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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

22
Jul19

Treinador bom vs treinador adequado


Pedro Azevedo

O Sporting é um clube que para ser sustentável tem de apostar na Formação. Ao contrário do nosso rival Benfica, a quem o negócio de compra/venda de jogadores parece assentar bem e ser muito glamoroso, a experiência do Sporting no mercado tem sido quase calamitosa. E digo quase, porque o clube não se tem dado mal recentemente num segmento um pouco mais elevado, tendo conseguido contratar jogadores como Coates, Mathieu, Wendel, Acuña, Dost ou, o nosso Rei Leão, Bruno Fernandes. É certo que também veio um tal de Alan Ruiz, mas quando comparamos com a saga dos Carlos Miguel, Kmet ou Gimenez de outro tempo, há que dizer que houve uma clara melhoria nesse aspecto. Infelizmente, é o conjunto de aquisições no chamado "middle market" que vai deixando as nossas finanças depauperadas, essencialmente pela quantidade de apostas mal sucedidas que temos protagonizado. Jogadores como Viviano, André Pinto, Petrovic, Misic, Bruno Gaspar ou Jefferson, a que se poderiam adicionar várias dezenas de outros só na última década, têm reduzido mercado e elevado ordenado, constituindo uma enorme dor de cabeça para quem gere as finanças do clube. 

 

Tomando a aposta na Formação como um factor crítico de sucesso, mais do que avaliar se o treinador a contratar é bom ou mau, importante é saber se é adequado à nossa política. E creio ser aqui que tem residido o busílis da questão. Por exemplo, Leonardo Jardim foi um treinador adequado para o Sporting, numa altura em que se reduziram os custos com pessoal na SAD de €42 milhões para €25 milhões. Este corte nos custos só se tornou possível pela aposta na Formação. Nesse sentido, William, um jogador que se encontrava desterrado na Bélgica (Cercle Brugge), foi chamado à primeira equipa, destronando um jogador bem querido de parte da massa associativa (Rinaudo). Um sinal de uma nova política que englobou também Adrien, Cedric, Wilson Eduardo, André Martins, Carlos Mané ou Eric Dier (para além de um já bem instalado Rui Patrício). Já Jorge Jesus, independentemente das suas competências, não terá sido o treinador adequado para o Sporting, na medida em que fez estagnar toda uma geração de jovens (hoje entre os 23 e os 25 anos), "obrigando" o clube a recorrer constantemente ao mercado, inclusivé na procura de uma quantidade de jogadores redundantes, visto apresentarem uma qualidade igual ou inferior ao que tínhamos na nossa Formação. É que quando se fala que urge baixar os custos com pessoal até aos 50 milhões de euros, é bom não esquecer que a diferença para o valor actual (€70 milhões) são essas "gorduras" de que falamos em cima, excedentários esses que ajudam a justificar o seguinte cenário: os 10 jogadores mais bem pagos custam 23 milhões de euros anuais; o restante plantel (total de mais de 80 jogadores) tem um custo equivalente ao dobro, com destaque para o bucket dos jogadores entre os 10 e os 30 mais bem pagos, que nos custam cerca de 20 milhões de euros (dados retirados da Auditoria que se tornou pública e referentes a 2018*). 

 

Keizer tem uma ideia positiva de futebol. Quando comete um erro de arranjo táctico da equipa, raramente o repete, notando-se que aprende (vidé jogos com Benfica). Os jogadores parece gostarem dele. Tudo isso são factores positivos. Simplesmente, tenho muitas dúvidas de que o holandês seja a pessoa indicada para rendibilizar a nossa Formação e assim estar de acordo com o modelo de sustentabilidade de que precisamos. Adicionalmente, também não me parece que lhe tenha sido entregue a gestão de todo o departamento de futebol (Formação incluída), pelo que não se afigura simples que as suas ideias de futebol venham a ter correspondência naquilo que se treina nos escalões jovens. É também esta falta de abordagem "top-down" que nos vem afastando, ano após ano, da glória. Só assim se compreende o desperdício de um talento como Daniel Bragança, um rapaz que merecia um modelo de jogo que privilegiasse a construção desde a posição "6", algo que vimos o ano passado com Gudelj não estar nos planos de Marcel Keizer. Não está, e dada a sua inflexibilidade na forma como pensa as dinâmicas (e o receio em lançar jovens) - mais do que a questão táctica, onde já se mostrou capaz de transformar o 4-3-3 num 3-5-2 - , não é de esperar que venha a estar. 

