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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

20
Jun19

Venha viver uma experiência radical - Um estádio "às moscas"


Pedro Azevedo

A Lei da Procura diz-nos genericamente que o preço e a procura estão inversamente relacionados. Quando o preço de um bem ou serviço sobe, o poder de compra diminui e os consumidores mudam para bens ou serviços mais baratos (efeito de substituição). Considerando o rendimento limitado, essa realocação de bens e serviços dependerá de preferências, restrições orçamentais e de escolhas, podendo ainda se dar o caso de o consumidor deixar simplesmente de consumir o tipo de bem ou serviço, especialmente se não for de primeira necessidade. 

 

Olhando para a última estatística disponível no site da Liga, verificamos que o Sporting teve uma média de 33 691 espectadores nos seus jogos em casa durante a temporada de 2018/19, o que corresponde a uma taxa de ocupação de 66,73%. Ora, não deixando de considerar que vários portadores de gamebox não compareceram a todos os jogos e que a taxa de ocupação não reflecte, como tal, o que foi realizado economicamente (apesar das "borlas" poderem compensar este valor), não deixa de ser notório que, em média, 1/3 do estádio não teve ocupação, com consequências óbvias em termos económicos, de apoio à equipa de futebol, na Cultura corporativa, identidade do clube, peso institucional, patrocínios, etc. Perante este cenário, dever-se-iam criar condições para que se aumentasse rapidamente a taxa de ocupação do estádio até à sua máxima capacidade, de forma a que, então sim, quando a optimização fosse atingida, se pudesse começar a manusear para cima a variável preço. Porém, a realidade da Gamebox 2019/20 demonstra o contrário, com particular incidência no sacrifício que é pedido às Famílias, por via do aumento significativo registado no escalão sub-11 (a que se pode acrescentar a realidade dos dias de hoje, em que os jovens ficam até mais tarde em casa dos pais e deles são dependentes até pelo menos terminarem os estudos universitários - por volta dos 23 anos - e entrarem na força laboral, o que aumenta os encargos das Famílias). 

 

Antes de mais, e com o estádio ocupado a apenas 2/3, não faz sentido os preços aumentarem. Isso quanto muito poderia em teoria fazer sentido se a subida do preço viesse acompanhada de um aumento de produção de lugares - o que num estádio de futebol é impossível dado que a sua capacidade é limitada (a não ser que fosse proposto cobrir o fosso com mais espaço de bancada) - , ou uma melhoria de produção de eventos, do tipo de uma presença na Champions, algo que infelizmente também não acontecerá. Adicionalmente, do ponto-de-vista político, é uma medida impopular, inoportuna e imprudente, o que julgo não carecer de explicação. Finalmente, analisando pelo prisma da Cultura sportinguista, oferece-me dizer o seguinte: vários anos de ausência de títulos relevantes produziram uma diminuição da militância, mas, curiosamente, não causaram erosão sensível na base de apoio de simpatizantes, adeptos e sócios, tendo estes últimos, inclusivé, vindo a aumentar nos últimos anos. Tal deveu-se em boa parte a um factor distintivo dos sportinguistas: a capacidade que os pais têm tido de passar o amor ao clube aos seus filhos, de uma forma estóica e resiliente, o que tem permitido manter o impacto social do clube. Ora, em minha opinião, esta subida de preços mais sentida no escalão sub-11 é contraproducente a vários níveis, na medida em que em vez de estimular o reforço da presença do agregado familiar no estádio (com consequências positivas até no ambiente nas bancadas, recuperando tempos idos e diversificando o entusiasmo por diferentes sectores do estádio) acabará por o mitigar, porque obrigará em muitos casos a um "downgrade" de lugares com o impacto que isso tem em termos de curva de satisfação e experiência Sporting e, finalmente, porque nalguns casos pais e filhos trocarão o lugar na bancada por um lugar no sofá junto ao televisor, por a taxa marginal de substituição de satisfação do progenitor não pressupor a vantagem de ir à bola com o filho em detrimento de abrir mão de lugares de Categoria 1/2, por exemplo.

 

Há quem use o argumento de que alguns sócios compravam gamebox em nome dos filhos e iam eles aos jogos. Krugman e Wells levantaram a questão de se saber se os indivíduos na busca do seu interesse próprio contribuiriam para o interesse da sociedade no seu conjunto e o caso referido parece indicar que não, mas isso são questões que se deverão resolver com regulação (no caso, fiscalização à entrada através de cores de cartões diferenciadas).

 

Gostaria de terminar, com um reparo ao folheto de promoção do Cartão Gamebox que me chegou às mãos ontem. Nele está contida uma relação explícita entre o amor ao clube e os números que marcam a relação, como se tudo o que conta pudesse ser contado. Há mesmo uma alusão à "dimensão do teu amor". Eu acho triste esta mensagem que poderá não ser muito bem recebida por quem seja sócio há pouco tempo, tenha gamebox há poucos anos, ou seja simplesmente um simpatizante, pois há aspectos que vão desde a distância geográfica, idade, doença, disponibidade profissional, situação financeira, entre outras, que são condicionantes mas em nada prejudicam o amor ao clube. Até estou perfeitamente à vontade dada a minha ligação longa de sócio e portador de gamebox, mas deixo aqui uma nota em jeito de conselho para quem queira ouvir: os sócios são o maior activo do clube. Estes são movidos pela paixão, independentemente das suas circustâncias pessoais. Pensem nisso, no que esses sócios podem dar ao clube e, em primeiro lugar, envolvam-nos no dia-a-dia através de uma Comunicação sóbria, elucidativa, inspiradora e virada para dentro. Depois, sim, um sócio feliz, o elo emocional, a compra por impulso trará o cliente, o qual mais facilmente visitará a Loja Verde se for ao estádio (e menos resistirá ao consumo perante um pedido expresso de uma criança). Ver as coisas ao contrário, no momento débil em que nos encontramos, em que precisamos de nos focar no que nos aproxima e não no que nos afasta, não é muito auspicioso.  

