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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

11
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Planos D e E


Pedro Azevedo

Na pré-época, Frederico Varandas havia anunciado ter um Plano A, B ou C, consoante Bruno Fernandes ficasse ou não. Por contágio, Keizer e os jogadores também começaram a percorrer o abecedário. Assim, desde que a bola começou a rolar, a equipa já mostrou ter um Plano D, de derrota, e um Plano E, de empate. O Plano V, de vitória, é que nem vê-lo, esperando-se que não demore tanto a concretizar-se quanto a distância no alfabeto entre as letras "E" e "V".   

 

Neste defeso, o Sporting foi ao mercado adquirir cinco jogadores. Hoje só um alinhou de início (Eduardo) e apenas porque Doumbia estava impedido por castigo, visto que Matheus Nunes ou Daniel Bragança não contam para Keizer. (A propósito: para quem já se esqueceu ou tem saudades, o Gudelj estava lá naquele jogo em que o Benfica marcou 4 em Alvalade.) O sonho de uma noite de Verão do presidente Varandas (Vietto), contratação que se teme fazer parte de uma comédia shakespeariana, também foi a jogo, ainda que só na parte final. 

 

Uma equipa grande tem de ter laterais ofensivos. Hoje, o Sporting não os teve: Thierry ainda arrancou um ou outro centro bem medido, Borja nem isso, sempre a fugir da grande área adversária como o diabo da cruz. Por vezes, mesmo com o caminho todo desbravado, hesita e regressa à base, um movimento tão incompreensível quanto teria sido o de Bartolomeu Dias se após passar o Cabo das Tormentas tivesse voltado para trás, negando assim a Boa Esperança.

 

Uma equipa com os pergaminhos do Sporting também tem de ter uma boa defesa. Na Madeira, Thierry esteve ao nível de um Ilori, o que não o recomenda propriamente, pese a boa vontade deste autor. Mas também quando se tem um treinador que o intranquiliza a 24 horas de um jogo ao dizer que o maior problema com o Benfica foi o lado direito... Coates não apareceu na fotografia do golo insular e ligou o complicómetro no quarto de hora final. Em postura atacante, obteve um golo que valeu um ponto. Mathieu, apesar da infinita classe, deu uma fífia que podia ter sido fatal e Borja, bem Borja, foi como se nem estivesse lá, permitindo todo o tipo de cruzamentos na sua área de jurisdição. 

 

Quem quer ganhar campeonatos também tem de ter pontas-de-lança que entendam o jogo da equipa, saibam ligar jogo e sejam letais na área. Nada disso parece caracterizar o Felipe das Consoantes, um avançado que se deixou antecipar na área umas quatro vezes em lances que podiam ter mudado a história do jogo. Quanto a Bas Dost, mostrou viver o mesmo sem-vontade com que recentemente recusou sair de Alvalade a caminho da China ou de outro desses paraísos de reforma do futebol mundial. O holandês dá todos os sinais de não se estar a sentir confortável. O que se estará a passar com Dost? 

 

Perante todos os factos elencados, a que se pode acrescentar um Raphinha novamente a decidir pessimamente, a equipa acaba por estar muito dependente de Bruno Fernandes (sempre ele), Wendel e Acuña, o que simplesmente se vem revelando insuficiente. O mais dramático disto tudo é que já se percebeu com um grau de certeza razoável que a abordagem ao mercado não resultou bem, continuando a escassear jogadores que façam a diferença. E quando se vê que a solução de desespero é Diaby, então é caso para dizer que o desespero está instalado. 

 

Keizer, tal como Abraracourcix, parece estar sempre à espera que Bruno Fernandes impeça que o céu lhe caia em cima da cabeça, o grande receio da sua existência enquanto chefe do plantel dos leões (onde está aquele treinador ousado que pôs a equipa a jogar de pé para pé e que privilegiava as suas ideias e não adaptações a adversários e ao futebol português?). "Por Toutatis", o médio é actualmente uma mistura entre Atlas - um titã condenado a sustentar o céu nos seus ombros - e Asterix, um cruzamento entre a mitologia grega e a aventura epopeica de Uderzo que homenageia o lendário Vercingetórix. Ele é o celebérrimo "plano de jogo" de Keizer, a sua poção mágica. O problema é que isso acaba por o desgastar em demasia, física e emocionalmente, havendo jogos em que, mesmo sem estar mal, fica aquém do seu potencial. E quando não temos o melhor Bruno Fernandes...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel

maritimo sporting 1-1.jpg

05
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Crónica de uma derrota anunciada


Pedro Azevedo

Acabado de chegar do Estádio do Algarve, sinto que esta crónica deverá ser uma não crónica. Pelo menos, do tipo a que habituei os Leitores. Perguntar-me-ão o porquê. E eu respondo: no meu entendimento, o sentido de uma crítica deve ser ajudar a evitar algo de negativo que se antevê, de forma a que, mudando o que não está bem, os receios do seu emissor não se venham a concretizar de facto. Por isso, temendo o pior, nunca me coíbi de fundamentar aquilo que não me parecia bem, na esperança de poder despertar consciências em quem tem responsabilidades no clube. Depois de uma debacle como a sofrida esta noite, a crítica já não me parece ter um objectivo, na medida em que não poderá alterar nada e apenas servirá para expôr um determinado estado de alma, ou satisfazer uma vaidade individual. Ora, eu já disse aqui inúmeras vezes que preferirei sempre não ter razão e ela assistir ao meu clube, pelo que não será por isso que usarei este espaço usualmente satírico para achincalhar o clube da minha paixão.

 

Sejamos francos, o Sporting não perdeu esta noite devido ao sistema de 3 centrais que eu tinha antecipado aqui no "Castigo Máximo" poder ser a surpresa de Keizer. Pelo contrário, tal até baralhou o Benfica durante bastante tempo na primeira parte. O Sporting perdeu, porque o Benfica tem melhores jogadores, atletas com a qualidade-extra do meio campo para a frente que a nós nos falta (com a honrosa excepção de Bruno Fernandes). Por isso aqui tanto batalhei para que não se comprasse em quantidade e se apostasse na qualidade, nomeadamente procurando no mercado um ponta-de-lança com mobilidade, técnica para ligar o jogo da equipa e poder de concretização na área. É de jogadores com a capacidade de fazer a diferença que estamos necessitados, e por eles toda uma outra estratégia deveria ter sido implementada, apostando em jovens da nossa Academia como as tais segundas linhas para compôr o plantel em detrimento dos reforços(?) que fomos buscar ao mercado, de forma a conseguirmos manter os nossos melhores jogadores e poder acrescentar-lhes mais um elo vindo de fora que ajudasse a engrenagem a funcionar de forma mais oleada. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. 

 

Onde eu questiono Keizer é no valor relativo que vê em jogadores como Diaby em detrimento de um Matheus Pereira ou de um Jovane (esta noite indisponível por lesão), exemplo de um exponencial de situações em que a nossa Formação é deixada para trás em função da integração de elementos que ninguém percebe muito bem como despertaram o interesse do nosso Scouting. O caso do maliano é disso sintomático, na medida em que se torna insuportável para a vista observar alguém vestido de verde e branco e com o leão rampante ao peito a abusar assim tanto da canela, facto que nem para a Fábrica dos Pastéis de Belém o aconselharia. Também me interrogo como é possível não se vêr evolução em Raphinha, um promissor jogador que continua a definir muito mal as jogadas. Estas coisas não são trabalhadas? O brasileiro esteve umas vinte vezes em situação 1x1 contra defesas do Benfica e em todas decidiu com pouco critério. Ora, quando do outro lado temos um Rafa, ou um Pizzi, com uma taxa de aproveitamento desse tipo de lances muito boa, o nosso destino está lançado.

 

Uma última menção a algo que eu havia aqui dito no Sábado: a Direcção do Sporting deveria ter reagido publicamente na sequência das notícias que davam conta do pedido alegadamente formulado por Bruno Fernandes para sair. Se o tivesse feito, Bruno e o grupo teriam sido defendidos e o foco no jogo mantido. Mais, não me parece bem que na ante-véspera de um jogo de capital importância, um momento que deveria ser de total concentração, a Direcção do clube aceite encontrar-se com emissários do Tottenham, o empresário do jogador e o próprio Bruno Fernandes que é bom não esquecer ainda é o capitão da equipa. Esse assunto deveria ter sido adiado para data posterior à Supertaça, evitando-se assim um foco de tensão para o jogador, balneário, sócios e adeptos, os quais deveriam sim estar todos agregados à volta da necessidade de vencer o Benfica. 

 

Nada mais tenho a dizer numa ocasião em que a frustração é muito grande e o sentimento de impotência ainda maior. Resta-me a confiança inabalável na melhor massa associativa do mundo, a única em Portugal capaz de permanecer resiliente perante seja qual for a adversidade, e a certeza que o Sporting se irá reerguer como o enorme clube que é. Aliás, derrotas destas não me fazem ser menos sportinguista, bem pelo contrário. É nestes momentos que gosto de tirar a camisola verde e branca do armário e mostrá-la sem vergonha, com todo o orgulho numa história feita de glória. Sim, porque nunca fui pessoa de esconder a cabeça na areia como a avestruz. Em todos os momentos. Tal como o Sporting. O Sporting, não o A, o B ou o C, a razão disto tudo. Amanhã será outro dia.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Idrissa Doumbia e Thierry Correia, os únicos a merecerem nota positiva. Renan evitou números mais pesados, Wendel perdeu o gás todo contra o vento, Mathieu (grande jogador) cometeu um erro de amador, Acuña provou ainda não estar em condições físicas, Bruno esteve nervoso e decidiu anormalmente mal, dos outros é melhor nem falar.

 

P.S. Ah, e quanto à super aposta na Formação em que alguns acreditam, cumpre dizer o seguinte: no início eram 15. Depois, Iuri não foi para estágio. E lá foram caindo, um após outro, de modo que nos 18 escalados para a Supertaça estavam dois, apenas dois (Thierry e Max). Alguns desaparecidos em combate, como Abdu Conté, após ter sido encarregado da missão suicida de ter de enfrentar sistematicamente dois adversários perante a complacência do recém-recruta Vietto, outros como Matheus Pereira desterrados para zonas densamente minadas. Ou é impressão minha, ou este enredo da Formação está cada vez mais parecido com ‘Os doze indomáveis patifes’. 

29
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus - Violinos por Rabecas


Pedro Azevedo

Desloquei-me ao José Alvalade para ver o troféu que homenageia os 5 Violinos, mas em tempo de vacas magras tive de me contentar com 5 Rabecas, uma versão mais tosca e com menos padrão de qualidade que o Sporting de Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. O departamento de marketing do clube deveria fazer algo sobre isto, pois a presença em campo hoje de Borja, Vietto, Ilori, Diaby e Eduardo tem de ser vista como publicidade enganosa. Deste modo, terminámos este ciclo antes das competições oficiais sem vitórias, o que não sendo dramático nem me impedindo de sonhar em ganhar a Supertaça, transformou o antigo dirigente Carlos Barbosa num visionário. É que no seu tempo ele previu que Benfica e Porto deixariam de ser oposição para nós, passando o Real Madrid a sê-lo. Atendendo à pré-época de cada clube, dir-se-ia que o objectivo foi amplamente conseguido. Porém, não dramatizemos, o defeso é uma época de experiências e Keizer provou ser um cientista convicto disso mesmo, pelo que o importante é a equipa aparecer em campo sem equívocos no próximo Domingo.

 

Olhando para a prestação dos jogadores quando a equipa tem a bola, muitos Leitores não concordarão com o meu destaque pela negativa dado a Vietto e a Eduardo. Compreendo-o. O argentino, após uma primeira parte apagada, teve um belo passe de ruptura a isolar Raphinha na área e uma vistosa abertura a solicitar a esquerda do ataque leonino. Igualmente, o brasileiro foi capaz de transportar a bola com critério até às imediações da área valenciana nalgumas ocasiões. No entanto, a influência de ambos na dinâmica ofensiva da equipa está a anos-luz da observada pela dupla Bruno/Wendel quando joga nas suas posições naturais. E sem bola, tanto Vietto como Eduardo simplesmente não existem, e logo num sector nevrálgico do terreno onde é importante saber defender. Para além disso, como eu já previra num texto anterior, a passagem de Bruno Fernandes para a esquerda acabaria por ajudar os adversários a controlá-lo, bastando para isso não se exporem tanto no ataque quanto o Liverpool. Ora, atendendo a que a grande maioria das equipas da primeira liga praticamente só defende, circunscrever Bruno, o melhor jogador da Liga 2018/19, a uma banda é reduzir a criatividade do Sporting, auto-condicionando a nossa equipa. E para quê? Para tentar fazer caber um jogador que adivinho ser um nove e meio, mas que com 50% de certeza apenas sabemos ser um sete e meio... milhões de euros? Com tudo isto, só espero que esta passagem de Bruno pela ala não venha a ser um sinal de... ala que se faz tarde!

