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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

06
Dez20

Tudo ao molho e fé em Deus

Conto de Natal


Pedro Azevedo

Em cada conto de Natal há geralmente uma moral associada. Em sintonia, aquele que ontem foi narrado em Famalicão versou sobre a precariedade do esbanjamento de recursos em face daquilo que pode vir a ser necessário mais tarde por via de uma conjuntura desfavorável inesperada (ou talvez não).

 

Para ilustrar a alegoria, os jogadores do Sporting desataram a oferecer presentes aos do Famalicão. Um dos pais natais de serviço foi o esloveno Sporar, um "omniausente" capaz de permanecer em campo durante cerca de uma hora sem que se vislumbrasse uma razão plausível para o efeito. Nuno Santos também não resistiu à chamada e aos 21 minutos perdoou uma grande penalidade. Já Adán começou por cometer um pecado original quando permitiu que a bola o sobrevoasse no lance do primeiro golo, para mais tarde vir a orientar audivelmente a barreira para a direita aquando da conversão de um livre em que acabou por se lançar tarde a uma bola que entrou pela sua esquerda. Pedro Gonçalves não quis ficar atrás e fez-se expulsar infantilmente por alegadamente pontapear a bola para longe quando o jogo estava parado. Ainda assim, essa acção tem mais que se lhe diga, pelo que a incluirei num capítulo à parte dedicado ao Scrooge de serviço na Cidade do Futebol. Também João Mário desperdiçou a oportunidade de incensar a exibição leonina, mas o senso do seu pé direito apontou mais para o desporto da bola oval e lá foram 3 pontos para Gales e só um para Alvalade. Por fim, como se os presentes não fossem já em número considerável, Borja entrou e logo entregou o ouro ao bandido, perdendo a bola infantilmente e permitindo o desequilíbrio que viria a resultar no livre que empatou o jogo. É certo que pelo meio houve dois momentos maravilhosos protagonizados por pedros que afagaram o coração dos Sportinguistas: num, o Pote fez recordar o que terão sido os natais dos portistas quando imitou a arte de Deco em jogada e golo de finíssimo recorte técnico terminada com um daqueles passes à baliza indefensáveis a que já nos habituou; no outro, o Porro deu ares de Alexander-Arnold quando de livre fez abanar as redes famalicenses. A estes dois momentos contrapôs Palhinha com um tempo inteiro, noventa minutos de alta intensidade a procurar contribuir para um Natal de felicidade de todos os Sportinguistas.

 

Ilustrada a oferta em demasia, passemos então à conjuntura. Para tal, sirvamo-nos de Luis Godinho, o árbitro que apitou os dois únicos jogos em que o Sporting perdeu pontos no campeonato. Sendo certo que Godinho não deverá ser neste momento benquisto em Alvalade, a verdade é que dentro do campo, tanto no lance de Pote com Zaidu - aquando da deslocação do Porto - como ontem no golo tardio anulado a Coates, sempre decidiu em primeira instância a favor do Sporting. Vendo intensidade no encosto do defesa portista (mais duradouro) e não a vendo no encosto do defesa Sportinguista (um ligeiro toque). Todavia, em ambos os casos reverteu a sua primeira decisão. E porquê? Devido a conselho do VAR, uma espécie de legião de scrooges com suposto apoio tecnológico que ameaça atormentar o Natal dos Sportinguistas. E assim, Tiago Martins não viu suficiente intensidade em Zaidu e Artur Soares Dias viu intensidade suficiente em Coates. Ou, pelo menos, colocaram a dúvida razoável na cabeça de Godinho. Em ambos os casos as decisões finais foram contra nós, pelo que talvez não fosse mal pensado que o Conselho de Arbitragem e os homens do VAR no próximo Natal fossem presenteados com um amperímetro. Com um amperímetro, ou mesmo com um pontapé no rabo. Tudo por motivos científicos, claro está, que o importante é que se possa testar a intensidade. A intensidade e a uniformidade de critérios, bem entendido. Adicionalmente, também me preocupa que nos queiram partir o Pote de Ouro. Começando por o amarelar de uma forma que deixa muitas dúvidas, para depois o tirar deste e de um outro jogo após uma falta que só existiu na imaginação prodigiosa do senhor Godinho. Mesmo dando de barato que a segunda demão de amarelo tenha surgido após extemporânea reacção do Pote e não pela infracção em si, algo que à hora a que escrevo não consigo garantir com toda a certeza, certo certo é que no próximo jogo o Pote será jarra.  