 

P.S. Seja como for, podendo haver quem legitimamente conteste o arrazoado que aqui deixo, creio que numa coisa estamos todos de acordo: este tipo de alteração de preços nunca deveria ter acontecido sem a explicação do seu "porquê". Infelizmente, no Século XXI, continuamos a ter empresas a comunicar o que fazem, como fazem, esquecendo-se da razão das coisas. É que o porquê das coisas é que cria a ligação emocional no sócio, quiçá cliente. No caso concreto, esta subida de preços deveria ter sido acompanhada de um discurso galvanizador do tipo do de Kennedy nas portas de Brandenburg, mas que simultaneamente mostrasse consciência (acusasse a recepção) do sacrifício que se está a pedir às pessoas.

P.S.1. O título deste texto é obviamente provocativo, única e exclusivamente com o propósito de fazer reflectir quem tem responsabilidades no clube. A minha renovação de gamebox será feita como habitualmente. E estou certo que a maioria dos portadores de gamebox tentará, consoante as suas possibilidades, se adaptar.

P.S.2. Um sub-23 (sub-11 também) que compre um lugar de época junto às claques (Categoria 6) gastará cerca de metade do que se acompanhar o seu pai num lugar de Categoria 1/2. Depois admirem-se. Dado todo o histórico recente, não deveríamos ter um Pelouro da Juventude que estudasse estas questões, que aumentasse a oferta aos nossos jovens em vez de a tornar mais redutora, mais própria de um "guetto"? O momento que o clube viveu muito recentemente não nos deveria prestar particular atenção ao segmento mais jovem?

P.S.3. Paralelamente, e atendendo às alterações demográficas em Lisboa, que trabalho está a ser desenvolvido para seduzir os milhares de residentes não-habituais (gamebox) e de turistas (bilhética jogo-a-jogo) com que esbarramos diariamente? Não faria sentido uma campanha de charme junto de embaixadas, consulados, câmaras do comércio, hóteis, etc? 

 

4 comentários

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    Pedro Azevedo 20.06.2019

    Os meus filhos mais velhos já tiveram Gamebox comigo. Cheguei a ter 3 num determinado período, mas depois contingências de preparação para exames, testes, frequências e a prática desportiva (jogos que coincidiam com os horários do futebol) de um deles impedia-os muitas vezes de me acompanharem. Tenho uma filha criança que ainda não consegui levar ao estádio. Estou certo que jamais se esquecerá da primeira vez que entrar no estádio: as cores, os cânticos, a partilha, tudo isso será inesquecível. Recordo o primeiro jogo da minha filha mais velha, em que 3 degraus de bancada à nossa frente se abriram com um pedido expresso de um senhor que dizia "deixem a menina ver o penalty". Ela ainda se lembra disso. Inesquecível! O futebol também tem isso, a cumplicidade pai-filho, coisas que nos unam, que nos permitam ir reforçando a nossa influência no dia-a-dia de filhos que estão sujeitos a um meio envolvente que encerra perigos vários. Até pelo passado recente no clube, seria precioso haver uma política que fomentasse mais familias nos estádio. Eu gostaria que se percebesse isto.
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    Anónimo 20.06.2019

    Boa parte do meu postal deve ter mergulhado na profundidade das ondas da internet.

    Quanto a renovacao a ver vamos. Sobre isso decerto nao se deixa de ser sportinguista por ter ou não ter gamebox , ainda sou do tempo dos 'transístores' . Quem pode, pode quem não pode arreia (já faz parte das minhas ponderaçoes anuais, arrear ou não a gamebox) .
    Temos um departamento de marketing que não sai barato. A competencia não se pode exigir só aos jogadores.
    Se não houver quorum nas tenovaçoes encontrará outra solução, com a obvia saida dos responsaveis.

    Comigo ou sem mim desejo que seja um sucesso.

    Concordo consigo sobre a necessidade de atrair jovens, por exemplo nos jogos fora fazer convites a um numero de jovens da regiao para assistir. Os seus bilhetes turisticos para estadio e pavilhao.
    Marketing não é só relacionar-se com 'trutas' , beberetes e pendurar balões.
    Pensem cabecinhas pensadoras, pensem.

    Allfacinha



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    Luís Barros 20.06.2019

    Departamento de marketing?
    Dúvido caro Alfacinha. Se em tempos criticou-se a anterior direção pela incoerência da comunicação e de muitas atitudes, está direção parece que ao fim de meia dúzia de meses segue por caminhos semelhantes.
    Esta alteração de preços sem uma informação conveniente será o primeiro prego do caixão. Só uma cambada de cretinos é que aumenta os preços quando se devia de ter uma política de angariação e sustentabilidade de sócios e adeptos depois da hecatombe do ano passado. Há velhos ditados do saber popular que deveriam ainda hoje de servir de bíblia a muitas opções e "grão a grão enche a galinha o papo" deveria de servir de orientação para o que a direção deveria de ter optado na política de preços. O menos seria mais. Mais barato significaria mais gente, logo, maior rendimento. Parece mesmo que a história negativa do Sporting dos últimos 30 anos não serviu de lição. Será que essas cabecinhas não se lembram do que aconteceu com a entrada de Santana Lopes para presidente? Será que voltamos ao roquetismo e queremos afastar a "gentinha" do Clube?
    Não sou saudosista nem quero voltar 5 anos atrás, mas esta política da atual direção é errada e vai ressuscitar alguém que já se pensava enterrado.

    Saudações Leoninas
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