 

O Borja continua a fazer lembrar aquele caçador que chega ao couto e repara que se esqueceu da arma em casa, voltando para trás. Se a Assunção Esteves quisesse adaptar o (seu) "inconseguimento" ao futebol, a postura atacante do colombiano seria disso paradigmática, sendo o episódio da ida ao couto uma alegoria para o caminho até à grande-área adversária. Diz-se que é certinho defensivamente, mas até isso parece estar a mudar: se contra o Liverpool já tinha sido ultrapassado um sem número de vezes, hoje foi vencido em antecipação no lance de bola parada de que resultou o empate dos valencianos. O Ilori, atendendo ao padrão-Ilori, nem jogou mal, desconhecendo-se ainda a esta hora o que isso significa. Às tantas lá mandou uma biqueirada que supostamente pretendia ser um passe para Thierry Correia, uma paragem cerebral menor face aos AVCs a que estamos habituados. Quanto ao Diaby, mostrou a trapalhice que era suposto só muitos treinos ajudarem a desenvolver, sinal que a preparação está a correr bem e decorre a ritmo acelerado.

 

No meio de tanta experiência, os destaques pela positiva foram Doumbia, Thierry Correia e Renan. Foi tão estranho ver Renan defender um penálti quanto o foi o marfinense fazer esquecer Gudelj, ou o português não oferecer nenhum golo ao adversário e ainda salvar alguns. Ausência notada foi a de Jovane, mas a presença de Diaby está a cortar-lhe as pernas desde o primeiro dia, impedindo-o assim certamente de usar a canela da mesma forma que o maliano. Riscados parecem ter ficado definitivamente Matheus Pereira e Gelson Dala. O brasileiro presumivelmente devido à hiper-inflacção de alas, o angolano porque está bom de ver que o sistema de jogo de Keizer não contempla um avançado que saiba ligar o jogo com a restante equipa, razão pela qual, mais do que um CAN, teria precisado de um CAN-CAN para se mostrar aos olhos dos adeptos. 

 

Saúde-se o regresso de Dost aos golos (grande golo!), numa altura em que o Felipe das Consoantes ainda está a digerir o piano que comeu nas férias, o que a julgar pela sua movimentação em campo terá sido mais um Steinway do que um churrasquinho de porco. 

 

Para finalizar, uma palavra de louvor à aposta na Formação, consubstanciada na magnanimidade de todos uns cinco minutos que foram concedidos a Daniel Bragança, Eduardo Quaresma e Miguel Luís. Adicionalmente, Thierry parece ter agarrado o lugar, após ter sobrevivido a um teste de fogo, na lateral oposta, contra o campeão europeu.

 

Não se iludam os amigos benfiquistas. Todo esta pré-época leonina consiste num plano maquiavelicamente urdido e exemplarmente implementado para os enganar. Dia 4, no Algarve, é que vão ver como elas vos doem! Sporting!

 

P.S. 5 jogos, 0 vitórias, 2 derrotas e 3 empates, 10 golos sofridos (2 em cada jogo) e 8 golos marcados, com Bruno (4 golos, 3 assistências e 1 passe para Raphinha que deu o golo hoje) a estar em todos os golos obtidos pelos leões.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Idrissa Doumbia

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25
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus - Os deuses devem estar loucos


Pedro Azevedo

O Sporting via nesta digressão aos "states" uma oportunidade de divulgar a marca. Mas começou logo por não divulgar a sua marcha, já que depois do "Star-Spangled Banner" (hino nacional americano) e do "You will never walk alone" terem tocado na instalação sonora, o CD com a canção da Maria José Valério não saiu da gaveta. Nem mesmo o mais recente hino entoou no estádio... Enfim, ficámos a perceber que o mundo não sabe que... (Por falar em oportunidades, costuma dizer-se que não há uma 2ª oportunidade para causar uma 1ª boa impressão. Tal é verdadeiro, a não ser que se chame Vietto. Nesse caso haverá uma terceira, quarta...)

 

Os leões entraram em campo com um equipamento alternativo, o que é sempre uma boa forma de mostrar ao mundo a sua marca, ou melhor, a sua Macron. O guarda-redes do Liverpool também quis deixar a sua marca e serviu um frango que nos soube a Fillet Mignolet. Tanta desconversa sobre o nosso Renan (o Salvador) e afinal, depois de Karius, o campeão da europa volta a mostrar não ter ninguém minimamente à altura de substituir o bom do Alisson, também ele brasileiro por acaso. O Sporting assim adiantava-se no marcador, golo de Bruno Fernandes (who else?).

 

Na tentativa desesperada de encaixar Vietto na equipa, Keizer mandou Bruno Fernandes para a esquerda, provavelmente a fim de evitar ter de ceder também Borja ao Moreirense. Renan provava porque é o titular das balizas, defendendo tudo menos uma recarga de Origi, o único sobrevivente da linha avançada ma-fi-o-sa (Mané, Firmino e Salah ainda não regressaram) do Liverpool. Entretanto, Bruno Fernandes voltava a assustar os de merseyside: primeiro, serviu Luíz Phellype, mas o peso das consoantes do brasileiro evitou que recepcionasse a bola à frente do guarda-redes; depois, um alívio de um cruzamento seu encontrou Wendel e o poste; finalmente, ofereceu um golo cantado a Ilori, mas este mostrou ter mau ouvido (o menor dos seus problemas). Diga-se de passagem que os laterais leoninos estavam a ser os piores em campo, com Borja permanentemente ultrapassado na esquerda e Ilori a solicitar demasiadas vezes o apoio dos bombeiros voluntários do socorro, tendo Bruno, numa das ocasiões, acorrido como 112 (só lhe falta substituir Renan). Até que, num minuto, algumas coisas que aqui vamos perorando se materializaram: Vietto, por duas vezes, mostrou não ser um finalizador; Ilori teve mais um AVC, e os "reds" adiantavam-se no marcador em cima do intervalo.

 

Na reatamento, Thierry Correia substituiu Borja na esquerda. Apesar de não ser a sua posição natural, a verdade é que o lateral leonino logo se destacou com um vistoso passe de trivela (para disfarçar não ter pé esquerdo) a isolar Wendel na esquerda. Logo de seguida, de um outro passe seu para Wendel se iniciou uma triangulação que também envolveu Bruno Fernandes, seguida de uma devolução do maiato ao brasileiro da qual resultaria o golo do empate (e que golo, lindo!). E ainda foi arrancar posteriormente um cruzamento venenoso para a área! O Sporting trocava bem a bola, com mudanças de posição entre jogadores e Doumbia muito atento sempre a compensar perdas de bola e a dobrar os defesas em caso de necessidade. Mas com o tempo, o jogo acabou por ir perdendo qualidade, essencialmente porque não foi possível acompanhar o ritmo elevado a que se jogou a primeira parte e, também, devido à quebra do ritmo de jogo provocada pelas inúmeras substituições operadas por ambos os treinadores. Mas ainda houve oportunidade para Thierry voltar a brilhar em missão defensiva, agora à direita, e para os miúdos Nuno Mendes e Quaresma confirmarem que têm nervo e qualidade. 

 

Ao quarto jogo da pré-época, o Sporting realizou a sua melhor exibição. A equipa continua a crescer, com Renan a oferecer segurança, Mathieu (sempre no sítio certo) a confirmar-se como patrão e Wendel (muito bom jogo) e Bruno Fernandes a serem indispensáveis à manobra colectiva. Estes 4 têm sido a espinha dorsal da equipa, a qual bem se deveria poupar a sustos provocados por equívocos como a colocação de Ilori à direita (ou em qualquer lugar fora da bancada), ou a tentativa de fazer de Vietto um organizador de jogo, seja a partir da ala ou do meio, ele que é um segundo avançado. (Ou como um sonho de Varandas ameaça dar pesadelos a Keizer.)

 

O Sporting continua a sofrer golos aos pares. Dois de cada vez, oito em 4 jogos. Em sentido contrário, já marcámos em sete ocasiões, tendo Bruno Fernandes feito 4 golos e eferecido outros 3. Mais palavras para quê? Mais do que hiper-inflacção de alas, o nosso mal é a hiper-dependência do maiato. Os reforços (desde Janeiro) pouco se vão vendo, com excepção de Doumbia, que confirmou as boas indicações do ano passado. O marfinense, tal como Luíz Phellype (este ainda a precisar de mais treinos), dada a sua massa corporal é um jogador que precisa de estar muito bem fisicamente para ter rendimento.

 

No Sporting, pensamos sempre que estamos a ser injustos com as primeiras impressões que alguns reforços nos deixam. A prudência leva-nos a contemporizar, transigir, condescender, 90 minutos após 90 minutos, até ao dia em que a realidade choca de frente connosco e temos de nos ver livres deles. Mas como a natureza tem horror ao vazio, e a bilis precisa de actuar, sentimo-nos no direito de ser taxativos com a nossa Formação. Com eles, decretamos: não prestam. Nem que para isso nos bastem 10 minutos de observação. E parece que toda a gente queda satisfeita assim, ficando amplamente justificado o investimento em quem vem do exterior. (Ainda me lembro das caixas de comentários quando eu escrevia que o Alan Ruiz jogava de saltos altos.) Claro que quando os nossos jogadores vão lá para fora, percebemos que outros povos pensam de uma outra forma. Por isso, os Renato Sanches e os João Mário jogam menos tempo, pois o que interessa é o rendimento demonstrado em campo. Também é certo que quando olhamos para as nossas contas sentimos que algo está errado... Como não gosto da nossa abordagem, e penso que deve existir, isso sim, uma maior exigência com quem vem de fora (porque tem um custo de aquisição e tem de provar ser melhor do que os que formamos), considero da mais elementar justiça destacar aqui a exibição de Thierry Correia, que teve um duplo lançamento de fogo, contra o campeão europeu e a jogar a maior parte do tempo fora da sua posição, e mesmo assim deu boa conta do recado, deixando muito boa gente a pensar no racional do investimento de 7,5 milhões de euros (€5 milhões+ Mama Baldé) em Rosier. (Para não falar no dinheiro investido noutros jogadores, numa altura em que continuamos a não colocar os excedentários que pesam mais na conta de exploração e todos os recursos deveriam ter sido canalizados para tentar segurar Bruno Fernandes e, se possível, na aquisição de um ponta de lança com maior mobilidade fora da área que os actuais e igual eficácia dentro dela.) 

 

Para finalizar, há que dar o mérito ao plano de jogo de Keizer, pela forma como fomos conseguindo tirar a bola da zona de pressão, evitando assim as cargas inglesas, e mudando de flanco para os desorganizar. É que não é todos os dias que nos batemos de igual para igual com um campeão europeu, pese embora o luxo que é ter um Bruno Fernandes. Lamento, no entanto, que o treinador holandês seja sempre tão renitente em dar oportunidades reais aos jovens da nossa Academia, como hoje mais uma vez se provou com a teimosia de aposta em Ilori para lateral direito. Já chega de justificar uma contratação. Não correu bem, ponto. Final. (Espero que Vietto ainda venha a provar a sua utilidade, pois não estou a ver Keizer tirá-lo da equipa.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes

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19
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus - Juventude inquieta


Pedro Azevedo

A pré-época é pródiga em experiências. Essas experiências normalmente transmitem sinais. Se temos um lateral direito de raíz no banco (Thierry) e adaptamos um central (Ilori) à posição, então não é preciso ser-se o (Detective) Correia para compreender o que se irá passar no futuro. 

 

A primeira parte foi muito má. Na ala, Vietto não desequilibrou nada à frente e também não equilibrou atrás, pelo que a continuar assim promete só fazer a diferença nas contas. Sobrou para Abdu Conté, que muitas vezes apanhou com 2 adversários pela frente, um dos quais um diabrete com nome de Dennis (o Pimentinha?) e enganador apelido de Bonaventura. A custo, Neto e Mathieu lá foram colando os cacos, contando também com a falta de pontaria dos avançados do Brugge. Numa jogada de insistência, os belgas adiantaram-se no marcador, com um jogador deixado completamente solto na área, por a defesa dos leões o ter tentado pôr em fora de jogo esquecendo-se que Abdu Conté tinha ficado para trás na tentativa de um corte de carrinho. Em cima do intervalo, e contra a corrente do jogo, de mais uma combinação entre Bruno Fernandes e Raphinha resultou novo golo leonino nesta pré-época, o terceiro com a assinatura exclusiva desta parceria. 

