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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

01
Set19

Tudo ao molho e fé em Deus - A insolucionável quadratura do círculo


Pedro Azevedo

No arranque dos trabalhos, Frederico Varandas disse na SportingTV que a época há muito que estava planeada. Realmente, há desastres que requerem elaborado planeamento: para começar, escolhe-se um treinador da escola do Ajax que faltou às aulas do clube de Amesterdão e é alérgico à Formação. Depois, recruta-se um pomposo "Scouting" e vai-se ao mercado comprar 11 jogadores - muitos para posições redundantes enquanto outras ficam sem rede - dos quais só um (Doumbia) é titular, sem que se perceba nitidamente se o treinador foi tido ou achado no processo. De seguida, o treinador tenta encaixar à força um segundo reforço na equipa, nem que para isso tenha de desencaixar outros três já rotinados a jogar de perfil entre si, criando-se o insolucionável problema da quadratura do círculo central do terreno. Em simultâneo, após trinta e cinco milhões de euros investidos (fora comissões pagas no Mercado de Verão), qual Sotheby`s, a SAD desdobra-se em contactos internacionais para vender os seus melhores jogadores, conseguindo assim de uma só penada desestabilizar um balneário inteiro sob a forma de Planos A, B, C. Desde o Grande Prémio do Mónaco em BF8, até notícias que correm nos jornais sobre as possíveis saídas de Coates e Acuña, passando pelo inenarrável episódio-Bas Dost, ninguém aparentemente está a salvo. Se por um lado há leilões, por outro assistimos a saldos ou liquidações totais. Assim, jogadores da nossa Formação são dados, emprestados com cláusulas de opção de compra generosas para os compradores, ou vendidos por tuta e meia. Adicionalmente, o lote de excedentários é posto a treinar à parte desde o início da época - uma boa forma de desvalorizar activos - até que, dois meses de ordenados pagos depois, um a um vão saindo a preço zero, um tipo de gestão que poderia ser praticado pela minha filha de 7 anos. Bom, pelo menos poupamos nos custos financeiros inerentes à antecipação de proveitos (factoring)...

 

Hoje, na recepção ao Rio Ave, Marcel Keizer insistiu na Táctica do Quadrado, sistema inventado para emparceirar Vietto com Bruno Fernandes. A ideia genéricamente consiste em fazer recuar Wendel para a mesma linha de Doumbia, ao mesmo tempo que Bruno Fernandes avança um pouco para se juntar à linha onde se encontra o falso ala Vietto, criando-se assim um posicionamento em quadrado no meio campo. Simplesmente, existiram dois problemas: primeiro, como haviamos advertido após o jogo em Portimão, este sistema teria de ser testado contra equipas que jogassem com 2 médios defensivos e não apenas 1. Sem necessidade de colocar o seu ala direito a acompanhar o argentino nos movimentos interiores, porque o médio defensivo a mais garantia uma marcação à zona eficiente, Carvalhal pôde aproveitar o espaço que o flanco esquerdo leonino concedeu durante todo o jogo, uma forma permanente de escape quando o Sporting tentava pressionar; em segundo lugar, o desaparecimento das 3 linhas do meio-campo leonino permitiu aos vilacondenses encontrar muito espaço entre-linhas no nosso meio campo, bastas vezes colocando os seus jogadores entre as duplas BF/LV e MW/ID. Dessa forma, o quadrado leonino assemelhou-se durante todo o jogo a um queijo suiço, daqueles cheios de buracos no meio. Emmental, meu caro Keizer!

