teoria do Vazio da Formação e as contratações cirúrgicas de Viana e Varandas falaram mais alto. 

 

P.S. O jogo teve transmissão televisiva na Eleven Sports 2 ao princípio desta tarde.

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06
Dez19

Zorro


Pedro Azevedo

Dizem o Record e O Jogo que no radar do Sporting está De la Vega, ala direito de 18 anos dos argentinos do Lanús. Entretanto, A Bola e O Jogo dão conta de que Palhinha poderá estar na porta de saída, alegadamente decorrendo negociações com o Bétis de Sevilha pelo jogador actualmente emprestado ao Braga. Tendo em conta as últimas movimentações de mercado em Alvalade não surpreendem muito estas notícias. Investir na Formação (dos outros) e formar (para os outros) parece ser a prioridade. No fim do dia, se pensarmos bem, é tudo uma questão de semântica...

 

Viva o De la Vega, viva o Zorro!! (E parabéns à nova "secção de Esgrima".)

A (nossa) Formação a respirar por um(a) Palhinha...

A aposta na Formação não passa de uma percepção da realidade, ela própria alegoricamente mascarada como o Zorro...

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05
Dez19

O estado da Nação(*)


Pedro Azevedo

O Sporting deste milénio, sendo dos três grandes o único que tem Portugal no seu nome, é curiosamente o menos português dos clubes portugueses. Na verdade, quando a generalidade dos portugueses cultiva o mito sebastiânico e espera que o regresso d`El Rei num dia de nevoeiro os salve de uma vida onde sobra pouco tempo (e dinheiro) para viver a... vida, nós, os Sportinguistas, não somos saudosistas e até gostamos de utilizar a expressão "o cemitério está cheio de insubstituíveis" enquanto contemplamos um céu sem nuvens no horizonte. Como diria o Silas, aqui não há heróis. É um "wishful thinking", o Prozac - deve estar referenciado pelo nosso Scouting - que cada leão toma enquanto lhe levam os anéis (e também o cenário do céu sem nuvens emprestado por um estúdio da Venda do Pinheiro, de Oeiras ou de Queluz). De facto, no Sporting quase tudo é substituível. A começar pelos jogadores. Pouco interessa que não ganhemos um campeonato em ano ímpar desde 1953, há portanto 66 anos. Para nós, os Sportinguistas da era pós-moderna, o Necas, o Malhoa, o Zé da Europa e o Albano foram/são perfeitamente substituíveis. Só que não, como o comprova termos perdido o campeonato em 33 anos ímpares consecutivos. Ainda assim, poder-se-ia ter dado o caso de termos ganho o campeonato em todos os anos pares desde 53. Só que (de novo) não. As nossas vitórias nesses anos não chegam a 1/3, o que significa que ganhámos menos de metade do que Benfica e Porto juntos. E já nem falo de Peyroteo, homem honrado, de outros tempos, que, por ter feito uma festa de despedida que lhe permitiu arrecadar uns cobres para salvar um negócio em mau momento, sentiu que estaria a enganar os Sportinguistas se voltasse aos relvados, pese embora as suas (imensas) capacidades futebolisticas ainda estivessem intactas. Para sua sorte, mas não para sorte da sua carteira, nunca jogou nestes tempos modernos em Alvalade, não se tendo assim de sujeitar a ser considerado um tosco que só atrapalhava o "processo" ofensivo e logo aí ter como destino ser recambiado para alívio salarial da entidade patronal, processo obviamente de conotação kafkiana para quem apresentaria a modesta contribuição de 1,6 golos por jogo.