 

Para o segundo tempo, Vietto e Dost ficaram de fora. O argentino, que passou a primeira parte toda a sobrevirar para a direita (procurando o centro do terreno, sua posição natural, ele que é um segundo ponta de lança e portanto nunca recuará para pegar na bola onde Bruno Fernandes muitas vezes inicia a contrução), recebeu ordem para sobrevirar para a esquerda, que é como quem diz para sair do campo, porventura tornando-se assim mais útil à equipa. Entraram Jovane e o Felipe das Consoantes. Ter um ala que vai para cima deles (defesas) faz sempre alguma diferença, e o miúdo começou logo a dar nas vistas: primeiro, serviu Luíz Phellype para um remate venenoso, depois marcou o segundo dos leões. Na origem da jogada estiveram mais uma vez Raphinha e Bruno Fernandes (assistência). O cabo-verdiano deverá, no entanto, refrear os ânimos quando na sua área, evitando assim penalidades escusadas como a que resultou no golo do empate dos belgas. Renan mostrou mais uma vez porque não merece ser um patinho feio, pese embora Max seja muito promissor. O brasileiro salvou por duas vezes na mesma jogada o golo dos belgas. À terceira, Ilori mandou para canto. A partir daí massificaram-se as substituições. Bruno ainda teve um remate que quase ia dando golo e depois ficaram quase só miúdos em campo. E a verdade é que se mostraram mais à altura do que muitos dos reforços, em especial o Daniel Bragança, hoje a jogar como médio de ataque e a dar sempre ritmo ao jogo, o Nuno Mendes, que mostrou segurança, e o Plata, desta vez menos trapalhão e a libertar a bola na altura certa. Tempo ainda para Luíz Phellype encenar a fábula da lebre e da tartaruga. desta vez com uma conclusão bem mais lógica. (O brasileiro é daqueles jogadores que não estando em forma física é um a menos quando o Sporting tem a bola.)

 

Ao terceiro jogo da pré-época a sensação que fica é que estamos no mesmo patamar do fim da época passada. Não se consegue neste momento determinar se os reforços justificam o nome, para além de Neto (provável suplente de Coates e Mathieu) que promete vir a ser útil (Eduardo tem potencial, mas ainda é cedo para perceber até onde pode chegar). Os outros não tem feito a diferença, não havendo ninguém que se perspective um titular indiscutível. Em sentido contrário, Jovane mostrou que se tem de apostar mais nele, não só pelo que fez no ataque mas também pela cobertura que deu a Abdu Conté e que não existiu no primeiro tempo, e Daniel Bragança deixou água na boca, ficando à espera de o ver jogar com Wendel e Bruno Fernandes. Doumbia esteve mais solto e Eduardo Quaresma, que está connosco há oito anos, continua a deslumbrar pela personalidade que demonstra jogo após jogo, tendo hoje mostrado estar completamente à vontade contra uma equipa formada por jogadores experientes e de bom nível. O que parece óbvio é que nos falta um ponta de lança que tenha mobilidade e simultaneamente seja decisivo na área. Uma pecha não colmatada desde a saída de Slimani, embora um jogador com um pouco de mais tecnica, que combinasse melhor com a equipa, na linha de um Liedson, igualmente capaz de pressionar a saída de bola adversária, fosse uma grande contratação. O problema é que essa deveria ter sido uma prioridade antes da contratação dos 5 jogadores do Mercado de Verão.

 

Para terminar, nos desequilíbrios atacantes a equipa parece totalmente dependente de Bruno Fernandes e de Raphinha: tendo o Sporting até agora marcado 5 golos nestes 3 jogos, Bruno marcou 3 e produziu duas assistências; já Raphinha participou até agora em 4 golos. Como tal, não é preciso ser "Brugge" (nem Ristovski) para adivinhar o que seria esta equipa sem o Bruno. 

 

P.S. Os meus sentimentos pelo falecimento do nosso antigo treinador Robert Waseige, por quem hoje foi respeitado um minuto de silêncio antes do início do jogo. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes

brugge.jpg

14
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus(2) - Notas musicais


Pedro Azevedo

Inspirado em Fernando Santos, Keizer tentou a sua sorte ao mudar vários jogadores da sua posição natural. Esqueceu-se que está no clube onde já tudo foi tentado e inventado, e em que a Teoria do Caos iniciada no accionamento dos flaps de um avião numa viagem Salzburg/Lisboa teve como consequência a demissão de um grande treinador, a fatalidade que deixou paraplégico um dos nossos mais promissores jogadores e a perda do campeonato. Ainda assim, após Eduardo Quaresma ter actuado como lateral direito no primeiro jogo, coube agora a vez a Tiago Ilori, e Vietto e Matheus Pereira mantiveram-se a jogar em posições trocadas. Eis a análise individual aos leões:

 

Renan - Dia propício à utilização de adágios populares, com "cada tiro, cada melro" a rivalizar com "cada cavadela, cada minhoca".Trocando por miúdos, dois remates à baliza, dois tiros indefensáveis, dois golos. Há dias assim.

Nota: Mi

 

Luis Maximiano - No mesmo lance, primeiro foi capaz de identificar transferências e transformações de energia no movimento vertical de queda e ressalto da bola, depois, através da recta de regressão, soube calcular em fracções de segundo a altura do ressalto e o ponto óptimo de conexão com a bola. Não sei como será a sua carreira no Sporting, mas não tenho dúvidas sobre o seu futuro na física. Piada de Verão, de praia a pedir um gelado fresquinho: no meio de um ou outro perna-de-pau e de um Cornetto, ou Vietto, ou lá o que é, ele foi um Super Max. 

Nota: Si

 

Tiago Ilori - No centro ou na direita da defesa, o seu rendimento é sempre constante. Quer dizer, constantemente mau, bem entendido. 

Nota:

 

Thierry Correia - Se a invencibilidade está na defesa, a possibilidade de vitória está no ataque. Para já tem-se defendido bem dos ataques. Mais ousadia na frente e poderá ficar indefeso face ao... elogio. 

Nota: Sol

 

Neto - Santos da casa não fazem milagres e assim Neto safou-se por não haver VAR em St Gallen.

Nota:

 

Mathieu - Depois da sua, e da dos seus dois filhos, o francês vive agora a sua terceira infância ao lado do Neto. Está para durar.  

Nota:

 

Eduardo Quaresma - Quaresma implica alguns sacrifícios, tais como os suiços deixarem de marcar golos com ele em campo.

Nota:

 

Abdu Conté - Conté(m) com ele...

Nota:

 

Nuno Mendes - De que adianta ter o jovem perfeito, se quem nos agrada é aquele que não é bom (Borja)?

Nota: Sol

 

Eduardo - Na melhor nódoa caiu o pano do primeiro tempo. E com ele, o primeiro golo dos suiços.

Nota: Mi

 

Doumbia - À beira de um ataque de nervos. Já que estamos na Suiça, um jogo contra o Neuchatel Xanax poderia ajudar a acalmá-lo. 

Nota: Mi

 

Wendel - E se de repente um "desconhecido" (irreconhecível em campo até aí) lhe oferecer "flores" (sob a forma de um grande golo), isso é impulso de um bom jogador na calha para o estrelato.

Nota: Sol

 

Miguel Luís - A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as garras de um leão ou, no caso, actual, de um gatinho. 

Nota: Mi(au)

 

Bruno Fernandes - Como dizia Cassius Clay, um campeão é feito de um desejo, um sonho, uma visão. E depois, de talento, claro. Bruno Fernandes é um campeão!

Nota:

 

Matheus Pereira - Às vezes interrogo-me se quer ficar. Voltou a insistir naquele jogo de cabine telefónica que tem marcado este seu reencontro com os leões. 

Nota: Mi

 

Raphinha - Voltou a estar envolvido num lance de golo. Participativo.

Nota: Sol

 

Camacho - Discreto, passou ao lado do jogo.

Nota: Mi

 

Vietto - Não vi "etto"... Com Matheus Pereira isolado na direita, insistiu no drible e perdeu a bola... 

Nota: Mi

 

Plata - Os alas que nos agarram ao jogo seguram a bola como se tivessem uma tenaz. Não é o caso do equatoriano. A diferença entre ser tenaz ou ter tenaz.

Nota: Mi

 

Luíz Phellype - Mais em jogo que na partida anterior, ainda não é o Felipe das Consoantes a que nos habituou. À procura da melhor condição física.

Nota:

 

Bas Dost - "Cheguei, vi e não venci". Pouca bola.

Nota: Mi

 

11
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus(1) - Notas musicais


Pedro Azevedo

De Dó Menor a Dó Maior:

 

Renan - À sombra (sempre entre os postes), nem precisou de protector solar.

Nota:

 

Max - Saiu queimado pelos infra-vermelhos (3º escalão) suiços.

Nota: Mi

 

Thierry Correia - Deu para ver que a marcha-atrás engrena bem, faltou observar como entram a quarta e quinta mudanças. Sendo o seu forte a Correia de transmissão, novos testes o aguardam a nível de embreagem e caixa de velocidades.

Nota: Sol

 

Eduardo Quaresma - A somar ao primeiro jogo pela equipa principal ainda o puseram a jogar fora da sua posição natural (central). Não se faz. Bem sei que o seu apelido é Quaresma, mas talvez não lhe devesse ter sido pedido tal sacrifício. Ainda assim, mostrou forte personalidade. Não é um prodígio de técnica, mas não se esconde do jogo e tenta adaptar-se da melhor forma às circunstâncias, algo que me leva a pensar que um dia chegará longe.

Nota: Mi

 

Neto - Delegado da segurança no trabalho, com a sua acção preveniu fogos e acidentes pessoais. Deu-lhe muito jeito ter ali ao lado o avô Mathieu para o ajudar...

Nota: Sol

 

Mathieu - O Ministro da Defesa foi imperial. Como (quase) sempre, diga-se.

Nota: Sol

 

Ilori - O buraco no ozono leonino por onde passaram os raios infra-vermelhos que atormentaram Max.

Nota: Ré(u)

 

Ivanildo - Estava ele a parar para provocar o fora de jogo quando Ilori também parou... o cérebro, um tipo de sincronia psicomotora que deve ter causado irritação a Keizer. Jogo ingrato.

Nota: Mi

 

Nuno Mendes - Sentiu dificuldades de posicionamento iniciais típicas de um miúdo de 17 anos, mas foi crescendo ao longo do jogo. 

Nota:

 

Abdu Conté - Parece menos arranca-e-pára que Borja.

Nota: Sol

 

Doumbia - Não deixou os suiços pôr o pé em ramo verde e mostrou critério na saída de bola.

Nota: Sol

 

Eduardo - A ele aplica-se na perfeição aquela música do António Variações do "só estou bem aonde não estou, só quero ir aonde não vou...". Foi um "6" a piscar o olho ao "8", acabando por não se dar bem com essas variações. Voltando a citar o cantor, vai continuar a procurar a sua forma e o seu lugar...

Nota: Mi

 

Wendel - O elo mais fraco na primeira parte. Refilão e desconcentrado, pode render muito mais.

Nota: Mi

 

Miguel Luís - Passou ao lado do jogo.

Nota: Mi

 

Bruno Fernandes - A revolta do fado leonino. Profissional a 100%, dá sempre o máximo que a condição física permite em cada momento. Apesar da carga de treinos, deixou no campo o perfume do seu futebol. O melhor em campo.

Nota:

 

Matheus Pereira - Fora da sua posição natural, tabelou até à exaustão, mas invariavelmente encontrou uma parede à sua frente. Numa das raras excepções isolou Luiz Phellype, mas o ex-pacense não estava nos seus dias.

Nota:

 

Raphinha - É capaz de pescar um robalo de 10Kg e depois devolvê-lo ao mar. Falta-lhe mais propósito no seu jogo, pois a qualidade está lá.

Nota: Sol

 

Vietto - Sentiu algumas dificuldades em se adaptar à ala esquerda, revelando um comportamento sobrevirador para a sua direita, permanentemente procurando espaços interiores. Um bom remate por cima da barra.

Nota:

 

Plata - Muito inventivo no 1x1, mostrou uma boa gama de fintas. Numa diagonal a jeito do seu pé esquerdo acertou na barra da baliza suiça. Muitas dificuldades nas combinações com os colegas, a revelar que tem muito trabalho técnico/táctico pela frente. Mas a qualidade está lá. Em bruto (habilidade).

Nota: Sol

 

Camacho - Pouco se viu na ala esquerda, talvez por estar mais habituado ao lado direito. Foi pouco influente e não desequilibrou, embora tácticamente e na compreensão do jogo se tivesse revelado mais maduro que Plata.

Nota: Mi

 

Bas Dost - Acertou no poste logo aos 9 minutos, mas mostrou estar longe da sua melhor condição física. Apesar disso, procurou combinar com os seus companheiros.

Nota:

 

Luiz Phellype - Um dos piores jogos que lhe vi fazer. Lento a reagir, perdeu uma boa oportunidade após assistência de Matheus Pereira.

