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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

18
Out19

Tudo ao molho e fé em Deus - Perder tempo


Pedro Azevedo

Um dia, passeando por Natal, descobri uma loja de T-shirts com frases estampadas. De entre as multiplas camisolas com dizeres humorísticos, uma delas veio-me à memória ontem e narrava qualquer coisa como isto: "Comecei uma dieta e em duas semanas perdi quinze... dias". Enquanto tentava compreender a humilhação em Alverca, esta frase associou-se no meu pensamento para descrever aquilo que sinto que tem sido o constante desaproveitamento de tempo no Sporting.

 

Por paradoxo, o tempo não tem sido bom conselheiro da Estrutura de futebol do nosso clube. No arranque da temporada, Frederico Varandas garantiu aos sócios que o Sporting iria fazer melhor que na época anterior. O pressuposto fundamental para esse optimismo era o facto de a temporada há muito estar a ser preparada por uma Estrutura altamente profissional, assim associando-se o tempo à previsão de sucesso. Acontece que, sendo a libertação de  tempo algo importantíssimo na gestão, a sua constante má utilização pode mais facilmente conduzir ao desastre. O tempo só está do nosso lado se houver competência, caso contrário pode legitimar e exponenciar muita asneira. Ora, após 14 contratações desde Janeiro e vendas de Nani, Bas Dost e Raphinha, é fácil perceber que a equipa de futebol do Sporting não ganhou qualidade, pelo contrário perdeu-a. Ontem, em Alverca, na equipa inicial estavam 9 jogadores recrutados pelo Team Varandas, complementados por 2 elementos da nossa Formação. O resultado dessas apostas viu-se. Perante o quadro actual de jogadores, não haveria Jurgen Klopp, ou mesmo David Copperfield, que conseguisse com um passe de magia alterar instantaneamente o rumo das coisas.

 

Pese embora as condicionantes, a incoerência no discurso de Silas não pode passar em claro. Ontem começou por dizer que não teve tempo para treinar com os internacionais o novo modelo de jogo, mas a verdade é que os colocou em campo. Ora, durante duas semanas, Silas treinou o tal modelo, apoiando-se para o facto em diversos miúdos da equipa de sub-23 conforme foi amplamente noticiado. Se na altura da convocatória deixou todos de fora foi porque colocou os nomes à frente daquilo que faria sentido. Não adianta pois vir falar em "heróis" como algo prejudicial ao grupo, como se já não lhe chegassem os problemas que existem no plantel e ainda quisesse ver um problema na nossa praticamente única solução, o Bruno Fernandes. A verdade é que perante a desvantagem no marcador logo recorreu ao "herói". Como também se socorreu de Acuña, só faltando Mathieu para completar a entrada em campo dos jogadores que efectivamente fazem alguma diferença neste Sporting. De quem Silas não prescindiu foi de Jesé, estranhando-se a titularidade do espanhol que teve uma atitude incorrecta perante o tal grupo que Silas quer legitimamente ver a resolver os problemas. Conclui-se assim que também Silas desperdiçou o tempo que teve disponível desde o último compromisso da equipa de futebol, laborando exactamente na mesma teia de equívocos dos seus predecessores. 

 

Aquilo a que se assistiu ontem deveria obrigar a uma profunda reflexão. E, já agora, a um plano de emergência. A uma política de contratações que privilegiou a quantidade em detrimento da qualidade somou-se o empréstimo de vários jogadores provenientes da Formação (alguns com cláusula de opção de compra do clube que os acolheu) e a venda ao desbarato de alguns dos melhores jogadores do plantel (Dost e Nani). Para além disso, a Estrutura nunca conseguiu dar estabilidade à liderança da equipa de futebol, definindo fins de ciclo ao fim de meses, quando não de dias, e indo já no seu 5º técnico num ano. Os efeitos nefastos da preparação desta época desportiva demorarão anos a dissipar-se. É preciso ter coragem de agir e inverter este rumo, antes que novas opções de mercado tornem o Sporting inviável. O que se viu ontem de Rosier, jogador que custou 5,3 milhões de euros mais o passe de um jogador (Mama Baldé) que havia marcado 10 golos na temporada transacta? Como explicar as dificuldades encontradas pela nossa dupla de centrais perante uma equipa da terceira divisão? A dado momento apeteceu-me perguntar a Doumbia se precisava de uma cadeirinha, tal a displicência do marfinense no lance do primeiro golo do Alverca, jogada em que Alex Apolinário teve tempo para rodar, ajeitar a bola e chutar sem ser incomodado por ninguém. Depois, Jesé foi a nulidade do costume, Borja tem melhorado com Silas mas não há milagres, Eduardo não se viu, Miguel Luís é menos talentoso que diversos jogadores dos sub-23 que não são aposta e Luíz Phellype não conseguiu uma única vez incomodar o seu sósia da baliza ribatejana. Salvaram-se Max, com uma defesa aparatosa, e Vietto, jogador com pormenores técnicos interessantes mas sem golo.

 

Humilhado na Supertaça, fora da Taça de Portugal, com a Taça da Liga muito comprometida e o campeonato irremediavelmente perdido em Outubro, para onde vai este Sporting? O que sobrou em tempo para o desconchavo, escasseia agora para que se reponha algum sentido nas coisas antes que o desastre seja total. Agora, ou isto é feito de uma forma ordenada, ou temo que o radicalismo tome conta do clube e que este se desfaça numa luta fratricida. Urge agir! 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Vietto

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04
Out19

Tudo ao molho e fé em Deus - 4º nível de engenheiro de sistemas


Pedro Azevedo

Enquanto não abre o curso que lhe dará a certificação da ANTF, o Silas foi tirar o 4º nível (mestrado) em engenharia de sistemas. Vai daí, trocou o 4-4-2 losango pelo 4-4-2 quadrado na estreia. Não contente, hoje começou num 3-4-3 que em posse era um 3-2-5 (o WM de Herbert Chapman no Arsenal e dos 5 Violinos) e após o intervalo mudou para um 4-3-3 que com bola chegou a ser um 2-3-5 (do tempo do Jorge Vieira, do Stromp e dos calções dos pés até ao pescoço). Cansados? Eu também. Até porque, enquanto os austríacos tiveram fôlego a coisa pôde resumir-se a um "Tudo ao molho e fé em Deus" atrás da bola, ou mesmo num "Deus nos acuda", tantas foram as LASKas que os rapazes de Linz abriram no nosso meio campo e defesa. 

 

Não tenhamos rodeios, com a certificação da ANTF o Silas teria levado uma goleada de proporções bíblicas e o Sporting sofrido uma tal enxurrada de golos que nem Noé e a sua arca ousariam desafiar a noite. O que valeu a Silas foi o curso de engenharia e a optimização de sistemas que conseguiu gerar, de forma a transformar um 2-14 em oportunidades de golo num 2-1 final. Astuto, o nosso treinador ainda pediu uma terceira oportunidade ao soar do gongo, a fim de não dar trunfos aos Zés Pereiras desta vida - quem os manda só conhecer um sistema (do futebol português)? - que agora terão de engolir a narrativa de que o Sporting do treinador sem nível foi a única equipa portuguesa a vencer nesta jornada europeia. 

 

Para que este engenhoso plano resultasse, bastou colocar apenas 4 jogadores em campo na primeira parte, período que terminou com um 0-7 em oportunidades e um 0-1 no marcador, cortesia de Renan que defendeu o que podia, de Mathieu que consertou o que já se temia, de Bruno que gritou a quem não corria e de Acuña que mordeu as canelas a todos os que ao pé de si havia. Os restantes 7 eram hologramas destinados apenas a cansar os austríacos, sendo que Bolasie desnecessáriamente se cansou a si próprio de tantas vezes que tropeçou nos seus próprios pés, o que, diga-se, para um holograma não é nada fácil.

 

O segundo tempo corria de igual modo, até que por volta da hora de jogo Silas fez entrar o Eduardo. O brasileiro pode não jogar muito, mas é o amuleto preferido do nóvel treinador leonino, a variável exógena que certifica o sistema sem que se compreenda muito bem porquê. Deste modo, mal entrou, o Sporting marcou. E de forma tão fácil que o Felipe das Consoantes, após canto (de cisne, para o Linz) de Bruno, nem precisou de tirar os pés do chão para cabecear a bola, o que demonstra bem o jogo que Silas andou a esconder durante todo aquele tempo. Ainda atordoados estavam os austríacos, não compreendendo o que se estava a passar, e eis que marcámos o segundo, novamente com Bruno e Phellype na jogada, cabendo ao nosso capitão a finalização. Até ao fim foi um massacre, mas, ou o pelotão de fuzilamento austríaco não acertava na baliza, ou era Renan que dava o corpo às balas, pelo que no fim a vitória foi do Sporting.

 

O jogo ficará para sempre como um "case study", uma batalha de Vittorio Veneto à portuguesa. Mas há uma explicação não-paranormal para tudo o que se viu no campo. É que os de Linz, fiéis ao seu conterrâneo Kepler, se basearam num modelo heliocêntrico e gastada toda a energia acabaram num vazio (de pontos), enquanto os leões se centraram em Bruno, que é como quem diz na classe e nas redes... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Renan Ribeiro (será que algum adepto ainda duvida que o homem já tem o 4º nível de guarda-redes?)

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01
Out19

Tudo ao molho e fé em Deus - Sorte ao Quadrado


Pedro Azevedo

Se o campeonato é uma maratona, um jogo vitorioso é um passo na direcção da meta, pragmatismo que marca a minha análise à estreia de Silas como treinador do Sporting. E não poderia ser de outra forma, dado o pouco tempo de trabalho do nóvel técnico dos leões. Ainda assim notaram-se algumas ideias: na saída de bola, a equipa dispôs-se num 2-4-2-2, com os dois centrais a iniciarem a construção, uma linha à sua frente formada por um duplo-pivô e os dois laterais (recuavam para a linha defensiva quando a equipa perdia a bola), dois médios de ataque (Bruno e Vietto) e dois avançados móveis, sendo que no centro do campo Silas recuperou o quadrado dos últimos tempos de Keizer; voltou também o "bitoque" dos primeiros tempos do treinador holandês, notando-se a preocupação de jogar a dois toques e desgastar o adversário através de posse e circulação de bola, mas com os jogadores da frente procurando mais a desmarcação (o espaço) e menos a aproximação à bola (diferença face a Keizer), ao mesmo tempo que os sectores cuidavam de estar o mais juntos possível de forma a dar menos espaço às transições ofensivas adversárias. Em suma, um misto de duas fases diferentes de Keizer (com algumas nuances), pois ainda não houve tempo de introduzir um cunho mais pessoal do nosso novo "Mona Lisa" que esta noite já esboçou um sorriso (se bem que ainda timido).  

 

Evidentemente, com poucos treinos, notaram-se várias insuficiências: a circulação foi lenta e não desmontou a teia montada por Inácio no miolo avense, notando-se nomeadamente a ausência de mudança de flanco (basculação) rápida, ferramenta essencial para desequilibrar um adversário muito povoado ao centro, provavelmente por a segurança ter imperado sobre o risco; a equipa continuou a mostrar-se permeável nas bolas paradas, quase sofrendo dois golos provenientes de cantos marcados de forma rasteira(!); os laterais não deram profundidade ao jogo ofensivo leonino, o que, se é tão certo como a morte e os impostos no que concerne a Borja, foi insólito em Rosier (também pouco concentrado nos pontapés de canto).   

 

Surpreendeu-me a entrada de Borja em detrimento de Acuña, estava à espera que Wendel desse o lugar a Eduardo, não só pelo abaixamento de forma do ex-Fluminense como pelo conhecimento que Silas tem do ex-jogador da SAD antigamente conhecida como "Os Belenenses" (coisa fina, à Prince, e com Revolution pelo meio). Fundamentalmente, fiquei com a ideia de que a equipa irá melhorar muito, mas que com estes jogadores hoje titulares vai ser muito difícil atingir os objectivos enunciados no início da época. E depois há outros problemas: Vietto contra o Famalicão e Jesé esta noite (nova exibição frouxa), provavelmente imaginando tempos de glória outrora vividos, protestaram aquando das substituições. Disciplina precisa-se, outra tarefa que aguarda Silas. 

 

A primeira parte foi muito monótona: Rosier quase marcava um auto-golo (acertou no poste), mas Coates é que é o especialista, e Eduardo enviou dois mísseis de Santo Tirso que teriam entrado na baliza em Vila das Aves se a companhia de Jesus tivesse estado com ele, o que teria colocado os pupilos de Inácio em caldinhos (ou, no caso, caldinhas). Nothing (more) to declare, as equipas voltaram ao balneário. 

 

No início da etapa complementar, o Aves podia ter marcado por duas vezes. Na primeira, a nossa defesa foi pela primeira vez apanhada descompensada, bola metida nas costas de Coates, remate prensado em Mathieu (também não tem a "sorte" do uruguaio), guarda-redes para um lado, bola para o outro, mas a tocar nas redes exteriores da baliza de Renan. Canto marcado, carambola de matraquilhos, Renan batido e a bola a sair a rasar o poste. O Sporting recuperou do susto e Bolasie, que procura compensar as deficiências técnicas com muita movimentação, também teve uma boa oportunidade, mas atrapalhou-se e não acertou bem na bola. Renan ainda defendeu um livre bem marcado por Welinton Jr, até que Bolasie recebeu um passe de Acuña (entrara aos 77 minutos para o lugar de Borja), ganhou espaço na área, ultrapassou um defesa e foi atropelado por Beaunardeau. Na conversão do penalty, Bruno Fernandes (trabalhou muito) deu a vitória aos leões.