 

É curioso, pois quando era pequenino o Sporting era aquele que aos Domingos ia a jogo, em que os ídolos eram os jogadores, a origem do sortilégio da nossa paixão. Hoje, no pós-modernismo leonino, eles são todos substituíveis para os sócios e/ou adeptos. Mesmo que se chamem Bruno Fernandes, Marcos Acuña, Jeremy Mathieu ou Bas Dost, ou qualquer um equivalente ao abono de família do às tantas atarantado senhor Keizer, nosso ex-treinador -  "Tragam-me um ponta de lança. Móvel, de área? Tanto faz" - , no fim da janela de transferências de Janeiro. Dizem que é a natureza do "negócio", uma forma altamente "edificante" de meritocracia em que aqueles que elevam mais alto a nossa camisola são tratados da mesma forma (quando não pior, e já nem falo do dia de horror vivido em Alcochete) que aqueles que não cumprem os mínimos daquilo que deveria ser a exigência pedida a um futebolista do Sporting. Por exemplo, se Vasco da Gama estivesse ao serviço das nossas cores, a sua descoberta do caminho marítimo para a Índia não valeria mais para nós que o deslindar do melhor caminho para a Brandoa pelo Moovit, ou até que os atalhos que o Ilori e o Borja escolhem para pôr em perigo o meu pobre coração sofredor. É o que fica implícito depois de tanto leilão, ou saldos, ou liquidação total, ou lá o que é. Posto isto, nós, sócios e adeptos, queremos que os jogadores nos respeitem, o que também faz sentido. Para nós, Sportinguistas, única e exclusivamente, bem entendido...

 

Aparentemente, os únicos não-substituíveis no clube são os presidentes. Por eles não se cala a indignação, sobram querelas, batalhas, guerras até. Deles certamente dependerá a emoção de todos os fins de semana. E quando não a emoção, a razão, a nossa sustentabilidade, as contas sempre impecáveis que apresentamos no final de cada época desportiva, ano após ano, razão pela qual todos os futebolistas devem ser substituíveis. Para que possamos apresentar sempre lucros? Não. Para que possamos fazer plantéis cada vez mais fortes? Também não. Por qualquer outra razão estratégica, aliás explicada tim-tim por tim-tim aos sócios? Não, não e não. Para fazer sócios e adeptos felizes, o que deveria ser a única motivação de quem dirige? Nãox4. Mas que interesse tem dissecar tão pueris questões, não é verdade?

 

Últimamente, o nosso futebol também é subsbtituível. Aliás, a minha relação com o nosso fio de jogo é semelhante à que tenho com Deus: creio e sinto que existe, embora não o veja. Bem, houve profetas que pregaram a palavra d`Ele (e um deles foi especialmente relevante) como agora há um Bruno - o Atlas que carrega o nosso céu azul nos seus ombros - que tem o seu nome em quase todas as escrituras dos jogos. Ainda assim há uma diferença. É que em Deus eu tenho fé e nesse Sporting sem os melhores jogadores não tenho fé nenhuma. Confesso que ainda julguei ser possível nos primeiros tempos de Keizer, mas tal como um dos seus (iniciais) princípios