Tudo ao molho e fé em Deus
O jogo de uma crónica adiada
Pedro Azevedo
O período de aquecimento antes dos jogos serve o propósito de as equipas desentorpecerem os músculos. As equipas da PSP e da GNR falharam o aquecimento. Em consequência, o cassetete ("casse-tête") não trabalhou os abdominais. Sem ameaça de cassetete das autoridades a dobrar por perto, os adeptos mais radicais fizeram o seu próprio aquecimento. Nesse transe, a pedra substituiu a bola perante o delírio de uns ultras que nestas ocasiões ficam sempre de cabeça a andar à nora. Partiram-se cabeças, havendo até traumatismos cranianos a registar para desenjoar do insustentável traumatismo ucraniano causado pela ofensiva imperial russa. A polícia não entrou em campo, não luziu o seu crachá, contribuindo assim para o estado de sítio em Famalicão. Reforços provenientes do Porto foram aguardados como quem espera por Godot. Clínicos gerais e psiquiatras desdobraram-se a passar baixas médicas a agentes das forças de segurança que deveriam ter estado em Famalicão, sem que tal movesse qualquer comunicado ou inquérito por parte da Ordem dos Médicos. O MAI imitou os Trabalhadores do Comércio: "Chamem a Polícia, que eu não pago". No fim, o Sporting não jogou. Depois da greve dos árbitros no final dos anos 90, do amuo de televisão e rádios nos 80s, agora o boicote informal da polícia... (Se um dia a Associação de Adeptos do Futebol decidir por um protesto, já sabemos com quem tomarão uma posição. O mesmo será válido para stewards, apanha-bolas, etc, não sendo de descurar a possibilidade de a própria cal que limita o campo se encantar e tomar uma posição contrária aos interesses do Sporting.)
Entretanto, à hora marcada, enquanto colegas seus mantiveram a baixa para Famalicão, agentes de segurança estiveram em alta no Dragão para a recepção do Porto ao Rio Ave, que o respeitinho é muito bonito e até uma associação sindical que insiste em negligenciar a imagem de perda de autoridade por parte dos seus profissionais sabe que não pode ultrapassar certos limites. Ironicamente, a autoridade mostrada em campo pelos pupilos de Sérgio Conceição foi do mesmo nível da das forças da autoridade, e os vilacondenses roubaram 2 pontos aos portistas sem que ninguém os levasse presos. E assim terminou um jogo (táctico, de pressão, influência e poder) cuja crónica ficará adiada para um outro tempo, no mínimo até após o Benfica passar para primeiro à condição. (O título de "Crónica de um jogo adiado" perpassou-me as sinapses, mas não reflectiria tão bem a realidade ontem vivenciada.)
O estado a que isto chegou... Ou melhor, o Estado a que isto chegou...
Tenor "Tudo ao molho...": A Polícia Judiciária
P.S. O Benfica conseguiu finalmente ser líder. O PIB irá subir (mesmo em contra-ciclo) e já se poderá pagar melhor à Polícia. Tudo na santa paz do Senhor, portanto...
P.S.2 Já se sabia que o futebol português eram 11 contra 10 e no final ganhava o Benfica. O que não se sabia é que era também 20 contra 19 (jornadas) e no fim o líder é o... Benfica.

