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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

25
Mar20

Viver para reconstruir


Pedro Azevedo

Numa hora destas, em que mais do que o tempo estar parado é a nossa forma de viver que está suspensa, é-me difícil falar de futebol. Vivemos um momento singular onde nos é pedido para sobreviver. Não para desfrutar da vida como Deus a terá imaginado para nós, mas tão só sobreviver. Eu sei, acreditem, assim à partida parece pouco. Não foi essa a vida que escolhi para mim. Nunca me imaginei como um sobrevivente, como alguém capaz de trocar a liberdade de pensamento e de actuação por concessões várias que tantas vezes fazem o Homem perder-se no seu caminho. Mas aqui falamos de outro tipo de sobrevivência, é a nossa comunidade que está em risco. Este pedido que agora nos fazem é justo e vai ao encontro do ideal que persigo de sociedade: uma onde existe um sentido colectivo da vida e uma preocupação com o nosso semelhante e tudo o que nos rodeia. 

 

Tantas e tantas vezes no passado o Homem se isolou dos demais, egoísticamente, de forma interesseira, individualista e egocêntrica. Quis agora o destino que esse isolamento se exprimisse altruisticamente. Eu estou em crer que teremos sucesso nessa tarefa. A confirmar-se, tal como espero, pensem então no que poderíamos fazer enquanto seres humanos se o nosso altruismo se pudesse manifestar sem distanciamento social, todos juntos e com respeito mútuo trabalhando em prol de um projecto comum, de um amor compartilhado. Sem exibicionismos, sem umbiguismos, sem bons nem maus da fita, apenas partilhando o melhor da natureza humana que existe em cada um de nós. Gostaria que fechassem os olhos por um momento e imaginassem um Sporting assim...

 

Um dia, após a tempestade, virá a bonança. Com ela, uma nova era. A reconstrução começará em nós próprios, naquilo que necessitamos mudar para podermos fazer a diferença. Deus não nos pôs no mundo para sermos mais um, e cada um deve saber extrair de si o melhor do seu potencial e entregá-lo à comunidade. Fazer a diferença! O Sporting em que eu acredito também é isso, aquele clube que em pequenino me entrou pelos ouvidos numa onda média da rádio até que uma primeira visita ao estádio transformou a onda num tsunami de emoções que foi crescendo, crescendo, sem parar. Um dia eu quero voltar a ver toda a gente feliz no nosso estádio. Quero de volta o sentimento de partilha. Entre amigos e entre desconhecidos. Desejo que as memórias que cada um tem do clube voltem a ser um património comum. E que isso seja vivido, celebrado, com a alma que marca a nossa identidade, a nossa "leoninidade". 

 

Não há instituições sem homens que as sirvam. Portugal, enquanto nação, necessita do nosso civismo e do nosso sentido de responsabilidade neste momento. Como dizia António Quadros, apropriadamente citado pelo nosso Leitor Miguel Correia, Portugal está no mais fundo de nós, e sem ele seremos menos do que somos. Assim também o é com o Sporting. O clube nunca teria atingido o patamar mais alto se não fosse por esta necessidade que o Homem tem de se ligar a algo muito mais grandioso do que ele. Foi essa necessidade exponencial e exponenciada que tornou o Sporting enorme. Por isso, dos escombros do Sporting actual teremos de recuperar a razão das coisas, aquilo que nos liga e, ligando, nos multiplica. Não o que nos divide. Ter uma ideia diferente para o clube nunca poderá ser uma causa de divisão. Pelo contrário, será outra perspectiva, outra visão, algo que acrescentará. 

 

Eu sei, o Sporting, tal como qualquer outra instituição, não pode estar adiado. Mas neste momento é a nossa vida que está adiada, suspensa pelo tempo. A morte saiu à rua, entra-nos pelos telejornais todos os dias. Se isso não nos fizer reflectir sobre o pó que nós somos no Universo, não sei mais aquilo que nos poderá alertar sobre a fragilidade da nossa condição humana. Guardemos por isso o nosso engenho, a nossa inteligência para a tarefa futura de construção e não de destruição. Gerando humanidade e não desumanidade. Apresentando trabalho e não propaganda. Quando se tem uma visão, um sonho e se pensa primeiro no bem-maior colectivo em detrimento do interesse pessoal, não há caminho impossível de trilhar nem obstáculos ou adamastores suficientemente imponentes que nos possam travar. De resto, a única coisa realmente importante a preservar é a vida, a nossa (de todos nós) e a das instituições a que nos ligamos de forma afectiva e/ou profissional. Mantenham-se saudáveis!