perdi-a em cinco segundos, pelo que com Silas evidenciei outra prudência. Mas, graças a Deus, já era católico antes de ser Sportinguista. Caso contrário, seria tentado a pensar que Deus não existe, partilhar do silogismo de que vale tudo e assim assistir impávido ao declínio, resssentimento, incapacidade de avançar, paralisia, ausência de finalidade ou de resposta ao "porquê" das coisas - o niilismo Sportinguista pós-João Rocha (com breves interrupções que deram esperança e acabaram por gerar grandes desilusões). Antes que me lancem um Auto da Fé Sportinguista, algo com que consócios e adeptos se gostam de entreter nos tempos livres enquanto expiam o sentimento judaico-cristão da culpa, convém lembrar que o último ritual de punição pública na Península Ibérica contra hereges que repudiavam a igreja católica data de 1826. Ainda assim, como nem nisso somos bem portugueses, ou mesmo iberos, e apesar de saber que nós somos um clube civilizado, de gente do bem ("de bem", não sei "bem" o que pensar), diferente até, que como tal terá espírito e certamente se saberá rir de si própria, dizia eu antes que me atirem com um daqueles epítetos que vêm entre aspas e estão tão em voga neste milénio Sportinguista depois de infelizmente terem sido fomentados por um antigo presidente e continuados pelo actual, cumpre-me informar que não tendo fé ainda tenho paixão. Muita! Imensa! E genuína! Mas não ao ponto de estar preocupado. Se o (actual) insubstituível não está, porque carga d`água deveria eu estar? Só está preocupado quem tem uma ilusão e eu não tenho ilusão nenhuma, só paixão. Essa paixão leva-me a ter um ideal de clube, da sua identidade, da sua Cultura corporativa, princípios e sustentabilidade, que ninguém irá substituír porque reside na minha mente, morrerá comigo e não é alienável como a celebérrima aposta na Formação é para alguns (ateus da sustentabilidade, por certo). Bom, a esta hora muitos estarão a pensar que também eu sou substituível. Eu e mais uns quantos sócios do Sporting. O que num dia, que até já esteve mais longe, será indiferente, na medida em que por este andar só contarão os accionistas. Da SAD, obviamente. Maioritários, obviamente (de novo). Afinal, o dinheiro compra quase tudo. Bem, a luxúria talvez, mas não compra o amor. Se bem que este, por estes dias, também já deva ser substituível. No pós-modernismo, onde o equilíbrio é uma coisa que só imaginamos no trapézio do circo, o que interessa é o cliente, essa figura da mitologia leonina que um dia chega a Alvalade e compra todas as gamebox do futebol mais as das modalidades, sorve cem tonéis de duzentos litros de cerveja com alcool, enfarda uma tonelada de cachorros quentes e de enfiada ainda varre todas as camisolas do Bruno Fernandes, perdão do Acuña, perdão... Do Tiago Ilori ou do presidente Varandas?... Bolas!!! Não me deem cabo do(s) plano(s). Deixem-me trabalhar. Vá, soletrem lá (os planos): A, B, C...   