Nota: Mi

10
Jul19

Tudo ao molho e fé em Deus - Entrada de cordeiro


Pedro Azevedo

O Sporting estreou-se contra o Rapperswil, a melhor equipa... do Lago Oberer, e "meteu água". Pertencente ao terceiro escalão suiço, o Rapperswil, treinado pelo português Pedro da Silva, não incomodou na primeira parte, período em que o Sporting actuou com o teóricamente melhor "onze" entre os jogadores que estão em estágio. Com Bruno Fernandes a jogar na sua posição habitual do 4-3-3, Luciano Vietto foi desviado para a esquerda (eu já tinha antecipado que isto iria acontecer), adicionando mais um elemento à hiper-inflacção de alas (8) - parece que ainda queremos mais um, para além de Jovane, Diaby e Acuña (espero que seja lateral) que não actuaram hoje - do plantel leonino. Ainda assim, o primeiro tempo foi agradável, com Doumbia a dar saída de bola com critério e rapidez, Thierry Correia (seria necessário Rosier?) a destacar-se pela velocidade na recuperação, Neto e Mathieu a oferecerem segurança, Raphinha a causar perigo em diagonais e Bruno a fazer a diferença no passe de ruptura. Assim, após uma primeira oportunidade desperdiçada por Dost (remate ao poste), o melhor jogador da Liga 2018/19 facturou de penálti. Raphinha e o próprio Bruno tiveram acção preponderante nos dois lances. Até ao intervalo, o Sporting continuou a dominar, ficando a dever a si próprio dois golos que estiveram nos pés de Raphinha.

 

Para a etapa complementar, Keizer rodou os 11 jogadores. Os sintomas de hiper-inflacção de alas foram evidentes quando Matheus Pereira foi desviado para o meio, tal a abundância nos extremos. Plata foi para a ala direita e Camacho para a esquerda. Diga-se que o equatoriano esteve bem melhor do que o ex-Liverpool no 1x1, embora tenha denotado muitas dificuldades em combinar com a restante equipa. Como sabemos da economia, quando se continua a fazer compras como se tivessemos uma rotativa de impressão de moeda (não há dinheiro), fomenta-se a hiper-inflação. Associada a ela, acontece a recessão e concomitante desvalorização dos activos com risco. O activo(?) Ilori chegou-se logo à frente, aprestando-se a confirmar a teoria em dois lances decisivos que deram a vitória aos helvéticos, mostrando que o valor pago pela sua aquisição dificilmente será recuperado. À frente da defesa, Eduardo foi demasiado macio, nomeadamente no primeiro golo dos suiços onde o médio portador da bola teve todo o tempo do mundo para solicitar o seu avançado. Talvez não fosse mal pensado deslocar o brasileiro para a posição "8", onde me parece que Miguel Luis está sem confiança e Wendel pode dar mais. O problema é que "oitos" há muitos, mas o melhor é Bruno Fernandes, o qual é absolutamente necessário como "10" (agora que já não há Geraldes), a não ser que Keizer o faça recuar e ponha Vietto a jogar na posição no terreno condizente com o número da sua camisola, solução que não me parece plausível em muitos jogos. Portanto, este primeiro ensaio mostrou-nos que temos quantidade de sobra em várias posições, mas também continua a faltar aquela qualidade que faça a diferença, mesmo jogando contra uma equipa de terceira linha.   

 

Pese os desequilíbrios evidentes no plantel, uma equipa começa a desenhar-se de trás para a frente. Com a integração de Coates e de Acuña, a categoria de Mathieu e o reforço de Neto não me parece que tenhamos problemas por aí. Mas a maioria dos jogos em Portugal ganham-se com jogadores que façam a diferença do meio campo para a frente. É certo que é muito cedo para tirar conclusões definitivas, mas temo que sem Bruno esta equipa vá perder ainda mais qualidade. Nesse sentido, com ou sem ele, sacrificaria muitos alas e médios defensivos do plantel - Matheus Nunes, bom jogador contratado em Janeiro, nem convocado para o estágio foi, e ainda há Battaglia e Bragança, para além dos utilizados Doumbia e Eduardo - por um ponta de lança, que pudesse simultaneamente ser decisivo na área e ter mobilidade, e um "oito" com mais golo e chegada à área que Wendel. É que há uma outra regra de economia que nos diz que os recursos são escassos. Como tal, deverão ser utilizados (aplicados) de uma forma eficiente.  

 

Tenor "Tudo ao molho": Bruno Fernandes

 

P.S. Desde Janeiro, o Sporting contratou 1 defesa direito, 2 centrais, 1 defesa esquerdo, 3 médios defensivos, 1 ponta de lança e 3 alas. Para as posições "8" e "10" não contratámos ninguém (Vietto será um "mezzapunta" e não um "10", e jogará numa ala se Bruno ficar).

P.S.2 Vem o Eduardo, que desvaloriza o Doumbia, que por sua vez desvaloriza o Matheus Nunes (últimas 3 contratações para a posição), que desvaloriza o Bragança. Quando voltar, o Battaglia desvaloriza todos os outros. Nas alas é ainda pior: o Vietto, recambiado para lá e fora da sua posição natural, desvaloriza o Camacho, que por sua vez desvaloriza o Plata (últimas contratações), que desvaloriza quem já lá estava (Jovane). E ainda há o Raphinha, o Diaby e o Matheus Pereira. Para não falar do Acuña, que o melhor que tem a fazer é recuar para lateral esquerdo a fim de que o Borja não desvalorize... a equipa. 

P.S.3 Se Bruno ficar, é possível que Keizer seja tentado a jogar num 3-5-2, de forma a tentar compatibilizar Bruno com Vietto. Imaginem uma equipa com Renan; Coates, Mathieu, Neto(Borja); Ristovski, Doumbia, Wendel, Bruno e Acuña; Vietto e Dost. Nesse cenário, não haveria lugar para qualquer um dos alas. Quantos temos? 

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10
Jun19

Tudo ao molho e fé em Deus - Dia de Portugal antecipado


Pedro Azevedo

A Selecção Nacional foi a jogo na véspera do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (e também do Sport Lisboa, mas este comemora-se durante todo o ano neste país) e acabámos todos a celebrar em antecipação. Em Dia de Pentecostes, o Espírito Santo parece ter iluminado todos os intervenientes: os jogadores foram uns "heróis do mar" e levantaram de novo o esplendor de Portugal; Fernando Santos, humilde, soube dar asas à epopeia lusa, trocando o caos, que a introdução de Felix gerara no jogo anterior, pela organização colectiva; os adeptos presentes no estádio, incansáveis, foram a voz de todos os portugueses espalhados pelo mundo. 

 

Liberto do tabu da utilização de Felix, Fernando Santos foi a jogo num 4-3-3. No meio-campo, Danilo era o homem mais recuado, William um "box-to-box" e Bruno Fernandes o "10". No entanto, esta geometria era variável, aparecendo algumas vezes William (meia esquerda) a par de Bruno Fernandes (meia direita), formando-se assim um triângulo de cariz mais ofensivo. Na frente, Guedes entrou para a ala esquerda, formando o trio de ataque com Ronaldo (centro) e Bernardo (ala direita). Na segunda parte, a táctica foi subtilmente alterada: voltou o losango, agora com William como homem mais adiantado a pressionar a saída de bola holandesa, recuando Guedes para a meia esquerda e derivando Bruno Fernandes para a meia direita, mantendo-se Danilo atrás. Na frente, Bernardo aproximava-se de Ronaldo pela direita. 

 

A táctica revelava uma ideia chave: o condicionamento do jogo holandês, selecção que aparecia em grande forma após ter eliminado sucessivamente a Alemanha, a França e a Inglaterra. Portugal jogaria nos intervalos de não deixar jogar a Holanda. Ter mais ou menos bola dependeria da eficácia da nossa pressão sobre Frankie de Jong, o homem que fazia a ligação do jogo holandês. William tomou a si a missão, com a mesma determinação com que os generais Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros haviam impedido a passagem das tropas da República das Sete Províncias Unidas no Morro dos Guararapes durante a Guerra Luso-Holandesa. E a verdade é que resultou, conseguindo Portugal estancar o sumo de uma Laranja Mecânica para o efeito transformada num limão espremido à mão. Sem bola, a dinâmica de movimento holandês tornou-se enócua, sem sentido ou propósito. Se durante o primeiro tempo Portugal ameaçara por Bruno Fernandes (o luso mais rematador), no segundo viria a conseguir o tão desejado golo à hora de jogo, na sequência de uma bela combinação entre Guedes e Bernardo, brilhantemente concluída pelo primeiro. Em desespero e sem mecânica, à Holanda restou-lhe recorrer à aeronáutica, procurando o jogo directo para a cabeça de Luuk de Jong, ponta de lança lançado para o efeito por Ronald Koeman. Sabendo sofrer, Portugal contou então com um Ruben Dias que foi descascando laranjas umas atrás das outras e um Rui Patrício muito atento a apanhar as cascas, não permitindo aos holandeses reentrar no jogo e vencendo assim a primeira edição da Liga das Nações, a segunda importante conquista internacional do futebol português a nível de selecções seniores. 

 

Em modo de balanço final, sendo certo que Ronaldo nos salvou de uma eliminação anunciada nas semi-finais, desta vez Fernando Santos foi capaz de dar a Ronaldo aquilo que Allegri não conseguiu na Juventus: a eliminação dos pontos fortes do jogo holandês. E, juntos, já somam dois titulos inéditos por Portugal. Uma vez mais, com o importante contributo de jogadores made-in Sporting. Se em Saint-Dennis haviam sido 10, agora foram 5. Sem esquecer Bruno Fernandes, claro.

 

Agora, há que aproveitar e festejar o dia, até porque nos outros 364 festejam os holandeses. É só comparar o salário médio de cada país, a taxa marginal de IRS ou o imposto sobre os lucros das empresas. Mas, isso, os nossos governantes não se apressam a comentar em jeito de uma "flash-interview" ...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bernardo Silva. Na equipa portuguesa, Bernardo, William e Ruben Dias foram os melhores, mas toda a equipa (o suplente Rafa incluído) esteve em bom plano e cumpriu na perfeição o plano de jogo. 

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05
Jun19

Tudo ao molho e fé em Deus - Ronaldo é como a Fénix!


Pedro Azevedo

Fénix, ok? Fénix, não Félix... 

 

Quando o país soube que Cristiano Ronaldo se tinha juntado à equipa de João Félix, outrora designada por "Equipa de todos nós", logo se levantaram dúvidas se estaria à altura de tão grande responsabilidade. Para complicar ainda mais a coisa, o engenheiro deu uma de Paulo Bento e montou um meio-campo em losango que basicamente consistia em ter quase todos os jogadores fora da sua posição natural, pelo que todas as fichas estavam apostadas no imponente físico de Félix, a emparelhar na frente com Ronaldo, assim a jeito de uma alegoria da caserna (cartilhada) transformada numa hipérbole. 

 

Jogando Ruben Neves mais recuado, William foi desviado para a meia esquerda, Bruno Fernandes para a meia direita e Bernardo para o vértice mais ofensivo, táctica que ainda teve o senão de deixar Félix inoperante, sem espaço para recuar e receber a bola de frente para a baliza, o que teria sido possível se Portugal tem optado, por exemplo, por um 4-4-2 clássico. Mas, se a selecção não fosse a Turma do Félix, com Ronaldo no eixo do ataque, Guedes poderia ter entrado de início para a esquerda, Bernardo teria actuado pela direita, Bruno Fernandes seria o "10" e Neves e William jogariam mais atrás, num 4-3-3 provavelmente ideal para as características dos atletas que temos.

 

Assim, a coisa foi sofrível e só salva pelo irrequietismo de Bernardo e o génio daquele senhor (Cristiano) que veio visitar a Turma do Félix e a fez renascer como a fénix. Mas aí Bruno Fernandes ainda não se juntara a Félix... no banco de suplentes.

 

Na primeira parte, Ronaldo inaugurou o marcador com um "tomahawk", pôs um helvético a rodar a 45 rotações por minuto (ou não fosse a suiça Thorens uma referência mundial em gira-discos) e assistiu Félix para uma oportunidade perdida. Na etapa complementar, começou por tocar para Bernardo no lance da penalidade a favor que se transformou numa penalidade contra, ironia mais própria de um VAR aberto a altas horas da madrugada e que devolveu ao marcador uma expressão mais consentânea com a famosa neutralidade helvética. De seguida, servido por Bernardo, rematou raso e sem possibilidade de defesa. Por fim, a cereja em cima do bolo: bola recuperada no eixo central por Bruno, passe deste para Guedes, solicitação para Ronaldo na meia esquerda e grande jogada individual do madeirense, com uma chicuelina que tirou dois adversários da frente e abriu um buraco digno de um queijo suiço. Emmental, meu caro Watson(!), Ronaldo é o melhor jogador do mundo. Infelizmente, parece que é só o segundo melhor jogador português...

 

P.S. Para além de Ronaldo e de Bernardo, gostei de Ruben Dias. William e Bruno Fernandes, apesar de jogarem fora da sua posição natural, estiveram bem a espaços. Guedes entrou muito bem, dando outra dinâmica ao ataque. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Cristiano Ronaldo (hat-trick, 88 golos na Selecção)

 

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26
Mai19

Tudo ao molho e fé em Deus - Gente feliz com lágrimas


Pedro Azevedo

No Jamor, o pré-jogo é tão ou mais importante do que o próprio jogo. Desde o meio-dia reunidos à volta da mesa, os convivas começam por atacar umas entraditas, assim a jeito de quem vai ao relvado fazer um aquecimento. Seguem-se umas gambitas, como quem estuda o adversário e esconde algumas energias para a batalha decisiva que far-se-á mais lá para a frente. Quando chega o leitão, a coisa fica mais séria, o confronto endurece e as armas estão todas presentes em cima da mesa. As pernas começam a fraquejar e a hidratação torna-se fundamental. Produz-se o oximoro: a mini maximiza a resistência ao calor. Vencido este jogo de parábolas, os convivas vão então ao verdadeiro jogo. E que jogo!