 

O Sporting conseguiu sair com os 3 pontos da Vila das Aves e isso foi o mais importante. Silas, que ressuscitou a Táctica do Quadrado, teve sorte na estreia, vencendo e vendo a sua equipa a não sofrer golos pela primeira vez esta época (sorte ao Quadrado), mostrando não ser "pé frio". Que assim continue! (E que se torne uma lenda e um dia alguém relembre que Silas, na estreia, ganhou com Castigo Máximo.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Yannick Bolasie

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27
Set19

Tudo ao molho e fé em Deus - Geometria de Murphy


Pedro Azevedo

O Porto campeão europeu de Mourinho jogava com 3 médios de perfil e ganhou tudo. O Sporting da primeira época de Keizer jogava com 3 médios de perfil e ganhou duas taças. Na segunda época, com a integração de Vietto, o holandês começou a recorrer à geometria. Primeiro pediu a Wendel que fechasse mais na interior esquerda, o que na prática motivou um triângulo a meio-campo de cariz defensivo. Insistindo no argentino - dado que a experiência anterior não correu bem na pré-época - , Keizer montou a Táctica do Quadrado, com Wendel e Doumbia em linha atrás e Bruno e Vietto em linha à frente, o que na prática se revelou tão mortífero para si quanto um suicídio assistido. Ex-treinador do Ajax despedido, chegou Leonel Pontes. E ao segundo jogo implementou o losango. Três derrotas consecutivas depois, os gregos que me desculpem, mas estou farto de geometria. Axiomático como Euclides, Leonel utilizou o método de exaustão de Arquimedes para desesperar os adeptos leoninos, o que não terá desagradado aos espíritos de Sófocles, Eurípedes ou Ésquilo esta noite presentes nas bancadas de Alvalade, que certamente terão recolhido bom material para uma tragédia grega.  (Ou quando o andar a brincar à geometria se associa à Lei de Murphy e cria o caos.)

 

O Sporting tem um plantel desequilibrado e escassos jogadores que façam a diferença. Apesar disso, tinha algumas rotinas no 4-3-3. Com pouquíssimo tempo de trabalho, Leonel ousou mudar isso. Correu-lhe muito mal. Curiosamente, em contraciclo com a hiper-inflação de alas que resultou de um Mercado de Verão perfeitamente caótico para o leão, responsabilidade primeira que tem de ser assacada a Frederico Varandas e à famosa Estrutura. De betão armado (em parvo, quer-me parecer). 

 

O Sporting perde na mesma época em casa duas vezes contra o "mighty" Rio Ave. Depois de também ter sido batido em Alvalade por outro "gigante" (o recém-promovido Famalicão), em jogo onde foi humilhado no segundo tempo tal como na Supertaça. Leonel diz que não pode fazer milagres, mas a própria sequência de resultados em si é miraculosa. Para os nossos adversários, obviamente.

 

Já fora da luta pelo campeonato, com o habitual brilharete na Taça da Liga comprometido e à beira do quinto treinador em apenas 1 ano (é obra!), Frederico Varandas tem sido um factor de instabilidade para a equipa de futebol do clube. Ao ponto de neste momento ter um prazo curto para realizar uma tarefa: desatar os nós que ele próprio criou. Tarefa essa que não se afigura fácil quando o mercado está fechado, Daniel Bragança, Francisco Geraldes e Matheus Pereira emprestados e Domingos Duarte vendido; em contrapartida, existe um claro excesso de alas, insuficiência de pontas de lança, jogadores longe do pico de carreira, equipa em défice de condição física alarmante e falta de qualidade geral (14 contratações e 40 milhões de euros investidos depois).  Salvam-se Bruno Fernandes, Acuña, Mathieu, os de sempre. E pouco mais.

 

Esta noite, com uma equipa mista de titulares e de segundas linhas, o Sporting perdeu com as reservas do Rio Ave. Jogadores a chocar no campo uns com os outros, erros defensivos de principiante de Ilori e Rosier, "inconseguimento" total de compreensão do que é o jogo por parte de Borja, abaixamento de forma de Wendel, recidiva de lesão de um jogador recém-regressado de paragem prolongadíssima (Battaglia) que é obrigado a fazer dois jogos no espaço de 3 dias perante a complacência da "Unidade de Performance" são tudo motivos de preocupação. Some-se o ar de desespero de Bruno Fernandes, o homem que carrega o nosso céu nos ombros há tempo de mais, o qual se encontra visivelmente à beira de um esgotamento ou ataque de nervos, e será caso para declarar o estado de emergência na nação leonina. Digo eu, pois Varandas não sei se já estará preocupado. Até porque, ao fim de duas vitórias, dois empates e cinco derrotas em nove jogos, é certo que irá continuar a ouvir elogios e sentir pancadinhas nas costas dos dirigentes de clubes nossos rivais...

 

Sem resultados desportivos, aposta na Formação ou tesouraria, "quo vadis" Sporting?

 

Venha o Tiririca, pior que 'tá, não fica!

 

Tenor "Tudo ao molho...": os poucos adeptos (uns heróis!) que, acorrendo a Alvalade, se concentraram exclusivamente em apoiar a equipa de futebol do Sporting Clube de Portugal.

 

P.S. Independentemente dos resultados obtidos na equipa principal, espero sinceramente que se reunam as condições (e a motivação do próprio) para que Leonel Pontes possa continuar o bom e importante trabalho que estava a desenvolver nos Sub-23, o que não pode ser considerado menosprezante. O Sporting não pode continuar de costas voltadas para os escalões de formação e Leonel parece ser um homem talhado para artífice dessa última linha de produção da "Mina de Diamantes" de Alcochete.

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24
Set19

Tudo ao molho e fé em Deus - Plano D


Pedro Azevedo

(Estive para não escrever, até porque hoje não há ironia que me valha.)

 

Frederico Varandas dizia ter tudo controlado. Para além do Plano A, ainda havia o Plano B e até o Plano C. Ao fim de 8 jogos oficiais - vamos esquecer a pior pré-época da história do clube, concluída sem uma única vitória em seis jogos - descobre-se que também existia um Plano D. D de Derrota, mas também de David (Copperfield), que deverá ser o senhor que se segue como treinador. É que só por magia é que se põe esta manta de retalhos, a que se convencionou chamar plantel, a jogar bom futebol, tantos foram os equívocos da preparação da época. Não sei se era este o benchmark - 25% de vitórias, 25% de empates e 50% de derrotas - a que Francisco Salgado Zenha aludia enquanto esgrimia argumentos a favor do aumento do seu salário e dos salários dos restantes administradores da SAD, mas, se era, então tenho de dizer que também está ao alcance da minha filha de 8 anos, a quem tenho tentado mostrar que este inicio da época não é Experiência Sporting que se recomende ou que faça justiça à nossa história. 

 

Os resultados desportivos da equipa de futebol são só a ponta do icebergue à espera do Titanic, o tal que tinha fama de inafundavel até ao dia que naufragou para sempre. É o que geralmente acontece quando circunstancialmente o desempenho não nos deixa ver os erros no processo. Quando finalmente o desempenho desaparece ficamos sem nada por onde pegar - o estado actual das coisas. Os equívocos no processo eram mais do que evidentes: um presidente que não acredita em várias gerações provenientes da Academia contrata um treinador com fama de apostar em jovens. Esse treinador, que no Ajax se limitou a prosseguir a aposta conduzida por Peter Bosz numa equipa que havia chegado à final da Liga Europa, vai aceitando que se vão emprestando ou vendendo todos os jovens da Formação em idade sênior, ao mesmo tempo que intrigantemente perde as suas convicções iniciais de princípios de jogo, algo logo unanimemente aplaudido por uma CS desejosa de que o Sporting não saia do próprio labirinto que criou. Entretanto, primeiro Nani depois Dost, jogadores de qualidade saem do Sporting. Em contrapartida, desde Janeiro chegam 14 novos jogadores a Alvalade, algo que o presidente define como "contratações cirúrgicas", sem que se torne evidente um aumento de qualidade da equipa. A ida ao mercado traz mais problemas do que soluções ao ainda treinador leonino, o qual a fim de por a jogar Vietto acaba por alterar a sua ideia inicial de 3 jogadores de perfil no meio campo para um quadrado. Os que transitam da época anterior (des)esperam  até ao último dia sem saberem se ficam ou não. Qualquer um pode ser vendido a todo o momento, o que não contribui para a estabilização de um grupo de trabalho. A equipa vacila e Keizer é trocado por Leonel Pontes. Raphinha e Thierry saem no último dia do mercado. Em vez de irmos buscar um ponta de lança, a SAD promove uma ainda maior hiper-inflação de alas. Paradoxalmente, Leonel Pontes, que adoptara com sucesso o 4-3-3 na equipa de Sub-23 e estava perfeitamente consciente da abundância de alas, define um sistema de jogo que não contempla... alas. Entretanto, o único ponta de lança do plantel principal lesiona-se e o seu homólogo dos Sub-23 não é inscrito. Simultaneamente, o presidente diz ter contratado um "avançado centro" e o administrador Zenha declara que o Sporting se reforçou enquanto os seus rivais perderam jogadores, ao mesmo tempo que explana os seus argumentos para o aumento dos ordenados dos administradores da SAD em contra-ciclo com a narrativa ao mercado de "alívio salarial" em jogadores como Dost e Nani. No meio da alienação colectiva, da qual só Bruno Fernandes se parece salvar, um central experiente e muitas vezes internacional como Coates, de cabeça totalmente perdida, desata a conceder grandes penalidades e auto-golos aos adversários, num total de cinco acções desastrosas nos seus últimos 3 jogos. Confusos? De tão mau até parece ser de propósito, mas isto é somente o Sporting no seu pior. 

 

Ironia do destino: uma equipa desenhada pelo agente Mendes vai a Alvalade e dá o golpe fatal às aspirações Sportinguistas neste campeonato. Quem foi à espera do show de Jesé acabou a presenciar o Fama(licão) Show. O presidente? Depois de ter dito que só apareceria nos momentos maus, permaneceu em silêncio. Por certo agarrado à "casa das máquinas". Do Titanic...

 

Tenor "Tudo ao molho..." : Bruno Fernandes, o ausente omnipresente, ou o "omniausente"

 

19
Set19

Tudo ao molho e fé em Deus - O cisne negro


Pedro Azevedo

Há uns tempos atrás, em entrevista à SportingTV, o presidente chamou "cientistas da bola" a um grupo indeterminado de adeptos. Na medida em que um cientista é uma pessoa que sistematicamente procura o conhecimento, enquanto adepto acabei por tomar o "mimo" como um elogio. De seguida, imaginei um empírico. Um empírico só valoriza a experiência e como tal sofre do problema da indução. A indução consiste na generalização sobre as propriedades de uma classe com base em algumas observações. Se, por exemplo, um empírico só viu cisnes brancos na vida, imediatamente conclui que todos os cisnes são brancos. O problema é que existem cisnes negros (citando o Dr Pôncio, também se pode ter dado o caso de o empírico ter olhado para o cisne negro e não o ter visto). Um dos cisnes negros do futebol da Formação chama-se Pedro Mendes, um jogador que vem contrariar a tese (decreto?) de que os jovens da nossa Formação com idades compreendidas (actualmente) entre os 18 e os 24 anos não têm qualidade. Quando Leonel Pontes foi apresentado como treinador principal, o prazo para as inscrições na Liga já estava ultrapassado, o que implica que o jovem não possa jogar no campeonato e Taça da Liga. Enquanto o treinador não tem um prazo e sim uma tarefa, Pedro Mendes tinha um prazo que alguém que tinha a tarefa de o inscrever deixou caducar. Ainda assim, Leonel não permitiu que se esgotasse também o prazo na Liga Europa e sugeriu que fosse inscrito a tempo na competição. Hoje, em Eindhoven, Pontes deu a Pedro Mendes um prazo de 10 minutos e a tarefa de marcar golos. Ao fim de 1 minuto, o jovem já tinha cumprido a tarefa. Fossem todos assim no Sporting... 

 

Na antevisão do jogo tínhamos alertado para as motas do ataque holandês e a necesidade de não deixar espaço livre nas costas da nossa defesa. Conclusão: em duas situações em que o permitimos, durante a primeira parte, o PSV marcou. Mais uma vez Coates ficou mal na fotografia, estando desposicionado no primeiro golo e infeliz no segundo. Ainda assim melhorou face ao jogo com o Rio Ave, de bicicleta e não de triciclo. 