 

Conclusão (para além da moral inerente ao esbanjamento): o futebol português é difícil de compreender mesmo à luz da sapiência de um Aristotéles. E este foi aluno de Platão, o qual por sua vez aprendou com Sócrates, pelo que imagine o Leitor o conhecimento que acumulou! Entre outras coisas não menos célebres, deixou-nos o seu silogismo. Ora, o VAR foi-nos vendido como suficiente para que a verdade desportiva prevalecesse. Seguindo o silogismo aristotélico, se o VAR é composto por árbitros, então os árbitros também seriam suficientes para que a verdade desportiva prevalecesse. Mas então não foi por os árbitros não serem suficientes à verdade desportiva que se criou o VAR? O que nos leva a deitar fora o silogismo aristotélico e evoluir para a adaptação do silogismo nietzschiano à realidade da arbitragem portuguesa: se o árbitro "não existe", então vale tudo, tudo é permitido. Para não sermos tão radicais, recorramos então a Wittgenstein e ao seu "Tractatus Logico- Philosophicus", em que estabelece que uma proposição é uma representação figurativa dos factos, tal como uma maquete é uma representação figurativa de um edifício. Assim, recorrendo ao filósofo austríaco, juntando duas proposições e não perdendo de vista a maquete e o edifício, é possível formular a fortíssima hipótese de que a verdade desportiva está para os árbitros ou ex-árbitros que compõem o VAR como a obra-prima do Mestre está para a prima do mestre-de-obras. Porém, para os mais optimistas do Conselho de Arbitragem a coisa ainda provavelmente ficará inconclusiva na medida em que representará dois estados hipotéticamente reais (o VAR é a verdade desportiva, a prima do mestre-de-obras é a obra-prima do Mestre), sendo certo no entanto que a única salvação do edifício onde se alicerça a arbitragem portuguesa será o mestre-de-obras ser sobrinho do Mestre e a filha deste ser a Kate Beckinsale. Ou isso, ou o VAR ser constituído por não-árbitros. Estamos entendidos? 

 

P.S. Na geometria descritiva aprende-se que duas rectas paralelas só se encontram no infinito. Ontem aprendi que a excepção a esta regra é um ponto localizado no Conselho de Arbitragem onde as rectas se reunem apressadamente aos sábados à noite. Que outra forma haveria para justificar a intersecção de pontos de vista entre alguém conhecido por não ver o que toda a gente viu (João Ferreira, mão de Ronny) e outro alguém famoso por sancionar o que mais ninguém viu (Lucílio Baptista, "mão" de Pedro Silva)?  Enfim, deve ser um erro de paralaxe... 

 

Charles Dickens do "Tudo ao molho...": João Palhinha

palhinha2.jpg

2 comentários

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    Pedro Azevedo 07.12.2020

    Bom dia, caro Gaspar.

    Gostei da forma como o Sporting se impôs no jogo e com uma boa circulação foi contornando as zonas de pressão do Famalicão, equipa que jogou com um bloco muito mais baixo do que é costume, sinal de que este Sporting já mete respeito. De alguma forma alertei em Post imediatamente anterior que isto vai acontecer muito mais vezes a partir de agora. Se o próprio Famalicão alterou a sua forma habitual de jogar, imagine-se o que virá aí. Nesse sentido será necessária eficácia. Anteontem faltou-nos essa eficácia. Tanto ofensiva como defensivamente, falhando penalidades, permitindo golos nas duas únicas iniciativas de algum perigo dos minhotos. Neste cenário que se perspectiva em que haverá menos espaços para explorar realça a necessidade de termos um ponta de lança de área. A meu ver esse homem existe no plantel e chama-se Pedro Marques. É preciso dar-lhe uma oportunidade. Também Max deverá ter a sua oportunidade. desde logo porque para mim Adán já esteve ligado a pelo menos 4 golos: Lask (livre), Santa Clara (saída extemporânea da baliza), Famalicão (frango e má orientação da barreira/hesitação em lançar-se à bola). Devemos continuar a jogar e encantar como em Famalicão, mas precisamos de ser eficazes e não distribuir presentes durante os jogos.

    Quanto a Luís Godinho, temo que não venha a ser o único. A arbitragem de Godinho não se circunscreve à anulação do golo a Coates. No capítulo disciplinar a não-uniformidade de critérios foi gritante - ontem David Carmo, do Braga, foi expulso directamente em lance muito menos aparatoso do que o protagonizado pelo jogador famalicense que entrou de sola sobre Antunes - e tenho dúvidas em lances em que poderão ter ficado penalidades por apontar. Refiro-me ao lance sobre João Mário é aquele que envolveu Pote. Neste último, a SportTV não mostrou nenhum ângulo em que fosse claro que o guarda-redes tenha tocado na bola primeiro e não tocado em Pote. De qq forma, este, à velocidade a que ia, iria sempre cair ao mais leve toque pelo que jamais isso deveria ter sido motivo para admoestação.

    Temos de nos concentrar no que depende de nós. Nesse capítulo, ontem poderíamos ter feito mais. Eventualmente não em termos de qualidade de jogo, mas certamente no que diz respeito à eficácia. Não matámos o jogo quando deveríamos, e assim colocámo-nos a jeito para aquilo que não controlamos. A vantagem de assimilarmos rapidamente isto é o reforço do foco em nós próprios. A armadilha inerente a irmos para o campo a pensar na dualidade de critérios de arbitragem é isso nós retirar o foco. A gritaria e ruído geral sobre o árbitro faz parte da novela habitual da bola mas não vai resolver nada. A pronta reacção do CA disso é elucidativo. A questão da arbitragem não pode ser tratada de forma conjuntural, mas sim estrutural. O resto é muito bom só para vender jornais, mas tal como Sporar nos últimos tempos terá eficácia nula.

    Saudações Leoninas
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