 

Anos e anos de desilusões tornaram o sportinguista prudente. Se o resultado é sempre incerto, o sofrimento é mais do que certo. Penso até que, futuramente, o kit para novos sócios deveria incluir um desfibrilador. (Just in case...) Nesse espírito, como quem tenta conter a projecção da felicidade, lá rumámos aos nossos lugares na bancada, descendo dos courts de ténis e passando a Porta da Maratona, tudo presságios daquilo que estará para acontecer mais adiante: um jogo com prolongamento e decidido num tie-break de penalidades. 

 

Devo dizer que a entrada em campo do Sporting foi surpreendente. Os leões rapidamente assumiram o jogo e remeteram os dragões para o seu meio-campo defensivo. Mas alguns handicaps cedo ficam a nu: um alívio despropositado de Bruno Gaspar oferece a Otávio a primeira grande oportunidade do jogo. O remate sai forte e colocado, mas Renan diz presente e resolve com uma grande defesa. O brasileiro abriu em grande e em grande viria a fechar o jogo. Bom, mas isso foi mais para a frente. Rebobinando, o Sporting respondeu de pronto e Bruno Fernandes obriga Vaná a uma boa parada. Até aos 20 minutos, o Sporting tem o controlo das acções, mas após esse período o Porto equilibra e até ganha algum ascendente. Raphinha tira tinta ao poste e, na resposta, Marega marca, mas está fora-de-jogo. Já perto do intervalo, Herrera recepciona a bola com o ombro(?), centra e Soares, de cabeça, coloca os pupilos de Sérgio Conceição na frente do marcador. O jogo está bom e agora é o Sporting que ataca: Bruno Fernandes recebe um passe de Acuña, remata, a bola ainda bate em Danilo e entra. Está reposta a igualdade, mesmo ao soar do gongo para o descanso.

 

Já na etapa complementar, o Porto é agora dominador. Logo de início, Soares acerta no poste direito de Renan, mais tarde Danilo visa o outro poste. Wendel ainda ameaça, mas o Sporting não consegue fluir o seu jogo. Keizer tenta brevemente implementar uma linha defensiva de 3 centrais, retirando Bruno Gaspar, fazendo entrar Ilori e avançando ligeiramente Acuña. Raphinha é agora lateral direito, com Diaby (mudou de flanco) à sua frente. O Sporting parece crescer com a nova táctica e leva perigo por duas vezes ao último reduto portista, mas a entrada de Dost para o lugar do maliano produz nova alteração no xadrez das peças, jogando agora o Sporting num 4-4-2, com Bruno Fernandes encostado à esquerda e Ilori e Acuña a preencherem as laterais. A custo, e com um SuperMat (a versão super-herói de Mathieu), o Sporting leva o jogo para prolongamento.

 

A primeira parte da prorrogação vê o Sporting a dar a volta ao marcador: uma bola perdida na área é aproveitada por Dost para rematar cruzado e sem hipótese de defesa para o guardião dos dragões. Mais uma vez, Acuña está na origem da jogada. O cansaço já é muito, o Porto ameaça, mas o público leonino embala a equipa com os seus cânticos. A vitória parece possível, vai ser possível, mas eis que o fado do leão se volta a manifestar e o Porto empata já depois da hora. 

 

Mais uma cambalhota no jogo e esta com marcas profundas na montanha russa de emoções vivida pelos adeptos sportinguistas. Do outro lado, os Super Dragões rejubilam, conscientes de que a vantagem psicológica passou para o seu lado. Nesse transe, o jogo vai para penáltis. Os leões confiam em Renan, o herói da Taça da Liga, a fé dos adeptos portistas reside na "igreja" Vaná. O início das penalidades confirma que o ascendente passou para os dragões e Dost falha ao tentar estrear uma nova forma de marcar a partir dos 11 metros. Parece que o Porto vai ganhar, mas Pepe acerta também na barra. Nada está perdido, mas também nada está ganho no momento em que os sportinguistas roem as unhas enquanto Coates se prepara para marcar o último penálti da série regular. O uruguaio tem um histórico de falhanços que não abona e muitos viram as costas à finalização. A coisa acaba por correr bem aos leões. Com 4-4, entramos naquela fase mata-mata. Fernando é o homem chamado por Conceição para bater. Renan voa e voa e voa e, num instante, abre asas aos sonhos dos sportinguistas. Agora, "só" falta o Felipe das Consoantes meter a bola lá dentro. Há quem chore, quem não queira ver, quem ganhe força agarrando-se frenéticamente a quem está mais à mão. Um estádio inteiro suspenso de um pontapé na bola. E é a redenção! O toque de Deus! Uma época que tinha tudo para correr mal, acaba em glória com a conquista de duas taças. Confesso que as lágrimas me escorreram pelos olhos no preciso momento em que vi a bola anichar-se no fundo das redes portistas. Feliz por mim, pelos meus companheiros de aventura epicurista, pelos milhares de sportinguistas presentes no estádio, pelos milhões espalhados pelo país e no estrangeiro. Gente feliz com lágrimas, título roubado a João Melo, será porventura a melhor forma de definir a catarse que os sportinguistas ontem viveram. Na hora H, o trauma por todos vivido há 1 ano esvaiu-se naquelas lágrimas e ficou para trás, e os sportinguistas reconciliaram-se consigo próprios e com o clube. Sim, o clube, a razão de ser de tudo isto. Não precisamos de mais nada. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jeremy Mathieu, o SuperMat. Tal como indica a publicidade, ele é rápido, versátil e seguro. Destaques também para Renan (eu bem ia dizendo que ele estava muito sub-valorizado) e para o inevitável Acuña. 

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(fotografia: O Jogo)

19
Mai19

Tudo ao molho e fé em Deus - Cantos do cisne


Pedro Azevedo

No futebol português, os árbitros parecem nutrir especial simpatia por quem os intimida. Não há revolta nem indignação perante a opressão, apenas afecto e compaixão, um estado psicológico vulgarmente denominado de Síndrome de Estocolmo, em alusão à reacção dos reféns sequestrados no Kreditbanken daquela cidade em 1973. Nesse transe, qualquer tipo de possibilidade de libertação é vista como uma ameaça, ou não estivesse ainda bem presente na mente dos árbitros a invasão ao Centro de Treinos da Maia, ou pedidos presidenciais de veto a um certo árbitro. Isto não é verdade, é veríssimo. Aliás, Veríssimo. Talvez por isso, uma falta duríssima de Felipe sobre Bruno Fernandes, a qual, para além do mais, evitou um promissor contra-ataque leonino, pôde passar em claro sem admoestação, mas a contenção digna de elogio de Acuña perante múltiplas agressões consecutivas acabou "premiada" com um cartão amarelo. Toda uma quantidade de decisões aberrantes que atingiram uma proporção tão inimaginável este ano quanto a outrora remota possibilidade deste Vosso escriba pensar em recomendar aos dirigentes do seu clube que comecem a estudar a possibilidade de integrarem a La Liga. 

 

Por um lado, se calhar até devemos estar agradecidos a Fábio Veríssimo por ter expulso Borja, um ilusionista da bola, evitando assim um bem possível Jamor de perdição para o colombiano sob a forma de um daqueles lances fatais (3 nos últimos 3 jogos) em que ele está lá mas a culpa parece sempre ser exclusiva de outrém. Por outro, aproveitando a maré, penso que é de repreendê-lo por nada ter feito para evitar que Bruno Gaspar tenha ido a jogo. Se lhe tivesse dado um cartão vermelho antes da partida ter começado, talvez Keizer se visse obrigado a ir ao estágio da selecção de sub-20 resgatar Thierry Correia. Também se teria evitado aquele passe despropositado do lateral direito que nos fez ficar a jogar com 10 elementos desde os 17 minutos, embora Borja não tenha ficado isento de culpas, ele que pareceu ter engatado mal a mudança e assim permitiu a Corona, que partiu uns bons 3 metros atrás, ganhar-lhe a dianteira. Em todo o caso, como atenuante para o árbitro, é de destacar o facto de desta vez Petrovic e André Pinto terem mantido a integridade dos seus narizes, algo que a dado momento pareceu pouco plausível perante a impetuosidade dos "sarrafeiros" (que o diga Felipe) jogadores portistas.

 

Já a Keizer não podemos estar muito agradecidos: aquela sua obstinação em manter Bruno Fernandes deverá ter provocado alguns AVCs entre os mais fervorosos adeptos dos leões e poderia ter custado a ausência do nosso capitão no Jamor. É que a partir de certo momento tornou-se claro para todos menos para o holandês que Bruno e Acuña estavam marcados pelos portistas, facto evidenciado em todo o seu esplendor na confusão criada à volta do argentino no lance do qual, ironia do destino, resultou a expulsão de Corona. 

 

Apesar da inferioridade numérica, o Sporting até se colocou em vantagem: Acuña fez barba e cabelo, primeiro num corte a um adversário com pêlo na venta, depois a assistir Luíz Phellype, dando pelo meio um bigode a uns opositores cheios de vontade de lhe retribuirem com uma "pêra". O Felipe das Consoantes também não se fez rogado e marcou o seu oitavo golo em outros tantos jogos. Pena que a equipa tenha estado desastrada nos cantos, perdendo diversos duelos com os seus adversários, deles resultando os dois golos portistas marcados no limite do fora-de-jogo. Mathieu, Renan, Acuña e Luíz Phellype, os melhores leões nesta noite, não mereciam tamanha traição de uma marcação tipo Zona J, que nos deixou socialmente excluídos dos três pontos.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Marcos Acuña

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12
Mai19

Tudo ao molho e fé em Deus - Adeus à Champions


Pedro Azevedo

O jogo começou com os acordes de "O mundo sabe que..." ainda a serem entoados, algo infelizmente tão comum como o Ristovski ser expulso na véspera de uma partida contra outro grande do futebol português.  

 

Logo de início, o Borja atrasou uma bola à balda. Mathieu ainda tentou estorvar o mais que pôde, mas já não conseguiu evitar que frente a frente ficassem os dois jogadores mais subvalorizados desta Liga: Tomané e Renan. Venceu o duelo o nosso guarda-redes, tocando a bola miraculosamente para canto. 

 

Aos 4 minutos, o Ristovski apareceu solto na direita do ataque e centrou para o Acuña rematar. A bola saiu meio prensada, mas o Luíz Phellype, na pequena área e de costas para a baliza, conseguiu dominá-la. Quando se ia virar, o Ricardo Costa puxou-o e Tiago Martins assinalou o castigo máximo. Chamado a converter, Bruno Fernandes marcou como de costume, o 32º golo da sua conta pessoal esta época.

 

Um jogador do Sporting foi apanhado em fora de jogo e, seguindo as recomendações, o auxiliar deixou seguir. O comentador da SportTV, um tal de João Aroso, ficou incomodado. Segundo ele, o adiantamento era tão evidente que deveria ter sido logo levantada a bandeirola. Tendi a concordar. [O pior veio depois: já na segunda parte, um jogador do Sporting foi apanhado milimétricamente em fora de jogo e o auxiliar prontamente sancionou. João Aroso voltou a aplaudir e eu fiquei de pé atrás. Foi só esperar mais um pouco para que a cena se repetisse, só que agora estando Wendel perfeitamente em jogo. Desta vez, Aroso não falou.]

 

O jogo ia caminhando para o intervalo. Borja acumulava faltas e ofensivamente mantinha-se fiél ao "inconseguimento" da Assunção Esteves. Eis então que Ristovski aparentemente dá um pisão a um tondelense. (Um indivíduo subscreve um canal pago para depois ter acesso a umas imagens que mais parece terem sido filmadas de Marte.) Ora, como toda a gente sabe, o pisão tem uma medida de intensidade variável, com uma força aplicada máxima em Alvalade e mínima no Dragão e na Luz. Vai daí, o Tiago Martins expulsou o (C)risto, o qual chegou assim à terceira estação da sua Via Crúcis. E só não foi penálti porque o Tomané antes tinha ajeitado a bola com o braço, pelo que o jogo estava interrompido. Com 10 em campo, o Keizer decidiu mandar o Borja continuar a fazer miséria, mas agora na lateral direita. Recuou o santo do Acuña para a lateral esquerda...