 

O Sporting entrou com um meio campo em losango, forma geométrica essa que já se sabe está fora de moda desde os loucos anos 80 (as camisolas de "Les Diables Rouges"). Doumbia jogava no vértice recuado, Bruno no vértice ofensivo e Wendel e Miguel Luís entre eles. Nada rotinada no sistema e com um novo jogador no miolo, a equipa não revelava eficácia nem ofensiva nem defensivamente, apanhando-se a perder por dois golos de diferença em duas rápidas transições ofensivas holandesas. Do meio campo para a frente as coisas também não estavam melhores, com Vietto como "capacete azul" da ONU, privilegiadamente observando o jogo de perto sem ter de pagar o bilhete. Perante este quadro de miséria, restavam os de sempre: Acuña, Bolasie e Bruno Fernandes (Mathieu, o mais rápido dos nossos defesas, desta vez não foi convocado). Da sua acção, aliás, resultaria o nosso único golo do primeiro tempo: o argentino serviu com precisão o congolês e este ganhou a penalidade que Bruno converteu sem paradinha. 

 

A etapa complementar iniciou-se com um golo sofrido pela formação de infantis do Sporting. Um canto rasteiro, inadmissível a este nível. Sem ponta de lança, com Vietto e Miguel Luís em sub-rendimento, Leonel Pontes pecou por demorar a agir a partir do banco. Assim, a equipa viveu essencialmente dos rasgos de Bruno Fernandes, o qual semeou o pânico no último reduto holandês por três vezes, enviando uma bola ao poste e disparando dois remates dificilmente defendidos por Zoet, estes dois últimos com Jovane já em campo (saiu Vietto). Até que Pedro Mendes entrou e marcou instantaneamente, provando que merecia a oportunidade de ser titular no próximo jogo contra o líder da Primeira Liga. Só que não está inscrito. Bruno está inscrito, mas não irá a jogo depois de ter sido expulso no Bessa, cortesia do critério disciplinar de Jorge Sousa. Até dá vontade de dar um pontapé numa porta, não é? Futebol? Fácil, fácil... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes. Para além de Bruno, gostei de Acuña, Bolasie, Pedro Mendes (grande golo), Renan e Jovane Cabral. Os outros estiveram em plano negativo. 

 

P.S. Uma palavra de mérito a Leonel Pontes por ter compreendido que não poderia desperdiçar o momento de forma de Pedro Mendes e por ter tido a coragem de o lançar. São estes detalhes que evitam a desmotivação de toda uma geração de jovens, dão sentido ao futebol de Formação do Sporting e encaminham o clube na direcção da sustentabilidade. Ainda assim, gostaria de ter visto a equipa desde o início com um ponta de lança. 

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16
Set19

Tudo ao molho e fé em Deus - Pontes de lança pouco afiada


Pedro Azevedo

Existem dois LP no Sporting. Um dos LP (Leonel Pontes) é aparentemente provisório, o que significa que um destes dias pode vir a ser considerado obsoleto como a cassete e ver-se substituído por algum moderno CD, ou mesmo por um PC. O outro LP (Luíz Phellype) engana muito, pois é na verdade um Single, peça única em Alvalade. Acontece que no Bessa nem o Single estava disponível, pelo que o LP tocou várias faixas mas a agulha encravava sempre que se aproximava da faixa central. Ainda assim, Leonel tentou construir pontes de ataque através das alas, improvisando um ataque dinâmico, como que substituindo pontas de lança por Pontes de lança, mas a verdade é que a primeira parte foi confrangedora. (Com um plantel desequilibrado, jogadores lesionados, sem um ponta de lança e com pouquíssimo tempo de trabalho de conjunto dada a paragem para as selecções não é justo atribuir-lhe grandes responsabilidades no que se viu.)

 

A equipa que jogou esta noite no Bessa foi a que teve o maior cunho pessoal de Frederico Varandas desde que este assumiu a presidência do clube. Assim, de início alinharam 6 jogadores contratados já este ano, no decorrer do jogo chegaram a estar 7 simultaneamente em campo, tendo no total sido utilizados 9 novos jogadores (Rosier, Neto, Borja, Doumbia, Plata, Bolasie, Jesé, Eduardo e Camacho). Um verdadeiro Team Varandas! Houve também 4 estreias absolutas, com Rosier e Bolasie a alinharem de início e Jesé e Camacho a entrarem mais tarde. A defesa foi praticamente toda nova, apenas se mantendo Mathieu do último jogo. Desta vez alinhámos com a extravagância de dois jogadores portugueses. Outra novidade foi haver alguém da Formação (com boa vontade), o equatoriano Gonzalo Plata. O que não houve foi um ponta de lança, após nos termos "aliviado" de Bas Dost (mas não aliviado de aumentos salariais de administradores da SAD, ao que parece), emprestado Gelson Dala e não inscrito Pedro Mendes. Em contrapartida, supostamente abundam os "avançados-centro", essa figura da mitologia dos anos 60 e 70 que certamente muito será do agrado do presidente Varandas. Enfim, ao fim da quinta jornada do campeonato voltámos à pré-época. E com desequilíbrios por demais evidentes no plantel...

 

Segundo o presidente, o Fernando, que dizem os registos apenas efectuou um jogo no Brasileirão, foi considerado a revelação do campeonato. Vindo de quem diz apostar na Formação e em contratações cirúrgicas, obviamente não tive como duvidar. Por isso fiquei a sonhar com o jogaço que o Fernando teria feito e a projectar a sua futura estreia pelo Sporting. Acontece que o brasileiro veio ou está lesionado, algo que parece ser comum aos jogadores contratados este Verão, vidé Camacho e Rosier, este último aquele francês (bons pormenores hoje) que custou 5,3 milhões de euros mais os direitos económicos do Mama Baldé e do qual só ganharemos 80% de uma futura venda. Assim sendo, transferi as minhas expectativas para o Jesé, à espera daquilo que o espanhol poderia fazer num só jogo. E não é que o rapaz não me deixou ficar mal? É que se o Fernando num só jogo foi merecedor do título de revelação do Brasileirão, o Jesé após o Bessa também se tornou merecedor do título de revelação do... RAP. É verdade, andamos a ouvir música há já algum tempo e no caso do espanhol o que pudemos observar foi um jogador pesado e longe dos seus melhores tempos, embora tenha mostrado um ou outro pormenor do antigamente. Em todo o caso, antes RAP que R.I.P., pois estranho seria este lento definhar Sportinguista deixar alguém dormir descansado ou, pior, o clube dormir o sono dos justos.  

 

O jogo? Sem ponta de lança, Leonel Pontes pretendeu imitar a organização do caos de Fernando Santos, na esperança de desorientar os pupilos do Lito Vidigal. Só que Leonel, apesar de Pontes, não é engenheiro nem conta hoje em dia com Cristiano Ronaldo. Para além disso, contou com Borja, o mesmo que começar com 10 - a condição física de Jesé e a necesidade de ter alguma arma-secreta no banco terão aconselhado essa "solução" - , hoje também especialmente mal a defender. A quem pediu para ir à linha centrar enquanto o ala do mesmo lado metia para dentro, o que é o mesmo que sugerir a um gato para se atirar para uma banheira cheia de água, ou seja, uma missão antecipadamente condenada ao fracasso. Ao mesmo tempo, para criar ainda mais entropia no sistema, Neto, aparentemente nervoso, só fazia asneiras, Plata mostrava-se inconsequente e Wendel, eventualmente cansado de jogos e viagens a meio da semana, também não acertava uma. De um erro do brasileiro resultaria mesmo o livre com que o Boavista inauguraria o marcador através de Marlon, um antigo jogador do Fluminense com o mesmo nome de um outro com história nos clubes hoje em confronto. Por tudo isto, e pese embora os esforços isolados de Bruno Fernandes e do congolês Bolasie, não surpreendeu ninguém que os leões tivessem chegado ao intervalo em desvantagem. 

 

Para o segundo tempo, Leonel Pontes decidiu jogar com 11. (É que mesmo muito abaixo do seu melhor, Jesé é infinitamente mais jogador de bola que Borja.)

Aproveitando o cansaço do pobre do Ackah, coitado, acometido de cãibras nas pernas após ter percorrido quilómetros com o propósito quase exclusivo de acertar uns pontapés em Bruno Fernandes, os leões foram apertando o Boavista até ao seu último reduto. Apesar disso, as oportunidades escasseavam. Como excepção que confirmou a regra apenas um lance concluído por Bolasie com um remate que ainda tocou ao de leve na barra da baliza de Bracali. Acercando-se cada vez mais das imediações da grande área axadrezada e trocando a bola com algum critério e movimentações constantes, os leões começaram a ganhar faltas em zonas de perigo. Assim, após uma infração cometida sobre Bolasie, Bruno Fernandes empatou a partida, beneficiando ainda de um desvio num jogador boavisteiro que estava na barreira aquando da marcação do livre. 

 

O Sporting empolgava-se, mas Jorge Sousa entrou em acção. Já antes havia mostrado cartões amarelos polémicos a Luís Neto e a Yannick Bolasie, agora admoestava pela segunda vez Bruno Fernandes, dando-lhe assim ordem de expulsão. Por uma falta que não foi mais grave do que qualquer uma cometida por Ackah, o tal ganês com ganas de morder as canelas ao capitão leonino que escapou sem ver sequer a cartolina icterícia. Depois das três penalidades contra nós em casa, da expulsão de um vimaranense no Dragão quando ainda nem estava decorrido 1 minuto de jogo - havia um outro defesa no lance - e do penálti a favor do Porto em Portimão que desbloqueou o marcador num jogo que só terminou aos 98 minutos com o golo da vitória portista. Assim vai o futebol português... 

 

Uma palavra final para Leonel Pontes, um homem sem prazo e com uma tarefa. Para nosso azar e sua má fortuna essa tarefa assemelha-se cada vez mais a uma daquelas incumbidas a Hércules. Quer dizer, para matar o maior leão do mundo não precisam dele e espero que não lhe exijam que faça o mesmo à serpente com corpo de dragão, tão protegida ela está pelos apitos. Mas, mesmo excluindo essas duas, a tarefa não se afigura de auspiciosa resolução, pese embora a cassete do clube sugira que nos reforçámos melhor do que a concorrência - é bom haver exigência, mas ela devia começar no esboço de um plantel - , coisa amiga e que não deve aumentar em nada a pressão sobre o Leonel. Resta-lhe, por isso, tentar fazer o melhor com um plantel com apenas 1 ponta de lança, alguns "avançados-centro" e uma Ala dos Namorados de fazer inveja a El Rei Dom João I. É certo que ainda há Bruno Fernandes, mas nem mesmo este conseguiu evitar que Marcel Keizer passasse a ser um santo contestável. Segue-se um jogo para a Liga Europa em Eindhoven - by the way, foi a Philips, cujos funcionários fundaram o PSV, que inventou a cassete, pelo que isto está tudo ligado - e uma recepção ao Famalicão onde não poderá contar com o capitão, aquele que, conjuntamente com o francês Mathieu e o argentino Acuña, forma o trio de imprescindíveis (já sei que não gostam do termo "insubstituíveis"). Entretanto, os jogadores novos ir-se-ão entrosando, um novo ponta de lança se irá improvisando, pelo que lá para o fim do campeonato poderemos fazer umas flores... Já não serão é túlipas, mas quem sabe não emergirá uma Goodyera da Madeira? Boa sorte, Leonel! 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Yannick Bolasie

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01
Set19

Tudo ao molho e fé em Deus - A insolucionável quadratura do círculo


Pedro Azevedo

No arranque dos trabalhos, Frederico Varandas disse na SportingTV que a época há muito que estava planeada. Realmente, há desastres que requerem elaborado planeamento: para começar, escolhe-se um treinador da escola do Ajax que faltou às aulas do clube de Amesterdão e é alérgico à Formação. Depois, recruta-se um pomposo "Scouting" e vai-se ao mercado comprar 11 jogadores - muitos para posições redundantes enquanto outras ficam sem rede - dos quais só um (Doumbia) é titular, sem que se perceba nitidamente se o treinador foi tido ou achado no processo. De seguida, o treinador tenta encaixar à força um segundo reforço na equipa, nem que para isso tenha de desencaixar outros três já rotinados a jogar de perfil entre si, criando-se o insolucionável problema da quadratura do círculo central do terreno. Em simultâneo, após trinta e cinco milhões de euros investidos (fora comissões pagas no Mercado de Verão), qual Sotheby`s, a SAD desdobra-se em contactos internacionais para vender os seus melhores jogadores, conseguindo assim de uma só penada desestabilizar um balneário inteiro sob a forma de Planos A, B, C. Desde o Grande Prémio do Mónaco em BF8, até notícias que correm nos jornais sobre as possíveis saídas de Coates e Acuña, passando pelo inenarrável episódio-Bas Dost, ninguém aparentemente está a salvo. Se por um lado há leilões, por outro assistimos a saldos ou liquidações totais. Assim, jogadores da nossa Formação são dados, emprestados com cláusulas de opção de compra generosas para os compradores, ou vendidos por tuta e meia. Adicionalmente, o lote de excedentários é posto a treinar à parte desde o início da época - uma boa forma de desvalorizar activos - até que, dois meses de ordenados pagos depois, um a um vão saindo a preço zero, um tipo de gestão que poderia ser praticado pela minha filha de 7 anos. Bom, pelo menos poupamos nos custos financeiros inerentes à antecipação de proveitos (factoring)...

