Tudo ao molho e fé em Deus
Arrasador !!!
Pedro Azevedo
Ontem à noite, vi o jogo na SportTV. O Sporting foi arrasador, como se os Leões tivessem montado uma rede assente entre as laterais do rectângulo de jogo e aquela equipa das camisolas esquisitas fosse constituída por um conjunto de mesatenistas que viam a bola permanentemente embater nela e ser devolvida. Nesse transe, cedo o Frimping-pong atirou a bola contra o Morita, para ela depois ricochetear para dentro da sua própria baliza. Enquanto o VAR analisava o lance, o Rui Orlando pareceu querer limitar os danos, ignorando durante todo o tempo que a bola havia batido primeiramente na mão do neerlandês e depois afanosamente apontando à tese do auto-golo, como se de um auto-golo fosse de esperar menos golo do que um golo marcado de outro modo, no que constituiu um raro momento de niilismo televisivo, que o pobre do Carlos Brito ainda procurou refrear, caracterizado por uma visão céptica e pessimista em relação à realidade como (quase) todos a vimos. [Pensando bem, se o estilhaço de uma explosão cósmica levou 100 milhões de anos até atingir a Terra (Yucatán) e extinguir os dinossauros, por que não pode o Rui Orlando demorar 90 minutos a perceber o que é um ricochete? Pode, claro.]
O jogo também me marcou pela novidade de o ter visto na companhia de um amigo benfiquista. Tratou-se de uma experiência única e enriquecedora, na medida em que me trouxe outro ponto de vista sobre o jogo. Passo a explicar: enquanto eu procurava a acção no campo, o meu amigo entretinha-se com uma espécie de "Onde está o Wally?", tentando identificar o Boaventura no túnel, numa esquina, junto ao balneário, enfim um pouco por todo o lado, manifestando-se por fim muito surpreendido e triste pelo facto de não ter conseguido ver um filantropo assim em Moreira de Cónegos. Em contraste, estava eu centrado no meu ponto de vista quando o Geny foi por ali fora e soltou para o Trincão no tempo certo. Este deixou correr a bola até à linha e depois fê-la filantropicamente bolinar na direcção do Pote. Seguiu-se o habitual passe à baliza e estava feito o dois a zero. [Brincadeirinha minha, que o meu amigo é um tipo às direitas.]
Se Amorim é grande adepto de Guardiola, as semelhanças do futebol do Sporting com as ideias de Klopp não deixam de ser reais. No Gegenpressing (Gyokeres, Morita, Hjulmand e Nuno Santos foram extraordinários), na transição rápida, na energia contagiante com que os jogadores estão em campo, como se a equipa fosse uma banda de heavy-metal itenerante. Todavia, por contraste, já se sabe que dos metaleiros se podem esperar as mais belas baladas, pelo que nos são dadas a ver nuances da mais pura filigrana. Como as que apresenta o Kaiser Quaresma, um defesa com pés de bailarino clássico, destreza de ilusionista e espírito de aventureiro, novamente em destaque em Moreira de Cónegos. Para não falar em Pote e na sua delicada execução do já famoso passe à baliza, Art-Deco do melhor que já se viu por cá. Pensei nisto tudo enquanto decorria o intervalo... No segundo tempo, o Sporting manteve a pressão sobre o Moreirense. Embora menos concludente no que fazer com ela, a equipa soube não conceder espaços aos minhotos. De tal forma que a única oportunidade de golo do Moreirense ocorreu já nos descontos, um ar de graça final depois de um jogo inteiro de privações. Como o último suspiro de um moribundo. [Seguimos jogo a jogo, se a Polícia deixar.]
Tenor "Tudo ao molho...": Pote