 

#estamosjuntos

 

P.S. O meu louvor à anónima comunidade de profissionais de saúde que tem estado na linha da frente da luta contra a covid-19, muitas vezes sem os meios ou a protecção devida que agora parece que felizmente vão chegar. A esses médicos, enfermeiros e auxiliares o meu agradecimento. Vocês são os meus heróis! Também gostaria de agradecer a todos os portugueses que têm sabido interpretar o que está em causa e que com o seu comportamento responsável e cívico vêm ajudando a conter a propagação da doença. 

7 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Luis Antonio S Ferro 26.03.2020

    Depois de ter enviado um primeiro comentário verifiquei que Miguel Cal alegou razões pessoais e profissionais para a sua demissão e que manterá o pelouro das relações internacionais, sem remuneração.
    Sem mais dados não sei o que pensar.
  • Sem imagem de perfil

    Luis Antonio S Ferro 26.03.2020

    Melhor dizendo, 'deixa de receber salário fixo'. Passará a receber salário variável? Em função de quê?
    Além disso, não se terá tratado de uma 'demissão' mas de uma saída por mútuo acordo.
    Se há de facto 'divergências insanáveis' não as conheceremos tão cedo...
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 26.03.2020

    De Paulo Dias

    Caro Luís Ferro,

    Reconhecendo eu, o Lapsos-língua do provérbio, o serem os "últimos" ou os "primeiros" é irrelevante, tal facto é reprovável em si mesmo !
    E já agora não insultei ninguém, antes reprovei uma atitude que me dispenso de qualificar, para não ferir a sua susceptibilidade.
    Mas alerto-o para que, se insistir muito, darei o nome às atitudes e comportamentos deste Senhor Miguel Cal !

    Cumprimentos

    Paulo Dias

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    Anónimo 26.03.2020

    Caro Luís Ferro,

    Para que não fiquem duvidas no seu espírito, o que o Sr. Miguel Cal fez; foi o seguinte:
    - " Apresentou renúncia ao cargo de Administrador da SAD" .
    O que na prática é um pedido de demissão, ( demitiu-se! ) da sua obrigação de solidariedade em relação à restante Administração, e aos actos de gestão, por esta executados!

    Num Português que todos entendamos " Pirou-se, antes que sobre para ele !"

    Por mais voltas, que o Luís dê ao texto, isto é reprovável em termos éticos, e revelador do estado da " Nação" ! ( salvo seja !).

    Cumprimentos

    Paulo Dias

  • Sem imagem de perfil

    Luis Antonio S Ferro 26.03.2020

    Caro Paulo Dias,
    Não conheço pessoalmente o Miguel Cal, não sou portanto seu amigo nem seu advogado. Quanto à sua personalidade, conta para mim o testemunho que o Pedro Azevedo deixou um pouco acima.
    Tão-pouco dei voltas a texto algum: apenas citei informação publicada sobre o assunto e fi-lo para concluir que por essa via pouco ficámos a saber quanto a eventuais divergências, não pondo de parte que elas possam existir.
    Que fique por isso bem claro que o que o Paulo pensa do Miguel Cal é consigo e em nada me afecta pessoalmente, quer o publique, quer não.
    Volto a insistir naquilo que, em tudo isto, me parece verdadeiramente importante para a reflexão que aqui fazemos sobre o Sporting e o seu futuro: se o afastamento de Miguel Cal se deve, de facto, a divergências estratégicas insanáveis, que divergências são essas e, por consequência, em que medida é que a renúncia de Miguel Cal fragiliza a actual Direcção. É isto que me parece mais relevante e é a este nível que eu gostaria que a discussão prosseguisse, caso o moderador a considere merecedora de atenção.
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 26.03.2020

    De Paulo Dias

    Caro Luís Ferro, que fique claro que nada me move de pessoal, contra o Dr. Miguel Cal !
    E estou inteiramente de acordo consigo, esse seria o fundamental da questão, saber das reais razões do abandono do projecto a meio do percurso.
    Agora que, esta atitude revela pouca convicção no projecto e até algum desconhecimento do mesmo, acho sinceramente que sim... revela!

    Mas a minha opinião vale o que vale.... ou seja pouco !

    O que eu como Sportinguista gostaria era que se encontrasse no futuro, uma equipa que tivesse um projecto capaz para o clube, e já agora uma revisão séria dos estatutos, que nos permitiram chegar até esta situação de falência !

    Saúde e um abraço

    Paulo Dias
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