 

Hoje, na recepção ao Rio Ave, Marcel Keizer insistiu na Táctica do Quadrado, sistema inventado para emparceirar Vietto com Bruno Fernandes. A ideia genéricamente consiste em fazer recuar Wendel para a mesma linha de Doumbia, ao mesmo tempo que Bruno Fernandes avança um pouco para se juntar à linha onde se encontra o falso ala Vietto, criando-se assim um posicionamento em quadrado no meio campo. Simplesmente, existiram dois problemas: primeiro, como haviamos advertido após o jogo em Portimão, este sistema teria de ser testado contra equipas que jogassem com 2 médios defensivos e não apenas 1. Sem necessidade de colocar o seu ala direito a acompanhar o argentino nos movimentos interiores, porque o médio defensivo a mais garantia uma marcação à zona eficiente, Carvalhal pôde aproveitar o espaço que o flanco esquerdo leonino concedeu durante todo o jogo, uma forma permanente de escape quando o Sporting tentava pressionar; em segundo lugar, o desaparecimento das 3 linhas do meio-campo leonino permitiu aos vilacondenses encontrar muito espaço entre-linhas no nosso meio campo, bastas vezes colocando os seus jogadores entre as duplas BF/LV e MW/ID. Dessa forma, o quadrado leonino assemelhou-se durante todo o jogo a um queijo suiço, daqueles cheios de buracos no meio. Emmental, meu caro Keizer!

 

Durante o jogo, o Sporting viveu essencialmente da superior qualidade técnica de alguns dos seus jogadores, Bruno Fernandes à frente de todos. Foi aliás Bruno que imaginou e concluiu portentosamente o lance do primeiro golo leonino e que esteve também perto de marcar o segundo não fora a intervenção milagrosa de Kieszek. É impressionante como o nosso capitão carrega o peso do mundo Sportinguista nos ombros, mas desta vez tal não foi suficiente. Sagaz, Carvalhal soube explorar a técnica e velocidade do iraniano Taremi, posicionando-o em cima do mais lento Coates. Dando espaço aos médios rioavistas para pensar e colocar a bola, o Sporting estendeu a passadeira, perdão, o tapete persa na sua linha defensiva por onde Taremi provocou grandes estragos. Um truque repetido uma e outra e ainda outra vez, num hat-trick de penáltis ganhos por Taremi e concedidos por Coates, facto inédito no futebol português. De nada valeriam as duas ofertas vilacondenses sob a forma de ressaltos na área prontamente aproveitados por Bruno e Phellype, pois a superioridade da qualidade de jogo do Rio Ave ainda assim conseguiu ditar leis.

 

Acresce que os nossos alas continuam sistemáticamente a definir mal, o que me faz pensar nas palavras de Slaven Bilic, treinador do West Bromwich, esta tarde após a vitória da equipa de Birmingham sobre o Blackburn Rovers (3-2): "Matheus Pereira é um jogador muito bom, faz a diferença no último terço. É bom com a bola, tem boa visão de jogo." - Matheus Pereira, pela primeira vez titular, fez duas assistências para golo, isto depois de na semana passada já ter garantido um empate à sua equipa após grande penalidade cometida sobre si.  

 

Podia ainda escalpelizar a entrada de Borja (em detrimento de um ala) que implicou mexida no sector recuado, na evidência de um Vietto desinspirado que não defende e assim é um jogador a menos, na extraordinária oportunidade dada a Plata de jogar 1 minuto, ou nas três grandes penalidades marcadas em Alvalade contra o Sporting - ai Jesus (o outro), devo ter de viver 10 vezes para vêr algo semelhante ocorrer na Luz ou no Dragão - , mas sinceramente hoje falta-me em espírito e ânimo aquilo que me sobra em tristeza.

 

Sem sustentabilidade, sem Cultura corporativa, sem resultados desportivos relevantes (mínimo=qualificação para a Champions), quo-vadis Sporting?  

 

P.S.1: Recupero aqui um pequeno excerto de uma entrevista concedida por Malcolm Allison ao jornalista Neves de Sousa, onde após a sua saída de Alvalade tentou explicar a sua filosofia sobre os clubes de futebol: "O director compra as sementes e é o jardineiro. O médico aconselha os adubos. O treinador é o Sol. (N.A. os sócios são o solo fértil.) Quando os directores ficam convencidos de que são espertos de mais e sabem tudo, cai o império. É o fim, o Sol não volta e as flores murcham e morrem." - com a devida ressalva em relação ao eclipse solar prolongado de Keizer, após um início retumbante (o que terá acontecido ao futebol sem medo, de pressão alta e recuperação em 5 segundos?), é difícil não ficar a pensar nestas palavras proferidas por Big Mal. 

P.S.2: Pegando no que escreve o meu amigo José Navarro de Andrade no "És a nossa FÉ", façam o favor de permitir que se possa entoar "O mundo sabe que..." sem que entretanto comece o jogo. O Sporting tem de ter alma, essa música é para ser sentida, é um momento de reclusão, de introspecção dos nossos sentimentos leoninos, que não deve ser dividido com a emoção própria exteriorizada num lance de futebol.

sportingrioave 2.jpgTenor "Tudo ao molho": Bruno Fernandes

25
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - O lusco-fusco


Pedro Azevedo

Jogo ao fim da tarde, imediatamente aproveitado pelo Sporting para entrar no negócio do lusco-fusco, uma ideia que ainda não estava devidamente rentabilizada. Assim, foi com 5/7 minutos de grande diversão e muito intensos que o Sporting se viu rapidamente a ganhar por dois golos, fazendo de Keizer um visionário e de Portimão a capital mundial do lusco-fusco. (Há que puxar a brasa à sua sardinha.)

 

Passado este período, o Portimonense imediatamente reduziu, num lance onde houve precipitação de Mathieu. Mas ninguém terá advertido os leões de que o lusco-fusco já tinha terminado e estes logo ganharam um penálti. Sucede que árbitro e VAR anularam a grande penalidade a nosso favor devido a uma falta (de betão?) ocorrida aquando da construção do estádio dos algarvios, o que como é óbvio aconteceu(?) noutra fase. Um apagão às regras de intervenção do VAR!

 

Num clube onde sempre coexistiram falta de reconhecimento com quem é bom e falta de exigência com quem não cumpre os mínimos, é preciso dizer que Luciano Vietto foi hoje o melhor jogador em campo. Mas também é importante perceber que Vietto pôde brilhar porque durante toda a primeira parte Acuña segurou as pontas, muitas vezes levando de enfiada com ala e lateral. Com Vietto sem preocupações defensivas, a combinar muito bem com Bruno Fernandes e sempre a flectir para dentro, o Sporting esboçou uma espécie de Táctica do Quadrado. Uma versão futebolística inspirada em D. Nuno Álvares Pereira, ou não fosse Marcel Keizer um "santo contestável(!)". 

 

Se, no primeiro tempo, o sucesso do Sporting teve muito a vêr com as diagonais de Raphinha e, essencialmente, com a superioridade na zona central onde apenas Pedro Sá tentava conter os avanços leoninos, para o regresso do intervalo Keizer pediu ao ala argentino para fechar na ala, evitando-se assim que Acuña tivesse de jogar com uma máscara de oxigénio. De quando em vez, sempre compensado por Bruno Fernandes, o antigo jogador do Fulham ia até ao centro e continuava a fazer miséria, algo só interrompido quando Folha finalmente fez entrar Dener para acompanhar o até aí desamparado Pedro Sá. Antes, já o Sporting fizera o terceiro numa jogada de entendimento entre Vietto e Bruno Fernandes, concluída com um tiro indefensável de Raphinha após passe imaculado do maiato. Até ao final do jogo, o Portimonense conseguiu controlar os acontecimentos, com Jackson Martinez à procura do tempo perdido, no jogo e na carreira. Mas o colombiano (hoje) já não foi a tempo e o Sporting assumiu assim, (à hora que escrevo) à condição, a liderança da classificação da Primeira Liga. 

 

Ah!... E o Diaby não jogou... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Luciano Vietto (tem de melhorar o remate à baliza). Bruno Fernandes esteve nos 3 golos, Raphinha marcou dois e perdeu mais 1 de uma forma incrível, Luíz Phellype encostou para outro e deu luta à defesa algarvia. "Mutley" Acuña mordeu as canelas de todos quantos passaram nos seus terrenos e Thierry Correia continua a crescer. Os outros estiveram a um nível médio, com Mathieu a impor-se na defesa após um início atribulado. Renan teve uma noite tranquila e quase voltava a defender uma grande penalidade.

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19
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Re(i)nan R(e)ibeiro


Pedro Azevedo

Durante a fase fulgurante de Marcel Keizer, Frederico Varandas atribuiu o mérito ao peso da sua Estrutura para o futebol profissional. E não há como não lhe dar razão. É verdade! Atentem neste fim de semana: enquanto o Porto, acossado pelo "fair-play" financeiro, teve de ir ao mercado buscar uns Luíses quaisquer para remendar a equipa, o Sporting, munido de um super scouting, apresentou-se esta noite com 4 reforços (no banco). Outro mérito indiscutível da Estrutura foi termos alinhado com 1 jogador formado em Alcochete (Thierry Correia), o "quinto metatarso" de uma folia de um pé direito enorme de laterais de raíz ou improvisados de que também fazem parte Ristovski, Bruno Gaspar, Ilori e Rosier, confirmando-se assim a prometida aposta na Formação. Se calhar já são loas a mais à nossa Direcção, mas como esquecer a venda de Dost (e o seu valor) - Keizer diz que leu umas notícias no início da semana e foi perguntar ao presidente(!?) - e as justificações que logo surgiram na CS? Estou totalmente de acordo, pois cada um dos 93 golos do holandês ficava muito caro. Assim, podemos sempre contratar um novo Castaignos ou um novo Barcos, na certeza de que os seus golos ficarão muito mais baratos. Ah, o quê? Não marcaram? Infinitamente caros, como tudo (>0) o que divida por zero o é? Bolas, este elegia estava a correr tão bem... 

 

Esta noite, em Alvalade, o Sporting recebeu o Braga. Após uns bons 15/20 minutos iniciais em que aproveitou para se adiantar no marcador de forma totalmente merecida, o Sporting entregou o controlo do jogo aos bracarenses. Nas bancadas, os adeptos assistiam. No banco, Keizer também. Enquanto nós e Keizer assistíamos, Renan resistia. Uma, duas, três vezes, com defesas assombrosas, lá foi impedindo o empate. Até que Bruno Fernandes tirou o génio da lâmpada e deu a Pablo (Neruda?) material para um poema em forma de golo. Um golo caro!? (Medo!)

 

Na etapa complementar, a toada manteve-se, sendo notórias as falhas de posicionamento de diversos jogadores do meio campo leonino aquando da nossa posse de bola, com Wendel (autor de um golo de classe na primeira parte) à cabeça. Muitas vezes apanhados longe do centro nevrálgico do campo, após a perda de bola os nossos jogadores permitiam ao Braga jogar entrelinhas nas imediações da nossa área, apesar do denodo de Doumbia (bons cortes e agilidade na saída de bola em construção) em dissuadi-lo. Acresce que Raphinha e Diaby, os alas leoninos, não fechavam, permitindo inúmeras situações de 2x1 nos flancos, obrigando Thierry e Acuña (em postura ofensiva, os melhores cruzamentos provenientes das alas) a atenção redobrada, Coates e Mathieu a darem o peito às balas e Renan a muita atenção. Quando já nada havia a fazer, os avançados bracarenses encarregavam-se sozinhos de falhar a baliza. Sem qualquer vigilância na sua zona de acção, André Horta ia organizando todo o jogo bracarense. Nas bancadas, os adeptos desesperavam, tentando marcar o mais novo dos irmãos Horta com os olhos. No banco, Keizer ia olhando os lírios do campo (mas o Veríssimo não estava lá, era o Godinho). Até que o Braga finalmente reduziu a desvantagem. Autor: Wilson Eduardo, ex-jogador da nossa Formação e já habitual carrasco do Sporting, um ala que se tivesse ADN do Mali (ou de qualquer outro recanto do mundo que não Alcochete) seria titular de caras dos leões esta noite.

 

Eis então que Keizer finalmente mexe, alterando o sistema para 3 centrais, mas com a nuance (positiva) de Mathieu desta vez ficar posicionado no eixo da defesa (Neto, recém-entrado, derivou para a esquerda), o que dá sempre jeito quando se pretende recuperação defensiva. (Eu não disse que Keizer nunca repete o mesmo erro?)

Ricardo Horta ainda podia ter empatado, mas a equipa pareceu ter ficado mais consistente, algo reforçado posteriormente com a entrada de Vietto (sacou duas faltas que fizeram "acelerar" o cronómetro) para o lugar de um inoperante Felipe das Consoantes, o qual se havia deixado antecipar frequentemente na área (não dá para pôr uns pedacinhos de picanha à entrada da pequena área, a ver se o homem lá vai como gato ao bofe?). Aliás, tanto Luíz Phellype como Raphinha foram dois jogadores com um PH claramente neutro, nada tendo feito de produtivo. Com Diaby formaram o terceto mais apagado dos leões.  