 

(*) Republicado com uns retoques (por infelizmente ainda estar bem actual)

 

P.S.1: Não troco a próxima geração pela próxima exibição. 

P.S.2: A paixão pelo clube, na sua génese comum a todas as gerações de Sportinguistas, confunde-se com a paixão por jogadores míticos que ajudaram a fazer a história do Sporting Clube de Portugal. É bom não o esquecer.

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03
Dez19

As contas da Sporting SAD - 1ºT 2019/20


Pedro Azevedo

A Sporting SAD comunicou à CMVM o Relatório e Contas do 1º Trimestre da época 2019/20. Aqui ficam alguns itens de análise:

 

  • A Sociedade apresentou um Resultado Liquido do exercício de 21.1M€ (+5M€ do que no período homólogo de 18/19);
  • Sem transacção de jogadores os Resultados ter-se-iam situado em - 16.2M€ (-9.6M€ face ao período homólogo de 18/19);
  • Os Resultados Financeiros (essencialmente juros pagos de financiamentos) tiveram um impacto negativo de 3.2M€ (+1.8M€ do que no período homólogo de 18/19);  
  • A rúbrica de Fornecimentos e Serviços Externos continua preocupantemente a subir, situando-se agora nos 7M€ (+1.3M€ do que no período homólogo de 18/19), essencialmente devido ao crescimento do item relativo a "Organização, deslocações e estadias de jogos" (+0.9M€ do que no período homólogo de 18/19);
  • A rúbrica de Gastos com Pessoal registou um crescimento de 3.2M€ face ao período homólogo de 18/19, estando em 30 de Setembro nos 19.9M€. Tal resultou essencialmente de uma descida de 1.2M€ em Remunerações e Encargos Sociais e de uma subida de 4.7M€ em Indemnizações, este último item atribuível aos gastos com equipa técnica e alguns jogadores aquando das respectivas rescisões de contrato de trabalho;
  • As Vendas e Prestações de Serviços cresceram 1M€ face a 18/19 (16.8M€), impulsionadas por incrementos de "Bilheteira e Bilhetes de época" (+0.4M€, -1M€ face a 17/18) e "Patrocínios e Publicidade" (+0.4M€, +0.8M€ face a 17/18). De referir que em 17/18 o Sporting esteve na Champions, o que se traduziu numa diferença positiva de 1M€ face ao valor actual em termos de "Bilhética e Bilhetes de época", sendo que sensivelmente 80% desse valor repercutiu-se em bilheteira de Champions e 20% em mais gamebox vendidas nesse período;
  • A rúbrica referente à Dívida a Fornecedores, do Balanço, cresceu 0.3M€ face ao período homólogo de 18/19, tendo incrementado 4.2M€ no Passivo não-corrente e diminuido 3.9M€ no Passivo Corrente. No total, a nossa dívida para com Fornecedores a 30/9/2019 era de 56.2M€;
  • A rúbrica de "Caixa" cresceu desde Junho de 2019 em cerca de 5.1M€ (para 8.6M€) e a rúbrica "Clientes" (valores a receber) também aumentou desde igual período em cerca de 8M€ (para 31.4M€). Os Depósitos à Ordem restrictos, que visam o pagamento de VMOCs cresceram de 65 mil euros para 466 mil euros;
  • A Sporting SAD vendeu a totalidade dos direitos económicos de Raphinha por 21M€. Por essa transacção pagou de comissão o valor de 2.5M€. Bas Dost foi vendido por 7M€, tendo-se pago uma comissão de 0.698M€. Thierry Correia saiu por 12M€, com a Sporting SAD a ter de compensar 2 empresários no valor total de 2M€ e pagar 514 mil euros a título de prémio ao jogador. O acordo sobre Podence rendeu 7M€, com a SAD a ter de pagar 700.000 euros de comissão. Os negócios de Felix Correia (3.5M€) e de Domingos Duarte (3M€) foram isentos de comissão;
  • A comissão média paga associada à venda de jogadores foi de 13,9% (períodos homólogos: 4.9% em 18/19, 7.8% em 17/18, 0.5% em 16/17, ano em que houve uma comissão avultada, mas de compra, relativa à contratação de Alan Ruiz). 

 

P.S. Numa altura em que tanto se fala dos problemas de tesouraria da SAD, não deixa de ser inquietante que metade do valor da transferência de Thierry Correia (6M€) esteja averbada no Activo em Clientes não correntes, o que significa que o recebimento desse montante só ocorrerá pós Setembro de 2020. Em relação ao acordo sobre Podence acontece algo similar, estando 5M€ (dos 7M€) por receber para lá de Set 2020. Já no caso do Rennes e da transferência de Raphinha a situação é diferente, havendo um valor a receber para além de Set 2020 de 4.75M€ de um total de 21M€ (transferência).

23
Nov19

Uma casa não se constrói pelo telhado


Pedro Azevedo

Olhando para o futebol do Barcelona ou do Ajax de Amesterdão é claro que está presente uma filosofia de jogo e um conjunto de princípios que são incorporados desde a base (Formação). Por exemplo, um jogador como o holandês De Jong dificilmente poderia jogar numa equipa que não tivesse o mesmo entendimento do que é pretendido para a posição "6", isto é, que não desse prioridade à construção naquela zona do terreno. Talvez não tenha sido por acaso que o Barcelona, que sempre soube adaptar princípios da escola holandesa - ou Rinus Michels, Cruijff e Neeskens, numa primeira fase, Koeman, Witschge, o filho de Cruijff, Reiziger, Cocu, Zenden, os irmãos De Boer, Bogarde, Van Bronckhorst, Davids, Van Bommel e Cillessen, numa segunda fase não tivessem passado por lá - , não tenha hesitado na aquisição de De Jong, pagando por ele a módica quantia de 75 milhões de euros. 

