Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

07
Abr21

Transparência


Pedro Azevedo

Não existe neste momento tecnologia suficiente para determinar com um nível de significância alto se um jogador que à vista desarmada está em linha se encontra de facto em fora de jogo. Desde logo porque o ponto de contacto na bola no momento do passe é muito difícil de determinar com exactidão na medida em que há um atrito não negligenciável entre a superfície do corpo do jogador e a bola (para não falar da incerteza quanto ao efectivo momento em que a bola contacta com a superfície do corpo do jogador ou dela sai). Ora, esse atrito, de décimos de segundo, implica um número considerável de "frames", todos eles apontando para uma posição absoluta e relativa (face aos adversários) do jogador que recebe a bola diferente. Deste modo, torna-se impossível determinar com segurança se o "frame" escolhido é o correcto ou não. Assim, a aceitação da decisão final do VAR é essencialmente um acto de fé, o que nesta religião pagã de que comungam os adeptos do futebol geralmente não augura nada de bom.  

 

Acresce que a própria representação do terreno de jogo em computador pode implicar um erro humano. Foi aliás o que aconteceu em Moreira de Cónegos aquando da deslocação do Braga. Nesse jogo, os bracarenses viram anulado um golo legal por alegado fora de jogo quando o seu jogador estava cerca de 130 centímetros em jogo. Na altura o erro foi imputado ao operador de imagem, mas estranhei não ter havido um inquérito rigoroso por parte da Liga que produzisse conclusões que pudessem sossegar os adeptos do futebol quanto à não recorrência deste tipo de erro. É que se avançamos para a tecnologia com a finalidade de evitar o erro, então deveremos por todos os meios assegurar que essa própria tecnologia não se torna uma fonte do próprio erro, manipulável e assim contribuinte para o adensar do clima de suspeição. E é nisto que eu me gostaria de focar: o que fazem as autoridades competentes no sentido da promoção da transparência? É certo que não se pode ser a favor da verdade desportiva e depois queixarmo-nos de um fora de jogo de 2 cm, mas mandaria o bom senso que houvesse uma espécie de caixa negra onde estes lances milimétricos seriam arquivados para posterior observação de um comité de análise independente, comité esse que depois tornaria pública a sua avaliação. 

 

Quanto à questão da margem de segurança nestas decisões de fora de jogo, o problema é exactamente determinar que tipo de margem deveria ser usada. Para tal, talvez fosse interessante determinar em média qual o impacto de um "frame" em centímetros, mas isso estará certamente dependente da velocidade de deslocamento de um jogador, variando assim consoante a situação específica. Por outro lado, admitindo que se daria uma margem de erro de 15 centímetros na determinação de um fora de jogo, logo apareceria gente a queixar-se se o fora de jogo fosse de 16 cm, insinuando que o tal centímetro adicional teria sido forjado.

 

Assim, não havendo possibilidade com a tecnologia presente de determinar com exactidão o momento em que a bola efectivamente sai do corpo do jogador (diferente do momento do primeiro contacto) que faz o passe, o que sugiro é que se aposte na transparência e que alguém mais tarde venha publicamente informar se a decisão foi bem ou mal tomada face aos óbvios constrangimentos existentes. Como deveria ser, na total salvaguarda da verdade desportiva possível, não dando azo a que o adepto pensasse em manipulação. O que não me parece bem é que o espectador em casa, que é quem paga o serviço televisivo que indirectamente, via DireitosTV, alimenta os clubes (e por conseguinte a Liga), não tenha acesso às medições de fora de jogo de outros dois lances ocorridos em Moreira de Cónegos. Isso não só aparenta ser um desprezo por quem efectivamente paga o futebol como também em nada contribui para a idoneidade do produto Futebol Português. 

 

Concluindo, de pouco serve dotarmos o futebol de um instrumento de apoio à verdade desportiva se depois nos esquecermos dessa finalidade primária e envolvermos o VAR numa opacidade absolutamente contrária ao princípio que o emanou. Nesse sentido, exige-se que haja quem controle à posteriori as decisões do VAR. E, já agora, que as comunicações entre VAR e árbitro sejam públicas, a bem da transparência. Teme-se o quê? Haverá bem maior na promoção de um produto que a sua idoneidade? Food for thought...