 

Quem andasse pelas imediações do Alvaláxia no final do jogo, e não soubesse o que se tinha passado, olhando para os rostos dos adeptos leoninos julgaria que estes estariam a sair de um dos filmes do Poltergeist, ou de uma qualquer saga do John Carpenter. É que se o golo é caro, a saúde ainda o é mais. E esta noite todos os que fomos a Alvalade perdemos uns anitos de vida. Os jogadores do Sporting também, pelo menos a avaliar pela forma como mal o jogo terminou se prostraram no relvado. Oxalá estes 3 preciosos pontinhos se venham a revelar de alto rendimento (decisivos), e assim façam valer a pena tanto sacrifício. 

 

Tenor "Tudo ao molho": Renan Ribeiro

 

P.S. No decorrer do jogo não pude deixar de pensar que Francisco Geraldes, actuando numa posição semelhante à que JJ reservou para João Mário, teria dado um jeitaço. É que nas alas houve correria a mais e discernimento a menos. Partindo da direita, ou da esquerda, Xico poderia ter pautado de outra forma os ritmos de jogo, adicionando inteligência ao processo. 

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11
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Planos D e E


Pedro Azevedo

Na pré-época, Frederico Varandas havia anunciado ter um Plano A, B ou C, consoante Bruno Fernandes ficasse ou não. Por contágio, Keizer e os jogadores também começaram a percorrer o abecedário. Assim, desde que a bola começou a rolar, a equipa já mostrou ter um Plano D, de derrota, e um Plano E, de empate. O Plano V, de vitória, é que nem vê-lo, esperando-se que não demore tanto a concretizar-se quanto a distância no alfabeto entre as letras "E" e "V".   

 

Neste defeso, o Sporting foi ao mercado adquirir cinco jogadores. Hoje só um alinhou de início (Eduardo) e apenas porque Doumbia estava impedido por castigo, visto que Matheus Nunes ou Daniel Bragança não contam para Keizer. (A propósito: para quem já se esqueceu ou tem saudades, o Gudelj estava lá naquele jogo em que o Benfica marcou 4 em Alvalade.) O sonho de uma noite de Verão do presidente Varandas (Vietto), contratação que se teme fazer parte de uma comédia shakespeariana, também foi a jogo, ainda que só na parte final. 

 

Uma equipa grande tem de ter laterais ofensivos. Hoje, o Sporting não os teve: Thierry ainda arrancou um ou outro centro bem medido, Borja nem isso, sempre a fugir da grande área adversária como o diabo da cruz. Por vezes, mesmo com o caminho todo desbravado, hesita e regressa à base, um movimento tão incompreensível quanto teria sido o de Bartolomeu Dias se após passar o Cabo das Tormentas tivesse voltado para trás, negando assim a Boa Esperança.

 

Uma equipa com os pergaminhos do Sporting também tem de ter uma boa defesa. Na Madeira, Thierry esteve ao nível de um Ilori, o que não o recomenda propriamente, pese a boa vontade deste autor. Mas também quando se tem um treinador que o intranquiliza a 24 horas de um jogo ao dizer que o maior problema com o Benfica foi o lado direito... Coates não apareceu na fotografia do golo insular e ligou o complicómetro no quarto de hora final. Em postura atacante, obteve um golo que valeu um ponto. Mathieu, apesar da infinita classe, deu uma fífia que podia ter sido fatal e Borja, bem Borja, foi como se nem estivesse lá, permitindo todo o tipo de cruzamentos na sua área de jurisdição. 

 

Quem quer ganhar campeonatos também tem de ter pontas-de-lança que entendam o jogo da equipa, saibam ligar jogo e sejam letais na área. Nada disso parece caracterizar o Felipe das Consoantes, um avançado que se deixou antecipar na área umas quatro vezes em lances que podiam ter mudado a história do jogo. Quanto a Bas Dost, mostrou viver o mesmo sem-vontade com que recentemente recusou sair de Alvalade a caminho da China ou de outro desses paraísos de reforma do futebol mundial. O holandês dá todos os sinais de não se estar a sentir confortável. O que se estará a passar com Dost? 

 

Perante todos os factos elencados, a que se pode acrescentar um Raphinha novamente a decidir pessimamente, a equipa acaba por estar muito dependente de Bruno Fernandes (sempre ele), Wendel e Acuña, o que simplesmente se vem revelando insuficiente. O mais dramático disto tudo é que já se percebeu com um grau de certeza razoável que a abordagem ao mercado não resultou bem, continuando a escassear jogadores que façam a diferença. E quando se vê que a solução de desespero é Diaby, então é caso para dizer que o desespero está instalado. 

 

Keizer, tal como Abraracourcix, parece estar sempre à espera que Bruno Fernandes impeça que o céu lhe caia em cima da cabeça, o grande receio da sua existência enquanto chefe do plantel dos leões (onde está aquele treinador ousado que pôs a equipa a jogar de pé para pé e que privilegiava as suas ideias e não adaptações a adversários e ao futebol português?). "Por Toutatis", o médio é actualmente uma mistura entre Atlas - um titã condenado a sustentar o céu nos seus ombros - e Asterix, um cruzamento entre a mitologia grega e a aventura epopeica de Uderzo que homenageia o lendário Vercingetórix. Ele é o celebérrimo "plano de jogo" de Keizer, a sua poção mágica. O problema é que isso acaba por o desgastar em demasia, física e emocionalmente, havendo jogos em que, mesmo sem estar mal, fica aquém do seu potencial. E quando não temos o melhor Bruno Fernandes...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel

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05
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Crónica de uma derrota anunciada


Pedro Azevedo

Acabado de chegar do Estádio do Algarve, sinto que esta crónica deverá ser uma não crónica. Pelo menos, do tipo a que habituei os Leitores. Perguntar-me-ão o porquê. E eu respondo: no meu entendimento, o sentido de uma crítica deve ser ajudar a evitar algo de negativo que se antevê, de forma a que, mudando o que não está bem, os receios do seu emissor não se venham a concretizar de facto. Por isso, temendo o pior, nunca me coíbi de fundamentar aquilo que não me parecia bem, na esperança de poder despertar consciências em quem tem responsabilidades no clube. Depois de uma debacle como a sofrida esta noite, a crítica já não me parece ter um objectivo, na medida em que não poderá alterar nada e apenas servirá para expôr um determinado estado de alma, ou satisfazer uma vaidade individual. Ora, eu já disse aqui inúmeras vezes que preferirei sempre não ter razão e ela assistir ao meu clube, pelo que não será por isso que usarei este espaço usualmente satírico para achincalhar o clube da minha paixão.

 

Sejamos francos, o Sporting não perdeu esta noite devido ao sistema de 3 centrais que eu tinha antecipado aqui no "Castigo Máximo" poder ser a surpresa de Keizer. Pelo contrário, tal até baralhou o Benfica durante bastante tempo na primeira parte. O Sporting perdeu, porque o Benfica tem melhores jogadores, atletas com a qualidade-extra do meio campo para a frente que a nós nos falta (com a honrosa excepção de Bruno Fernandes). Por isso aqui tanto batalhei para que não se comprasse em quantidade e se apostasse na qualidade, nomeadamente procurando no mercado um ponta-de-lança com mobilidade, técnica para ligar o jogo da equipa e poder de concretização na área. É de jogadores com a capacidade de fazer a diferença que estamos necessitados, e por eles toda uma outra estratégia deveria ter sido implementada, apostando em jovens da nossa Academia como as tais segundas linhas para compôr o plantel em detrimento dos reforços(?) que fomos buscar ao mercado, de forma a conseguirmos manter os nossos melhores jogadores e poder acrescentar-lhes mais um elo vindo de fora que ajudasse a engrenagem a funcionar de forma mais oleada. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. 

 

Onde eu questiono Keizer é no valor relativo que vê em jogadores como Diaby em detrimento de um Matheus Pereira ou de um Jovane (esta noite indisponível por lesão), exemplo de um exponencial de situações em que a nossa Formação é deixada para trás em função da integração de elementos que ninguém percebe muito bem como despertaram o interesse do nosso Scouting. O caso do maliano é disso sintomático, na medida em que se torna insuportável para a vista observar alguém vestido de verde e branco e com o leão rampante ao peito a abusar assim tanto da canela, facto que nem para a Fábrica dos Pastéis de Belém o aconselharia. Também me interrogo como é possível não se vêr evolução em Raphinha, um promissor jogador que continua a definir muito mal as jogadas. Estas coisas não são trabalhadas? O brasileiro esteve umas vinte vezes em situação 1x1 contra defesas do Benfica e em todas decidiu com pouco critério. Ora, quando do outro lado temos um Rafa, ou um Pizzi, com uma taxa de aproveitamento desse tipo de lances muito boa, o nosso destino está lançado.

 

Uma última menção a algo que eu havia aqui dito no Sábado: a Direcção do Sporting deveria ter reagido publicamente na sequência das notícias que davam conta do pedido alegadamente formulado por Bruno Fernandes para sair. Se o tivesse feito, Bruno e o grupo teriam sido defendidos e o foco no jogo mantido. Mais, não me parece bem que na ante-véspera de um jogo de capital importância, um momento que deveria ser de total concentração, a Direcção do clube aceite encontrar-se com emissários do Tottenham, o empresário do jogador e o próprio Bruno Fernandes que é bom não esquecer ainda é o capitão da equipa. Esse assunto deveria ter sido adiado para data posterior à Supertaça, evitando-se assim um foco de tensão para o jogador, balneário, sócios e adeptos, os quais deveriam sim estar todos agregados à volta da necessidade de vencer o Benfica. 

 

Nada mais tenho a dizer numa ocasião em que a frustração é muito grande e o sentimento de impotência ainda maior. Resta-me a confiança inabalável na melhor massa associativa do mundo, a única em Portugal capaz de permanecer resiliente perante seja qual for a adversidade, e a certeza que o Sporting se irá reerguer como o enorme clube que é. Aliás, derrotas destas não me fazem ser menos sportinguista, bem pelo contrário. É nestes momentos que gosto de tirar a camisola verde e branca do armário e mostrá-la sem vergonha, com todo o orgulho numa história feita de glória. Sim, porque nunca fui pessoa de esconder a cabeça na areia como a avestruz. Em todos os momentos. Tal como o Sporting. O Sporting, não o A, o B ou o C, a razão disto tudo. Amanhã será outro dia.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Idrissa Doumbia e Thierry Correia, os únicos a merecerem nota positiva. Renan evitou números mais pesados, Wendel perdeu o gás todo contra o vento, Mathieu (grande jogador) cometeu um erro de amador, Acuña provou ainda não estar em condições físicas, Bruno esteve nervoso e decidiu anormalmente mal, dos outros é melhor nem falar.

 

P.S. Ah, e quanto à super aposta na Formação em que alguns acreditam, cumpre dizer o seguinte: no início eram 15. Depois, Iuri não foi para estágio. E lá foram caindo, um após outro, de modo que nos 18 escalados para a Supertaça estavam dois, apenas dois (Thierry e Max). Alguns desaparecidos em combate, como Abdu Conté, após ter sido encarregado da missão suicida de ter de enfrentar sistematicamente dois adversários perante a complacência do recém-recruta Vietto, outros como Matheus Pereira desterrados para zonas densamente minadas. Ou é impressão minha, ou este enredo da Formação está cada vez mais parecido com ‘Os doze indomáveis patifes’. 

29
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus - Violinos por Rabecas


Pedro Azevedo

Desloquei-me ao José Alvalade para ver o troféu que homenageia os 5 Violinos, mas em tempo de vacas magras tive de me contentar com 5 Rabecas, uma versão mais tosca e com menos padrão de qualidade que o Sporting de Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. O departamento de marketing do clube deveria fazer algo sobre isto, pois a presença em campo hoje de Borja, Vietto, Ilori, Diaby e Eduardo tem de ser vista como publicidade enganosa. Deste modo, terminámos este ciclo antes das competições oficiais sem vitórias, o que não sendo dramático nem me impedindo de sonhar em ganhar a Supertaça, transformou o antigo dirigente Carlos Barbosa num visionário. É que no seu tempo ele previu que Benfica e Porto deixariam de ser oposição para nós, passando o Real Madrid a sê-lo. Atendendo à pré-época de cada clube, dir-se-ia que o objectivo foi amplamente conseguido. Porém, não dramatizemos, o defeso é uma época de experiências e Keizer provou ser um cientista convicto disso mesmo, pelo que o importante é a equipa aparecer em campo sem equívocos no próximo Domingo.

