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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

27
Jan21

Tudo ao molho e fé em Deus

O Gozão de Higgs


Pedro Azevedo

Ontem, no Bessa, confirmou-se que este Sporting é muito forte na transição. Tão, tão forte que, tendo entrado no campeonato como "underdog", chegou ao tabuleiro axadrezado com indícios de cão-peão, uma importante evolução na cadeia alimentar. Ainda assim, não suficiente para se ver livre do bispo, que mexe-se de forma enviesada. E, se o cão late, o bispo ladra, o peão, que anda a direito, acaba sempre por ser comido. 

 

O que sofre um Sportinguista não vem descrito na Bíblia. E depois ainda há o Sporar, suspeito de causar taquicardias a um monge tibetano. Por isso a melhor estratégia é fazermos como o Professor Cavaco e nunca assumirmos nada: ah e tal, vamos só ali à Figueira fazer a rodagem, e quando derem por nós estamos a sair de lá entronizados. Tal nunca foi possível com Jesus, que é sabido ter amaldiçoado a figueira (Mateus 21: 18-22), mas pode ser que aconteça com o Rúben. Até aposto que ele anda a ler a biografia de Aníbal e tudo. Se eu estiver certo, a sua rodagem será o "jogo a jogo". E, se no fim vencer, será menino para deixar de "trombas" o Conceição. Seria do car(t)ago! Quanto a JJ, ficaria com o triplo da azia.

 

Para tentar contrariar o 3-4-2-1 do Sporting, o Boavista dispôs-se num 5-3-2. A ideia de Jesualdo Ferreira era povoar o mais possível a defesa, precavendo a entrada desde trás dos interiores leoninos, não deixando porém de ter vantagem numérica no miolo do terreno. Só que Matheus e João Mário foram variando inteligentemente o centro do jogo e a postura defensiva dos do Bessa convidou Nuno Mendes e Porro a montarem um acampamento à entrada da área do Boavista. Não surpreendeu assim que, após um curto período de estudo mútuo, o Sporting desatasse a criar oportunidades de golo. E até marcou à primeira (Nuno Santos), embora depois tenha tido oportunidades de primeira que esbanjou por Sporar, Jovane e João Mário. Atrás a coisa esteve tranquila, tendo o lance mais perigoso criado pelos boavisteiros pertencido a Neto, jogador que continua a mostrar que faz bom balneário tanto fora como dentro do campo, desta vez altruisticamente permitindo a um enregelado Adán brilhar.  

 

O segundo tempo começou na mesma tónica. O Matheus roubou uma bola e com uma chicuelina tirou dois do caminho. De seguida, tocou no Nuno Mendes, que deu mais à frente no Nuno Santos. Bola para um lado, jogador a fugir pelo outro, num jeito nada católico para um axadrezado, o Santos apareceu solto na grande área. E deu de bandeja ao Sporar. O que a aconteceu a seguir é difícil de explicar, pese embora tenha vindo a ser objecto de estudo pormenorizado do "Tudo ao molho...", recorrendo-se à ciência - Princípio da Impenetrabilidade da Matéria - , ou até ao sobenatural - holograma de um ponta de lança morto como goleador - para o tentar compreender, continuando a ser um mistério a forma como a bola insiste em perpassar o esloveno como se do vazio se tratasse. Quer dizer, de vazio somos nós cientificamente quase 100% feitos, mas depois há um campo magnético que liberta uma partícula (dita "de Deus") que faz com que o nosso corpo se adere como uma tela esponjosa e ganhe uma massa. Ora, aparentemente, se o nosso corpo sim, o do Sporar não. O que faz com que o Sporar tenha sido a melhor contratação de sempre do Sporting, na medida do que o seu descobrimento significou para a ciência: é que o esloveno desafia a Teoria do Bosão de Higgs. Mais, diria até que Sporar é o Gozão de Higgs...

 