var1.jpg

2 comentários

  • Imagem de perfil

    Pedro Azevedo 08.04.2021

    Excelente contributo para a discussão, caro Alexandre. A opacidade é inimiga da transparência e da idoneidade de qualquer produto. Quando um caso limite como o ocorrido no Moreirense-Braga não merece do regulador Liga uma investigação séria e um relatório tornado público a fim de que não grasse a suspeição, então percebemos que o futebol está entregue a pessoas que não compreendem como o devem valorizar. Se o estádio de Moreira de Cónegos tem problemas estruturais (bancadas baixinhas) em sede de triangulação de imagens, então que erijam uma torre e aí coloquem uma das câmaras. Também não me parece correcto que os espectadores, no campo ou em casa, não estejam a ser informados a todo o momento das comunicações entre VAR e árbitro. Assim como me parece incompreensível que depois não seja tornado público um relatório sobre a acção do VAR. Aliás, a bem da transparência, poderia e deveria ser apresentado em conferência de imprensa a construção do frame exacto que permitiu a Bruno Esteves determinar a existência de um fora de jogo de 2 cm. Deveria haver um registo da forma como se chegou a essas linhas, passo a passo.

    Em relação às comunicações, a NFL pratica-o, o rugby também , e no ténis o olho de falcão é visível para toda a gente. Só para comparar com alguns desportos.

    Em relação à linha de fora de jogo assinalada no campo precisava de perceber melhor de que forma é que as equipas se adaptariam a isso a fim de entender que consequências viria a ter na fluidez do jogo e se, por exemplo, não baixaria ainda mais os blocos das equipas consideradas mais fracas. A sua outra proposta parece-me mais exequível e não mexerá tanto com a abordagem ao jogo.

    Finalmente, estou de acordo que também deveria haver abordagem disciplinar aos árbitros e VAR . É que isso deveria decorrer do grau de conformidade das suas decisões. Imagine que no escrutínio da acção de um VAR se descobre um erro grosseiro, ou manipulação, o que se faz? Vai para a jarra, é irradiado? Fica a decisão nas mãos do Conselho de Arbitragem ou no de Disciplina? Nós vamos lendo punições duras do Conselho Superior de Magistratura a juizes, alguma vez vimos uma acção semelhante por parte do Conselho de Arbitragem? O último árbitro conhecido a ser irradiado foi o Francisco Silva. E antes o Inácio de Almeida. Ora, o Inácio de Almeida foi há 40 anos. Pelo meio tivemos o apito dourado, escutas que todos pudemos ouvir, recentemente os emails, mas o modus-operandi do Conselho de Arbitragem levou-nos a crer em todos estes anos que os árbitros são todos meninos do coro. Assim, funcionando o corporativismo, nem e distinguem os bons dos maus, o que tb não é nada justo ou encorajante para quem honra a profissão. Adicionalmente, a opacidade acentua o fanatismo na análise por parte do adepto que se vê potenciado pelo anonimato ou semi-anonimato das redes sociais, ruído que se torna insuportável. Como tal devemos estabelecer regras. É o que falta muitas vezes neste país: regras e controlo das mesmas. Adicione-se transparência ao processo e todos respiraremos melhor. E o adepto ficar-se-á no gosto pelo jogo.

    PS: aquele lance do fora de jogo ao Pote analisado em tempo real é fora de jogo claro, pelo que se não houvesse VAR não tenho dúvida que seria sumariamente anulado pelo auxiliar (como aliás foi, havendo porém recurso para o VAR). Pelo menos o VAR veio assegurar a existência de uma nova apreciação. Mas também trouxe outra coisa: se antes se duvidava do árbitro, agora transferiu-se esse sentimento para o VAR. Seria por isso relevante que houvesse um comité que escrutinasse as decisões do VAR. Isso não inverteria as decisões no jogo, mas penalizaria à posteriori quem não usasse com critério a ferramenta que visa dar verdade desportiva ao furebol.

    SL

  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Mais sobre mim

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Mensagens

    Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2021
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2020
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2019
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2018
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D

    Castigo Máximo

    De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

    Siga-nos no Facebook

    Castigo Máximo

    Comentários recentes

    • Pedro Azevedo

      Caríssimo Aboím, ganhámos!!! Mas podíamos ter poup...

    • Aboím

      Num comentário anterior eu deveria ter escrito (co...

    • Aboím

      Caríssimo Pedro,Falhamos os dois e não tenho vergo...

    • Pedro Azevedo

      * Faltou um ponto de interrogação (no final do arc...

    • Pedro Azevedo

      Caríssimo Aboím, não há jogo da Selecção de Todos ...