 

A etapa complementar começou com o Tondela mais afoito e, lançado por Tomané, Delgado falhou escandalosamente o cabeceamento. O mesmo jogador, logo de seguida, agarra Acuña e impede-o de progredir rapidamente para o ataque. Já com um amarelo, Tiago Martins perdoa-lhe a expulsão. Junto à linha, com um sorriso irónico e braços abertos, não é difícil imaginar o que vai no pensamento de Keizer: "this s**t is a joke (part II)". O Sporting está na sua melhor fase do jogo e Bruno Fernandes (lançado por Raphinha), primeiro, Luíz Phellype (assistência de Acuña), depois, e Mathieu (outra vez Raphinha) perdem o duelo contra Cláudio Ramos, o guardião tondelense. O jogo está partido, Borja não acerta uma, Gudelj está desgastado, mas o Tondela, nervoso, não consegue ligar o jogo, pese embora a entrada de Xavier tenha melhorado a equipa.

 

O Tondela deposita esperança num canto e acaba por ser feliz: num duelo aéreo de Brunos, o Monteiro bate o Fernandes e toca a bola para a entrada da pequena área onde aparece Tomané a desviar para a baliza. Keizer decide mexer, trocando Borja por Ilori, mas nada de substancial se altera. Manda então Bas Dost - amarelado no banco na sequência de uma simulação de um jogador do Tondela não sancionada disciplinarmente pelo árbitro - para o campo, por troca com Wendel. Com Bruno à direita, Raphinha à esquerda, Luíz Phellype e Dost no centro do ataque, o Sporting cria novamente perigo, mas eis que o treinador holandês volta a mexer, tirando o ponta de lança brasileiro e colocando Diaby. Foi o canto do cisne! Se o meio-campo já não tinha tracção, pior ficou. Em vez da troca de Gudelj por um fresco Doumbia, a entrada do maliano acentuou a clareira na nossa zona defensiva. Malgrado o esforço de Mathieu, obrigado aos 35 anos a fazer piscinas acima e abaixo de forma a ligar o jogo dos leões, o Tondela pôde então encontrar espaços para circular a bola e só por ansiedade não causou mais perigo. Ainda assim, num livre soberbamente executado por Xavier, Renan brilhou com uma das melhores defesas deste campeonato. Noutra ocasião, um desvio milagroso em Acuña evitou o pior.

 

E assim, ingloriamente, o Sporting despediu-se pelo seu próprio pé da edição da Champions de 2019/20. O bom senso recomendaria poupar alguns jogadores nucleares (Bruno, Acuña, Mathieu, Raphinha) na última partida do campeonato, guardando-os para a final da Taça e evitando aquelas contrariedades que se costumam abater sobre nós antes dos jogos decisivos. Enfim, pode ser que chegue finalmente a oportunidade de Francisco Geraldes.

 

Meus caros, é tudo por hoje. Vou imediatamente deitar-me, antes que o Piscarreta me entre pelo ecrã da televisão adentro e me provoque uma insónia daquelas...

 

P.S. Uma pergunta: o que é que os sapientíssimos "Scouters" do futebol português, que substituiram os antigos Olheiros, não vêem em Tomané?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Acuña. Boas exibições também de Raphinha e Mathieu. Entrevistado no final do jogo, o francês disse que queria "seguir" por cá. Nós, adeptos, também queremos seguir com ele.

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06
Mai19

Tudo ao molho e fé em Deus - Killer Instinct


Pedro Azevedo

Em Manhattan, as ruas não têm nomes mas sim números. No Jamor, a equipa da casa também não tem nome. E hoje o Sporting deixou-a feita num oito. É o que geralmente acontece no futebol quando, de um lado, se reúne uma equipa com tendências suicidas e, do outro, uma (finalmente!!!) com "killer instinct".

 

Silas será, porventura, um treinador para equipa "grande", com guarda-redes, defesas e médios com qualidade técnica superior que garanta alta eficácia de passe perante o risco iminente. Numa equipa média, tal ambição assemelha-se a praticar trapézio sem rede e a queda pode ser bem dolorosa. Ainda assim, os azuis estão fora de perigo, no nono lugar da tabela classificativa, sinal de que a estratégia serviu para o nosso campeonato, facto digno de realce num clube (SAD?) com as dificuldades por todos conhecidas.

 

Num final de tarde triste para Muriel, acabou por ser Guilherme, o seu substituto, a "pagar as favas" (são verdes...). Tudo começou quando aos 4 minutos o guarda-redes brasileiro arriscou um passe para Eduardo, que estava pressionado por dois adversários. Da perda de bola subsequente resultou, primeiro, um remate de Raphinha que encontrou Luíz Phellype (deitado) no caminho da baliza e, depois, um chuto de Bruno Fernandes salvo sobre o risco por Cleylton. Em condições normais, tal seria considerado um aviso. Acontece que, 6 minutos depois, Muriel repetiu a gracinha e agora com consequências bem mais gravosas para a sua equipa: Raphinha interceptou a bola, iludiu um defensor contrário e rematou de pé direito para o primeiro golo do jogo. (Ou como uma ideia de sair a jogar se transforma em hara-kiri.) 

 

Se as coisas já não estavam a correr bem a Muriel, ainda viriam a piorar: Bruno Fernandes e Raphinha combinaram para aplicar na prática o enunciado da Lei de Murphy e o guarda-redes acabou expulso. Silas alterou o seu 3-5-2 para um 4-4-1, fazendo sair um dos centrais e baixando os alas para posições defensivas, a fim de que pudesse entrar alguém para a baliza. Em cima do intervalo, Bruno Fernandes, com um toque de magia (calcanhar), serviu Luíz Phellype para o segundo golo dos leões, o sétimo do brasileiro em seis jogos consecutivos a marcar.  

 

No início da etapa complementar, o Sporting abrandou um pouco o ritmo. Os azuis ameaçaram e à segunda tentativa reduziram o marcador. Mas estava escrito que o dia não seria bom para os pupilos de Silas e, para prová-lo, nada como Gudelj finalmente mostrar a sua lendária, dir-se-ia até hoje mitológica, meia distância, ainda que para tal tenha beneficiado de uma carambola digna do Mundial de Snooker que se está a disputar em Sheffield, Inglaterra. Com o golo sofrido, os azuis definitivamente baixaram os braços. Já desorientados, de uma bola perdida na sua área viria a resultar um penálti desnecessariamente cometido sobre Luíz Phellype. Na conversão, Bruno Fernandes marcou o seu primeiro da tarde. Com 20 minutos ainda para jogar, o Sporting manteve a pressão, revitalizando o miolo do terreno com a entrada de Idrissa Doumbia para o lugar de um pouco intenso Wendel. Bas Dost preparava-se para ir a jogo, mas o Felipe das Consoantes não abandonaria o campo sem deixar pela terceira vez a sua marca no jogo, interpondo-se entre um defesa e o guarda-redes adversário e servindo em bandeja de prata Bruno Fernandes para novo golo. Mal entrou, o holandês marcou: nova bola perdida pelos azuis no seu meio-campo e Bruno Fernandes a servir Dost, o qual marcou à segunda. Depois, Acuña centrou da esquerda e Bruno Fernandes, sem deixar a bola cair, completou o hat-trick, obtendo o seu 31º golo da época, um record europeu para um médio. A partida não terminaria sem que Doumbia se estreasse a marcar - aventurou-se em caminhos que para o colega sérvio seriam o Cabo das Tormentas -, após assistência de Diaby (e belíssima simulação de Dost), na sequência de um passe de ruptura de (quem mais?) Bruno Fernandes (31 golos, 18 assistências, participação importante em outros 16 golos, ou seja, influência em 59,6% dos golos do Sporting). Foi o 109º golo da temporada, marca que suplanta os 108 golos da última temporada de Jorge Jesus, quando ainda faltam 3 jogos para terminar esta época.

 

Em conclusão, na jornada em que deixou de ter hipóteses matemáticas de ganhar o campeonato, o Sporting registou a sua vitória mais robusta da época. O "killer instinct" tão arredio ao leão rampante - na década de 90 já Bobby Robson se queixava da sua ausência - acabou por se manifestar de forma exuberante, algo inimaginável num campo onde o mais que provável futuro campeão nacional perdeu por dois golos de diferença (na Luz, o Benfica também não bateu o Belenenses SAD). Uma pequena compensação e mais uma demonstração do sortilégio do futebol, a fazer-me lembrar um outro 8-1, ao Braga, que há 35 anos atrás presenciei no antigo José de Alvalade. Dia 25 voltaremos ao Estádio Nacional, na esperança de que desta vez não haja um (J)amor de perdição que tudo deite a perder. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes. Menções honrosas para Luíz Phellype e Raphinha. Destaque especial para o regresso de Bas Dost (1 golo). 

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28
Abr19

Tudo ao molho e fé em Deus - O Castro e o ferro


Pedro Azevedo

Durante um quarto de hora, o Sporting abdicou de se acercar das muralhas do Castelo de Guimarães. A tarde, soalheira, convidava mais à praia do que a batalhas castrenses e um Sporting invulgarmente contido preparava o engodo para adormecer os vimaranenses. Propositadamente, ou devido aos ajustamentos necessários à integração de um novo elemento (Doumbia) numa zona vital do terreno, a equipa mantinha-se na expectativa. Entretanto, o Vitória tinha a ilusão de que controlava o jogo e ia trocando a bola de pé em pé. Convencido de que a melhor defesa é o ataque, o líder vimaranense ordenara aos seus guerreiros para atacar o último reduto leonino e Davidson esteve à beira de causar danos profundos, não fora um mau domínio no momento decisivo quando já só tinha Renan pela frente. Sentindo o perigo, os leões iniciaram a exploração do espaço nas costas do adversário. Primeiro desastradamente através de Diaby, um homem lançado brilhantemente por Keizer para criar no adversário a utopia de que nada tinha a temer. Sem que os de Guimarães o pudessem sequer imaginar, em pouco tempo o Sporting transformaria o castelo em ruínas arqueológicas dignas de um Castro. Como sabem, um Castro é típico da idade do ferro e Raphinha, Bruno Fernandes e Phellype substituiram o Carbono-14 nos testes ao metal. Pressentindo que os vimaranenses estavam datados, os leões atingiram pela primeira vez o seu coração, contando para isso com a colaboração de um observador independente - não vislumbrou uma manobra irregular fora da sua área do argentino Acuña - e de um cavalo de tróia, o antigo vitoriano Raphinha (autor do 100º golo do Sporting na temporada). Antes de uma breve trégua retemperadora de 15 minutos, tempo ainda para Phellype realizar o quarto e último exame ao ferro.

 

Reatada a batalha, Bruno Fernandes voltou a ameaçar as muralhas de Guimarães. Seria o presságio para o que viria a seguir: Raphinha dançou à porta do castelo, iludindo dois vimaranenses que a protegiam, e permitiu a Phellype finalmente arrombar a casa da guarda, a sexta vez que o faz perante cinco oponentes consecutivos diferentes.

Os vitorianos não desistiram e Keizer voltou a ser brilhante, trocando o inoperante Diaby por um hesitante Borja, um colombiano que a cada arrancada de 10 metros pára a fim de se interrogar sobre a condição humana, regressando de seguida ao local de partida. (Ao contrário do maliano, que denota inteligência nas movimentações mas tem assim um género de produto cerâmico em forma de paralelepípedo, vulgo tijolos, nos pés, o lateral que veio de um clube mexicano tem boa relação com a bola mas, das duas uma, ou parte para as jogadas de ataque com 1906 possibilidades no seu cérebro, e depois baralha-se e entra em convulsões com tanta opção, ou não tem nenhuma ideia, parte à aventura, e depois logo vê o que pode ou não improvisar, sendo que, seja qual fôr a hipótese mais credível, o resultado tem sido, em regra, a inconsequência.)

Claro que tudo isto fez parte de uma estratégia de disuassão do técnico holandês, servida para dar ao adversário a ilusão de que teria os leões na mão. A verdade é que os vimaranenses voltaram a morder o isco, mas o cansaço de Wendel - com a tarde quente e os 30 minutos que esteve a aquecer, Miguel Luís já estava em ponto de ebulição quando entrou em campo - , Bruno e Raphinha impediu que não ficasse pedra sobre pedra no castelo do Guimarães. Na senda da oportunidade aos jovens da nossa Formação, ainda houve tempo para o salomónico Keizer dar também 1 minuto a Jovane, o que a julgar pelo que tem acontecido a Xico Geraldes deve ser entendido como um presságio de que o cabo-verdiano deve ficar fora dos convocados na próxima semana. No final, nona batalha consecutiva ganha pelos leões. Como em tempos pediam os madridistas: venha a décima!

Em resumo, uma tarde bem passada, e se muito aqui se falou do ferro, dado o sol que incidiu sobre as bancadas também o bronze se tornou inevitável. ( "O ferro e o bronze" porventura seria um título mais apropriado para esta crônica.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Raphinha. Menções honrosas para Bruno, Phellype e Doumbia.