O jogo ia para o fim e esta coisa da vantagem mínima cria sempre alguma tremideira. Noutras épocas, esta esmerada arte de perdoar pagar-se-ia com língua de palmo, mas este Sporting de Rúben Amorim a tudo parece resistir. Vai daí, o Rúben quis dar mais solidez à equipa. Primeiro entrou o Bragança, depois o Palhinha e o TT. Com isto, o João Mário e o Matheus passaram de médios centro para interiores, procurando resguardar mais a equipa. Até que o Porro apanhou uma ressaca (de bola), tomou consciência da sua recepção e orientou-a para o nosso bem comum, transferindo assim as dores de cabeça que já se faziam sentir na sua e nas nossas cabeças. Ficava sentenciado aí o jogo. Depois, a coisa até deu para o Matheus dar dois ou três metros de avanço a um trio de boavisteiros e ainda ir apanhar a bola à frente mesmo que um deles estivesse fresquinho por acabado de entrar, que o xeque-mate no tabuleiro axadrezado já estava consumado.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hesitei muito na hora de atribuição desta menção. Na verdade, à hora que escrevo ainda estou hesitante, mas se calhar são nervos. Não será assim uma escolha totalmente convicta. Pela primeira parte a menção assentaria bem a Nuno Mendes (de referir que, na segunda parte, salvou um golo certo com um subtil desvio de cabeça). Nuno Santos não esteve assim tanto em jogo, mas fez um golo e quase uma assistência, também poderia ser uma opção. O Porro marcou um golo do outro mundo e fez a minha pulsação voltar a um semi-normal, poderia perfeitamente ser o escolhido. Contudo, acabei por optar pelo Matheus Nunes, que fez um jogo enorme em que alardeou técnica, leitura táctica e disponibilidade física. Assim, até porque tem habitualmente menos visibilidade que os restantes, escolhi-o para Melhor em Campo. 

 

P.S.1: Inacreditável o cartão amarelo a Palhinha que em princípio o retira do derby. Até a hipótese de falta seria difícil de promover, quanto mais a acção disciplinar.

P.S.2: Os meus sentimentos às famílias e amigos de Jozef Venglos (ex-treinador do Sporting) e de John Mortimore (ex-treinador do Benfica), antigos treinadores que faleceram ontem. O mínimo que se pode dizer é que nunca fizeram mal ao futebol. Venglos foi muito conceituado no futebol europeu e devidamente apreciado pela FIFA, Mortimore ganhou títulos em Portugal. RIP!

P.S.3: Após uma nota triste, uma nota alegre: Rúben Amorim completa hoje 36 anos. Parabéns, Mister! 

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2 comentários

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    Pedro Azevedo 28.01.2021

    Caríssimo Aboím,

    o amarelo ao Palhinha reflecte a cor do futebol português. É capaz de ser icterícia, excesso de hiperbilirrrubinemia, causada na decomposição dos glóbulos vermelhos que transportam oxigénio quando esta não é bem processada no fígado e canais biliares e a bilirrubinemia se acumula no sangue. Claro que fígado e canais biliares são metáforas.

    Eu não quero viver num mundo em que um treinador não mete um jogador não por temer que ele faça uma falta merecedora de sanção, mas por temer que um qualquer determinado juiz arbitrariamente o puna. Isso seria (é) a negação do futebol. E os homens do bem que existam neste país não se podem confirmar com uma situação destas. Por isso sempre digo que há que ser inteligente e diligente no sentido de alterar a montante todo o quadro do futebol português. Adicionando-lhe transparecia e equidade. E o governo também deveria ser parte do processo. Pensar que o futebol português se auto-regula é uma quimera em que ninguém acredita. Coisa provavelmente de liberais, os mesmos que puxaram pela auto-regulação da banca nos EUA e depois foi o que se viu em 2007/8. É uma das razões pela qual o futebol nunca pode ser auto-regulado é porque ninguém quer perder o poder e arriscar-se a que esse poder se transfira para o rival. Porque ninguém acredita verdadeiramente que o outro quer fazer diferente, acredita sim que o outro diz querer fazer diferente para lhe diluir o poder. Por isso o Estado deve intervir. Como? Criando regras claras de prevenção , que vão desde os conflito de interesses ao branqueamento de capitais, garantindo que os processos de seleção dos árbitros via federação (associações) é transparente e meritocrático, etc. Trabalhando com os reguladores do futebol (Liga e FPF), mas exercendo a sua influência (e não só, a federação tem autonomia, mas tem o estatuto de utilidade pública e tem o seu grande rendimento na participação de Portugal em eventos desportivos internacionais). Li o que encontra disponível sobre o Código de Conduta da FPF e ligação sua da UEFA/FIFA e sinceramente parece-me insuficiente a diferentes níveis. E a suspeição generalizada faz mal à indústria do futebol na medida em que alimenta ódios e não o amor ao jogo. O problema é que a suspeição parece ter toda a razão de ser e é aí que se deve actuar no sentido de prestar garantias de transparência, idoneidade, integridade e equidade. Mas depois vêm sempre os senhores dizer que é do ruído que se alimenta a paixão pelo futebol... Vê-se, com estádios vazios antes da pandemia, com os clubes todos endividados. Com insultos a toda a hora. Violência. Uma vergonha. Primeiro há que voltar a despertar o amor ao jogo. Isso será como um cromossoma a mais que irá munir o adepto do clube. Se pensam até a indústria vai viver do ódio, então não durará muito. E atenção, nada do que se passa no futebol é indiferente à sociedade em que vivemos. Onde os moderados estão a reduzir-se e os radicais a aumentar. Enfim, food for thought...

    Grande abraço, caríssimo Aboím
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