 

Por tudo isto, mais do que estar a dizer se alguém é bom ou mau, competente ou incompetente, é importante que se perceba se é adequado ao que pretendemos. E, já agora, dentro do que pretendemos, também será importante definirmos se queremos ter um modelo próprio de futebol treinado desde os escalões jovens, ou se queremos estar sempre a mudá-lo em função de cada novo treinador. A ascensão e sucesso na equipa principal dos mais jovens também passa muito por uma ideia de futebol que cumpre definir em cima. Ela seria como a Pedra Filosofal de todo o projecto, a alquimia que mais facilmente transformaria em ouro o produto do labor dos vários artesãos qualificados que ao longo dos anos temos tido em Alcochete.

 

(*) Os Custos com Pessoal em 2018 eram €5 milhões de euros superiores (€75 milhões), mas se descontarmos a diferença entre o ordenado de Jesus e os ordenados de Keizer e Peseiro (mais a indemnização deste último), então concluímos que o custo com o plantel ficou praticamente igual. 

7 comentários

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    Miguel 24.07.2019

    De repente ganhámos em meio ano tanto como nas anteriores cinco épocas. Mas poderá ter razão, que isto de estar tão habituado a ganhar o campeonato todos os anos faz-nos desmerecer as taças.

    E, sim, L. Jardim é bom treinador! É. Por algum motivo era a primeira opção quando veio Keizer. O que me custa neste discurso é o tanto bater num treinador que tem feito um trabalho razoavelmente bom.

    Somos todos treinadores de bancada. Seremos todos melhores treinadores que o Guardiola. Não há treinador que chegue para o Sporting.
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    Pedro Azevedo 24.07.2019

    Para finalizar, num clube monolítico só há uma opinião. Num clube em que eu acredito, com vitalidade e que fomente a criação de ideias e sua implementação, as opiniões dos sócios são incentivaras. Críticas destrutivas sempre haverá, pouco haverá a fazer, mas da participação dos sócios haverá sempre ideias a considerar. Não escrevo nada que não fundamente, meu caro. Mas também lhe devo dizer que das tentativas de reduzir a discussão interna, essa máxima do ‘treinador de bancada’ até é das mais inócuas.

    (Queira desculpar a ortografia ‘corrigida’ por um telemóvel com teclado ‘inteligente’.)
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    JG 24.07.2019

    Padeço do mesmo mal.ortográfico e da mesma posição crítica relativamente ao processo.
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    Pedro Azevedo 24.07.2019

    Adorava ter tido acesso ao processo de criação do corrector inteligente...
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    Miguel 26.07.2019

    Caro Pedro, esta discussão já vai há uns dias, mas permita-me um acrescento. Reconheço ao reler o meu comentário original que o mesmo que saiu num tom azedo, e reconheço a importância da crítica. O que me parece é que teremos passado de demasiada passividade a demasiada impassividade. Ainda que as críticas ao trabalho de Kaizer possam ser justas -- e qualquer outro no seu lugar estaria e estará sujeito a elas, parece-me que, para o bem maior do Sporting, há momentos em que aplaudir é o mais urgente. E o Sporting precisa disso com pão para a boca nos próximos tempos.
    Percebo o exercício que faz, com uma análise de fundo do que considera o melhor trajecto para o Sporting. Mas, pessoalmente entendo que um momento de tréguas é essencial para ajudar a fechar as feridas ainda demasiado expostas. Isso não quer dizer que seja contra a crítica, apenas que cada coisa tem seu tempo.
    Num último remate, o meu comentário original era uma resposta ao comentário anónimo que diz que Kaizer simplesmente põe a jogar o que tem e não "fez" nenhum jogador, o que me parece manifestamente injusto olhando para o quão mais rendeu B.Fernandes com Keizer e para a inclusão de Wendel, que estava quase há um ano no plantel a treinar sem calçar.
    Mais uma vez, as desculpas pelo tom azedo original.
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    Pedro Azevedo 27.07.2019

    ‘Cono’, ‘cobtra-batura’ e afins não são neologismos, advirto-o jã. Parece suaíli (hakuna - Acuña? - Matata), mas é simplesmente o corrector ‘inteligente’ do meu telemóvel. As minhas desculpas.
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