 

A adopção de princípios de jogo na equipa principal comuns aos ensinados na Formação tem a vantagem de melhor poder potenciar os jovens, não se perdendo tantos na transição para sénior, a última estação de linha de produção da nossa fábrica de talentos. No Sporting, entre outras razões que tenho discutido com os Leitores noutros Posts, muitos médios provenientes da Academia tiveram dificuldades na compreensão do 4-4-2 (Jorge Jesus) face ao 4-3-3 a que estavam habituados, especialmente os médios atacantes, de transição e os alas. Igualmente, não sendo tão clara a nível sénior a cultura de posse de bola, o que é pedido a alguns médios defensivos é mais repressão e menos imaginação, independentemente do sistema táctico adoptado, o que explica em parte as dificuldades que um Daniel Bragança ou um Matheus Nunes actualmente poderão sentir.

 

A pergunta que deixo para reflexão aos Leitores é se entendem que um clube formador de excelência como o Sporting deve ser autor da sua própria filosofia de jogo, com um Director Técnico (e não "desportivo") como pensador de todo o futebol do clube, recorrendo a treinadores que se adequem a essa filosofia ou formando os seus próprios treinadores, ou, em alternativa, se essa filosofia deve variar consoante cada novo treinador, à semelhança do que vem acontecendo de há anos a esta parte, podendo retirar-se daí algumas vantagens (entre as desvantagens que citei) provenientes dos jogadores se enriquecerem mais tacticamente pela utilização de diversos sistemas? Para mim, não restam dúvidas sobre o caminho que mais facilmente optimizaria o que produzimos. E creio que haver um consenso sobre isso enquanto ideia de base seria bem mais importante do que a necessária melhoria das infraestruturas existentes. 

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21
Nov19

Formar para os outros


Pedro Azevedo

Segundo um estudo do CIES - Football Observatory, o Sporting é o 15º clube europeu mais representado com jogadores da sua Formação nas 5 principais ligas europeias (Big 5), tendo 18 jogadores espalhados pelos campeonatos de Espanha, Alemanha, Itália, Inglaterra e França, numa tabela que é liderada por Real Madrid (39), Barcelona (34) e Lyon (30). Alargando o espectro aos 31 campeonatos nacionais europeus objecto do estudo do CIES, a Formação do Sporting sobe para o 3º lugar com 63 jogadores, apenas ultrapassada por Partizan de Belgrado (75) e Ajax de Amesterdão (72). Nesta última lista, Barcelona (10º com 52 jogadores), Real Madrid (14º com 50) e Lyon (21º com 39) ficam aquém do clube leonino. De referir que os leões lideram por boa margem entre os clubes portugueses nos dois rankings alvo deste estudo. 

 

Estes dados vêm reforçar a percepção que o adepto comum tem de que os leões formam muito. Infelizmente, para outros beneficiarem, sem que o trabalho desenvolvido na Academia tenha a justa compensação desportiva e/ou financeira. Por isso, tantos jogadores exportados depois, continuamos com a nossa sustentabilidade financeira em risco, produto de um modelo económico de negócio ruinoso que se traduz em importar muito - tradicionalmente jogadores de qualidade média/baixa que todos juntos pesam bastante nos Custos com Pessoal e geram importantes menos-valias - e em não desenvolver suficientemente a última estação de produção (acesso à equipa principal). Bloqueado o acesso ao topo a muitos jovens com potencial, muitas vezes preteridos por contratações onerosas e de nível semelhante ou pior, estes acabam por saír por um valor económico significativamente inferior ao que se poderia apurar caso tivessem realizado um número de jogos razoável ao mais alto nível, recebendo o Sporting, em média, uma compensação pelas vendas bastante inferior ao somatório de custo (salários+prémios) mais investimento (compra) dos jogadores contratados. Dir-se-ia que esse seria o ónus de ganharmos muito, simplesmente nem isso acontece.