 

Olhando para a prestação dos jogadores quando a equipa tem a bola, muitos Leitores não concordarão com o meu destaque pela negativa dado a Vietto e a Eduardo. Compreendo-o. O argentino, após uma primeira parte apagada, teve um belo passe de ruptura a isolar Raphinha na área e uma vistosa abertura a solicitar a esquerda do ataque leonino. Igualmente, o brasileiro foi capaz de transportar a bola com critério até às imediações da área valenciana nalgumas ocasiões. No entanto, a influência de ambos na dinâmica ofensiva da equipa está a anos-luz da observada pela dupla Bruno/Wendel quando joga nas suas posições naturais. E sem bola, tanto Vietto como Eduardo simplesmente não existem, e logo num sector nevrálgico do terreno onde é importante saber defender. Para além disso, como eu já previra num texto anterior, a passagem de Bruno Fernandes para a esquerda acabaria por ajudar os adversários a controlá-lo, bastando para isso não se exporem tanto no ataque quanto o Liverpool. Ora, atendendo a que a grande maioria das equipas da primeira liga praticamente só defende, circunscrever Bruno, o melhor jogador da Liga 2018/19, a uma banda é reduzir a criatividade do Sporting, auto-condicionando a nossa equipa. E para quê? Para tentar fazer caber um jogador que adivinho ser um nove e meio, mas que com 50% de certeza apenas sabemos ser um sete e meio... milhões de euros? Com tudo isto, só espero que esta passagem de Bruno pela ala não venha a ser um sinal de... ala que se faz tarde!

 

O Borja continua a fazer lembrar aquele caçador que chega ao couto e repara que se esqueceu da arma em casa, voltando para trás. Se a Assunção Esteves quisesse adaptar o (seu) "inconseguimento" ao futebol, a postura atacante do colombiano seria disso paradigmática, sendo o episódio da ida ao couto uma alegoria para o caminho até à grande-área adversária. Diz-se que é certinho defensivamente, mas até isso parece estar a mudar: se contra o Liverpool já tinha sido ultrapassado um sem número de vezes, hoje foi vencido em antecipação no lance de bola parada de que resultou o empate dos valencianos. O Ilori, atendendo ao padrão-Ilori, nem jogou mal, desconhecendo-se ainda a esta hora o que isso significa. Às tantas lá mandou uma biqueirada que supostamente pretendia ser um passe para Thierry Correia, uma paragem cerebral menor face aos AVCs a que estamos habituados. Quanto ao Diaby, mostrou a trapalhice que era suposto só muitos treinos ajudarem a desenvolver, sinal que a preparação está a correr bem e decorre a ritmo acelerado.

 

No meio de tanta experiência, os destaques pela positiva foram Doumbia, Thierry Correia e Renan. Foi tão estranho ver Renan defender um penálti quanto o foi o marfinense fazer esquecer Gudelj, ou o português não oferecer nenhum golo ao adversário e ainda salvar alguns. Ausência notada foi a de Jovane, mas a presença de Diaby está a cortar-lhe as pernas desde o primeiro dia, impedindo-o assim certamente de usar a canela da mesma forma que o maliano. Riscados parecem ter ficado definitivamente Matheus Pereira e Gelson Dala. O brasileiro presumivelmente devido à hiper-inflacção de alas, o angolano porque está bom de ver que o sistema de jogo de Keizer não contempla um avançado que saiba ligar o jogo com a restante equipa, razão pela qual, mais do que um CAN, teria precisado de um CAN-CAN para se mostrar aos olhos dos adeptos. 

 

Saúde-se o regresso de Dost aos golos (grande golo!), numa altura em que o Felipe das Consoantes ainda está a digerir o piano que comeu nas férias, o que a julgar pela sua movimentação em campo terá sido mais um Steinway do que um churrasquinho de porco. 

 

Para finalizar, uma palavra de louvor à aposta na Formação, consubstanciada na magnanimidade de todos uns cinco minutos que foram concedidos a Daniel Bragança, Eduardo Quaresma e Miguel Luís. Adicionalmente, Thierry parece ter agarrado o lugar, após ter sobrevivido a um teste de fogo, na lateral oposta, contra o campeão europeu.

 

Não se iludam os amigos benfiquistas. Todo esta pré-época leonina consiste num plano maquiavelicamente urdido e exemplarmente implementado para os enganar. Dia 4, no Algarve, é que vão ver como elas vos doem! Sporting!

 

P.S. 5 jogos, 0 vitórias, 2 derrotas e 3 empates, 10 golos sofridos (2 em cada jogo) e 8 golos marcados, com Bruno (4 golos, 3 assistências e 1 passe para Raphinha que deu o golo hoje) a estar em todos os golos obtidos pelos leões.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Idrissa Doumbia

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25
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus - Os deuses devem estar loucos


Pedro Azevedo

O Sporting via nesta digressão aos "states" uma oportunidade de divulgar a marca. Mas começou logo por não divulgar a sua marcha, já que depois do "Star-Spangled Banner" (hino nacional americano) e do "You will never walk alone" terem tocado na instalação sonora, o CD com a canção da Maria José Valério não saiu da gaveta. Nem mesmo o mais recente hino entoou no estádio... Enfim, ficámos a perceber que o mundo não sabe que... (Por falar em oportunidades, costuma dizer-se que não há uma 2ª oportunidade para causar uma 1ª boa impressão. Tal é verdadeiro, a não ser que se chame Vietto. Nesse caso haverá uma terceira, quarta...)

 

Os leões entraram em campo com um equipamento alternativo, o que é sempre uma boa forma de mostrar ao mundo a sua marca, ou melhor, a sua Macron. O guarda-redes do Liverpool também quis deixar a sua marca e serviu um frango que nos soube a Fillet Mignolet. Tanta desconversa sobre o nosso Renan (o Salvador) e afinal, depois de Karius, o campeão da europa volta a mostrar não ter ninguém minimamente à altura de substituir o bom do Alisson, também ele brasileiro por acaso. O Sporting assim adiantava-se no marcador, golo de Bruno Fernandes (who else?).

 

Na tentativa desesperada de encaixar Vietto na equipa, Keizer mandou Bruno Fernandes para a esquerda, provavelmente a fim de evitar ter de ceder também Borja ao Moreirense. Renan provava porque é o titular das balizas, defendendo tudo menos uma recarga de Origi, o único sobrevivente da linha avançada ma-fi-o-sa (Mané, Firmino e Salah ainda não regressaram) do Liverpool. Entretanto, Bruno Fernandes voltava a assustar os de merseyside: primeiro, serviu Luíz Phellype, mas o peso das consoantes do brasileiro evitou que recepcionasse a bola à frente do guarda-redes; depois, um alívio de um cruzamento seu encontrou Wendel e o poste; finalmente, ofereceu um golo cantado a Ilori, mas este mostrou ter mau ouvido (o menor dos seus problemas). Diga-se de passagem que os laterais leoninos estavam a ser os piores em campo, com Borja permanentemente ultrapassado na esquerda e Ilori a solicitar demasiadas vezes o apoio dos bombeiros voluntários do socorro, tendo Bruno, numa das ocasiões, acorrido como 112 (só lhe falta substituir Renan). Até que, num minuto, algumas coisas que aqui vamos perorando se materializaram: Vietto, por duas vezes, mostrou não ser um finalizador; Ilori teve mais um AVC, e os "reds" adiantavam-se no marcador em cima do intervalo.

 

Na reatamento, Thierry Correia substituiu Borja na esquerda. Apesar de não ser a sua posição natural, a verdade é que o lateral leonino logo se destacou com um vistoso passe de trivela (para disfarçar não ter pé esquerdo) a isolar Wendel na esquerda. Logo de seguida, de um outro passe seu para Wendel se iniciou uma triangulação que também envolveu Bruno Fernandes, seguida de uma devolução do maiato ao brasileiro da qual resultaria o golo do empate (e que golo, lindo!). E ainda foi arrancar posteriormente um cruzamento venenoso para a área! O Sporting trocava bem a bola, com mudanças de posição entre jogadores e Doumbia muito atento sempre a compensar perdas de bola e a dobrar os defesas em caso de necessidade. Mas com o tempo, o jogo acabou por ir perdendo qualidade, essencialmente porque não foi possível acompanhar o ritmo elevado a que se jogou a primeira parte e, também, devido à quebra do ritmo de jogo provocada pelas inúmeras substituições operadas por ambos os treinadores. Mas ainda houve oportunidade para Thierry voltar a brilhar em missão defensiva, agora à direita, e para os miúdos Nuno Mendes e Quaresma confirmarem que têm nervo e qualidade. 

 

Ao quarto jogo da pré-época, o Sporting realizou a sua melhor exibição. A equipa continua a crescer, com Renan a oferecer segurança, Mathieu (sempre no sítio certo) a confirmar-se como patrão e Wendel (muito bom jogo) e Bruno Fernandes a serem indispensáveis à manobra colectiva. Estes 4 têm sido a espinha dorsal da equipa, a qual bem se deveria poupar a sustos provocados por equívocos como a colocação de Ilori à direita (ou em qualquer lugar fora da bancada), ou a tentativa de fazer de Vietto um organizador de jogo, seja a partir da ala ou do meio, ele que é um segundo avançado. (Ou como um sonho de Varandas ameaça dar pesadelos a Keizer.)

 

O Sporting continua a sofrer golos aos pares. Dois de cada vez, oito em 4 jogos. Em sentido contrário, já marcámos em sete ocasiões, tendo Bruno Fernandes feito 4 golos e eferecido outros 3. Mais palavras para quê? Mais do que hiper-inflacção de alas, o nosso mal é a hiper-dependência do maiato. Os reforços (desde Janeiro) pouco se vão vendo, com excepção de Doumbia, que confirmou as boas indicações do ano passado. O marfinense, tal como Luíz Phellype (este ainda a precisar de mais treinos), dada a sua massa corporal é um jogador que precisa de estar muito bem fisicamente para ter rendimento.

 

No Sporting, pensamos sempre que estamos a ser injustos com as primeiras impressões que alguns reforços nos deixam. A prudência leva-nos a contemporizar, transigir, condescender, 90 minutos após 90 minutos, até ao dia em que a realidade choca de frente connosco e temos de nos ver livres deles. Mas como a natureza tem horror ao vazio, e a bilis precisa de actuar, sentimo-nos no direito de ser taxativos com a nossa Formação. Com eles, decretamos: não prestam. Nem que para isso nos bastem 10 minutos de observação. E parece que toda a gente queda satisfeita assim, ficando amplamente justificado o investimento em quem vem do exterior. (Ainda me lembro das caixas de comentários quando eu escrevia que o Alan Ruiz jogava de saltos altos.) Claro que quando os nossos jogadores vão lá para fora, percebemos que outros povos pensam de uma outra forma. Por isso, os Renato Sanches e os João Mário jogam menos tempo, pois o que interessa é o rendimento demonstrado em campo. Também é certo que quando olhamos para as nossas contas sentimos que algo está errado... Como não gosto da nossa abordagem, e penso que deve existir, isso sim, uma maior exigência com quem vem de fora (porque tem um custo de aquisição e tem de provar ser melhor do que os que formamos), considero da mais elementar justiça destacar aqui a exibição de Thierry Correia, que teve um duplo lançamento de fogo, contra o campeão europeu e a jogar a maior parte do tempo fora da sua posição, e mesmo assim deu boa conta do recado, deixando muito boa gente a pensar no racional do investimento de 7,5 milhões de euros (€5 milhões+ Mama Baldé) em Rosier. (Para não falar no dinheiro investido noutros jogadores, numa altura em que continuamos a não colocar os excedentários que pesam mais na conta de exploração e todos os recursos deveriam ter sido canalizados para tentar segurar Bruno Fernandes e, se possível, na aquisição de um ponta de lança com maior mobilidade fora da área que os actuais e igual eficácia dentro dela.) 

 

Para finalizar, há que dar o mérito ao plano de jogo de Keizer, pela forma como fomos conseguindo tirar a bola da zona de pressão, evitando assim as cargas inglesas, e mudando de flanco para os desorganizar. É que não é todos os dias que nos batemos de igual para igual com um campeão europeu, pese embora o luxo que é ter um Bruno Fernandes. Lamento, no entanto, que o treinador holandês seja sempre tão renitente em dar oportunidades reais aos jovens da nossa Academia, como hoje mais uma vez se provou com a teimosia de aposta em Ilori para lateral direito. Já chega de justificar uma contratação. Não correu bem, ponto. Final. (Espero que Vietto ainda venha a provar a sua utilidade, pois não estou a ver Keizer tirá-lo da equipa.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes

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19
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus - Juventude inquieta


Pedro Azevedo

A pré-época é pródiga em experiências. Essas experiências normalmente transmitem sinais. Se temos um lateral direito de raíz no banco (Thierry) e adaptamos um central (Ilori) à posição, então não é preciso ser-se o (Detective) Correia para compreender o que se irá passar no futuro. 

 

A primeira parte foi muito má. Na ala, Vietto não desequilibrou nada à frente e também não equilibrou atrás, pelo que a continuar assim promete só fazer a diferença nas contas. Sobrou para Abdu Conté, que muitas vezes apanhou com 2 adversários pela frente, um dos quais um diabrete com nome de Dennis (o Pimentinha?) e enganador apelido de Bonaventura. A custo, Neto e Mathieu lá foram colando os cacos, contando também com a falta de pontaria dos avançados do Brugge. Numa jogada de insistência, os belgas adiantaram-se no marcador, com um jogador deixado completamente solto na área, por a defesa dos leões o ter tentado pôr em fora de jogo esquecendo-se que Abdu Conté tinha ficado para trás na tentativa de um corte de carrinho. Em cima do intervalo, e contra a corrente do jogo, de mais uma combinação entre Bruno Fernandes e Raphinha resultou novo golo leonino nesta pré-época, o terceiro com a assinatura exclusiva desta parceria. 