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20
Abr19

Tudo ao molho e fé em Deus - Ovos K


Pedro Azevedo

Mahatma Gandhi, que até gostava muito de futebol, dizia sobre a vida que a alegria está na luta, no sofrimento envolvido, na tentativa e não na vitória propriamente dita. Os jogadores do Sporting pareceram partilhar este pensamento e hoje, na Madeira, esforçaram-se até à exaustão para o pôr em prática. Em particular, o Diaby até se esmerou. Para o maliano, cada falhanço na cara de Daniel Guimarães equivaleu à nona sinfonia de Beethoven. É certo que a época pascal que vivemos é propícia ao perdão, mas, caramba, também não era preciso exagerar...

 

O jogo até começou de forma auspiciosa, com um cartão amarelo a Acuña, o que deve ser considerado como uma importante melhoria face ao acontecido na Vila das Aves. Na ausência de Wendel - Raphinha (lesão) e Renan (castigo federativo, cartão vermelho no jogo anterior) também estavam impedidos - , Idrissa Doumbia foi a jogo. O problema é que o marfinense foi ocupar em simultâneo o mesmo lugar no espaço que Gudelj, desafiando assim o Princípio da Impenetrabilidade da matéria, algo que não pareceu incomodar demasiado Marcel Keizer mas deve ter perturbado o repouso de um tal Isaac Newton. 

 

Sem quem transportasse o jogo pelo meio, os leões optaram por não fazer recuar Bruno Fernandes. Em vez disso, o maiato deslocou-se para a esquerda, procurando combinar com o falso ala desse lado (alternadamente Diaby ou Jovane) que entretanto se havia aproximado de Luís Phellype no eixo do ataque, ou pedindo a profundidade de Acuña para que este colocasse a bola na área. Perante a dúvida, a defesa nacionalista foi soçobrando e as oportunidades sucederam-se. Nesse transe, Diaby, por três vezes, podia ter marcado e o mesma aconteceu com Jovane, um jovem que parece apostado em aprender o pouco entendível francês do Mali. Em todas as vezes, Daniel Guimarães esteve no caminho da bola. O Felipe das Consoantes também tentou e tirou um coelho da cartola digno de fazer inveja a um qualquer vogal de um conselho de administração. Infelizmente, a bola saiu ao lado. Pese todo o pendor atacante, a falta de eficácia impediu o Sporting de chegar ao intervalo em vantagem no marcador. 

 

Para a etapa complementar, Keizer pareceu ter ordenado a Doumbia que se adiantasse no terreno e tentasse transportar jogo. Embora fora da sua posição natural, Idrissa procurou jogar mais para a frente e numa dessas ocasiões serviu soberbamente Diaby, mas o maliano com a baliza toda à mercê conseguiu encontrar um corpo na direcção da bola.  Logo de seguida, com a baliza escancarada, o suspeito do costume não chegou à bola por um triz. Aos 55 minutos, o Gudelj viu um cartão amarelo, motivo que o impede de jogar a próxima partida contra o Guimarães. O drama, a tragédia, o horror terá pensado a SportTV, que logo o nomeou para "Homem do Jogo"...

 

O Sporting continuava a distribuir Ovos Kinder, ou Keizer, ou lá como se chamam esses presentes de Páscoa, aos nacionalistas, até que Acuña levantou para a área e Luíz Phellype não perdoou. Em vantagem, Jefferson rendeu Jovane (e Miguel Luís substituiu Gudelj), continuando Acuña como lateral. O brasileiro serviu Diaby para golo mas o destino foi o do costume. Houve tempo ainda para vêr o ex-Brugge mostrar os seus dotes de recepção quando isolado para a baliza meteu canela a mais na bola, naquilo que deverá passar a fazer escola na Academia como "domínio à Diaby". Posto isto, a mim é que tiveram que dominar. Os nervos, claro. Ah, e claro, o Xico entrou a 1 minuto do fim, em nova "oportunidade" concedida pelo Keizer. Já dizia a Luísa Sobral: "Ó Xico, ó Xico, onde te foste meter?".

 

Tenor "Tudo ao molho...": Luíz Phellype (marcou o único golo do jogo e lutou bastante). Destaques para Mathieu, que muitas vezes fez de "8" em penetrações pelo meio-campo do Nacional, Acuña, que dominou totalmente o lado esquerdo da defesa, e Gudelj, hoje muito mais intenso defensivamente do que aquilo que tem sido normal nele, embora continue a não dar ao jogo atacante aquilo que é necessário num clube de topo. 

 

P.S. falando agora muito a sério, foi um prazer ouvir Gudelj expressar-se num quase perfeito português e sem aquele sotaquezinho castelhano que poderia advir do facto de ter acompanhado o pai quando este foi profissional de futebol em Espanha. Aliás, tanto quanto sei, o sérvio fala seis linguas. Muitas vezes critico-o pelas suas acções no campo, mas aqui fica o meu apreço por alguém que mostra respeitar o clube e o país, se comporta de forma profissional e é inteligente.   

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14
Abr19

Tudo ao molho e fé em Deus - The Big Day


Pedro Azevedo

"The Big Year" é um filme de 2011, em que 3 homens - personagens interpretadas por Owen Wilson, Jack Black e Steve Martin - em crise de identidade, mas com uma paixão comum por aves, decidem entrar numa competição que tem como objectivo identificar o maior número possível de espécies num ano. Esta fita veio-me à memória, porque foi mais ou menos isto que hoje foi proposto aos Sportinguistas. Mas com uma grande diferença: descobrir o máximo de Aves, sim, mas num só dia! Tudo começou às 3 da tarde, com o jogo dos sub-23 no Aurélio Pereira, e terminou "comme il faut", na própria Vila das Aves, no jogo dos séniores que é o objecto desta crónica. 

 

Logo aos 3 minutos, Mathieu e Renan foram umas andorinhas e deixaram uma águia - Luquinhas, jogador comprado pelo Benfica, embora nunca tenha jogado pelos encarnados -  interpor-se. Para evitar que atingisse o seu território, Renan fez falta e foi expulso, avistando-se logo corvos a pairarem sobre os leões.

 

A jogar com menos um, Keizer encostou Bruno Fernandes à esquerda e teve de mandar sair Jovane a fim de que Salin ocupasse o lugar deixado vago pelo infortunado guarda-redes leonino. Com estas trocas, o Sporting não ficou desasado, e de uma combinação entre Bruno e Acuña na esquerda resultou um centro consoante as intenções de Phellype, um patinho feio que está progressivamente a transformar-se num belo cisne, embora ainda lhe falte a segunda velocidade. O Sporting colocava-se em vantagem, mas Gudelj ficou a observar as Aves e Luquinhas aproveitou para acelerar, buscar o apoio e entrar vertiginosamente na área leonina. Salin chegou tarde e fez penálti. Na conversão, o olho de Falcão avistou o objectivo e não perdoou perante carne fresca mesmo ali à frente. Os leões não desarmaram e Bruno esteve prestes a desfazer a igualdade na jogada seguinte. Até que na sequência de um livre, o capitão leonino preparava-se para rematar quando um pardalito avense - um Felipe com menos consoantes - foi procurar um poste onde descansar, proporcionando a 3 jogadores leoninos observá-lo de perto dentro das regras. Vendo que a ideia das Aves trazia água no bico, Bruno optou por colocar a bola na área, onde Coates a amorteceu, Wendel a maltratou, aparecendo Mathieu a desviá-la para a baliza, redimindo-se assim da falha conjunta no lance em que Renan foi expulso.  

 

A etapa complementar iniciou-se com uma combinação entre Bruno e Acuña terminada com um remate do argentino que Beunardeau defendeu com os pés. O jogo estava bom e, logo de seguida, um avense fez Fariña sobre Coates, mas Ristovski levou a coisa a peito e evitou males maiores. Wendel recuperou uma bola a meio-campo, foi por ali fora e à entrada da área serviu Raphinha que voltou a encontrar as pernas do guarda-redes avense. O jogo estava electrizante, um pouco partido, uma boa propaganda para o futebol. Na esperança de que os espectadores não vejam a InácioTV, a SportTV não se cansava de mostrar Inácio na TV. O Aves atacava, mas numa transição Acuña preparava-se para passar um Galo quando este se interpôs. Já estava amarelado e deveria ter ido para cativeiro, mas Soares Dias armou-se aos cucos e mostrou o amarelo, isso sim, ao argentino, por protestos. A habitual cena da arbitragem em Portugal. De seguida, Diaby (rendeu Phellype), desmarcado por Doumbia (entrado para o lugar de Gudelj), foi um maçarico na área. O Sporting procurava o golo da tranquilidade e viria a obtê-lo: Bruno Fernandes (28º da época), de cabeça, mostrou perceber os pássaros e voar como o Jardel sobre os centrais, respondendo a um centro do macedónio Ristovski. O Aves ainda voltaria ao jogo, num lance de outra águia (Derley), na minha opinião incorrectamente invalidado, pois Coates está a agarrar o braço do brasileiro e este, ao tentar libertar-se, acerta-lhe. Mas confesso que não ouvi os "especialistas" do costume, pois já tinha desligado o som do televisor para poupar os tímpanos à gralha do comentador.

 

E assim terminaria uma noite chuvosa na Vila das Aves, onde no fim quem mais trinou foi o verdilhão. Quem diria que a observação das Aves podia ser uma actividade tão excitante? Pelo menos, quando comparada com aquela aula de técnicas de normalização de documentos de que se revestira o nosso jogo anterior.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Acuña. Menções honrosas para o incontornável Bruno Fernandes e para Ristovski, o qual foi intransponível na defesa e assistiu Bruno para o terceiro da noite.

 

Aves avistadas neste dia: andorinhas, águias, corvos, pato, cisne, falcão, pardal, galo, cucos, maçarico, gralha, verdilhão e passarinhos diversos. 

 

P.S. Vejam o jogo do menino Matheus Nunes, nos sub-23. Velocidade, técnica e muita facilidade na saída de pressão, passe com a parte de dentro ou de fora de qualquer um dos pés... Um craque em potência!

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(Imagem: A Bola)

08
Abr19

Tudo ao molho e fé em Deus - Um Domingo qualquer


Pedro Azevedo

Depois de uma semana negra para a arbitragem portuguesa, o Domingo começou com uma exibição do "VAR tudo" na Feira, uma daquelas situações em que metáfora e realidade se confundem. Em boa verdade (ou será VARdade?), todo o futebol português é uma feira. Senão vejamos: temos os elásticos, que puxam para cima, a barraca dos tirinhos (entre concorrentes), o carrossel das transferências, os carrinhos de choque do pobre do Ristovski, os espelhos que aumentam a dimensão dos craques (na Comunicação Social), as "canções pimba" do senhor Piscarreta, tudo isto enquadrado pelas roullotes das febras e dos couratos, petiscos diversos e cerveja a rodos, que o que é preciso é vender a bola aos pacóvios como uma festa...  

 

Se no Sábado, no Dragão, muitas dúvidas ficaram sobre o lance que permitiu ao Porto adiantar-se no marcador, ontem, em Santa Maria da Feira, houve três lances polémicos decididos sempre contra a equipa da casa. O primeiro, resultou na anulação daquilo que seria o 2-0 para o Feirense. O segundo, permitiu ao Benfica empatar a partida. Finalmente, o terceiro evitou que o Feirense voltasse a empatar o jogo. Enfim, um Domingo como outro qualquer, mas com o adepto anónimo, o "Al Patinho", como figurante, e um "actor" canastrão - penso, logo "un pasito mas" caio Pizzi - como protagonista de um filme Série B. 

 

Após o episódio Catão/Boaventura e a narrativa que vi montar à volta da expulsão de Ristovski, a minha vontade de continuar a ser um idiota útil a alimentar a feira do futebol português esmoreceu. Confúcio dizia que se um problema tivesse solução, então dever-nos-iamos concentrar nessa solução, mas se não tivesse solução, então deveríamos deixar de nos preocupar. Nesse sentido, se o peso dos actuais protagonistas esmaga a nossa leveza de espírito e já não há relativização de situações que nos garanta a tranquilidade, então o melhor é afastarmo-nos.

 

Nesse estado de espírito, ontem não fui a Alvalade. Ainda assim, não resisti a acompanhar na televisão. E se tranquilidade era o que procurava, o jogo deu-me uma noite muito descansada. Tudo começou quando o Felipe das Consoantes deu desenvolvimento a um rápido contra-ataque e abriu na esquerda para o Wendel, este lançou na frente no Acuña, que com um pequeno toque deu no Phellype, que chegou à bola após uma impressionante cavalgada e mostrou um PH ácido de mais para Leo Jardim, o homónimo do nosso antigo grande treinador que defende a baliza vilacondense. Inaugurado o marcador, o Sporting viria ainda a dilatar a vantagem na primeira parte, quando um Messias em crise de fé abalroou o Phellype, o qual acabara de cabecear uma bola endereçada por Bruno Fernandes. Chamado a converter a penalidade, Bruno marcou-a de forma irrepreensível, o que lhe permitiu igualar o record europeu de golos de um médio neste século, registo obtido por Frank Lampard na temporada de 2009/10, ao serviço de um Chelsea treinado pelo italiano Carlo Ancelotti.