 

Perante isto, é caso para perguntar se finalmente aprendemos a lição. É que os indicadores de que não temos sabido gerir a produção da nossa fábrica (ou mina de diamantes, mais exactamente) vão-se amontoando de há anos a esta parte sem que os sucessivos responsáveis mostrem real preocupação com o facto. Até que tudo se torna demasiadamente evidente, os resultados desportivos são piores que maus, as finanças entram em colapso e é preciso sossegar as hostes e fazer alguma coisa. Assim aconteceu em 16/17 quando Podence, Geraldes e Palhinha foram chamdos de emergência, assim também parece acontecer agora com Pedro Mendes (incrivelmente não inscrito nas competições nacionais), Rodrigo Fernandes e Matheus Nunes (ainda à espera de se estrear). Mas os clubes não vivem de propaganda e tão importante como Matheus Nunes e outros virem a ser chamados à equipa principal é o Sporting não investir (mal) na linha do que tem vindo a ser seguido neste mandato. Necessitamos, isso sim, é de optimizar os nossos activos. Até porque assim estaremos a optimizar também os nossos parcos recursos.

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12
Nov19

DD


Pedro Azevedo

DD são as iniciais de Domingos Duarte. Mas também de dupla derrota para o Sporting. E porquê? Aos 24 anos, Domingos está à beira de chegar à selecção principal portuguesa. Para tal, bastaram-lhe 4 meses em Espanha, no Granada. Para o clube andaluz foi vendido por 3M€, quantia irrisória quando comparada com o dinheiro recentemente investido pelo clube de Alvalade em alguns jogadores. Essa foi a nossa primeira derrota. A segunda decorre do facto de Domingos estar na iminência de se tornar internacional A sem nunca ter jogado oficialmente pela primeira equipa do Sporting. Tal como José Fonte, por exemplo, se não me falha a memória. Dá que pensar sobre a forma como são encarados os jovens da nossa Formação, os quais nunca em teoria têm qualidade até ela se tornar evidente na prática ao serviço de outros emblemas. Depois de Demiral e Matheus Pereira, eis o caso de Domingos Duarte, leão desde pequenino por ter nascido em família de fervorosos Sportinguistas.

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30
Out19

B ou A linha?


Pedro Azevedo

O ressurgimento da equipa B em teoria é uma boa ideia, mas faz lembrar aquela família que em casa todos os dias põe a mesa com o melhor talher de prata da Christofle e depois vai comer com pauzinhos (ou "fast food") ao Mercado da Ribeira. Nesse sentido, é uma daquelas medidas que, quando anunciadas, provocam cócegas no cérebro de sócios e adeptos e induzem uma sensação de bem-estar até à chegada de nova janela de transferências. Assim, mais do que equipa B, dever-se-ia chamar A' (A linha). Alinha quem quiser, bem entendido. Eu fico à espera de ver os nossos jovens na equipa principal... 

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24
Out19

Entre o Céu e o Inferno


Pedro Azevedo

O Sporting sempre teve muito talento nas suas camadas jovens. Evidentemente, não se forma o tipo de jogadores que foram/são Paulo Futre, Luís Figo ou Cristiano Ronaldo todos os anos, mas também não me lembro de termos contratado Deco, Gullit ou Messi, ou seja, alguém que tivessemos ido buscar ao mercado e um dia viesse a ser um Bola de Ouro, ou mesmo um Bola de Prata, pelo que entre apostar na nossa Formação ou no Scouting prefiro naturalmente a primeira. 

 

Infelizmente, sobram sempre argumentos para desvalorizar o que é nosso. Um dos mais correntes é que não se ganham campeonatos só com a Formação, argumento correcto mas que, à boa maneira do 8 e do 80 que tanto nos caracteriza enquanto portugueses, coloca as coisas de uma forma extremista. A aposta na Formação não significa que joguemos só com formandos, apenas implica que não se necessite de ir buscar números pornográficos de jogadores ao mercado que ajudem a delapidar os nossos cofres. Desmontando o argumento, também é claro que não se ganha só com o Scouting. Aliás, analisando esta época, poucos ou nenhuns jogadores da nossa Formação (ou mesmo portugueses) têm jogado, estando até esse número nos níveis mais baixos das últimas décadas, mas nem por isso os resultados têm aparecido, encontrando-se o Sporting a fazer provavelmente o pior início de temporada da sua existência. Portanto, extremismo por extremismo, a expressão "não se ganham campeonatos só com o Scouting" deveria ser muitíssimo mais apregoada do que "não se ganham campeonatos só com a Formação". Já a expressão "só se assegura a sustentabilidade financeira com a Formação integrada no plantel principal" (isso é que é a "aposta na Formação") deveria ser um axioma. Para reflexão...