 

Durante o jogo, o Sporting viveu essencialmente da superior qualidade técnica de alguns dos seus jogadores, Bruno Fernandes à frente de todos. Foi aliás Bruno que imaginou e concluiu portentosamente o lance do primeiro golo leonino e que esteve também perto de marcar o segundo não fora a intervenção milagrosa de Kieszek. É impressionante como o nosso capitão carrega o peso do mundo Sportinguista nos ombros, mas desta vez tal não foi suficiente. Sagaz, Carvalhal soube explorar a técnica e velocidade do iraniano Taremi, posicionando-o em cima do mais lento Coates. Dando espaço aos médios rioavistas para pensar e colocar a bola, o Sporting estendeu a passadeira, perdão, o tapete persa na sua linha defensiva por onde Taremi provocou grandes estragos. Um truque repetido uma e outra e ainda outra vez, num hat-trick de penáltis ganhos por Taremi e concedidos por Coates, facto inédito no futebol português. De nada valeriam as duas ofertas vilacondenses sob a forma de ressaltos na área prontamente aproveitados por Bruno e Phellype, pois a superioridade da qualidade de jogo do Rio Ave ainda assim conseguiu ditar leis.

 

Acresce que os nossos alas continuam sistemáticamente a definir mal, o que me faz pensar nas palavras de Slaven Bilic, treinador do West Bromwich, esta tarde após a vitória da equipa de Birmingham sobre o Blackburn Rovers (3-2): "Matheus Pereira é um jogador muito bom, faz a diferença no último terço. É bom com a bola, tem boa visão de jogo." - Matheus Pereira, pela primeira vez titular, fez duas assistências para golo, isto depois de na semana passada já ter garantido um empate à sua equipa após grande penalidade cometida sobre si.  

 

Podia ainda escalpelizar a entrada de Borja (em detrimento de um ala) que implicou mexida no sector recuado, na evidência de um Vietto desinspirado que não defende e assim é um jogador a menos, na extraordinária oportunidade dada a Plata de jogar 1 minuto, ou nas três grandes penalidades marcadas em Alvalade contra o Sporting - ai Jesus (o outro), devo ter de viver 10 vezes para vêr algo semelhante ocorrer na Luz ou no Dragão - , mas sinceramente hoje falta-me em espírito e ânimo aquilo que me sobra em tristeza.

 

Sem sustentabilidade, sem Cultura corporativa, sem resultados desportivos relevantes (mínimo=qualificação para a Champions), quo-vadis Sporting?  

 

P.S.1: Recupero aqui um pequeno excerto de uma entrevista concedida por Malcolm Allison ao jornalista Neves de Sousa, onde após a sua saída de Alvalade tentou explicar a sua filosofia sobre os clubes de futebol: "O director compra as sementes e é o jardineiro. O médico aconselha os adubos. O treinador é o Sol. (N.A. os sócios são o solo fértil.) Quando os directores ficam convencidos de que são espertos de mais e sabem tudo, cai o império. É o fim, o Sol não volta e as flores murcham e morrem." - com a devida ressalva em relação ao eclipse solar prolongado de Keizer, após um início retumbante (o que terá acontecido ao futebol sem medo, de pressão alta e recuperação em 5 segundos?), é difícil não ficar a pensar nestas palavras proferidas por Big Mal. 

P.S.2: Pegando no que escreve o meu amigo José Navarro de Andrade no "És a nossa FÉ", façam o favor de permitir que se possa entoar "O mundo sabe que..." sem que entretanto comece o jogo. O Sporting tem de ter alma, essa música é para ser sentida, é um momento de reclusão, de introspecção dos nossos sentimentos leoninos, que não deve ser dividido com a emoção própria exteriorizada num lance de futebol.

sportingrioave 2.jpgTenor "Tudo ao molho": Bruno Fernandes

2 comentários

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    Pedro Azevedo 02.09.2019

    Obrigado!

    Já o tinha lido em diversos comentários em "A Insustentável Leveza de Liedson", blogue que faço sempre questão de acompanhar. Sofre-se muito com o futebol do Sporting, mais ainda quando se está longe como é o seu caso. Recordo-me do que se passava comigo no início dos anos 90 em Londres, época em que ainda por cima não havia os meios (plataformas) que há hoje para se poder acompanhar os jogos do nosso Sporting. Os jornais portugueses (tri-semanários, quadri-semanários) chegavam com 1 dia de atraso a uma tabacaria em Chelsea e recordo-me da avidez com que ia ler as noticias do clube. Praticamente só se encontrava A Bola nesse tempo...
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