 

Para o segundo tempo, Vietto e Dost ficaram de fora. O argentino, que passou a primeira parte toda a sobrevirar para a direita (procurando o centro do terreno, sua posição natural, ele que é um segundo ponta de lança e portanto nunca recuará para pegar na bola onde Bruno Fernandes muitas vezes inicia a contrução), recebeu ordem para sobrevirar para a esquerda, que é como quem diz para sair do campo, porventura tornando-se assim mais útil à equipa. Entraram Jovane e o Felipe das Consoantes. Ter um ala que vai para cima deles (defesas) faz sempre alguma diferença, e o miúdo começou logo a dar nas vistas: primeiro, serviu Luíz Phellype para um remate venenoso, depois marcou o segundo dos leões. Na origem da jogada estiveram mais uma vez Raphinha e Bruno Fernandes (assistência). O cabo-verdiano deverá, no entanto, refrear os ânimos quando na sua área, evitando assim penalidades escusadas como a que resultou no golo do empate dos belgas. Renan mostrou mais uma vez porque não merece ser um patinho feio, pese embora Max seja muito promissor. O brasileiro salvou por duas vezes na mesma jogada o golo dos belgas. À terceira, Ilori mandou para canto. A partir daí massificaram-se as substituições. Bruno ainda teve um remate que quase ia dando golo e depois ficaram quase só miúdos em campo. E a verdade é que se mostraram mais à altura do que muitos dos reforços, em especial o Daniel Bragança, hoje a jogar como médio de ataque e a dar sempre ritmo ao jogo, o Nuno Mendes, que mostrou segurança, e o Plata, desta vez menos trapalhão e a libertar a bola na altura certa. Tempo ainda para Luíz Phellype encenar a fábula da lebre e da tartaruga. desta vez com uma conclusão bem mais lógica. (O brasileiro é daqueles jogadores que não estando em forma física é um a menos quando o Sporting tem a bola.)

 

Ao terceiro jogo da pré-época a sensação que fica é que estamos no mesmo patamar do fim da época passada. Não se consegue neste momento determinar se os reforços justificam o nome, para além de Neto (provável suplente de Coates e Mathieu) que promete vir a ser útil (Eduardo tem potencial, mas ainda é cedo para perceber até onde pode chegar). Os outros não tem feito a diferença, não havendo ninguém que se perspective um titular indiscutível. Em sentido contrário, Jovane mostrou que se tem de apostar mais nele, não só pelo que fez no ataque mas também pela cobertura que deu a Abdu Conté e que não existiu no primeiro tempo, e Daniel Bragança deixou água na boca, ficando à espera de o ver jogar com Wendel e Bruno Fernandes. Doumbia esteve mais solto e Eduardo Quaresma, que está connosco há oito anos, continua a deslumbrar pela personalidade que demonstra jogo após jogo, tendo hoje mostrado estar completamente à vontade contra uma equipa formada por jogadores experientes e de bom nível. O que parece óbvio é que nos falta um ponta de lança que tenha mobilidade e simultaneamente seja decisivo na área. Uma pecha não colmatada desde a saída de Slimani, embora um jogador com um pouco de mais tecnica, que combinasse melhor com a equipa, na linha de um Liedson, igualmente capaz de pressionar a saída de bola adversária, fosse uma grande contratação. O problema é que essa deveria ter sido uma prioridade antes da contratação dos 5 jogadores do Mercado de Verão.

 

Para terminar, nos desequilíbrios atacantes a equipa parece totalmente dependente de Bruno Fernandes e de Raphinha: tendo o Sporting até agora marcado 5 golos nestes 3 jogos, Bruno marcou 3 e produziu duas assistências; já Raphinha participou até agora em 4 golos. Como tal, não é preciso ser "Brugge" (nem Ristovski) para adivinhar o que seria esta equipa sem o Bruno. 

 

P.S. Os meus sentimentos pelo falecimento do nosso antigo treinador Robert Waseige, por quem hoje foi respeitado um minuto de silêncio antes do início do jogo. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes

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14
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus(2) - Notas musicais


Pedro Azevedo

Inspirado em Fernando Santos, Keizer tentou a sua sorte ao mudar vários jogadores da sua posição natural. Esqueceu-se que está no clube onde já tudo foi tentado e inventado, e em que a Teoria do Caos iniciada no accionamento dos flaps de um avião numa viagem Salzburg/Lisboa teve como consequência a demissão de um grande treinador, a fatalidade que deixou paraplégico um dos nossos mais promissores jogadores e a perda do campeonato. Ainda assim, após Eduardo Quaresma ter actuado como lateral direito no primeiro jogo, coube agora a vez a Tiago Ilori, e Vietto e Matheus Pereira mantiveram-se a jogar em posições trocadas. Eis a análise individual aos leões:

 

Renan - Dia propício à utilização de adágios populares, com "cada tiro, cada melro" a rivalizar com "cada cavadela, cada minhoca".Trocando por miúdos, dois remates à baliza, dois tiros indefensáveis, dois golos. Há dias assim.

Nota: Mi

 

Luis Maximiano - No mesmo lance, primeiro foi capaz de identificar transferências e transformações de energia no movimento vertical de queda e ressalto da bola, depois, através da recta de regressão, soube calcular em fracções de segundo a altura do ressalto e o ponto óptimo de conexão com a bola. Não sei como será a sua carreira no Sporting, mas não tenho dúvidas sobre o seu futuro na física. Piada de Verão, de praia a pedir um gelado fresquinho: no meio de um ou outro perna-de-pau e de um Cornetto, ou Vietto, ou lá o que é, ele foi um Super Max. 

Nota: Si

 

Tiago Ilori - No centro ou na direita da defesa, o seu rendimento é sempre constante. Quer dizer, constantemente mau, bem entendido. 

Nota:

 

Thierry Correia - Se a invencibilidade está na defesa, a possibilidade de vitória está no ataque. Para já tem-se defendido bem dos ataques. Mais ousadia na frente e poderá ficar indefeso face ao... elogio. 

Nota: Sol

 

Neto - Santos da casa não fazem milagres e assim Neto safou-se por não haver VAR em St Gallen.

Nota:

 

Mathieu - Depois da sua, e da dos seus dois filhos, o francês vive agora a sua terceira infância ao lado do Neto. Está para durar.  

Nota:

 

Eduardo Quaresma - Quaresma implica alguns sacrifícios, tais como os suiços deixarem de marcar golos com ele em campo.

Nota:

 

Abdu Conté - Conté(m) com ele...

Nota:

 

Nuno Mendes - De que adianta ter o jovem perfeito, se quem nos agrada é aquele que não é bom (Borja)?

Nota: Sol

 

Eduardo - Na melhor nódoa caiu o pano do primeiro tempo. E com ele, o primeiro golo dos suiços.

Nota: Mi

 

Doumbia - À beira de um ataque de nervos. Já que estamos na Suiça, um jogo contra o Neuchatel Xanax poderia ajudar a acalmá-lo. 

Nota: Mi

 

Wendel - E se de repente um "desconhecido" (irreconhecível em campo até aí) lhe oferecer "flores" (sob a forma de um grande golo), isso é impulso de um bom jogador na calha para o estrelato.

Nota: Sol

 

Miguel Luís - A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as garras de um leão ou, no caso, actual, de um gatinho. 

Nota: Mi(au)

 

Bruno Fernandes - Como dizia Cassius Clay, um campeão é feito de um desejo, um sonho, uma visão. E depois, de talento, claro. Bruno Fernandes é um campeão!

Nota:

 

Matheus Pereira - Às vezes interrogo-me se quer ficar. Voltou a insistir naquele jogo de cabine telefónica que tem marcado este seu reencontro com os leões. 

Nota: Mi

 

Raphinha - Voltou a estar envolvido num lance de golo. Participativo.

Nota: Sol

 

Camacho - Discreto, passou ao lado do jogo.

Nota: Mi

 

Vietto - Não vi "etto"... Com Matheus Pereira isolado na direita, insistiu no drible e perdeu a bola... 

Nota: Mi

 

Plata - Os alas que nos agarram ao jogo seguram a bola como se tivessem uma tenaz. Não é o caso do equatoriano. A diferença entre ser tenaz ou ter tenaz.

Nota: Mi

 

Luíz Phellype - Mais em jogo que na partida anterior, ainda não é o Felipe das Consoantes a que nos habituou. À procura da melhor condição física.

Nota:

 

Bas Dost - "Cheguei, vi e não venci". Pouca bola.

Nota: Mi

 

11
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus(1) - Notas musicais


Pedro Azevedo

De Dó Menor a Dó Maior:

 

Renan - À sombra (sempre entre os postes), nem precisou de protector solar.

Nota:

 

Max - Saiu queimado pelos infra-vermelhos (3º escalão) suiços.

Nota: Mi

 

Thierry Correia - Deu para ver que a marcha-atrás engrena bem, faltou observar como entram a quarta e quinta mudanças. Sendo o seu forte a Correia de transmissão, novos testes o aguardam a nível de embreagem e caixa de velocidades.

Nota: Sol

 

Eduardo Quaresma - A somar ao primeiro jogo pela equipa principal ainda o puseram a jogar fora da sua posição natural (central). Não se faz. Bem sei que o seu apelido é Quaresma, mas talvez não lhe devesse ter sido pedido tal sacrifício. Ainda assim, mostrou forte personalidade. Não é um prodígio de técnica, mas não se esconde do jogo e tenta adaptar-se da melhor forma às circunstâncias, algo que me leva a pensar que um dia chegará longe.

Nota: Mi

 

Neto - Delegado da segurança no trabalho, com a sua acção preveniu fogos e acidentes pessoais. Deu-lhe muito jeito ter ali ao lado o avô Mathieu para o ajudar...

Nota: Sol

 

Mathieu - O Ministro da Defesa foi imperial. Como (quase) sempre, diga-se.

Nota: Sol

 

Ilori - O buraco no ozono leonino por onde passaram os raios infra-vermelhos que atormentaram Max.

Nota: Ré(u)

 

Ivanildo - Estava ele a parar para provocar o fora de jogo quando Ilori também parou... o cérebro, um tipo de sincronia psicomotora que deve ter causado irritação a Keizer. Jogo ingrato.

Nota: Mi

 

Nuno Mendes - Sentiu dificuldades de posicionamento iniciais típicas de um miúdo de 17 anos, mas foi crescendo ao longo do jogo. 

Nota:

 

Abdu Conté - Parece menos arranca-e-pára que Borja.

Nota: Sol

 

Doumbia - Não deixou os suiços pôr o pé em ramo verde e mostrou critério na saída de bola.

Nota: Sol

 

Eduardo - A ele aplica-se na perfeição aquela música do António Variações do "só estou bem aonde não estou, só quero ir aonde não vou...". Foi um "6" a piscar o olho ao "8", acabando por não se dar bem com essas variações. Voltando a citar o cantor, vai continuar a procurar a sua forma e o seu lugar...

Nota: Mi

 

Wendel - O elo mais fraco na primeira parte. Refilão e desconcentrado, pode render muito mais.

Nota: Mi

 

Miguel Luís - Passou ao lado do jogo.

Nota: Mi

 

Bruno Fernandes - A revolta do fado leonino. Profissional a 100%, dá sempre o máximo que a condição física permite em cada momento. Apesar da carga de treinos, deixou no campo o perfume do seu futebol. O melhor em campo.

Nota:

 

Matheus Pereira - Fora da sua posição natural, tabelou até à exaustão, mas invariavelmente encontrou uma parede à sua frente. Numa das raras excepções isolou Luiz Phellype, mas o ex-pacense não estava nos seus dias.

Nota:

 

Raphinha - É capaz de pescar um robalo de 10Kg e depois devolvê-lo ao mar. Falta-lhe mais propósito no seu jogo, pois a qualidade está lá.

Nota: Sol

 

Vietto - Sentiu algumas dificuldades em se adaptar à ala esquerda, revelando um comportamento sobrevirador para a sua direita, permanentemente procurando espaços interiores. Um bom remate por cima da barra.

Nota:

 

Plata - Muito inventivo no 1x1, mostrou uma boa gama de fintas. Numa diagonal a jeito do seu pé esquerdo acertou na barra da baliza suiça. Muitas dificuldades nas combinações com os colegas, a revelar que tem muito trabalho técnico/táctico pela frente. Mas a qualidade está lá. Em bruto (habilidade).

Nota: Sol

 

Camacho - Pouco se viu na ala esquerda, talvez por estar mais habituado ao lado direito. Foi pouco influente e não desequilibrou, embora tácticamente e na compreensão do jogo se tivesse revelado mais maduro que Plata.

Nota: Mi

 

Bas Dost - Acertou no poste logo aos 9 minutos, mas mostrou estar longe da sua melhor condição física. Apesar disso, procurou combinar com os seus companheiros.

Nota:

 

Luiz Phellype - Um dos piores jogos que lhe vi fazer. Lento a reagir, perdeu uma boa oportunidade após assistência de Matheus Pereira.