 

A questão não é não surgir um Futre, um Figo ou um Ronaldo, jogadores "top-class", a questão é podermos aproveitar jogadores de nível muito bom, ou mesmo apenas bom, produzidos em Alcochete. E isto nem sempre é possível porque parece dar mais garantias ir buscar um jogador ao mercado do que apostar no que é nosso. Assim se perdeu recentemente um Demiral para a Juventus, um Domingos Duarte para o Granada ou um Matheus Pereira para o West Bromwich. Para os lugares dos quais vieram um Marcelo (onde anda?), um Ilori ou um Jesé (este, como é "avançado centro", tem mais valências...). Auguste Comte dizia que "na vida tudo é relativo, e esse é o único valor absoluto", pelo que, fazendo fé nestas palavras do pai do Humanismo, não basta dizer que a Formação não tem qualidade - argumento que não colhe - , é preciso mostrar que quem vem de fora, e custa dinheiro, é melhor do que os que cá estão. Ora, a história das últimas décadas do Sporting é feita deste tipo de equívocos. Com consequências desportivas e financeiras. E mesmo assim, ainda há quem defenda e privilegie a aposta no Scouting em detrimento da Formação...

 

Frederico Varandas comprou 14 jogadores desde Janeiro. Deste lote sempre vi em Matheus Nunes um jogador diferenciado (Vietto é bom de bola, mas é uma sobreposição inferior a Bruno Fernandes e sem golo), os outros não me parecem jogadores para um Sporting campeão. Todos juntos impactaram 40 milhões de euros de investimento, um valor significativo para um Sporting que se dizia passar por um má situação financeira. Eu pergunto: destes jogadores contratados, quais serão aqueles que o Sporting venderá com lucro? Luíz Phellype, muito provavelmente, o Matheus se o puserem a jogar, talvez o Doumbia se evoluir porque como está não dá. Entretanto, Varandas tem vivido da venda de jogadores que já eram do Sporting, tais como Raphinha, Bas Dost, Thierry Correia, entre vários jovens da nossa Formação, alguns que nunca chegaram (ou mal chegaram) a pisar o relvado de Alvalade. Ufanando-se de que fez 60 milhões em vendas. O problema é que no futuro próximo, para além de Bruno Fernandes, Acuña e Wendel (outros que já cá estavam) ficou muito dependente do que comprou para realizar algum dinheiro. E se vender Bruno e o dúo sul-americano irá enfraquecer ainda mais o plantel, até porque esses 3 (com Wendel em forma), mais Mathieu, são provavelmente os únicos jogadores que qualquer adepto colocaria de caras no Onze do Sporting. 

 