 

A segunda parte teve menos motivos de interesse. O Rio Ave rendeu-se cedo e ao Sporting interessava fazer alguma gestão de esforço e poupança de jogadores, razão pela qual Acuña (pequeno toque) e Mathieu sairam mais cedo, acompanhando assim Borja, o qual havia sido substituido (por Jovane) ao intervalo devido a lesão num joelho. Com estas prioridades na cabeça, Keizer acabou por voltar a não dar oportunidade a Geraldes ou Pedro Marques, colocando Gaspar e André Pinto. Antes, Wendel apontara o golo da noite, respondendo a uma solicitação de Bruno Fernandes com um remate colocado de fora da área. Com os jogadores não substituidos a descansarem no campo, o Sporting foi controlando tranquilamente o jogo, perante uns vilacondenses que só criaram suspense por Tarantino, perdão Tarantini, num lance em que Renan conseguiu puxar a fita atrás e evitar males maiores.   

 

E assim terminou uma noite tão, tão tranquila que os nossos nem cartões viram. Um jogo que mais parecia um amigável, onde até a falta de intensidade de Gudelj ficou disfarçada pelo baixo ritmo dos restantes.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel. Destaque ainda para Bruno Fernandes (alternativa para o melhor em campo) , Luíz Phellype, Mathieu e Acuña.  

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P.S. Os meus sentimentos à familia e amigos do nosso ex-jogador Luis Páez. O paraguaio faleceu ontem, aos 29 anos, num acidente de viação. Um dia triste também para toda a nação sportinguista, a mostrar-nos que há coisas para serem levadas bem mais a sério que o futebol. 

 

04
Abr19

Tudo ao molho e fé em Deus - (C)risto vive em Bruno


Pedro Azevedo

Três jogos contra o Benfica, três golos de Bruno Fernandes. Se o primeiro, para o campeonato, não foi suficiente, os dois marcados para a Taça - como a primeira mão aconteceu no tempo do Paleolítico Inferior talvez valha a pena relembrar que fez um grande golo na Luz - foram decisivos. Ontem, deu mais um passo no sentido de se tornar uma lenda em Alvalade, com um lance de génio culminado num remate que deixou o Svilar das Perdizes com vontade de ir à bruxa.

 

Por falar em bruxas, eu não acredito nelas, mas já diziam os espanhóis "que las hay, las hay". Apesar disso, pobre incauto, acreditei que o Ristovski estaria no "derby". Mas não. Se calhar não era má ideia o Conselho de Arbitragem substituir os testes de aptidão física por testes de física, pois as Leis de Newton são princípios de dinâmica (e de inércia) que convinha consultar. Até porque sempre é informação mais científica do que aquela que o senhor Piscarreta anda a propagandear na televisão, nomeadamente quando diz que o jogador Manafá, no Braga-Porto, não teve intenção de pôr a mão na bola porque "estava de olhos fechados". É no que dá confundir cubismo com cubanos, dá tanta vontade de rir que até a barraca "Havana". Já sobre o senhor Mota, que foi premiado pela "exibição" em Chaves com uma indigitação para a primeira semi-final da Taça, não sei se é por ser talhante, mas quando nos apita estamos sempre "feitos ao bife"... 

 

O Conselho de Disciplina puniu Ristovski - o homem parece que foi condenado a uma Via Crúcis - com um jogo de castigo e indeferiu o recurso leonino, mas a injustiça, quer em termos absolutos, quer em termos relativos (vidé lance de Wilson Eduardo sobre Corona no Braga-Porto), da suspensão do macedónio uniu ainda mais a equipa do Sporting. Na natureza, nada acontece por acaso, e o arrefecimento súbito da temperatura em Lisboa foi só o presságio de que a vingança é um prato que se serve frio. 

 

O Sporting começou o jogo a toda a velocidade e nos primeiros 10 minutos andou perto da baliza do Benfica por três vezes, através de remates de Gudelj - melhor exibição desde que joga de leão ao peito - , Bruno Gaspar e Wendel. Apesar do maior ímpeto leonino, assente numa ousada táctica de 3 defesas, lutava-se mais do que se jogava, destacando-se apenas um remate de Luíz Phellype (29 minutos) e um de Fejsa (primeiro e único chuto dos encarnados à baliza durante a primeira parte), ainda assim não verdadeiras oportunidades. O árbitro ia-se perdendo no critério disciplinar, começando por não punir um jogador de cada equipa para acabar salomonicamente a castigar dois inocentes.

 

A etapa complementar praticamente abriu com uma perdida de Seferovic diante de Renan. Respondeu o Sporting com um livre de Bruno Fernandes que embateu na barra. O Benfica vinha com uma postura mais ofensiva e os leões aproveitavam para jogar entre linhas. Luíz Phellype conseguia dominar a bola e segurar os centrais e isso abria boas perspectivas a Bruno Fernandes. Eis então que Keizer, que já anteriormente havia trocado Gaspar por Ilori, provavelmente com receio de que o lateral visse o segundo amarelo, decide meter a "carne toda no assador" (senhor Mota, esta não é para si) e troca Borja por Diaby, passando Ilori para a linha dos 3 de trás. Logo de seguida, Bruno recebeu a bola na meia direita do ataque leonino, driblou para dentro e colocou a bola no ângulo da baliza defendida por Svilar. Com a eliminatória na mão, o Sporting não abrandou o ritmo. O jogo estava electrizante e Seferovic, primeiro, e Raphinha, depois, podiam ter marcado, mas o resultado, com toda a justiça, já não se alteraria. 

 

Ristovski esteve de fora, mas viveu em Bruno Fernandes. Em tempo de cristianismo no futebol mundial, Bruno, a quem também foi concedido um dom imenso, é, hoje por hoje, o grande redentor do sportinguismo. O cordeiro do deus da leoninidade, que dentro do campo se transforma num leão e que, pouco a pouco, vai trazendo de volta aos estádios, cafés e sofás ao pé de um televisor as "ovelhas" que tresmalharam, mas que não deixam de ser sportinguistas como nós. Por isso, perante a Porta 10A, eu confesso: eu sou um brunista (fernandista)! ("Ich bin ein...")

 

Nota: para quem ficou muito escandalizado por Keizer ter admitido gostar mais de ganhar por 3-2  em vez de 1-0, é só para dizer que o holandês ontem preferiu o 1-0...

 

Nota 2: no duelo particular de golos das estrelas de Sporting e Benfica nos "derbies" desta época, Bruno Fernandes esteve a perder 0-2, mas ganhou a João Félix por...3-2. Dado o "hype" que o encarnado atingiu, deve ser coisa para, no mínimo, garantir a Bruno o epíteto de "menino de diamante"...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes.

Destaques: Acuña e Mathieu, os delfins de Bruno, Gudelj por ter dado mais ao jogo do que habitualmente, Raphinha pela pressão que fez sobre a linha defensiva benfiquista (é ele que ganha a bola do golo), não a deixando subir, Phellype pela capacidade de segurar a bola no meio campo contrário. Todos os outros, sem brilhantismo, não comprometeram.

golo de bruno fernandes ao benfica.jpg

(Imagem: Record)

31
Mar19

Tudo ao molho e fé em Deus - O oculto


Pedro Azevedo

O Jorge Jesus é que tinha razão: o futebol é uma ciência cuja compreensão não é para todos. Por exemplo, para um comum mortal, o "tackle" de Ristovski - chegou à bola bem antes do adversário e não poderia ter cortado as pernas no processo, nem sido mais resistente ao movimento de deslizamento - é um lance absolutamente normal, mas para o perito de arbitragem da SportTV, ex-árbitro mediano (para ser simpático) e "especialista" em física com doutoramento em inércia do movimento, Sérgio Piscarreta, é um vermelho inequívoco. O mesmo senhor que consegue ver, numa entrada de Jefferson ao pé de Bruno Fernandes, "pernas encolhidas", razão para só ser mostrado o cartão amarelo, e que acha que Manuel Mota "geriu muito bem" o jogo ao desrespeitar as regras (digo eu) quando Niltinho agrediu ao pontapé o mesmo Bruno Fernandes. Realmente, JJ estava certo, o futebol, o português bem entendido, é uma ciência. Oculta, diria eu, cujo conhecimento só está ao alcance de certas pessoas, iluminadas por certo. Há que ser humilde e entender tudo isto no âmbito do esoterismo, caso contrário ainda poderíamos ser levados a pensar que o Estaline era um menino no que respeita a reescrever a história quando comparado a Piscarreta&friends.

 

A equipa leonina mais uma vez apresentou-se em campo em inferioridade numérica. Apesar disso, adiantou-se no marcador quando Bruno Fernandes encontrou Ristovski sózinho na área e este assistiu o Filipe das Consoantes para o seu primeiro golo de leão rampante. Uma espécie de Kramer contra Kramer, mas na versão Filipe contra Filipe. (Houve também Mota árbitro e Mota treinador, mas nada os movia um contra o outro.) O Sporting dominava e criava boas oportunidades em remates à entrada da área, mas a incapacidade de Wendel em enquadrar um pontapé com a baliza (ele e outros com a mira descalibrada devem estar a precisar de mais umas folgas...) ia adiando a tranquilidade no marcador. Outras jogadas promissoras seriam interrompidas pelo árbitro, num claro benefício do infractor que deverá ser enquadrado numa qualquer teoria do senhor Piscarreta que deve ter escapado à UEFA e à FIFA aquando da elaboração dos regulamentos ou recomendações dos respectivos comités de arbitragem. (Depois queixem-se de que não há árbitros portugueses nas fases finais das grandes competições internacionais de selecções.)  

 

O segundo tempo seguia no mesmo tom, com os leões agora a beneficiarem da paridade numérica em campo, após novo amarelo a Jefferson por outro entrada dura. Até que o Gallo cantou e despertou os de Chaves: o passe do Bruno flaviense encontrou a desmarcação de André Luis, Coates ficou para trás e Renan acabou batido sem apelo nem agravo. Estava decorrida uma hora de jogo. Eis então que Marcel Keizer decide ter um momento de génio ao fazer entrar Doumbia, passando o Sporting a jogar com 11. É que o treinador leonino recentemente assegurou-nos que com ele jogam sempre os melhores, mas eu já ficaria contente se ele garantisse que entramos sempre com 11...

 

A entrada do marfinense praticamente coincidiu com uma paragem de 7 minutos para assistência ao guardião flaviense. Quando este finalmente foi substituido, o jovem Cabral também foi a jogo, naquela substituição clássica em que Borja - mais uns malabarismos inconsequentes - sai e recua Acuña. O Sporting intensificou a pressão e, na sequência de um canto, o argentino vislumbrou Bruno Fernandes, de braços abertos, a pedir a bola desmarcado à entrada da área. A bola chegou ao maiato e este, de primeira, fez um golo de bandeira. Com vantagem no marcador e mais um homem em campo, o Sporting começou a controlar o jogo, termo futebolístico que consiste em jogar para trás e para o lado, semelhante ao encanar a perna à rã, expressão provavelmente mais apropriada a quem escreve num espaço SAPO. Depois aconteceu o tal lance de Ristovski, a bola viajou até Raphinha, este encarou um último defesa e foi derrubado. O árbitro sancionou a falta e expulsou um flaviense. Seriam 11 contra 9, mas o vídeo-árbitro Vasco Santos alertou Manuel Mota para a tal suposta infracção inicial do macedónio. Eis então que Mota volta atrás na sua decisão, retira o vermelho ao jogador do Chaves e expulsa Ristovski. Sobre isto, só me oferece dizer que dúvido que depois deste episódio mais alguém vá comprar uns bifes ao talho de Manuel Mota: é que o homem não sabe o que é um corte limpo...

 

Em poucos segundos, um 11 contra 9 transformava-se num 10 contra 10: a emoção do futebol português não merece ser exportada para o mundo? Pobre Ristovski, há uns meses atrás teve galo ao ser expulso, agora foi de carrinho (ou de Mota?). 

Faltavam dois minutos para o final do tempo regulamentar, mas Manuel Mota deu mais 11 minutos de compensação. O Sporting tentava esconder a bola e os flavienses, na ânsia de a recuperarem, batiam em tudo o que mexia à sua frente. A reacção do árbitro, segundo Piscarreta, era a de gerir o jogo, a dos comentadores da SportTV uma coisa em forma de assim, ou nim, ou coisa nenhuma. Até que, numa das poucas vezes em que conseguiu manter a integridade dos seus tornozelos, Bruno Fernandes fez um passe frontal para Jovane e este, com um toque subtil, deixou Luíz Phellype na cara de Ricardo, o guardião que entrara para o lugar de António Filipe. O brasileiro não perdoou e coroou a sua estreia a marcar com um bis. E assim saímos de Chaves com os 3 pontos e à espera da despenalização de Ristovski para o jogo de quarta-feira. Só espero que o Conselho de Disciplina não reúna na quinta...

 

"This sh*t is a joke". Oh, yeah!

 

Tenor "Tudo ao molho": Bruno Fernandes (destaques para Mathieu, Acuña e Phellype). 

bisluizphellype.jpg

(Imagem: A Bola)

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