Nota: Mi

10
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus - Entrada de cordeiro


Pedro Azevedo

O Sporting estreou-se contra o Rapperswil, a melhor equipa... do Lago Oberer, e "meteu água". Pertencente ao terceiro escalão suiço, o Rapperswil, treinado pelo português Pedro da Silva, não incomodou na primeira parte, período em que o Sporting actuou com o teóricamente melhor "onze" entre os jogadores que estão em estágio. Com Bruno Fernandes a jogar na sua posição habitual do 4-3-3, Luciano Vietto foi desviado para a esquerda (eu já tinha antecipado que isto iria acontecer), adicionando mais um elemento à hiper-inflacção de alas (8) - parece que ainda queremos mais um, para além de Jovane, Diaby e Acuña (espero que seja lateral) que não actuaram hoje - do plantel leonino. Ainda assim, o primeiro tempo foi agradável, com Doumbia a dar saída de bola com critério e rapidez, Thierry Correia (seria necessário Rosier?) a destacar-se pela velocidade na recuperação, Neto e Mathieu a oferecerem segurança, Raphinha a causar perigo em diagonais e Bruno a fazer a diferença no passe de ruptura. Assim, após uma primeira oportunidade desperdiçada por Dost (remate ao poste), o melhor jogador da Liga 2018/19 facturou de penálti. Raphinha e o próprio Bruno tiveram acção preponderante nos dois lances. Até ao intervalo, o Sporting continuou a dominar, ficando a dever a si próprio dois golos que estiveram nos pés de Raphinha.

 

Para a etapa complementar, Keizer rodou os 11 jogadores. Os sintomas de hiper-inflacção de alas foram evidentes quando Matheus Pereira foi desviado para o meio, tal a abundância nos extremos. Plata foi para a ala direita e Camacho para a esquerda. Diga-se que o equatoriano esteve bem melhor do que o ex-Liverpool no 1x1, embora tenha denotado muitas dificuldades em combinar com a restante equipa. Como sabemos da economia, quando se continua a fazer compras como se tivessemos uma rotativa de impressão de moeda (não há dinheiro), fomenta-se a hiper-inflação. Associada a ela, acontece a recessão e concomitante desvalorização dos activos com risco. O activo(?) Ilori chegou-se logo à frente, aprestando-se a confirmar a teoria em dois lances decisivos que deram a vitória aos helvéticos, mostrando que o valor pago pela sua aquisição dificilmente será recuperado. À frente da defesa, Eduardo foi demasiado macio, nomeadamente no primeiro golo dos suiços onde o médio portador da bola teve todo o tempo do mundo para solicitar o seu avançado. Talvez não fosse mal pensado deslocar o brasileiro para a posição "8", onde me parece que Miguel Luis está sem confiança e Wendel pode dar mais. O problema é que "oitos" há muitos, mas o melhor é Bruno Fernandes, o qual é absolutamente necessário como "10" (agora que já não há Geraldes), a não ser que Keizer o faça recuar e ponha Vietto a jogar na posição no terreno condizente com o número da sua camisola, solução que não me parece plausível em muitos jogos. Portanto, este primeiro ensaio mostrou-nos que temos quantidade de sobra em várias posições, mas também continua a faltar aquela qualidade que faça a diferença, mesmo jogando contra uma equipa de terceira linha.   

 

Pese os desequilíbrios evidentes no plantel, uma equipa começa a desenhar-se de trás para a frente. Com a integração de Coates e de Acuña, a categoria de Mathieu e o reforço de Neto não me parece que tenhamos problemas por aí. Mas a maioria dos jogos em Portugal ganham-se com jogadores que façam a diferença do meio campo para a frente. É certo que é muito cedo para tirar conclusões definitivas, mas temo que sem Bruno esta equipa vá perder ainda mais qualidade. Nesse sentido, com ou sem ele, sacrificaria muitos alas e médios defensivos do plantel - Matheus Nunes, bom jogador contratado em Janeiro, nem convocado para o estágio foi, e ainda há Battaglia e Bragança, para além dos utilizados Doumbia e Eduardo - por um ponta de lança, que pudesse simultaneamente ser decisivo na área e ter mobilidade, e um "oito" com mais golo e chegada à área que Wendel. É que há uma outra regra de economia que nos diz que os recursos são escassos. Como tal, deverão ser utilizados (aplicados) de uma forma eficiente.  

 

Tenor "Tudo ao molho": Bruno Fernandes

 

P.S. Desde Janeiro, o Sporting contratou 1 defesa direito, 2 centrais, 1 defesa esquerdo, 3 médios defensivos, 1 ponta de lança e 3 alas. Para as posições "8" e "10" não contratámos ninguém (Vietto será um "mezzapunta" e não um "10", e jogará numa ala se Bruno ficar).

P.S.2 Vem o Eduardo, que desvaloriza o Doumbia, que por sua vez desvaloriza o Matheus Nunes (últimas 3 contratações para a posição), que desvaloriza o Bragança. Quando voltar, o Battaglia desvaloriza todos os outros. Nas alas é ainda pior: o Vietto, recambiado para lá e fora da sua posição natural, desvaloriza o Camacho, que por sua vez desvaloriza o Plata (últimas contratações), que desvaloriza quem já lá estava (Jovane). E ainda há o Raphinha, o Diaby e o Matheus Pereira. Para não falar do Acuña, que o melhor que tem a fazer é recuar para lateral esquerdo a fim de que o Borja não desvalorize... a equipa. 

P.S.3 Se Bruno ficar, é possível que Keizer seja tentado a jogar num 3-5-2, de forma a tentar compatibilizar Bruno com Vietto. Imaginem uma equipa com Renan; Coates, Mathieu, Neto(Borja); Ristovski, Doumbia, Wendel, Bruno e Acuña; Vietto e Dost. Nesse cenário, não haveria lugar para qualquer um dos alas. Quantos temos? 

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10
Jun19

Tudo ao molho e fé em Deus - Dia de Portugal antecipado


Pedro Azevedo

A Selecção Nacional foi a jogo na véspera do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (e também do Sport Lisboa, mas este comemora-se durante todo o ano neste país) e acabámos todos a celebrar em antecipação. Em Dia de Pentecostes, o Espírito Santo parece ter iluminado todos os intervenientes: os jogadores foram uns "heróis do mar" e levantaram de novo o esplendor de Portugal; Fernando Santos, humilde, soube dar asas à epopeia lusa, trocando o caos, que a introdução de Felix gerara no jogo anterior, pela organização colectiva; os adeptos presentes no estádio, incansáveis, foram a voz de todos os portugueses espalhados pelo mundo. 

 

Liberto do tabu da utilização de Felix, Fernando Santos foi a jogo num 4-3-3. No meio-campo, Danilo era o homem mais recuado, William um "box-to-box" e Bruno Fernandes o "10". No entanto, esta geometria era variável, aparecendo algumas vezes William (meia esquerda) a par de Bruno Fernandes (meia direita), formando-se assim um triângulo de cariz mais ofensivo. Na frente, Guedes entrou para a ala esquerda, formando o trio de ataque com Ronaldo (centro) e Bernardo (ala direita). Na segunda parte, a táctica foi subtilmente alterada: voltou o losango, agora com William como homem mais adiantado a pressionar a saída de bola holandesa, recuando Guedes para a meia esquerda e derivando Bruno Fernandes para a meia direita, mantendo-se Danilo atrás. Na frente, Bernardo aproximava-se de Ronaldo pela direita. 

 

A táctica revelava uma ideia chave: o condicionamento do jogo holandês, selecção que aparecia em grande forma após ter eliminado sucessivamente a Alemanha, a França e a Inglaterra. Portugal jogaria nos intervalos de não deixar jogar a Holanda. Ter mais ou menos bola dependeria da eficácia da nossa pressão sobre Frankie de Jong, o homem que fazia a ligação do jogo holandês. William tomou a si a missão, com a mesma determinação com que os generais Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros haviam impedido a passagem das tropas da República das Sete Províncias Unidas no Morro dos Guararapes durante a Guerra Luso-Holandesa. E a verdade é que resultou, conseguindo Portugal estancar o sumo de uma Laranja Mecânica para o efeito transformada num limão espremido à mão. Sem bola, a dinâmica de movimento holandês tornou-se enócua, sem sentido ou propósito. Se durante o primeiro tempo Portugal ameaçara por Bruno Fernandes (o luso mais rematador), no segundo viria a conseguir o tão desejado golo à hora de jogo, na sequência de uma bela combinação entre Guedes e Bernardo, brilhantemente concluída pelo primeiro. Em desespero e sem mecânica, à Holanda restou-lhe recorrer à aeronáutica, procurando o jogo directo para a cabeça de Luuk de Jong, ponta de lança lançado para o efeito por Ronald Koeman. Sabendo sofrer, Portugal contou então com um Ruben Dias que foi descascando laranjas umas atrás das outras e um Rui Patrício muito atento a apanhar as cascas, não permitindo aos holandeses reentrar no jogo e vencendo assim a primeira edição da Liga das Nações, a segunda importante conquista internacional do futebol português a nível de selecções seniores. 

 

Em modo de balanço final, sendo certo que Ronaldo nos salvou de uma eliminação anunciada nas semi-finais, desta vez Fernando Santos foi capaz de dar a Ronaldo aquilo que Allegri não conseguiu na Juventus: a eliminação dos pontos fortes do jogo holandês. E, juntos, já somam dois titulos inéditos por Portugal. Uma vez mais, com o importante contributo de jogadores made-in Sporting. Se em Saint-Dennis haviam sido 10, agora foram 5. Sem esquecer Bruno Fernandes, claro.

 

Agora, há que aproveitar e festejar o dia, até porque nos outros 364 festejam os holandeses. É só comparar o salário médio de cada país, a taxa marginal de IRS ou o imposto sobre os lucros das empresas. Mas, isso, os nossos governantes não se apressam a comentar em jeito de uma "flash-interview" ...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bernardo Silva. Na equipa portuguesa, Bernardo, William e Ruben Dias foram os melhores, mas toda a equipa (o suplente Rafa incluído) esteve em bom plano e cumpriu na perfeição o plano de jogo. 

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05
Jun19

Tudo ao molho e fé em Deus - Ronaldo é como a Fénix!


Pedro Azevedo

Fénix, ok? Fénix, não Félix... 

 

Quando o país soube que Cristiano Ronaldo se tinha juntado à equipa de João Félix, outrora designada por "Equipa de todos nós", logo se levantaram dúvidas se estaria à altura de tão grande responsabilidade. Para complicar ainda mais a coisa, o engenheiro deu uma de Paulo Bento e montou um meio-campo em losango que basicamente consistia em ter quase todos os jogadores fora da sua posição natural, pelo que todas as fichas estavam apostadas no imponente físico de Félix, a emparelhar na frente com Ronaldo, assim a jeito de uma alegoria da caserna (cartilhada) transformada numa hipérbole. 

 

Jogando Ruben Neves mais recuado, William foi desviado para a meia esquerda, Bruno Fernandes para a meia direita e Bernardo para o vértice mais ofensivo, táctica que ainda teve o senão de deixar Félix inoperante, sem espaço para recuar e receber a bola de frente para a baliza, o que teria sido possível se Portugal tem optado, por exemplo, por um 4-4-2 clássico. Mas, se a selecção não fosse a Turma do Félix, com Ronaldo no eixo do ataque, Guedes poderia ter entrado de início para a esquerda, Bernardo teria actuado pela direita, Bruno Fernandes seria o "10" e Neves e William jogariam mais atrás, num 4-3-3 provavelmente ideal para as características dos atletas que temos.

 

Assim, a coisa foi sofrível e só salva pelo irrequietismo de Bernardo e o génio daquele senhor (Cristiano) que veio visitar a Turma do Félix e a fez renascer como a fénix. Mas aí Bruno Fernandes ainda não se juntara a Félix... no banco de suplentes.

 

Na primeira parte, Ronaldo inaugurou o marcador com um "tomahawk", pôs um helvético a rodar a 45 rotações por minuto (ou não fosse a suiça Thorens uma referência mundial em gira-discos) e assistiu Félix para uma oportunidade perdida. Na etapa complementar, começou por tocar para Bernardo no lance da penalidade a favor que se transformou numa penalidade contra, ironia mais própria de um VAR aberto a altas horas da madrugada e que devolveu ao marcador uma expressão mais consentânea com a famosa neutralidade helvética. De seguida, servido por Bernardo, rematou raso e sem possibilidade de defesa. Por fim, a cereja em cima do bolo: bola recuperada no eixo central por Bruno, passe deste para Guedes, solicitação para Ronaldo na meia esquerda e grande jogada individual do madeirense, com uma chicuelina que tirou dois adversários da frente e abriu um buraco digno de um queijo suiço. Emmental, meu caro Watson(!), Ronaldo é o melhor jogador do mundo. Infelizmente, parece que é só o segundo melhor jogador português...

 

P.S. Para além de Ronaldo e de Bernardo, gostei de Ruben Dias. William e Bruno Fernandes, apesar de jogarem fora da sua posição natural, estiveram bem a espaços. Guedes entrou muito bem, dando outra dinâmica ao ataque. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Cristiano Ronaldo (hat-trick, 88 golos na Selecção)

 

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