Não sou fã de quotas, mas quando aquilo que é vital à nossa sustentabilidade, dir-se-ia à nossa sobrevivência, tarda em ser realizado, então algo tem de ser feito de forma a que a gestão adquira alguma racionalidade. Nesse sentido, proponho que exista um tecto máximo de 23 jogadores no plantel principal - obrigatoriedade de se ter de recorrer à equipa de Sub-23 em caso de necessidade - , bem como que seja atribuído um número mínimo de jogadores oriundos da Formação na nossa equipa A. Adicionalmente, gostaria que ficasse limitado a 3 ou 4 o número de contratações por época, privilegiando-se assim qualidade em detrimento de quantidade. Pode ser limitativo, não ser o sistema ideal, mas só assim se realizará aquilo que muitos vêm clamando há muito tempo. E que isso venha a constar de uma alteração estatutária, caso tal seja necessário. Assim é que não podemos continuar. No papel (programas eleitorais), no Excel (Dr Zenha e as suas considerações sobre o mercado) tudo é de sonho, o pesadelo é quando a bola começa a rolar, é Faro/Loulé, é a dupla derrota caseira com o Rio Ave, é o recém-promovido Famalicão, é o... Alverca. Ou nos libertamos desta forma de estar e mudamos de vida, ou o clube vai continuar neste inferno (o purgatório só existe para quem se arrependa em vida dos pecados cometidos) que vem marcando as últimas décadas da nossa existência e que o torna a Divina Comédia do futebol português. Pensando bem, é melhor não ir por aí e terminar já, não vá alguém do Scouting vasculhar o "Calcio" à procura de um tal de Dante Alighieri...  

23
Out19

Matheus Nunes, Pedro Mendes e Rodrigo Fernandes


Pedro Azevedo

O treinador Jorge Silas confirmou ontem que os jovens Matheus Nunes (21 anos), Pedro Mendes (20 anos) e Rodrigo Fernandes (18 anos) passarão a integrar regularmente os treinos da equipa principal, podendo numa ou outra ocasião jogar pelos Sub-23 se não forem convocados para a primeira equipa do Sporting. É, sem dúvida, uma boa notícia, que espero venha a ter continuidade em jogadores como Nuno Mendes, Eduardo Quaresma ou Dimitar Mitrovski, entre outros. Aliás, quem me segue no Castigo Máximo sabe que tenho muita fé no jovem brasileiro Matheus, um jogador com uma técnica de passe e recepção diferenciada e muita velocidade com bola. Igualmente, vejo no Pedro um avançado possante, daqueles que não dão descanso aos defesas durante os 90 minutos, assim como me surpreendeu a personalidade com que Rodrigo, jogador de posição "6", entrou de pedra e cal na equipa do escalão afluente. Adicionalmente, muito gostaria que o desnorte que marcou a nossa investida no Mercado de Verão pudesse ser corrigido em Janeiro, recorrendo-se para tal aos Sub-23 e a alguns jogadores que estão emprestados. Tenho, no entanto, uma dúvida, uma certeza e uma necessidade de esclarecimento: a certeza é que Pedro Mendes só será elegível de jogar na Liga Europa até Janeiro, não podendo até essa data competir no Campeonato nem na Taça da Liga; a dúvida prende-se com o facto do Sporting só ter 50% do passe de Matheus Nunes - no Report do Mercado de Inverno, o Sporting indicou à CMVM ter comprado 50% dos direitos económicos do brasileiro por 500 mil euros, tendo até Junho de 2020 para comprar a restante percentagem - não se sabendo se o valor de compra do remanescente ficou logo definido à partida, se poderá ficar agravado pelo facto de o jogador se valorizar na equipa principal, ou se o negócio até já foi feito e não comunicado; finalmente, o pedido de esclarecimento deve-se aos rumores que circulam nas redes sociais e que dão conta que Rodrigo Fernandes termina contrato no final desta época desportiva. Ora, perante isso, seria certamente uma imprudência promovê-lo (recordam-se certamente do que aconteceu com o defesa Pedro Mendes no tempo de Godinho Lopes), pelo que aguardo que alguém mais bem informado (não consta do R&C) me possa esclarecer. 

20
Out19

Medo...


Pedro Azevedo

"Vamos estar atentos ao Mercado de Janeiro", diz Hugo Viana. Entre outras considerações, como "a época foi planeada com Keizer como treinador" (interessante fraseado) e a não inscrição de Pedro Mendes, que o Director para o Futebol recorda ter sido uma "decisão de Marcel Keizer". A coisa lembra-me vagamente um filmo americano, o "Blame it on the bellboy", temendo-se uma reprise de "O carteiro toca sempre duas vezes" após o Natal e Dia de Ano Novo.

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